Bonés de Lula, grafitos e fé digital: terceira RIF encontra a política no cotidiano
- Andriolli Costa
- 31 de jul.
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Publicada no primeiro semestre de 2004, edição reuniu 13 trabalhos apresentados na 7ª Conferência Brasileira de Folkcomunicação e mostrou que as disputas políticas também se manifestam nas festas, nos muros, na publicidade, na religião e no consumo da televisão
Um boné do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e um boné do Internacional podem ter o mesmo formato e até a mesma cor. Quando colocados na cabeça do presidente da República, porém, produzem sentidos políticos completamente diferentes. Em 2004, essa aparente contradição ajudava a demonstrar uma das principais ideias da terceira edição da Revista Internacional de Folkcomunicação: a política não se limita aos partidos, às eleições, às instituições ou aos discursos oficiais. Ela também está nas roupas, nos gestos, nas festas, nas paredes das cidades, nas escolhas linguísticas, nas práticas religiosas e nas formas pelas quais as comunidades se apropriam dos meios de comunicação.
Publicada entre janeiro e junho de 2004, a terceira RIF reuniu 13 trabalhos vinculados à 7ª Conferência Brasileira de Folkcomunicação, realizada de 13 a 16 de maio daquele ano no Centro Universitário Univates, em Lajeado, no Rio Grande do Sul. O encontro teve como tema “Folkcomunicação Política: a comunicação na cultura dos excluídos”.
A edição funciona, assim, como um registro das discussões que mobilizavam a Rede Folkcom naquele momento. Mais do que procurar mensagens explicitamente partidárias, os pesquisadores se dedicaram a identificar relações de poder, resistência, apropriação e visibilidade em diferentes situações da vida cotidiana.
A política vestida, brincada e levada às ruas
Dois artigos tomam como objeto o início do primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, iniciado em janeiro de 2003. Em vez de examinar pronunciamentos presidenciais ou programas de governo, os pesquisadores observam como a imagem de Lula era reelaborada pela imprensa e pelas manifestações populares.
Em “Manifestações espontâneas: imagens de Lula presidente no Carnaval de Olinda em 2004”, Betania Maciel percorre as ladeiras da cidade pernambucana para registrar imagens, depoimentos e manifestações de apoio ou crítica ao presidente.
Blocos, troças, bonecos gigantes, maracatus e fantasias transformavam o Carnaval em espaço de comentário sobre a realidade social. A pesquisadora também acompanhou o bloco carnavalesco “Lula e o Polvo”, observando como o imaginário político era incorporado ao humor e à criatividade dos foliões.
A festa aparece como uma arena pública na qual os participantes podem elogiar, ridicularizar, questionar ou reinterpretar personagens do poder. A comunicação política deixa de ser exclusividade dos meios jornalísticos e passa pelas alegorias, pelos corpos fantasiados e pelas brincadeiras carnavalescas.
Sérgio Roberto Trein aborda outra dimensão da imagem presidencial em “Os bonés de Lula: vestem a cabeça do presidente e ainda ‘fazem a cabeça’ do povo”.
O pesquisador compara a cobertura realizada pelo jornal Zero Hora em duas ocasiões de 2003. Na primeira, Lula vestiu um boné do MST e foi criticado por setores da imprensa e da oposição, que interpretaram o gesto como apoio político ao movimento. Dois meses depois, o presidente colocou um boné do Internacional, clube de futebol de Porto Alegre, sem provocar reação semelhante.
A análise procura compreender como objetos aparentemente equivalentes podem produzir efeitos de sentido tão diferentes. O significado não estava apenas no boné, mas nas relações políticas e nos imaginários associados àquilo que ele representava. Em um caso, o acessório era tratado como símbolo de conflito social; no outro, como demonstração cotidiana de simpatia esportiva.
Os dois trabalhos mostram como a imagem presidencial escapava ao controle dos canais oficiais. Lula era transformado em personagem carnavalesco, reproduzido em bonecos e fantasias, ao mesmo tempo que seus gestos eram selecionados e enquadrados pela imprensa.
Quando os muros também tomam posição
A terceira RIF dedica dois artigos aos grafitos, ampliando uma discussão que já aparecera na edição anterior da revista. Agora, o foco recai principalmente sobre a construção de identidades urbanas e a manifestação de ideias políticas.
Em “O grafite da Vila Madalena: uma abordagem sociossemiótica”, Aparecida Luzia A. Zuin investiga as inscrições e imagens presentes no conhecido bairro paulistano.
