Da feira ao Bumbódromo, GT Beta debate circulação, memória e ativismo na cultura popular
- Andriolli Costa
- há 1 dia
- 11 min de leitura
Na programação da tarde da Folkcom 2025, sete trabalhos acompanharam feirantes, estudantes, funkeiros, artistas indígenas, matriarcas do boi-bumbá e moradores de bairros populares para compreender como diferentes grupos disputam o direito de narrar suas experiências.
Antes de se transformar em pesquisa, a feira foi aprendida entre as louças de barro vendidas por uma mãe. O jornalismo começou quando estudantes atravessaram o São João de Campina Grande com celulares nas mãos. A história do Boi Garantido permaneceu guardada em fotografias, papéis datilografados, rezas e ensinamentos transmitidos pelas mulheres da Baixa da Xanda. Em Málaga, murais de cerâmica converteram as calçadas de um bairro popular em um arquivo construído pelos próprios moradores.
As cenas apresentadas durante a programação vespertina do GT Beta da Folkcom 2025 mostraram a comunicação popular como uma prática feita de deslocamentos. Conhecimentos aprendidos em casa chegam à universidade. Brincadeiras de rua ocupam arenas e plataformas digitais. Festas comunitárias tornam-se conteúdo jornalístico. Memórias orais ganham registros audiovisuais, blogs e rotas de visitação.
O movimento, entretanto, não é neutro. A visibilidade pode fortalecer grupos populares, mas também pode submeter suas manifestações aos formatos do mercado, da indústria cultural e das grandes plataformas. Entre a banca da feira e o perfil no Instagram, o paredão e o camarote, o terreiro e o Bumbódromo, a sessão discutiu não apenas quais tradições permanecem, mas quem consegue narrá-las e participar de suas transformações.
Da louça de barro ao perfil no Instagram
Ermaela Cícera encontrou a primeira professora de Folkcomunicação muito antes de conhecer Luiz Beltrão. Era sua mãe, uma feirante de louças de barro que lhe ensinou como a feira funciona, como as pessoas negociam e como os vínculos se formam entre bancas, produtos, conversas e gestos cotidianos.
A experiência reapareceu no trabalho “Midiatização das Feiras Livres Nordestinas: um olhar sobre os perfis @feiracentraldecampinagrande e @feiradecaruaru”, desenvolvido por Ermaela e Itamar Nobre, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
A pesquisa dá continuidade a um percurso iniciado no mestrado, quando Ermaela estudou as estratégias simbólicas e comunicacionais dos feirantes de Campina Grande.
No doutorado, o campo foi ampliado para incluir a Feira de Caruaru e os perfis digitais relacionados aos dois espaços, reconhecidos como patrimônio cultural brasileiro.
Para compreender como as feiras aparecem nos estudos de comunicação, a pesquisadora realizou uma revisão integrativa da literatura publicada entre 2019 e 2023.
A primeira busca reuniu 1.719 trabalhos. Depois de sucessivas filtragens, leituras de resumos e análise dos critérios de pertinência, o corpus final chegou a 16 pesquisas.
O resultado confirmou uma lacuna. Embora as feiras sejam abordadas por áreas como antropologia, história, geografia, turismo e economia, ainda são pouco exploradas como sistemas comunicacionais e espaços de produção simbólica. A atenção costuma se concentrar na comercialização dos produtos ou na importância patrimonial, deixando em segundo plano os modos pelos quais feirantes e frequentadores produzem informações, constroem reputações e elaboram sentidos sobre a cidade.
Com as redes sociais, essa comunicação passa por uma nova transformação. O que antes dependia da presença, do grito, da disposição das mercadorias e das relações de confiança estabelecidas no mercado também circula por imagens, vídeos, legendas e comentários.
A pergunta deixa de ser apenas como a feira aparece na internet. É preciso observar quem administra os perfis, quais personagens se tornam visíveis, que aspectos do cotidiano são selecionados e como a linguagem das plataformas interfere na representação dos trabalhadores.
