“As pessoas passam, mas a cultura fica”: mesa debate os desafios de narrar os festivais da Amazônia
Na III Jornada Pan-Amazônica de Folkcomunicação, profissionais da imprensa e da fotografia defenderam uma cobertura comprometida com as comunidades, os trabalhadores e os saberes que dão vida às manifestações populares.
As luzes do Piabódromo começaram a se apagar justamente quando a jornalista Edilene Mafra se preparava para gravar. Com uma câmera pequena nas mãos e sem compreender o que acontecia, ela procurou o cinegrafista Orlando Júnior em busca de orientação. A resposta veio por gestos: era preciso continuar e encontrar uma maneira de registrar a apresentação.
A cena aconteceu em 2005, durante uma cobertura do Festival do Peixe Ornamental de Barcelos, no Amazonas. Edilene e a jornalista Lauristela Rocha haviam chegado à cidade de barco no mesmo dia da abertura do evento. Com pouco tempo para conhecer o local e conversar com seus moradores, seguiram diretamente para o Piabódromo.
Somente depois Edilene compreendeu que a escuridão fazia parte da narrativa apresentada na arena. O espetáculo representava a captura noturna do acará-disco, realizada pelo piabeiro com o auxílio de uma lanterna. As luzes não haviam sido desligadas por falha técnica: elas reproduziam uma prática ligada ao trabalho, ao território e aos conhecimentos dos pescadores de peixes ornamentais.
A experiência tornou-se uma lição sobre os riscos de cobrir uma manifestação cultural sem conhecer seus códigos.
“Precisamos tirar todos os nossos preconceitos, tirar toda a nossa ignorância do senso comum e entrar dentro daquela cultura”, afirmou Edilene.
O relato abriu uma das principais discussões da mesa “Mídia e cultura popular: a cobertura dos festivais folclóricos na Amazônia”, realizada em 21 de junho de 2022, no auditório do Instituto de Ciências Sociais, Educação e Zootecnia da Universidade Federal do Amazonas, em Parintins.
A atividade integrou a III Jornada Pan-Amazônica de Folkcomunicação e o V Encontro de Comunicação de Parintins. Participaram da conversa a jornalista e fundadora do Portal Edilene Mafra, o fotógrafo internacional Wigder Frota e Sinny Lopes, do Portal Fest’Norte. A coordenação foi do professor Allan Soljenítsin Barreto Rodrigues, da Faculdade de Informação e Comunicação da UFAM.
Antes de contar a festa, é preciso conhecer a cidade
Ao recuperar sua passagem por Barcelos, Edilene Mafra mostrou que o trabalho jornalístico começa muito antes da abertura das arenas, da chegada das autoridades ou do primeiro espetáculo.
É necessário conhecer a formação da festa, seus personagens, suas regras, suas palavras e, principalmente, as pessoas que mantêm a manifestação viva. Sem essa aproximação, a reportagem corre o risco de repetir imagens conhecidas, reproduzir estereótipos e entregar ao público apenas aquilo que o senso comum já espera encontrar.
A jornalista defendeu que as equipes cheguem antecipadamente às cidades, conversem com artistas, produtores, moradores e trabalhadores, identifiquem os significados dos elementos apresentados e procurem compreender o que aquela manifestação representa para a comunidade.
Essa atitude não significa abandonar o olhar crítico. Significa construir as condições para perguntar melhor, interpretar com responsabilidade e evitar que referências externas sejam utilizadas como medida para explicar todas as culturas.
Cada festival possui sua própria nomenclatura, seus personagens e suas maneiras de organizar o espetáculo. O que recebe determinado nome em Parintins pode ter outro significado em Barcelos, Juruti, Manacapuru, São Gabriel da Cachoeira ou Santarém. Aplicar automaticamente as categorias de uma festa sobre outra pode apagar diferenças importantes.
“Como vai registrar se não viver?”, provocou Edilene, ao defender uma aproximação sensível com os territórios e com as histórias de seus habitantes.
