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“A nossa história quem conta somos nós”: mulheres indígenas e negras questionam representações no Festival de Parintins

11 de ago.
9 min de leitura

Mesa da IV Jornada de Folkcomunicação da Pan Amazônia debateu autorrepresentação, apagamento racial, padrões de beleza e o papel de mulheres indígenas e negras na transformação dos bois-bumbás.



Quando Ádria Barbosa contou à família que havia sido convidada para interpretar Mãe Catirina no Boi-Bumbá Caprichoso, a reação não foi exatamente de celebração.

“Você quer ser uma palhaça?”, ouviu dos familiares.

Jornalista e mulher negra, Ádria estava diante de uma personagem fundamental para o auto do boi, mas historicamente apresentada como figura burlesca. Durante décadas, Mãe Catirina foi interpretada por homens vestidos de mulher, com o corpo coberto por um macacão preto, o rosto pintado e os traços negros transformados em caricatura.

A transformação dessa personagem foi uma das experiências analisadas na mesa “Mulheres, Ancestralidade, Corpos-Territórios e o Desafio do Bem-Viver”, realizada no segundo dia da IV Jornada de Folkcomunicação da Pan Amazônia, no Centro de Estudos Superiores de Parintins da Universidade do Estado do Amazonas.

Coordenada pelo historiador Bruno Miranda Braga, a mesa reuniu Ádria Barbosa, Mãe Catirina do Caprichoso e mestranda em Comunicação pela Unesp; Gilvana Santos Sardinha Borari, integrante do Conselho de Arte e tuxaua do Caprichoso; e Isabel Munduruku, historiadora, militante do movimento indígena e integrante da Comissão de Artes do Garantido.

As três participantes mostraram como o Festival de Parintins está sendo disputado por dentro. Se durante muito tempo indígenas e negros apareceram apenas como personagens do espetáculo, agora passam a ocupar os espaços nos quais as narrativas, as toadas, os figurinos, as coreografias e as alegorias são construídos.

Da representação à representatividade

“A representação indígena passou de representação para representatividade.”

A afirmação de Gilvana Borari marcou a diferença entre colocar uma imagem indígena na arena e permitir que pessoas indígenas participem efetivamente da construção dessa imagem.

Nascida em Alter do Chão, no Pará, e pertencente ao povo Borari, Gilvana explicou que sua presença no Conselho de Arte do Caprichoso envolve fazer a ponte entre o festival e os povos mencionados nas apresentações.

Ser indígena, advertiu, não lhe concede o direito de falar por todas as etnias. Uma mulher Borari não pode decidir sozinha como os Munduruku, os Sateré-Mawé ou os Kayapó desejam ser representados. É necessário ouvir cada povo, consultar suas lideranças e respeitar o que pode ou não ser transformado em espetáculo.

Essa consulta pode acontecer durante a composição de uma toada, a fundamentação de um ritual ou a criação de uma alegoria. Gilvana relatou que, em diferentes ocasiões, o Conselho de Arte levou músicas e projetos até as comunidades para que fossem avaliados pelas próprias pessoas retratadas.

“Não é o outro que vai falar se existiu ou não existiu. A nossa história quem conta somos nós”, afirmou.

A declaração surgiu quando Gilvana comentava a presença de Lup Moara, mulher trans que integra o conjunto de tuxauas do Caprichoso. Diante de manifestações transfóbicas e de pessoas que alegam que identidades como a dela “nunca existiram” nas culturas indígenas, Gilvana lembrou que muitas existências foram silenciadas pela colonização.

O desaparecimento de uma identidade dos registros oficiais não significa que ela nunca tenha existido. Pode significar que aquelas pessoas foram impedidas de dizer publicamente quem eram.

Uma dança que nasce do território

Gilvana contou que seu próprio nome artístico nasceu durante sua formação em dança na Universidade Federal do Pará. Naquele período, o balé clássico era apresentado como fundamento universal da dança, enquanto os movimentos aprendidos em seu território pareciam não possuir a mesma legitimidade.

Ela se sentia como o “patinho feio” da turma por não dominar sapatilhas, meias e códigos do balé. Aos poucos, porém, começou a compreender que sua dança também carregava conhecimento, técnica, história e pertencimento.

Levou para a universidade a lança, o arco e a flecha, o carimbó, a toada e os movimentos de pés ligados às experiências indígenas. Foi nesse processo que decidiu assumir o nome Gilvana Borari.

Em Parintins, essa percepção ganha forma nos corpos dos dançarinos. Segundo Gilvana, quando um artista indígena bate o pé com força na arena, não está apenas seguindo a marcação musical.

“O que está pulsando dentro da gente naquela arena é a nossa ancestralidade”, explicou.

Para ela, Parintins funciona como uma universidade de arte a céu aberto. Os corpos que dançam no festival carregam aprendizados que não vieram necessariamente das academias, mas das comunidades, dos rituais, das festas, das relações familiares e dos territórios.

O bem viver não pode ser uma obrigação indígena

Isabel Munduruku iniciou sua participação fazendo uma crítica ao uso frequente do conceito de bem viver nos espaços acadêmicos.