A midiatização pode ampliar o alcance da feira, atrair visitantes e preservar registros de seus personagens. Também pode reduzir um espaço complexo a uma sucessão de imagens pitorescas, produtos típicos e convites turísticos. Entre a banca e o feed, a feira não é apenas transportada: passa a ser reorganizada por outra lógica de circulação.
Um laboratório jornalístico dentro do São João
O celular também aparece como instrumento de formação no Repórter Junino, projeto criado em 2005 na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) pelos professores Fernando Firmino da Silva e Águeda Miranda Cabral.
A experiência foi apresentada por Lavinia Evelly Bezerra Nunes de Farias no trabalho “Repórter Junino como ferramenta de valorização e divulgação da cultura popular”. Estudante de Jornalismo e ex-integrante do projeto, Lavinia analisou reportagens, fotografias, vídeos e postagens produzidos durante as coberturas dos festejos de Campina Grande.
O Repórter Junino surgiu em um momento de expansão das tecnologias móveis. Ao longo de duas décadas, acompanhou a passagem dos primeiros experimentos digitais para uma rotina de produção baseada em smartphones, redes sociais, sites e diferentes formatos audiovisuais.
Na prática, estudantes que ainda estão nos primeiros períodos do curso deixam a sala de aula para entrevistar músicos, comerciantes, quadrilheiros, artesãos, moradores e organizadores. Aprendem a apurar, selecionar imagens e construir narrativas enquanto entram em contato com os agentes que sustentam o ciclo junino.
A experiência modifica os dois lados do processo. As manifestações ganham registros que dificilmente encontrariam espaço nos grandes veículos, enquanto os estudantes desenvolvem uma sensibilidade que não nasce somente do domínio técnico. Precisam compreender os códigos da festa, respeitar as pessoas entrevistadas e reconhecer que uma cobertura não se resume ao palco principal ou às atrações de maior audiência.
Para Lavinia, o projeto funciona simultaneamente como laboratório de jornalismo, acervo da cultura popular e espaço de educação midiática. Sua trajetória pessoal confirma essa dimensão: durante dois anos de participação, ela conheceu aspectos da cultura junina de Campina Grande que ainda não faziam parte de seu repertório, apesar de viver na região.
A pesquisadora defendeu que experiências semelhantes poderiam acompanhar festas populares de outras partes do país. A multiplicação do modelo, porém, não significa simplesmente enviar estudantes para cobrir eventos. O que caracteriza sua contribuição é o encontro entre formação jornalística, presença no território e compromisso com os grupos que produzem a manifestação.
Entre o paredão e o camarote
No Complexo do Chapadão, na Zona Norte do Rio de Janeiro, o baile funk continua reunindo moradores, DJs locais, vendedores e frequentadores em torno do paredão. Ao mesmo tempo, incorpora iluminação profissional, fumaça, fogos, seguranças, camarotes e estratégias promocionais inspiradas nos grandes festivais de música.
A convivência entre esses elementos orientou “O baile funk e a (des)construção da autenticidade”, pesquisa exploratória apresentada por Beatriz Costa, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal Fluminense (UFF).
O estudo foi desenvolvido a partir de incursões etnográficas no Baile do Egito e da análise dos conteúdos publicados pelo evento nas redes sociais. Beatriz comparou a estrutura encontrada na favela com a de festivais como Rock in Rio e Rap Festival, identificando aproximações que ultrapassam o palco.
Embora divulgado como evento gratuito, o baile observado oferecia uma área de pista por R$ 30 e camarotes que podiam chegar a R$ 1.500 para grupos de dez pessoas. A entrada de alimentos e bebidas era controlada para concentrar o consumo dentro do evento. As redes sociais recorriam frequentemente a imagens sexualizadas de mulheres para promover as atrações e alcançar um público predominantemente masculino.
Essas mudanças poderiam sustentar a conclusão apressada de que o baile perdeu sua autenticidade. A observação do território, entretanto, apresentou um processo mais contraditório. O paredão permanece. DJs e trabalhadores da região continuam participando. Moradores vendem produtos e encontram na festa um espaço de sociabilidade, renda e pertencimento.