A festa não existe somente durante três noites
Outro ponto destacado foi a necessidade de superar a cobertura limitada aos dias oficiais dos festivais. As apresentações realizadas nas arenas são a parte mais visível de um processo que envolve meses de preparação e mobiliza uma ampla rede de trabalhadores.
Antes de uma alegoria chegar ao público, existem artistas de galpão, soldadores, escultores, pintores, aderecistas, costureiras, coreógrafos, músicos, compositores, carregadores e muitos outros profissionais. Fora da arena, a festa também movimenta vendedores, cozinheiras, tricicleiros, barqueiros, motoristas, trabalhadores do turismo e famílias que recebem visitantes.
Durante a pandemia de covid-19, quando o Festival Folclórico de Parintins deixou de ser realizado, essa cadeia tornou-se ainda mais perceptível. Edilene contou que passou o período conversando com artistas e acompanhando as dificuldades enfrentadas por quem dependia econômica e afetivamente da manifestação.
A aproximação permitiu produzir um jornalismo mais humano, interessado não apenas no resultado da disputa entre Garantido e Caprichoso, mas nas pessoas que constroem a festa durante o ano inteiro.
Um dos exemplos lembrados pela jornalista foi Dona Maria, que preparava e distribuía sopa aos trabalhadores do galpão do Garantido. Ao visitar o local, Edilene percebeu o carinho com que era recebida pelos artistas. Para ela, a reação demonstrava que aquelas pessoas se reconheciam nas reportagens publicadas pelo portal.
A cena ajuda a compreender uma dimensão central da Folkcomunicação: as manifestações populares não são produzidas somente por seus representantes mais conhecidos. Elas se sustentam por meio de redes comunitárias, práticas de solidariedade e agentes culturais que, embora raramente apareçam nas grandes transmissões, participam da produção e da circulação dos sentidos da festa.
A fotografia como documento para a posteridade
A preocupação com a memória também orientou a participação do fotógrafo carioca Wigder Frota. Radicado em Nova York desde 1987, ele construiu uma trajetória dedicada ao registro de carnavais, celebrações religiosas e manifestações populares em diferentes países.
Sua relação com a cultura amazônica ganhou força em 2017, quando esteve pela primeira vez no Festival de Parintins. A experiência, segundo ele, mudou completamente seus planos de viagem e despertou o desejo de conhecer outros festivais da região Norte.
“Parintins bagunçou a minha vida”, resumiu.
Desde então, Frota passou a fotografar manifestações no Amazonas e no Pará. Seu interesse está menos concentrado nas celebridades e mais voltado às pessoas, aos personagens e aos conhecimentos que expressam a continuidade de uma tradição.
No carnaval, isso significa procurar as matriarcas, as baianas, os compositores, os integrantes da velha guarda e os fundadores das escolas de samba. Em Parintins, significa compreender que a fotografia de uma cunhã-poranga também documenta um item cultural e o conjunto de referências que ele representa, e não apenas a pessoa que ocupa temporariamente aquela função.
“As pessoas passam, mas a cultura fica”, declarou Frota.
A frase sintetiza sua crítica à velocidade das redes sociais e à busca permanente por gratificações imediatas. Enquanto milhares de imagens são publicadas e rapidamente esquecidas, o trabalho de documentação procura produzir um acervo que possa servir a pesquisadores, universidades, comunidades e futuras gerações.
Para Frota, fotografar uma manifestação popular é contribuir para que sua memória permaneça acessível. Por isso, ele procura preservar a independência sobre seu arquivo e evita compromissos que o obriguem a entregar definitivamente o material produzido.
O reencontro com a cultura brasileira por meio dos festivais amazônicos também teve uma dimensão pessoal. O fotógrafo afirmou que as manifestações do Norte lhe devolveram um sentimento que julgava ter perdido depois de décadas vivendo fora do país.
“Essa cultura nossa do Norte foi o que me trouxe a brasilidade de volta”, contou.