Para a historiadora, existe o risco de transformar a expressão em uma resposta genérica para problemas sociais, ambientais e políticos que não foram criados pelos povos indígenas.

“Às vezes chega a me incomodar debater o bem viver o tempo todo, como se os povos indígenas tivessem respostas para tudo isso”, afirmou.

Enquanto o conceito circula em congressos e universidades, o bem viver permanece ameaçado dentro dos territórios. Faltam políticas públicas diferenciadas, identidades indígenas continuam sendo questionadas e comunidades convivem diariamente com pressões econômicas, racismo e violações de direitos.

Isabel defendeu uma compreensão comunitária do ser mulher. A mulher indígena não existe separada de sua parentela, da floresta, das crianças, dos anciãos, da alimentação e das relações estabelecidas com o território.

O bem viver seria, portanto, a possibilidade de estar entre os parentes, ter alimento de qualidade, exercer a própria cultura e afirmar coletivamente quem se é.

A pesquisadora também questionou a ideia de que os próprios indígenas precisam se “decolonizar”.

“Nós sempre fomos, nós somos. Quem tem que se decolonizar são esses espaços institucionais que foram criados para nos subalternizar”, declarou.

Recorrendo ao pensamento de Célia Xakriabá, Isabel afirmou que as instituições precisam “se amansar”. A escola, a universidade e o próprio boi-bumbá precisam aprender a ouvir outras formas de conhecimento. Em diálogo com Ailton Krenak, acrescentou que o Festival de Parintins passa por um processo de “reflorestamento das mentes”.

Um festival intercultural

Isabel advertiu que o Festival de Parintins não deve ser confundido com uma manifestação cultural propriamente indígena.

“Se a gente quer acompanhar e conhecer um festival indígena, a gente tem que ir para uma comunidade, para um território, para uma aldeia”, explicou.

O espetáculo dos bois é intercultural, formado por referências indígenas, negras, caboclas, europeias e populares. Por isso, não reproduz integralmente nenhuma dessas culturas. O desafio é construir representações respeitosas, sem substituir a autonomia dos próprios povos.

Os bois podem apoiar campanhas, ampliar reivindicações e dar visibilidade às organizações indígenas. Não devem, contudo, reivindicar para si o protagonismo de lutas conduzidas durante todo o ano nos territórios.

“São três dias de festival e mais de 365 dias de luta”, resumiu Isabel.

A ancestralidade, nesse sentido, também não pode funcionar como uma prisão no passado. Povos indígenas são sujeitos contemporâneos, utilizam tecnologias, acessam universidades, produzem arte e participam das disputas políticas do presente.

Isabel sintetizou essa contradição ao observar que a sociedade admira os elementos indígenas transformados em espetáculo, mas frequentemente rejeita as pessoas que lhes dão origem.

“A nossa cultura é tida como bela, mas os povos indígenas são tidos como um problema”, afirmou.

Para ela, o bem viver começará a se tornar possível quando indígenas, quilombolas, ribeirinhos e comunidades tradicionais deixarem de ser vistos como obstáculos e passarem a ser reconhecidos como parte das soluções para a sociedade e para a preservação dos territórios.

Mãe Catirina ganha rosto, corpo e voz

Ádria Barbosa partiu de uma constatação provocadora: durante muito tempo, ser Mãe Catirina não fez parte dos sonhos das meninas de Parintins.

As crianças desejavam ser sinhazinha da fazenda, porta-estandarte, rainha do folclore ou cunhã-poranga. Essas figuras aparecem com roupas exuberantes e são avaliadas por critérios como beleza, elegância, graça, simpatia e desenvoltura.

Catirina, embora seja responsável pelo desejo que movimenta todo o auto do boi, permaneceu fora desse universo de prestígio. Ela e Pai Francisco eram apresentados como bufões, responsáveis pelo humor, pelo salto e pelo ridículo.

Ádria comparou esse apagamento ao tratamento dado a Filomena de Souza, mulher negra apontada como criadora do Boi Turuna — nome que significa “negro poderoso”. Em uma publicação da Prefeitura de Parintins sobre personalidades negras, os homens apareciam com rostos identificáveis, enquanto Filomena era representada apenas por uma silhueta.

A imagem, segundo Ádria, materializava o apagamento das mulheres negras: reconhece-se parcialmente sua contribuição, mas sua identidade continua sem rosto.

Quando assumiu Mãe Catirina, Ádria encontrou uma personagem sem subjetividade. Em um primeiro momento, ainda utilizou elementos herdados das representações anteriores. Gradualmente, começou a retirar a pintura preta do rosto e o macacão que cobria seu corpo.

Em 2019, Mãe Catirina apareceu no Festival de Parintins sem o chamado blackface e sem o macacão preto. Ádria passou a apresentar seu próprio rosto, seu corpo e, depois da transição capilar, seu cabelo afro.

A mudança encontrou resistência. Houve quem afirmasse que ela estava descaracterizando a tradição ou tentando transformar Catirina em sinhazinha. Para Ádria, porém, não era possível preservar como tradição uma imagem criada pela ridicularização de pessoas negras.

