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Prêmio de Audiovisual da Folkcom 2025 reúne olhares sobre trabalho, fé e ancestralidade

10 de ago.
6 min de leitura

Produções realizadas no Rio de Janeiro, no sertão do Piauí e no Pará disputaram o concurso que, nesta edição, homenageou a professora Verônica Dantas de Meneses



Três produções de diferentes regiões do país chegaram à final do Prêmio de Audiovisual da Folkcom 2025. Cidade Ambulante, de Alex Teixeira e Victor Belart, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ); Roda de São Gonçalo do Véi Légua: uma manifestação folk no sertão do Piauí, de Elinalva Souza e Clebson Lustosa, do Instituto Federal do Ceará (IFCE); e Entre Rituais e Benzimentos: a espiritualidade viva nos conhecimentos ancestrais, inscrito por Victoria dos Santos Rodrigues, da Universidade Federal do Pará (UFPA), compuseram a seleção final.


Os trabalhos concorreram no âmbito da 22ª Conferência Brasileira de Folkcomunicação, realizada em outubro de 2025 sob o tema “Raízes do presente, futuros ancestrais”. Embora partam de territórios e experiências distintas, os três documentários aproximam-se ao transferir o protagonismo da narrativa para pessoas e comunidades que preservam conhecimentos, sustentam celebrações e participam da vida cultural sem receber o mesmo espaço nos meios de comunicação convencionais.


Nesta edição, o concurso recebeu o nome da professora Verônica Dantas de Meneses, falecida em 2021. A homenagem reconhece uma trajetória dedicada à formação de jornalistas, à pesquisa em folkcomunicação e ao incentivo a produções voltadas à cultura popular e à diversidade cultural.


Trabalhadores que fazem o carnaval acontecer

Produzido por Alex Teixeira e Victor Belart, Cidade Ambulante acompanha vendedores durante o carnaval de rua do Rio de Janeiro em 2024. A câmera segue deslocamentos que começam cedo, atravessam municípios da Região Metropolitana e chegam aos blocos, shows e festas nos quais os ambulantes montam seus pontos de venda.


O documentário parte de uma constatação: muito do que tornou o Rio conhecido no mundo está ligado à rua e ao trabalho de pessoas raramente reconhecidas por essa contribuição. Em vez de tratar os vendedores apenas como parte da paisagem, a produção escuta suas estratégias, dificuldades, redes familiares e reivindicações.


Os relatos mostram a importância econômica do carnaval. Para alguns trabalhadores, um único dia de grande movimento pode representar o equivalente à renda obtida durante semanas em outros períodos do ano. É nesse momento que conseguem pagar contas atrasadas, custear a educação dos filhos e reorganizar a vida financeira. O trabalho, porém, não se encerra na Quarta-feira de Cinzas: continua em estádios, casas de shows, festas de bairro e diferentes eventos realizados ao longo do ano.


O filme também evidencia os obstáculos impostos pela regulamentação e pela crescente privatização de espaços públicos. Ambulantes relatam dificuldades com os modelos de credenciamento, limites aos produtos que podem vender, apreensões de mercadorias e eventos fechados organizados em praças das quais eles acabam excluídos.


Ao mesmo tempo, a produção revela uma categoria que domina conhecimentos sobre os circuitos culturais da cidade. Os trabalhadores sabem onde e quando haverá público, estabelecem relações com músicos e produtores, organizam transportes coletivos e compartilham informações sobre oportunidades e riscos. Nesse sentido, aproximam-se da figura do agente folkcomunicacional: circulam entre grupos, interpretam a dinâmica urbana e mantêm redes próprias de comunicação.


Uma das experiências destacadas é a Garagem das Ambulantes, espaço criado por mulheres que transformaram o local usado para guardar carrinhos em um ponto de produção cultural. Ali, promovem rodas de samba, apresentações e outros encontros. A iniciativa inverte posições: quem costuma prestar serviço aos eventos passa também a organizá-los, construindo um espaço próprio de trabalho, convivência e expressão.


Uma roda feita de promessa, memória e comunidade

Em Roda de São Gonçalo do Véi Légua: uma manifestação folk no sertão do Piauí, Elinalva Souza e Clebson Lustosa registram uma tradição praticada no Quilombo Canabrava dos Amaros. A roda articula devoção a São Gonçalo e vínculos com a família espiritual de Légua Boji Buá, revelando encontros entre o catolicismo popular, a Umbanda e saberes transmitidos pelos antepassados.


No vocabulário dos participantes, dançar é “trocar” São Gonçalo. Crianças, jovens, adultos e idosos podem entrar na roda, desde que formem pares e aprendam a sequência dos movimentos. Cada ponto cantado corresponde a uma volta ritual, e as rodas são contadas com giz ou grãos de milho. Uma promessa costuma envolver 12 rodas, mas pode chegar a 24 conforme o compromisso assumido pelo devoto.


Os depoimentos conectam a celebração a experiências de doença, cura, agradecimento e pagamento de promessas. São narrativas em que a fé não aparece de maneira abstrata, mas incorporada no canto, no movimento, na preparação do espaço e na distribuição das tarefas. Familiares e vizinhos são convocados, informações circulam de uma casa para outra e a comunidade mobiliza-se para que o ritual aconteça.


