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Da música andina aos grafitos de sanitário, a segunda RIF amplia o mapa da Folkcomunicação

Publicada no segundo semestre de 2003, a edição reuniu oito artigos e quatro resenhas sobre tradição, mídia, religiosidade, literatura, fronteiras culturais e formas populares de expressão


Do rádio cultural colombiano às inscrições anônimas encontradas nos banheiros de uma universidade. Da devoção em uma basílica do Recife à mistura de caipiras e countries em uma exposição agropecuária de Brasília. Em sua segunda edição, publicada entre julho e dezembro de 2003, a Revista Internacional de Folkcomunicação demonstrou que o campo inaugurado por Luiz Beltrão comportava objetos, territórios e métodos muito diversos.


Se a primeira RIF apresentou as bases de um projeto editorial dedicado à Folkcomunicação, a segunda mostrou a elasticidade desse projeto. Em suas 103 páginas, a revista reuniu oito artigos e quatro resenhas, articulando pesquisas sobre música, imprensa, religiosidade, festas, grafitos, indústria cultural e manifestações situadas nas fronteiras entre o popular e o massivo.


O conjunto também registra um momento de expansão intelectual do campo. A Folkcomunicação aparece menos como um repertório fechado de objetos e mais como uma perspectiva capaz de observar os processos pelos quais grupos, comunidades e sujeitos reelaboram mensagens, preservam memórias, negociam identidades e tornam públicas suas experiências.


Tradição não significa imobilidade

A edição começa fora do Brasil. Em “Ni olvidar el pasado ni quedarnos allá: Folkcomunicación en la aldea global — la difusión radiofónica de la música tradicional colombiana de la región andina”, Esmeralda Uribe examina as transformações da música tradicional da região andina colombiana.


O título sintetiza o dilema enfrentado pela autora: não esquecer o passado, mas também não permanecer preso a ele. Novos temas, instrumentos, arranjos e tecnologias de produção alteravam a música tradicional e provocavam diferentes reações. Para alguns agentes, essas mudanças representavam uma ameaça à identidade cultural; para outros, eram necessárias para garantir a continuidade e a circulação das manifestações musicais.


Uribe identifica no rádio cultural um espaço estratégico de mediação. Mais do que simplesmente conservar repertórios, a radiodifusão poderia aproximar tradição e contemporaneidade, promover encontros entre gerações e oferecer condições para que a música popular continuasse viva. Preservar, nessa perspectiva, não seria congelar a cultura, mas permitir que ela se transformasse sem perder seus vínculos históricos.


A questão reaparece, sob outro ângulo, no artigo “A indústria cultural e a folkmídia”, de Maria Isabel de Souza. A autora discute o movimento pelo qual a indústria cultural se apropria de elementos das culturas populares, projeta-os nos meios de comunicação de massa e os devolve ao público como produtos reconfigurados.


O texto evidencia uma preocupação que se tornaria recorrente nos estudos de Folkcomunicação: o que acontece quando símbolos, narrativas e celebrações populares atravessam os sistemas industriais de produção e circulação? Em vez de uma relação linear, o artigo sugere um processo de apropriações e recomposições no qual as fronteiras entre cultura popular, mídia e mercado tornam-se cada vez mais móveis.


Lidos em conjunto, os trabalhos de Uribe e Souza colocam a segunda edição da RIF diante de uma questão decisiva: como reconhecer as transformações das manifestações populares sem confundir mudança com desaparecimento — e sem ignorar as assimetrias presentes na atuação das indústrias culturais?


O país observado a partir de suas margens

A diversidade de objetos torna-se ainda mais evidente em “A imprensa do povo na ficção brasileira: cenários e personagens”, de Antonio Hohlfeldt. O pesquisador investiga a presença do jornalista popular e das formas de imprensa do povo na literatura brasileira.


Partindo da relação historicamente produtiva entre literatura e jornalismo, Hohlfeldt observa uma ausência surpreendente: embora jornais, jornalistas e redações apareçam com frequência na ficção nacional, o comunicador popular não recebe a mesma atenção. O artigo propõe, assim, um retorno às obras literárias em busca de cenários e personagens que permitam compreender como a comunicação produzida nas margens foi representada — ou silenciada — pela literatura.