A rua como lugar da reportagem
Sinny Lopes levou para a mesa a experiência de uma cobertura construída fora das grandes redações. Formado em Administração, ele se apresentou como admirador do jornalismo e “curioso da profissão”, deixando clara a diferença entre sua atuação e a formação profissional dos jornalistas.
O interesse pelo Festival de Parintins começou ainda na adolescência. Em 1996, aos 15 anos, Sinny visitou a cidade e acompanhou uma apresentação do Garantido. Depois conheceu o Caprichoso, tornou-se torcedor do boi azul e passou a se definir, acima de tudo, como “devoto do Festival”.
O Portal Fest’Norte surgiu da ampliação de um projeto inicialmente chamado Portal de Parintins. Quando a cobertura alcançou festas de outros municípios, o nome anterior deixou de representar a dimensão adquirida pelo trabalho.
A proposta passou a ser mostrar as manifestações culturais da região a partir da rua e dos espaços que nem sempre recebem atenção dos grandes veículos. Em vez de concentrar toda a cobertura no interior das arenas, Sinny procura acompanhar os carregadores de alegorias, os deslocamentos pela cidade, os trabalhadores, o transporte em triciclos e as pessoas que recebem os visitantes.
O objetivo é fazer com que o público distante experimente um pouco do ambiente da festa — o sol na concentração, a movimentação das ruas, os encontros inesperados e as conversas com quem participa da celebração.
Para ele, quem cobre um festival precisa permitir que a cidade transforme sua maneira de olhar. Isso inclui aprender a nomenclatura local e reconhecer que as manifestações amazônicas não são versões menores umas das outras.
O Festival dos Peixes Ornamentais de Barcelos, as Cirandas de Manacapuru, o Festribal de Juruti, as celebrações de São Gabriel da Cachoeira, o Sairé, em Alter do Chão, e as festas de boi-bumbá de diferentes municípios possuem histórias e linguagens próprias.
Cobri-las exige curiosidade, coragem e disposição para investigar.
“O jornalista que não tem coragem e curiosidade está na profissão errada”, afirmou Sinny.
Quando a padronização ameaça a diferença
A mesa também lançou uma pergunta para o futuro: que festivais a Amazônia pretende entregar às próximas gerações?
Sinny demonstrou preocupação com a padronização das apresentações e com a transformação das manifestações culturais em produtos cada vez mais semelhantes. Para ele, quando as diferenças se resumem às cores das agremiações, a criação cultural corre o risco de ser substituída pela reprodução de fórmulas.
A provocação vale não apenas para o Festival de Parintins. À medida que uma manifestação conquista visibilidade, patrocínios e espaço na mídia, cresce a pressão para que se adapte aos formatos considerados mais atraentes comercialmente.
Wigder Frota fez uma advertência semelhante ao comentar a possibilidade de uma transmissão nacional. A maior projeção pode ampliar o público, mas também pode impor tempos, enquadramentos e modelos desenvolvidos para outras festas.
O desafio está em conquistar visibilidade sem permitir que a transmissão determine a cultura. Em uma perspectiva folkcomunicacional, a mídia não funciona somente como uma janela neutra. Ao selecionar personagens, imagens e narrativas, ela interfere na maneira como a manifestação é percebida e pode influenciar sua própria organização.
Entre o direito de transmitir e o direito de informar
As dificuldades de acesso dos veículos independentes ocuparam uma parte importante do debate. Os participantes relataram restrições ao número de profissionais credenciados, limitações para realizar transmissões e dificuldades para acompanhar áreas importantes da preparação dos espetáculos.
A concentração dos direitos comerciais de transmissão pode colocar pequenos portais em uma posição desigual. Mesmo quando trabalham durante o ano inteiro na divulgação das manifestações, esses veículos encontram barreiras justamente nos dias de maior interesse público.
Edilene lembrou que a visibilidade de uma festa também está submetida às decisões do mercado de comunicação. Quando os direitos mudam de empresa, determinados conteúdos podem perder espaço não por falta de importância cultural, mas por não fazerem parte dos interesses comerciais do veículo.
