“Da porta do curral para dentro é outro tempo”: mesa interpreta Carnaval e Boi-Bumbá como territórios de resistência
Na III Jornada Pan-Amazônica de Folkcomunicação, Helena Theodoro, Allan Rodrigues e Adelson Fernando mostraram como ancestralidade, memória e códigos populares transformam a festa em linguagem política e produção de futuros.
Um punhado de areia foi o ponto de partida para compreender a profundidade de duas das maiores manifestações da cultura popular brasileira.
Durante uma visita à Ilha do Mussulo, em Angola, a professora Helena Theodoro chegou diante de um soba — autoridade tradicional da comunidade — com perguntas preparadas e a urgência de quem desejava conhecer aquele território. Antes de responder, ele recomendou: “Calma, deixa o tempo entrar”.
Em seguida, o soba pediu que Helena observasse a areia. No primeiro momento, ela enxergou apenas o que estava na superfície. Com o olhar mais atento, entretanto, começou a perceber pequenos fragmentos que contavam histórias sobre o mar, os seres vivos, as pessoas e o próprio território.
A experiência, associada por Helena ao ensinamento de Mestre Didi de que “é cego aquele que só vê o que vê”, tornou-se uma chave para interpretar o Carnaval e o Boi-Bumbá de Parintins. Por trás das alegorias, fantasias, toadas, batuques e coreografias, existem memórias coletivas, disputas por reconhecimento e formas populares de explicar o mundo.
Essa perspectiva conduziu a mesa “Carnaval e Boi-Bumbá: resistência e festas populares”, realizada em 22 de junho de 2022, no auditório do Instituto de Ciências Sociais, Educação e Zootecnia da Universidade Federal do Amazonas (ICSEZ/UFAM), em Parintins.
A atividade integrou a programação da III Jornada Pan-Amazônica de Folkcomunicação e do V Encontro de Comunicação de Parintins, eventos realizados entre 20 e 22 de junho de 2022 para reunir pesquisadores, estudantes, jornalistas, artistas e representantes de comunidades populares. A programação oficial reservou a manhã do terceiro dia para o debate sobre o Carnaval e o Boi-Bumbá como manifestações de resistência.
Participaram da mesa a professora Helena Theodoro, pesquisadora da história e da cultura afro-brasileira; o professor Allan Soljenítsin Barreto Rodrigues, da Faculdade de Informação e Comunicação da UFAM; e o professor Adelson da Costa Fernando, do ICSEZ/UFAM e integrante da Rede Folkcomunicação. A mediação foi realizada pela jornalista e professora Edilene Mafra.
Antes do espetáculo, existe um território
Helena Theodoro iniciou sua participação defendendo que todo professor brasileiro deveria conhecer o Festival Folclórico de Parintins. Para ela, a experiência permite estabelecer aproximações entre as africanidades presentes na formação brasileira e as histórias dos povos originários que habitavam o território muito antes da chegada dos colonizadores europeus.
Sua reflexão foi construída em torno de conceitos como territorialidade, ancestralidade, tempo e memória corporal.
Na lógica moderna e capitalista, explicou a pesquisadora, o tempo costuma ser medido pela produtividade. É o tempo do relógio, dos compromissos e da ideia de que “tempo é dinheiro”. Nas culturas tradicionais, entretanto, o tempo pode ser compreendido de maneira circular: as pessoas do passado ajudam a explicar quem somos no presente e orientam a preparação daqueles que virão depois.
Essa mudança de percepção acontece quando alguém entra em um território simbolicamente constituído.
Ao falar dos terreiros de religiões de matriz africana, Helena observou que, “da porteira para dentro”, as relações com o tempo, o corpo, a espiritualidade e a comunidade são transformadas. No Boi-Bumbá, algo semelhante acontece.
“Da porta do curral para dentro é outro tempo”, afirmou.
O curral não é somente um espaço para os ensaios. É o lugar em que amizades são construídas, conhecimentos são transmitidos, antigas histórias são retomadas e sentimentos coletivos são renovados. O mesmo pode ser observado nas quadras das escolas de samba, nos barracões, nos terreiros, nas sedes das agremiações e nas ruas ocupadas pelas manifestações populares.
Tambores, maracás, cocares, pinturas corporais, sambas e toadas também não funcionam apenas como recursos estéticos. Eles despertam memórias inscritas no corpo, transmitidas entre gerações e frequentemente silenciadas nas narrativas oficiais.
Catirina e o direito de ter uma língua
Ao interpretar o auto tradicional do boi, Helena Theodoro propôs uma leitura especialmente significativa para a personagem Catirina.
Na narrativa, Catirina deseja comer a língua do boi mais bonito da fazenda. Pai Francisco atende ao pedido da mulher e mata o animal, desencadeando a perseguição, a intervenção das forças espirituais e a posterior ressurreição do boi.
Para Helena, o desejo de Catirina pode ser compreendido para além da dimensão alimentar ou cômica. Querer a língua do boi significa reivindicar uma linguagem: o direito à palavra, à expressão e ao reconhecimento.