A margem, entretanto, não é somente social ou literária. Ela também pode ser material, clandestina e cotidiana. É o que demonstra Tamara Brandão em “Folkcomunicação da latrina: estudo dos grafitos de sanitário da Unesp-Bauru”.


Realizada em 2001, a pesquisa adota procedimentos descritivos e quantitativos para examinar inscrições encontradas em sanitários universitários. Os grafitos são classificados de acordo com seus temas e recursos de linguagem, mas o trabalho procura ir além do inventário. Interessa compreender quem é esse comunicador protegido pelo anonimato e que opiniões encontra liberdade para registrar naquele espaço.


O sanitário surge como um canal informal de comunicação, distante das instâncias oficiais da universidade, no qual aparecem conflitos, desejos, insultos, posicionamentos políticos e comentários sobre a própria vida acadêmica. Inspirado nas investigações de Luiz Beltrão sobre agentes e meios populares, o artigo pergunta se os grafitos continuavam exercendo a função de expressar opiniões culturalmente marginalizadas.


A escolha do objeto é reveladora. Ao levar os escritos de banheiro para uma revista científica, a RIF não apenas ampliava seu repertório temático. Também reafirmava uma atitude epistemológica: mensagens aparentemente banais, efêmeras ou indesejadas podem revelar disputas de poder, identidades e formas de participação que os canais oficiais não conseguem registrar.


Caipiras, countries e culturas de fronteira


A exposição é apresentada como um ambiente híbrido. De um lado, estão referências ao universo caipira e sertanejo brasileiro; de outro, símbolos associados à cultura country norte-americana. Música, vestuário, entretenimento, comércio e representações do trabalho rural se encontram em um evento realizado no espaço urbano da capital federal.


O resultado não é apenas a substituição de uma tradição por outra. Pimenta identifica a formação de uma cultura emergente, produzida pelo encontro entre referências rurais e urbanas, nacionais e estrangeiras, tradicionais e modernas. A feira agropecuária torna-se um processo comunicacional no qual os participantes negociam pertencimentos e atualizam imagens do campo.


A atenção às misturas culturais também aparece em “Tendências regionais em Folkcomunicação: o caso de Mato Grosso do Sul”, de Marlei Sigrist. A autora desenvolve uma pesquisa exploratória sobre as agendas de jornais, emissoras de televisão, rádios e estúdios de gravação de Campo Grande.


A localização de Mato Grosso do Sul, especialmente sua proximidade com o Paraguai, constitui uma dimensão central do estudo. A região é marcada por fluxos culturais que não obedecem inteiramente às fronteiras nacionais. Repertórios musicais, hábitos, linguagens e formas de produção midiática circulam entre diferentes comunidades e passam a compor uma identidade regional própria.


Ao investigar o que os meios locais selecionavam, produziam e difundiam, Sigrist procurava identificar tendências regionais da Folkcomunicação. O artigo reforça a necessidade de observar a comunicação a partir dos territórios, reconhecendo que as culturas populares assumem configurações distintas conforme suas histórias, redes de circulação e experiências fronteiriças.


Entre a catequese institucional e os santos escolhidos pelo povo

A religiosidade ocupa outro núcleo importante da edição. Em “Luiz Beltrão e Gilberto Freyre: paralelos no estudo da Folkcomunicação e religiosidade na catequese jesuítica no Brasil colonial”, Antônio Teixeira de Barros aproxima as contribuições dos dois intelectuais para interpretar os processos culturais brasileiros.


O artigo examina estratégias de comunicação utilizadas pelos jesuítas durante a catequese colonial. Linguagem oral e escrita, música, dança e teatro aparecem como recursos mobilizados para transmitir valores religiosos e estabelecer relações com as populações indígenas.


O paralelo entre Beltrão e Freyre permite discutir tanto a dimensão comunicacional dessas práticas quanto os processos de adaptação, negociação e conflito envolvidos na catequese. O texto demonstra que a circulação religiosa nunca dependeu somente da doutrina formal: ela precisou incorporar linguagens, performances e formas de expressão reconhecíveis pelos grupos aos quais se dirigia. Já “Da religiosidade canônica à popular: a Basílica da Penha do Recife — Pernambuco”, de Lúcia Noya Galvão e Salomé Ratis, desloca a observação para as práticas dos próprios fiéis.