Essa realidade cria um paradoxo: quanto maior se torna o festival como produto midiático, mais difícil pode ser para jornalistas independentes mostrarem as pessoas que o construíram.
Para Sinny, o reconhecimento de Parintins não pertence exclusivamente à emissora responsável pela transmissão. Ele é resultado do trabalho coletivo dos artistas, costureiras, moradores, comerciantes, tricicleiros, taxistas e famílias que sustentam a experiência cultural da cidade.
Jornalismo cultural, independência e sobrevivência
Manter um veículo dedicado à cultura amazônica, entretanto, exige enfrentar um problema concreto: quem financia esse trabalho?
Edilene contou que o portal nasceu a partir de recursos próprios e que sua manutenção depende da construção de parcerias comerciais. O desafio é obter sustentabilidade sem permitir que o patrocinador controle o conteúdo editorial.
Ao mesmo tempo, veículos comerciais especializados em cultura nem sempre conseguem acessar editais destinados a associações ou coletivos culturais. No mercado publicitário, enfrentam a concorrência de perfis com números elevados de seguidores e conteúdos orientados pelo sensacionalismo.
Foi nesse contexto que Edilene passou a se definir como uma “jornalista influencer”. A expressão não representa o abandono do jornalismo, mas uma tentativa de ocupar os ambientes digitais sem abrir mão da apuração, da responsabilidade e da credibilidade profissional.
Durante a mesa, ela relatou que produtores passaram a exigir antecipadamente as perguntas que seriam feitas aos artistas. Sua resposta foi direta: “Eu sou jornalista. A imprensa é livre”.
A reação estabeleceu um limite entre reportagem e publicidade. O entrevistado pode decidir não responder, mas o jornalista não deve aceitar que suas perguntas sejam previamente controladas.
A discussão evidenciou que a independência editorial não é uma ideia abstrata. Ela aparece na negociação de uma credencial, na separação entre conteúdo jornalístico e patrocinado, na resistência ao controle das entrevistas e na decisão de publicar histórias que não oferecem retorno imediato de audiência.
Jornalistas como organizadores da cultura
Na parte final da atividade, a professora Marilene Corrêa da Silva ampliou a discussão ao definir jornalistas e comunicadores culturais como “organizadores da cultura”.
Ao selecionar temas, registrar memórias e tornar determinados sujeitos visíveis, esses profissionais participam da organização pública do conhecimento sobre uma manifestação. Por isso, o apoio ao jornalismo cultural não deve depender somente de iniciativas individuais ou de patrocínios ocasionais.
A professora defendeu políticas permanentes e democráticas de incentivo aos trabalhadores independentes da cultura e da comunicação. Também alertou que a cobertura precisa investigar as contradições escondidas pelos espetáculos, incluindo conflitos econômicos, sociais e ambientais.
A festa deve ser celebrada, mas não idealizada. Uma reportagem comprometida com a cultura popular precisa mostrar sua beleza sem abandonar as perguntas difíceis.
Quando as luzes se apagam
A história contada por Edilene Mafra no início da mesa oferece uma imagem poderosa para compreender toda a discussão.
Diante das luzes apagadas do Piabódromo, a jornalista poderia simplesmente ter registrado a escuridão como um problema técnico. Somente o conhecimento da comunidade permitiu entender que aquela ausência de luz possuía significado, memória e relação com o trabalho dos piabeiros.
É justamente nesse espaço entre olhar e compreender que se estabelece a responsabilidade do jornalismo cultural.
Cobrir um festival não é apenas anunciar atrações, contar pontos ou exibir alegorias. É investigar de onde vêm seus símbolos, reconhecer as pessoas que sustentam a manifestação, acompanhar as negociações entre tradição e mercado e produzir registros capazes de permanecer depois que as apresentações terminarem.
Porque as imagens passam, as publicações desaparecem nas linhas do tempo e os protagonistas se renovam. A cultura, porém, permanece — desde que existam comunidades para praticá-la e profissionais dispostos a escutá-la, compreendê-la e registrá-la com respeito.




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