O baile não se divide entre um passado puro e um presente descaracterizado. Elementos comunitários convivem com formas de organização incorporadas do mercado. A lógica empresarial não elimina automaticamente o vínculo territorial, mas altera o acesso, os circuitos econômicos e as maneiras pelas quais o evento se apresenta ao público.
A resistência, portanto, não está garantida pela origem popular da festa. Ela depende das negociações realizadas dentro do próprio processo: quem organiza, quem lucra, quais moradores participam, que comportamentos são estimulados e quais relações com o território permanecem.
Quando a toada deixa de falar sobre e passa a falar com
A entrada de saberes indígenas no Festival de Parintins orientou o trabalho “Festival de Parintins: do olhar folclorizado à valorização de saberes ancestrais no espetáculo”, apresentado por Ádria Barbosa, da Universidade Estadual Paulista (Unesp).
Nascida em Parintins, Ádria analisou toadas apresentadas pelos bois Caprichoso e Garantido em 2025. O recorte permitiu acompanhar uma mudança importante: povos indígenas deixam de aparecer somente como personagens representados por artistas do espetáculo e passam a participar dos processos de composição, gravação e construção das narrativas.
No Boi Caprichoso, a toada dedicada às magés reconhece o protagonismo de parteiras, benzedeiras, juremeiras e curandeiras. A palavra é apresentada como uma forma feminina de pajé, associada às mulheres que preservam conhecimentos sobre cura, espiritualidade e relação com a floresta.
A produção contou com a participação das Suraras do Tapajós, grupo de carimbó formado por mulheres indígenas de Alter do Chão, no Pará. Elas não apareceram apenas na arena: participaram da composição, da gravação e da elaboração artística da obra.
No Boi Garantido, a figura típica das artesãs indígenas destacou ceramistas, trançadeiras e produtoras de arte plumária. Grafismos, sementes, cestarias, colares, cocares e maracás foram apresentados como formas de memória, produção econômica e transmissão de conhecimentos.
Ádria chamou atenção para a capacidade comunicacional da toada. Uma discussão realizada em sala de aula alcança um grupo limitado; a música do boi circula por rádios, plataformas de áudio, vídeos, redes sociais e apresentações diante de milhares de pessoas. Essa amplitude pode transformar o Festival de Parintins em espaço de educação e reconhecimento.
A visibilidade, entretanto, não depende apenas da presença de um tema indígena no espetáculo. O deslocamento torna-se mais significativo quando mulheres e lideranças indígenas ocupam comissões de arte, participam das decisões e interferem na maneira como seus conhecimentos são apresentados.
A diferença está entre falar sobre os povos indígenas e produzir uma narrativa com a participação deles. No primeiro caso, a ancestralidade pode funcionar como tema estético. No segundo, abre-se uma disputa por autoria dentro da própria estrutura do festival.
As mulheres que ensinaram o boi a permanecer
Se Ádria observou a presença indígena nas toadas e na arena, Suzan Monteverde Martins voltou-se para as mulheres que mantiveram o Boi Garantido vivo antes e depois do espetáculo.
Bisneta de Lindolfo Monteverde, fundador do Garantido, Suzan cresceu na Baixa da Xanda, em Parintins. Jornalista, produtora cultural e integrante de comissões de arte do boi, ela transformou sua experiência comunitária no trabalho “Matriarcas da Baixa da Xanda: preservando a cultura Boi-Bumbá em Parintins”, escrito com sua orientadora, Andréa Ferraz Fernandez, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).
A inquietação começou quando Suzan percebeu que as histórias oficiais do boi destacavam personagens masculinos, mas pouco diziam sobre as mulheres que ensinaram as rezas, organizaram as festas, preservaram documentos e transmitiram os conhecimentos necessários para que o Garantido continuasse saindo às ruas.