O estudo recupera diferentes momentos históricos do grafite: os murais mexicanos, as manifestações parisienses da década de 1960, os protestos contra a ditadura militar brasileira e as produções dos subúrbios norte-americanos. Esses antecedentes ajudam a compreender os muros como suportes de comunicação e significação.
Na Vila Madalena, o grafite é observado como parte da paisagem e da identidade do bairro. As intervenções visuais dialogam com as transformações urbanas, os modos de vida dos moradores e as mensagens publicitárias que ocupam o mesmo território. A rua torna-se uma superfície de disputas entre arte, mercado, memória e contestação.
Carlos Nogueira amplia o alcance internacional da edição em “Da ideologia política nos grafitos literários portugueses”. O artigo analisa slogans, ditos, poemas breves e outras inscrições que expressaram oposição à ditadura salazarista, vigente em Portugal entre 1926 e 1974.
Para o pesquisador, o comportamento político não se manifesta apenas em leis, decretos, manifestos e artigos de opinião. Também pode ser identificado nas frases anônimas que circulam pelas paredes e condensam sentimentos, expectativas, ironias e críticas produzidas por sujeitos que não ocupam posições institucionais de poder.
Os grafitos portugueses funcionavam simultaneamente como memória, sátira e militância. Sua brevidade favorecia a circulação das mensagens e permitia que vozes anônimas interviessem no espaço público.
Uma língua de fronteira ameaçada pelo Estado
A política da linguagem aparece em “Ñe ê ngatu, uma comunicação proibida!?!”, de Marlei Sigrist. O artigo retoma uma pesquisa sobre a fronteira entre Brasil e Paraguai, em Mato Grosso do Sul, para acompanhar a trajetória do programa radiofônico Ñe ê ngatu. Veiculada em uma linguagem popular característica da região, a atração procurava valorizar os brasileiros da fronteira e fortalecer a autoestima de seus ouvintes.
O programa passou a ser questionado pela Agência Nacional de Telecomunicações com base em uma portaria que restringia o uso de línguas estrangeiras nas emissoras de frequência modulada. O conflito expunha uma distância entre a norma estatal e a realidade cultural da fronteira.
Tratada como estrangeira pela fiscalização, a linguagem era reconhecida pelos moradores como parte essencial de sua vida cotidiana e de sua memória coletiva. Sigrist acompanha as falas de ouvintes, entrevistados e estudiosos para mostrar que uma decisão aparentemente técnica também poderia ameaçar um patrimônio comunicacional.
O caso revela uma dimensão decisiva da Folkcomunicação política: controlar uma língua significa também determinar quais identidades podem falar publicamente e quais formas de pertencimento serão reconhecidas pelo Estado.
O que as comunidades fazem com a televisão
Em “Quando a televisão vira outra coisa: as estratégias de apropriação dos mediadores ativistas nas redes de comunicação cotidianas do local”, Osvaldo Meira Trigueiro propõe inverter uma pergunta frequente nos estudos de mídia.
Em vez de analisar apenas o que a televisão faz com o público, o pesquisador procura compreender o que o público faz com a televisão.
O estudo acompanha uma pequena cidade do interior paraibano em transição do rural para o urbano, conectada aos produtos globais pelas antenas parabólicas. Nesse contexto, os conteúdos televisivos não eram simplesmente recebidos e reproduzidos. Eles passavam pelas redes de comunicação cotidiana, eram comentados, reenquadrados e adaptados à realidade local.
Trigueiro chama atenção para a atuação dos “mediadores ativistas”, agentes que interpretam e fazem circular os produtos midiáticos dentro da comunidade. É por meio deles que a televisão “vira outra coisa”: suas mensagens são submetidas às experiências, aos interesses e às estratégias dos sujeitos locais.
O artigo antecipa uma discussão que ganharia importância crescente no campo: a audiência não é uma massa passiva. Mesmo diante das ofertas dominantes dos grandes meios, as comunidades criam táticas de seleção, negociação e reinvenção.
Cultura gaúcha entre pertencimento e publicidade
A apropriação mercadológica das tradições aparece em “Os símbolos da cultura gaúcha e sua apropriação pela publicidade”, de Ana Lúcia Pereira, Elizete de Azevedo Kreutz, Gerson Bonfadini, Sandro Nero Faleiro, Sandro Kirst e Vera Rubim Soares.