As autoras acompanharam, em novembro de 2001, as devoções presentes na Basílica da Penha. O estudo compara as homenagens dirigidas a Santo Urbano, canonizado pela Igreja Católica; a Dom Vital, então em processo de canonização; e a Rita Ramalho, “beata” reconhecida principalmente pela devoção popular.


O contraste é significativo. Enquanto Dom Vital recebia manifestações mais discretas, o túmulo de Rita Ramalho era visitado por numerosos fiéis, que repetiam semanalmente suas homenagens, faziam pedidos e agradeciam graças alcançadas. A intensidade da devoção popular leva as pesquisadoras a formular uma pergunta provocadora: seria como se o povo afirmasse o direito de escolher seus próprios santos, independentemente dos movimentos institucionais de canonização?


O artigo revela que a religiosidade não é simplesmente transmitida de cima para baixo. Ela também é construída por narrativas orais, experiências individuais, promessas, objetos, gestos e redes de testemunhos. Entre a norma e a prática, os devotos produzem seus próprios critérios de legitimidade.


Resenhar livros também era construir o campo

As quatro resenhas da edição documentam a formação de uma bibliografia e de um repertório de objetos para a Folkcomunicação.

Em “Folkcomunicação: um estudo dos agentes e dos meios populares de informação de fatos e expressão de ideias”, Maria Isabel de Souza analisa a edição em livro da tese de doutorado de Luiz Beltrão, publicada em 2001 pela EDIPUCRS e pela Famecos.


Organizado por Antonio Hohlfeldt e Juremir Machado da Silva, o volume tornou mais acessível um trabalho fundamental para a compreensão dos agentes populares, dos grupos marginalizados e dos processos de formação da opinião. A presença da obra na segunda RIF evidencia o esforço da revista para recuperar e colocar novamente em circulação os fundamentos teóricos do campo.


Rosangela Marçolla apresenta “Os Bonecos do Elias: elementos folkmidiáticos às margens do rio de Piracicaba”, a respeito do estudo de Maurício Tadeu Bueloni. A obra examina a participação dos Bonecos do Elias na publicidade e na propaganda institucional de Piracicaba, oferecendo um exemplo da apropriação de personagens populares pela comunicação pública.


Em “O entretenimento popular muito além das lonas”, Daniel Galindo comenta o livro Marketing de circo, de Marlene Querubim. A resenha destaca as relações entre gestão, criatividade, mercado e entretenimento popular, mostrando que o circo pode ser estudado simultaneamente como manifestação cultural, empreendimento e sistema de comunicação com seus públicos.


Completa o conjunto “São Severino dos Ramos: um santuário popular e folkturístico”, de Severino Alves de Lucena Filho. O texto volta-se para as peregrinações, os ex-votos e as formas de comunicação produzidas em torno do santuário. Fotografias, cartas, objetos pessoais, peças de vestuário, reproduções de partes do corpo e outros testemunhos de graças alcançadas funcionam como mensagens públicas de agradecimento e como narrativas sobre o poder milagroso atribuído ao santo.


As resenhas não eram, portanto, um apêndice da edição. Elas ajudavam a organizar referências, reconhecer novos objetos de pesquisa e constituir uma memória bibliográfica para uma comunidade científica ainda em processo de articulação.


Uma revista aberta aos sinais do cotidiano

Vista mais de duas décadas depois, a segunda edição da RIF conserva a força de uma publicação disposta a encontrar comunicação onde os olhares convencionais poderiam perceber apenas ruído, costume ou curiosidade.


A música tradicional transformada pelo rádio, os grafitos anônimos, a imprensa popular representada na ficção, a feira agropecuária, os meios de uma região fronteiriça, as estratégias jesuíticas, os santos escolhidos pelos devotos e os objetos deixados em um santuário pertencem a contextos muito diferentes. O que os aproxima é a atenção aos modos pelos quais as pessoas constroem sentidos e fazem circular suas experiências.

A edição também evidencia que institucionalizar a Folkcomunicação não significava restringi-la. Ao contrário, a consolidação do campo dependia da capacidade de reconhecer diferentes agentes, suportes e territórios — inclusive aqueles situados fora dos circuitos consagrados da mídia e da cultura acadêmica.


Entre a memória e a mudança, a tradição e o mercado, a instituição e a experiência popular, a RIF encontrava seu espaço editorial. A segunda edição confirmava que esse espaço seria necessariamente plural.


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