Foram avós, mães e tias que lhe explicaram como deveria ser feito o chifre do boi em determinadas ocasiões, quais materiais precisavam ser utilizados e que sequência cada ritual deveria obedecer. Guardaram fotografias, anotações, relatos orais e documentos datilografados que raramente chegaram aos arquivos institucionais.
Entre as celebrações preservadas estão a ladainha de Santo Antônio, realizada em 12 de junho, e a festa do dia 24, associada à promessa de Lindolfo Monteverde de manter a brincadeira caso fosse curado de uma doença. A morte do boi encerra um ciclo e anuncia o renascimento no ano seguinte, articulando devoção, memória familiar e continuidade cultural.
Suzan identificou essas mulheres afro-indígenas como as principais transmissoras dos saberes e rituais do Garantido. São elas que organizam as rezas, comandam as festas comunitárias e preservam conhecimentos que não aparecem nos regulamentos nem nos registros oficiais do festival.
Essa ausência produz uma disputa concreta. Quando a história permanece principalmente na oralidade, agentes com maior acesso à mídia podem reivindicar a autoria de símbolos e práticas construídos durante décadas pela comunidade. A pesquisa procura enfrentar esse apagamento por meio do registro das narrativas das matriarcas.
O trabalho também se conecta à mobilização pelo reconhecimento da Baixa da Xanda como quilombo urbano. Segundo Suzan, os relatos preservados pelas mulheres contribuíram para o processo de autodefinição da comunidade junto à Fundação Cultural Palmares.
A comunicação popular aparece, nesse caso, como condição de sobrevivência. Não se limita à divulgação da festa: está na transmissão cotidiana que permite reconhecer uma origem, reivindicar um território e contestar versões da história construídas sem a participação de quem manteve a brincadeira viva.
Um portal para o interior falar de si
Em Tangará da Serra, cidade mato-grossense marcada economicamente pelo agronegócio, estudantes de Jornalismo criaram um espaço para publicar trabalhos que costumavam desaparecer depois da avaliação das disciplinas.
A experiência foi analisada por Maria Tereza Cunha, Julian Silva Souza e Lawrenberg Advíncula, da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), em “Experiências de folkjornalismo em O Fuzuê: um espaço de produção experimental para estudantes de Jornalismo do interior de Mato Grosso”.
Criado em 2019 e impulsionado a partir de 2023, O Fuzuê funciona como um portal gratuito no qual os estudantes publicam reportagens, histórias em quadrinhos, áudios, livros digitais, campanhas e outros formatos. O projeto serve como acervo, laboratório e portfólio para jovens que ingressam em um mercado regional ainda fortemente influenciado pelos modelos dos grandes veículos.
Maria Tereza observou que emissoras e portais do interior frequentemente reproduzem formatos concebidos nas capitais, ainda que as necessidades informativas e os repertórios culturais sejam distintos. O Fuzuê abre espaço para experimentar outras pautas e linguagens, acompanhar acontecimentos locais e divulgar a produção dos próprios estudantes.
Em 2025, uma das publicações do portal recebeu reconhecimento na etapa Centro-Oeste da Intercom. A premiação demonstrou que um veículo universitário produzido sem uma grande estrutura financeira pode ultrapassar os limites da sala de aula e alcançar circulação mais ampla.
A apresentação também revelou uma dificuldade conceitual. Ao realizar o levantamento bibliográfico, os pesquisadores encontraram poucas referências consolidadas sobre folkjornalismo. A contribuição de Beatriz Dornelles apareceu como uma das bases para aproximar Folkcomunicação, jornalismo popular, produção local e circuitos contra-hegemônicos.
O fato de um portal ser pequeno, independente ou regional não basta para caracterizá-lo como folkjornalístico. A questão está no processo: quais grupos conseguem se expressar, que repertórios populares entram nas narrativas, como as pautas são construídas e em que medida o veículo oferece alternativas às formas de comunicação controladas por grupos econômicos e políticos locais.
O Fuzuê não resolve sozinho essas questões, mas oferece um campo de experimentação. Ao permitir que estudantes do interior produzam sobre o território no qual vivem, o portal tensiona a ideia de que os modos legítimos de fazer jornalismo precisam chegar prontos das capitais.