Os pesquisadores analisam a Cartilha da Erva-Mate e Chimarrão, produzida pela Prefeitura Municipal de Venâncio Aires. O material empregava símbolos da cultura gaúcha para estabelecer identificação com moradores e visitantes e, ao mesmo tempo, promover a cidade e seus produtos.
O chimarrão é interpretado como símbolo de hospitalidade, amizade e pertencimento. Ao passar das práticas cotidianas para uma peça institucional, entretanto, ele também se transforma em estratégia de comunicação e marketing.
O artigo não reduz essa operação a uma simples perda de autenticidade. Procura compreender como as organizações recorrem ao imaginário regional para construir mensagens e estabelecer relações com seus públicos. A tradição torna-se, simultaneamente, referência identitária e recurso mercadológico.
Outra experiência de Lajeado é estudada em “13ª Festa à Fantasia: um evento folkcomunicacional urbano”, de Silvia Ferreira, Fabiana C. Zimmer e Severino Lucena Filho.
Criada em 1991 para um público de 250 pessoas, a festa chegara à 13ª edição reunindo aproximadamente 8,5 mil participantes. O evento movimentava hotéis, restaurantes, transportes, lojas, salões de beleza e costureiras, além de promover campanhas de arrecadação de alimentos, agasalhos e conscientização social.
O trabalho analisa a circulação de informações antes, durante e depois da festa. Comunicação interpessoal, divulgação dirigida, rádio, jornal e televisão participavam da construção do evento e de sua projeção para além da cidade.
A Festa à Fantasia é compreendida como ferramenta de folkmarketing e de visibilidade regional. O objeto também evidencia a participação estudantil na produção apresentada pela RIF: Silvia Ferreira e Fabiana Zimmer eram alunas de Relações Públicas da Univates, orientadas por Severino Lucena Filho.
Pesquisar significa escutar e participar
A terceira edição não se dedica apenas aos objetos da Folkcomunicação. Parte de seus artigos discute como essas manifestações deveriam ser pesquisadas.
Em “Proposição para o uso da metodologia da História Oral na pesquisa em Folkcomunicação”, Antonio Adami, Armindo Boll e Marcelo Pires de Oliveira defendem o valor dos depoimentos orais para registrar manifestações populares pouco documentadas pela escrita.
O artigo recupera as dificuldades enfrentadas pela História Oral para obter reconhecimento científico e demonstra como entrevistas, testemunhos e memórias podem ser tratados como documentos de pesquisa. A reflexão nasce da experiência dos autores com os Figureiros de Taubaté, artistas populares que produzem peças de barro relacionadas às tradições da região.
A pesquisa exigiu visitas frequentes, construção de confiança e participação dos próprios artistas na definição dos critérios. Os figureiros colaboraram na elaboração de biografias, na escolha dos integrantes do grupo e na criação de produtos destinados à divulgação de seu trabalho.
Assim, a História Oral não aparece apenas como uma técnica para recolher informações. Ela modifica a própria relação entre pesquisadores e comunidade, reconhecendo os sujeitos como participantes da construção do conhecimento.
Cristina Schmidt aprofunda essa perspectiva em “Folkcomunicação: uma metodologia participante e transdisciplinar”.
A autora parte de uma década de convivência com o cotidiano do homem caipira. Acompanhou casas, roupas, crenças, procissões, atividades profissionais, músicas, causos, refeições, festas e funerais. Mais do que observar externamente, Schmidt afirma ter se tornado cúmplice das aspirações e lutas dos sujeitos pesquisados.
A experiência sustenta a defesa de uma metodologia capaz de atravessar as fronteiras entre Comunicação, Antropologia, Sociologia e estudos do folclore. Diante de culturas híbridas, nas quais ervas medicinais convivem com antibióticos, doces caseiros com redes de alimentação e artesanato com produtos industrializados, uma única disciplina não seria suficiente.
O texto defende estudos empíricos atentos ao cotidiano e rejeita a separação rígida entre tradicional e moderno, popular e massivo, material e simbólico. A Folkcomunicação exigiria, portanto, não apenas novos objetos, mas outra postura do pesquisador.
A fé entre o papel, os túmulos e o computador
Três artigos mostram a circulação da religiosidade por suportes bastante diferentes.
Em “A virtualização da fé: o romeiro e o computador”, Vânia Braz de Oliveira e Daniel Galindo investigam uma prática que ainda parecia recente em 2004: a peregrinação mediada pela internet.