Nessa interpretação, Catirina deixa de ser apenas a responsável pela confusão que movimenta a história. Ela se torna uma mulher que manifesta um desejo e exige ser ouvida. Pai Francisco, por sua vez, escuta sua companheira e decide agir. O pajé conhece a energia necessária para restabelecer a vida.
A ressurreição do boi representa, assim, a permanência de povos que sobreviveram à violência, ao racismo e às tentativas de apagamento.
“Mesmo que nos coloquem a mordaça, que cortem a nossa língua, não tiram a nossa alma, a nossa história e a nossa memória”, declarou Helena.
Quando o tambor volta a tocar e o boi se levanta, as memórias coletivas também são despertadas. A festa comunica que grupos historicamente marginalizados continuam vivos, produzindo cultura e contando suas próprias histórias.
A pesquisadora também destacou o papel dos mais velhos nesses processos. Em vez de enxergá-los apenas como pessoas que já viveram muito, Helena os definiu como “jovens há mais tempo”: guardiões de experiências que ajudam as novas gerações a compreender o presente sem romper os vínculos com o passado.
A arena como uma defesa de tese
O professor Allan Rodrigues levou ao debate uma pesquisa realizada com Adelson Fernando sobre o tema “Auto da Resistência Cultural”, apresentado pelo Boi Garantido em 2018.
O estudo analisou documentos, materiais de divulgação, projetos artísticos, apresentações e toadas para compreender de que maneira o discurso da resistência foi transformado em espetáculo na arena do Bumbódromo.
Ao recuperar a trajetória do Garantido, Allan lembrou que a resistência já estava presente nas origens do boi. Sua história está relacionada à Baixa do São José, à presença de famílias nordestinas que chegaram à Amazônia durante os ciclos da borracha, à figura de Lindolfo Monteverde e à promessa feita a São João.
Mais do que criar uma brincadeira, aquela comunidade buscava afirmar sua presença na cidade.
A mensagem, segundo o pesquisador, era direta: “Nós existimos, estamos aqui”.
Em 2018, o Garantido procurou deslocar o debate ambiental de uma representação genérica da floresta para as lutas concretas dos povos responsáveis pela defesa dos territórios amazônicos. O projeto foi organizado como uma narrativa distribuída pelas três noites do festival.
Na primeira noite, o espetáculo abordou identidade e resistência, afirmando o direito de cada pessoa ser reconhecida como indígena, negra, cabocla, mulher ou integrante da população LGBTQIA+.
A segunda noite tratou da diversidade e da necessidade de conviver com as diferenças, enfrentando problemas como a intolerância religiosa.
Na terceira, o eixo foi a consciência e a busca de uma sociedade orientada pela justiça, pela paz e pelo respeito às diferentes formas de existência.
“É uma defesa de tese em três atos, com muita festa, muita dança e muita alegria”, resumiu Allan.
A comparação ajuda a compreender que a arena não apresenta apenas uma sucessão de itens avaliados pelos jurados. Existe um argumento sendo construído por meio de sons, imagens, corpos, alegorias, narrativas indígenas e personagens populares.
No ano seguinte, o tema “Nós, o Povo” deu continuidade a esse percurso, articulando luta, alegria, liberdade e esperança. Para Allan, essas celebrações não podem ser reduzidas ao entretenimento.
“As festas populares não são festas pela festa. São ensaios de um mundo que não é, mas que pode ser”, afirmou.
Posicionamento político não é propaganda partidária
A discussão também enfrentou uma questão recorrente: a presença de discursos políticos dentro das manifestações populares.
Allan diferenciou o posicionamento político da propaganda partidária. Defender os povos indígenas, a liberdade religiosa, o direito à expressão, a Amazônia e o Estado Democrático de Direito não significa apoiar automaticamente determinado partido.
Significa reconhecer que toda manifestação cultural está inserida em uma sociedade marcada por conflitos, desigualdades e disputas de poder.
O festival, portanto, não pode se omitir diante dos problemas que afetam as comunidades representadas em sua própria arena. Ao mesmo tempo, os artistas enfrentam o desafio de construir narrativas contemporâneas dentro de um regulamento que exige a apresentação dos mesmos itens tradicionais.
A criação artística acontece justamente nessa tensão entre permanência e mudança: preservar os elementos que identificam a festa sem impedir que ela dialogue com as urgências do presente.
A festa como dispositivo folkcomunicacional
Adelson Fernando aproximou essas experiências do campo teórico da folkcomunicação.
Segundo o pesquisador, a comunicação popular possui uma relação direta com comunidades específicas, suas linguagens e seus códigos simbólicos. Diferentemente de uma comunicação de massa dirigida a públicos amplos e heterogêneos, a comunicação folk trabalha com referências reconhecidas por aqueles que compartilham determinado território cultural.