“Eu quero ser protagonista da minha história, e não uma personagem caricata para uma sociedade racista”, afirmou, recuperando uma reflexão apresentada em seus estudos.

Quando uma criança passa a se enxergar

A transformação de Catirina produziu efeitos para além da arena.

Ádria recordou o caso de Afra Beatriz, menina negra que sofria perseguições por causa do cabelo e pensava em alisá-lo. Ao saber da situação, gravou uma mensagem dizendo que o cabelo afro carregava ancestralidade e que aquilo que já havia sido usado para ridicularizar pessoas negras também poderia comunicar beleza e potência.

Depois de assistir ao vídeo, Afra desistiu do alisamento e enviou desenhos para Ádria.

Outra mãe contou que, quando era criança, nunca havia se reconhecido nas personagens do Festival de Parintins. Com a mudança de Catirina, decidiu levar a filha Pérola vestida como a personagem.

“Quando eu era criança, nunca me vi nesses lugares”, reconheceu Ádria.

A jornalista também passou a conversar com estudantes da Escola de Artes do Caprichoso. Nos encontros, apresenta o auto do boi pela perspectiva de Catirina, deixando de tratá-la como a mulher que provocou uma tragédia na fazenda para reconhecê-la como personagem que manifesta desejo, toma decisões e põe toda a história em movimento.

Essa reconstrução não aconteceu apenas no Caprichoso. Ádria destacou o trabalho de mulheres negras que representaram Catirina no Garantido, como Rogélia Ferreira, Mara Souza e Lara Monteverde.

Ao reivindicarem roupas, maquiagem, calçados, participação em eventos e reconhecimento como parte central do auto do boi, essas mulheres demonstraram que ocupar uma personagem não significa necessariamente receber o mesmo tratamento destinado aos demais representantes.

“Já mudaram tanta coisa dentro do festival. Por que não podem tirar um momento de racismo de dentro do boi?”, questionou Mara Souza em depoimento recuperado por Ádria.

“Que beleza é essa?”

A discussão chegou também aos padrões corporais reproduzidos nas alegorias e nos itens femininos.

Um participante relatou a história de uma mulher que, ao chegar a Manaus e conhecer as imagens do festival, concluiu que era feia porque seu corpo não correspondia ao modelo apresentado pelos bois.

Gilvana recordou as críticas dirigidas a uma alegoria que apresentava uma mulher indígena com os seios naturais. Nas redes sociais, usuários diziam que os seios estavam caídos e que faltava silicone na personagem.

“A gente tem um regulamento que fala em beleza. Que beleza é essa?”, perguntou.

Segundo ela, o problema não deve ser atribuído às mulheres que ocupam os itens femininos, pois elas também são avaliadas e pressionadas a alcançar notas máximas. A questão está nos critérios de beleza inscritos no regulamento, na escolha dos jurados e na expectativa de que todas apresentem corpos modificados por cirurgias, academias ou procedimentos estéticos.

Isabel observou que mulheres indígenas aparecem frequentemente nas alegorias com seios grandes, abdômen definido, rostos afinados e corpos hipersexualizados. Em contraste, recordou com satisfação uma alegoria que representou artesãs e anciãs indígenas vestidas, sem transformar seus corpos em objetos de desejo.

A historiadora contou ainda que sua avó, indígena e moradora de comunidade, chegou a ser confundida com uma mulher em situação de rua ao entrar em uma agência bancária para retirar a aposentadoria.

“O nosso corpo nos leva a lugares e também nos tira de lugares”, refletiu.

Ádria acrescentou que as próprias toadas participam dessa transformação. Composições antigas descreviam as mulheres principalmente pela sedução, pelo sorriso e pelo desejo que despertavam. Mais recentemente, passaram a cantar guerreiras, lideranças e mulheres que batem o pé, demonstram seriedade e comunicam força.

Tradição também é espaço de disputa

As falas mostraram que uma manifestação cultural não permanece viva por repetir indefinidamente as mesmas imagens. Ela se transforma quando os grupos representados conquistam o direito de participar das decisões.

Esse processo envolve conflitos com diretorias, regulamentos, jurados, artistas e até com as próprias torcidas. Nem toda mudança acontece por conscientização: algumas são incorporadas porque produzem melhores avaliações na arena. Ainda assim, abrem caminhos que podem ser aprofundados por quem passa a ocupar esses espaços.

Ao concluir a mesa, Bruno Miranda Braga definiu as participantes como sujeitos históricos que retomam identidades e lugares anteriormente roubados. Para ele, ser mulher negra ou indígena na Amazônia significa participar de um processo contínuo de ressignificação.

Gilvana, Isabel e Ádria deixaram claro que a presença na arena é importante, mas não suficiente. A representatividade começa quando mulheres indígenas e negras deixam de ser apenas imagens concebidas por outras pessoas e passam a decidir como suas histórias serão contadas.

Como resumiu Gilvana Borari: “A nossa história quem conta somos nós”.

A transmissão completa da Mesa 3 está disponível no canal do Portal da Ciência no YouTube.

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