É nesse processo coletivo que o documentário identifica a dimensão folkcomunicacional da manifestação. A comunicação não depende de grandes veículos: ocorre nas conversas, nos convites, na liderança religiosa e nos vínculos que organizam a festa. O rito cria seu próprio circuito de informação e participação.


A memória das perseguições às religiões de matriz africana também atravessa a obra. Participantes recordam uma época em que tambores precisavam ser escondidos, cantos eram entoados em volume baixo e defumações eram controladas para que o cheiro não denunciasse a realização dos encontros. A possibilidade de apresentar atualmente a celebração em outros espaços é narrada como conquista, orgulho e compromisso com os antepassados.


O desafio da continuidade aparece nas falas dos mais velhos, que procuram ensinar pontos, movimentos e responsabilidades às novas gerações. “É uma coisa que não é minha, é nossa”, afirma uma das participantes. Preservar a roda significa reconhecer que a tradição pertence à comunidade e precisa ser transmitida para continuar viva.


Benzimentos e conhecimentos ancestrais na Amazônia

O terceiro finalista, Entre Rituais e Benzimentos: a espiritualidade viva nos conhecimentos ancestrais, percorre quatro localidades paraenses: Belém, Ananindeua, Baião e Boa Vista do Acará. Inscrito por Victoria dos Santos Rodrigues, o documentário foi produzido por estudantes de Jornalismo da UFPA e reúne histórias de pessoas que trabalham com benzimentos, ervas, banhos de cheiro, defumações e outras práticas de cuidado.


O curta apresenta conhecimentos transmitidos por conversas, observação e convivência. Os entrevistados explicam como realizam benzimentos, escolhem plantas e adaptam procedimentos às necessidades de quem procura ajuda. Terreiros, casas, mercados, rios e florestas aparecem como territórios de aprendizagem, nos quais o saber não está separado da experiência cotidiana nem da relação com o ambiente.


Ao acompanhar diferentes personagens, a produção mostra a diversidade existente sob o nome de benzimento. Há práticas que mobilizam terços cristãos, ervas, cristais, defumações e objetos ligados a distintas tradições religiosas. Também aparecem banhos de cheiro preparados com plantas comercializadas em Belém e trazidas de áreas do interior do estado.


O documentário aborda esses atos como expressões de fé, acolhimento e ajuda mútua. Sem reduzir as práticas a uma curiosidade exótica, permite que seus detentores expliquem os próprios conhecimentos e as relações que estabelecem entre corpo, espiritualidade e natureza. A floresta, o rio e a casa são apresentados como lugares onde se ensina e se aprende.


A dimensão ambiental amplia a discussão. Os depoimentos defendem uma relação de respeito com plantas, animais, águas e minerais, compreendidos como partes de uma casa comum. Dessa maneira, os benzimentos são inseridos em uma visão de mundo que aproxima cuidado, ancestralidade e responsabilidade com o território amazônico.


A obra foi realizada coletivamente por César Vieira, Victoria Rodrigues, Francy Ramos, Giovana Rodrigues e Elizabete de Jesus, com orientação da professora Jússia Carvalho Ventura. Ao reunir vozes de diferentes regiões do Pará, o documentário transforma o audiovisual em instrumento de registro e circulação de saberes que permanecem vivos justamente porque continuam sendo praticados e compartilhados.


Um prêmio em memória de Verônica Dantas de Meneses

O nome escolhido para o prêmio aproxima as três produções da trajetória da professora Verônica Dantas de Meneses. Jornalista, mestre em Sociologia e doutora em Comunicação, ela atuou no curso de Jornalismo da Universidade Federal do Tocantins (UFT) desde 2003 e participou da formação de diversas gerações de profissionais.


Verônica também coordenou o Mestrado Acadêmico em Comunicação e Sociedade e o Núcleo de Pesquisa e Extensão Comunicação, Imagem e Diversidade Cultural. Suas investigações contemplaram folkcomunicação, mídia regional, comunicação comunitária e comunicação e meio ambiente. Entre suas obras está O Brasil e os brasis na televisão regional aberta, estudo sobre a presença de manifestações culturais e repertórios locais na programação televisiva.


Após sua morte, o complexo de laboratórios do curso de Jornalismo da UFT passou a levar seu nome. A homenagem realizada pela Folkcom 2025 prolonga essa memória ao associá-la a trabalhos audiovisuais que reconhecem a diversidade cultural brasileira e ampliam a visibilidade de grupos populares.


Essa afinidade aparece com nitidez nos três finalistas. Cidade Ambulante coloca a câmera diante de trabalhadores fundamentais para a cultura de rua carioca; Roda de São Gonçalo do Véi Légua documenta uma prática religiosa e comunitária marcada pela resistência; e Entre Rituais e Benzimentos registra conhecimentos amazônicos transmitidos entre gerações.


Mais do que representar manifestações populares, as obras constroem suas narrativas com as vozes de quem vive essas experiências. O audiovisual torna-se, assim, espaço de escuta, memória e circulação. Ao projetar essas histórias para novos públicos, os finalistas reafirmam uma das contribuições centrais da folkcomunicação: reconhecer que grupos populares não são apenas personagens observados pela mídia, mas produtores de mensagens, conhecimentos e interpretações sobre o próprio mundo.

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