A pesquisa percorre páginas relacionadas ao Santuário Nacional de Aparecida para observar como o visitante poderia conhecer o templo, obter informações religiosas e realizar ações como acender uma vela virtual sem sair de casa.
Os autores identificam a formação de uma modalidade de turismo religioso virtual. A tecnologia não eliminava necessariamente a crença, mas reorganizava seus gestos e permitia que o romeiro experimentasse a devoção, o lazer e a ruptura do cotidiano por meio do computador.
Em “O cemitério como fonte para estudos de Folkcomunicação”, Fábio Augusto Steyer apresenta os campos santos como espaços repletos de mensagens.
O artigo deriva de uma pesquisa que já havia visitado cerca de 500 cemitérios do Rio Grande do Sul. Epitáfios, fotografias, esculturas, objetos colocados nos túmulos, placas e construções funerárias comunicam relações familiares, posições sociais, profissões, crenças e diferentes maneiras de enfrentar a morte.
Para Steyer, um túmulo pode ser um espaço privilegiado de comunicação e semiose. As famílias falam consigo mesmas, dirigem mensagens aos mortos e oferecem informações aos vivos que passam pelo cemitério. Até as desigualdades sociais permanecem visíveis na distribuição dos jazigos e na monumentalidade das sepulturas.
Rosa Maria Ferreira Dales Nava retorna aos suportes impressos em “Folkcomunicação impressa na sociedade tecnológico-midiática: notícia ou propaganda de fé?”.
A autora examina ex-votos impressos, santinhos, correntes, simpatias, anúncios em jornais e outras mensagens religiosas. Uma pesquisa exploratória realizada com estudantes de Jornalismo e Rádio e TV reuniu aproximadamente 1.050 impressos e 282 inserções publicadas em jornais e revistas.
Esses materiais ocupavam classificados, caixas de correio, salões de beleza, hospitais, academias, igrejas e cemitérios. Ao agradecer uma graça e divulgar o poder atribuído a determinado santo, funcionavam simultaneamente como testemunho, notícia e propaganda de fé.
Rosa Nava compara o ex-voto a uma espécie de release popular: uma mensagem breve que informa quem recebeu a graça, o que aconteceu e, em alguns casos, quando, onde e por quê. O fiel cumpre sua promessa e reinicia a cadeia comunicacional, oferecendo seu testemunho a novos receptores.
Uma edição nascida de uma conferência
A terceira RIF guarda uma particularidade importante na trajetória da revista. Seus textos carregam o cabeçalho da 7ª Conferência Brasileira de Folkcomunicação e permitem observar como o periódico se articulava diretamente com os encontros da Rede Folkcom.
A ficha técnica registra a revista ainda em parceria com o Instituto de Educação Superior de Brasília. Antonio Teixeira de Barros e Severino Alves de Lucena Filho permaneciam como editores, enquanto Cristina Schmidt aparecia na presidência da Rede Folkcomunicação, acompanhada na Diretoria Executiva por Marlei Sigrist, Rosa Nava e Maria Cristina Gobbi.
Mais do que divulgar pesquisas isoladas, a RIF funcionava como lugar de continuidade dos debates iniciados presencialmente. A conferência formulava perguntas, aproximava pesquisadores e reunia experiências; a revista registrava parte dessa produção e a disponibilizava para uma comunidade acadêmica em expansão.
Política muito além das instituições
Vista hoje, a edição ajuda a compreender por que a Folkcomunicação política não pode ser reduzida ao estudo de eleições ou da propaganda partidária. A política aparece na regulação de uma língua fronteiriça, no grafito escrito contra uma ditadura, no enquadramento jornalístico de um boné, nas alegorias carnavalescas, na apropriação dos símbolos regionais por organizações e nas estratégias utilizadas por uma comunidade para ressignificar a televisão.
Ela também está na própria produção do conhecimento: na decisão de reconhecer a memória oral como documento, de conviver com os sujeitos pesquisados e de considerar cemitérios, santinhos e páginas religiosas da internet fontes legítimas para os estudos da Comunicação.
A terceira RIF registra um campo que começava a amadurecer suas escolhas metodológicas sem abandonar a curiosidade diante do cotidiano. Ao procurar a política nos objetos aparentemente mais comuns, a revista mostrava que relações de poder, resistência e pertencimento atravessam toda forma de comunicação.


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