Calçadas transformadas em arquivo comunitário
O último trabalho atravessou o Atlântico sem abandonar as questões levantadas em Parintins. “Pelas calçadas de Mangas Verdes (e o caminho, que se faz ao caminhar)”, de Andréa Fernandez e Suzan Martins, acompanhou uma festa comunitária realizada em um bairro popular de Málaga, na Espanha.
Localizado em uma região montanhosa, Mangas Verdes foi ocupado principalmente por agricultores e migrantes de áreas rurais. Na década de 1970, ainda enfrentava problemas como ausência de iluminação pública e de infraestrutura urbana.
O território carrega marcas da Guerra Civil Espanhola. Cavernas utilizadas como abrigo entre 1936 e 1939 foram posteriormente incorporadas às moradias. O bairro também preserva parte do Aqueduto de San Telmo e ficou conhecido como um dos lugares pelos quais passou Eleuterio Sánchez, o El Lute, personagem célebre por suas fugas durante o franquismo.
A festa anual de Mangas Verdes mobiliza a vizinhança muito antes do dia principal. Moradores organizam rifas, almoços coletivos, oficinas, ensaios e apresentações de verdiales, gênero musical tradicional da região de Málaga. Pequenas bandas formadas por integrantes do bairro acompanham o cortejo pelas ruas.
O momento central é a inauguração de um novo mural de cerâmica dedicado a uma pessoa ligada à história da comunidade. Durante a caminhada, os moradores visitam murais instalados nos anos anteriores e apresentam às crianças as trajetórias das pessoas homenageadas.
Ao longo do tempo, as obras formaram uma rota da memória. Aquilo que começa como homenagem comunitária também atrai visitantes e apresenta outra narrativa sobre o bairro — não apenas como território de precariedade, ruínas ou personagens perseguidos, mas como lugar produzido pelo trabalho e pelas relações entre seus moradores.
O título recupera o verso de Antonio Machado segundo o qual o caminho se faz ao caminhar. Em Mangas Verdes, a ideia assume uma dimensão concreta: é durante o percurso pelas calçadas que a comunidade reconstrói sua própria história.
O paralelo com Parintins não pretende igualar manifestações separadas por contextos tão diferentes. Em ambos os casos, entretanto, a festa ultrapassa o dia marcado no calendário. Ela depende de meses de preparação, arrecadação, ensaios, transmissão de conhecimentos e decisões coletivas sobre aquilo que deve permanecer na memória.
A disputa começa antes da publicação
As sete apresentações ampliaram a compreensão do ativismo midiático para além das campanhas organizadas e dos protestos declarados. Em diferentes escalas, ele aparece quando agentes populares interferem na maneira como suas experiências são representadas, registradas e colocadas em circulação.
A presença de uma feira no Instagram não garante protagonismo aos feirantes. Uma cobertura jornalística não valoriza automaticamente a manifestação retratada. A entrada de uma toada nas plataformas digitais pode ampliar conhecimentos ancestrais, mas também transformá-los em recurso estético. Um portal independente pode enfrentar modelos hegemônicos ou simplesmente reproduzi-los em escala menor.
O potencial de resistência se realiza quando os sujeitos deixam de ser apenas personagens e passam a participar das escolhas: mulheres indígenas compondo toadas, matriarcas reivindicando lugar na história do boi, estudantes criando um veículo para narrar o interior e moradores decidindo quem será lembrado no próximo mural.
Ao final da tarde, os objetos mais simples condensavam as principais disputas: a louça de barro que iniciou uma trajetória de pesquisa, o celular usado na cobertura do São João, o camarote erguido ao lado do paredão, os papéis datilografados guardados pelas mulheres da Baixa da Xanda e a cerâmica inaugurada em uma calçada de Málaga.
Todos fazem a memória circular. Mas a direção dessa circulação depende de quem segura o objeto, escolhe a história e encontra meios para transmiti-la.





Comentários