Adelson citou pesquisas sobre o terreiro de Mãe Pena, em Parintins, para demonstrar como lideranças comunitárias atuam como comunicadoras populares. Por meio de práticas religiosas, encontros, rituais e intervenções em diferentes espaços sociais, essas lideranças constroem formas internas e externas de resistência.
Nessa perspectiva, os grupos classificados historicamente como marginalizados ou subalternizados não devem ser compreendidos como sujeitos passivos. Eles produzem narrativas, reinterpretam mensagens da indústria cultural e constroem respostas a partir de seus próprios valores.
O Festival de Parintins pode ser entendido, portanto, como um grande dispositivo folkcomunicacional. Nele, a comunidade cria mensagens por meio de toadas, personagens, rituais, alegorias, indumentárias, coreografias e formas de ocupação do espaço.
“Parintins é um território folkcomunicacional rico, complexo, denso e intenso”, definiu Adelson.
O apresentador na arena realiza as conexões entre os diferentes momentos da narrativa. Na transmissão televisiva, outro profissional procura traduzir parte desses códigos para um público mais amplo. Ainda assim, determinadas mensagens somente podem ser plenamente compreendidas por quem compartilha a experiência cultural da comunidade.
Quando a ofensa se transforma em identidade
Um dos exemplos apresentados por Adelson foi a palavra “perreché”.
Empregada inicialmente de maneira pejorativa para inferiorizar moradores da Baixa do São José e torcedores do Garantido, a expressão foi apropriada pela própria comunidade. O termo que pretendia identificar pessoas pobres e socialmente desvalorizadas passou a representar orgulho, pertencimento e força coletiva.
O significado de “perreché” não está apenas nos dicionários ou nas letras das toadas. Ele aparece na Alvorada, nas festas de rua, nos encontros da comunidade e na maneira como os torcedores afirmam sua ligação com a Baixa do São José.
Trata-se de um movimento característico das narrativas contra-hegemônicas: a comunidade recebe uma classificação construída de fora, contesta seu sentido e a transforma em signo de identidade.
As mulheres sustentam a festa, mas ainda disputam visibilidade
A participação das mulheres nos processos criativos dos bois também apareceu no debate.
Uma pesquisadora presente chamou a atenção para a pequena presença feminina nos espaços mais visíveis de decisão artística. Embora mulheres organizem atividades, produzam indumentárias, mobilizem comunidades e liderem diferentes etapas do espetáculo, esse trabalho nem sempre se transforma em reconhecimento público ou participação nas instâncias de direção.
Allan concordou que existe um problema de visibilidade. Recordou a força de mulheres que historicamente atuaram no Garantido e reconheceu a necessidade de ampliar sua presença nos espaços responsáveis pela concepção do espetáculo.
Helena demonstrou que a contradição também está presente no Carnaval. As mulheres foram decisivas para a preservação e a criação de manifestações afro-brasileiras, das baianas e ganhadeiras à atuação de Tia Ciata na formação do samba carioca. Apesar disso, continuam sendo minoria na presidência das escolas e na elaboração dos enredos.
“Quem motiva toda a história do boi é uma mulher, que é a Catirina”, lembrou Helena.
A observação devolveu o debate ao centro da narrativa: a mulher que deseja uma língua movimenta toda a história, mas as mulheres reais ainda precisam lutar para que suas vozes sejam ouvidas nas estruturas das festas.
Um olhar mais atento para aquilo que a festa comunica
Na rodada final de comentários, a professora Cristina Schmidt destacou o encontro entre o tempo extraordinário da festa e o tempo ordinário da vida cotidiana.
É durante esse tempo extraordinário que a ancestralidade reaparece, permitindo que os grupos compreendam quem são, identifiquem as opressões do presente e formulem ações para o futuro.
As festas populares podem, desse modo, atuar como movimentos políticos. Elas tornam necessidades coletivas visíveis, formam grupos de pressão, disputam espaço na mídia e colaboram para o agendamento de políticas públicas.
Essa leitura ajuda a entender a importância da III Jornada Pan-Amazônica de Folkcomunicação. Conforme informou a Universidade Federal do Amazonas, o evento foi criado como espaço de intercâmbio entre pesquisadores, estudantes, profissionais e comunidades interessadas nas transformações da cultura e dos processos comunicacionais presentes nas manifestações populares.
Ao final da transmissão, um dos participantes resumiu o efeito do encontro: depois daquele debate, assistiria ao Festival de Parintins com uma visão diferente e um olhar mais atento.
Talvez seja justamente essa a principal contribuição da folkcomunicação.
Diante do Carnaval ou do Boi-Bumbá, ela nos convida a fazer o mesmo exercício proposto pelo soba a Helena Theodoro diante de um punhado de areia: desacelerar, permitir que o tempo entre e procurar as histórias que não aparecem no primeiro olhar.
Porque, atrás de cada tambor, fantasia, toada, alegoria ou palavra transformada em identidade, existe uma comunidade afirmando que permanece viva — e ensaiando, em plena festa, o mundo que ainda deseja construir.




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