“A cidade também pertencia a eles”: Mesa 4 recupera bois apagados de Manaus e cobra políticas de memória em Parintins
Pesquisadores da IV Jornada de Folkcomunicação da Pan Amazônia mostraram como repressão, racismo e ausência de arquivos dificultam a compreensão da trajetória dos bois-bumbás amazônicos.
Em 1948, os bois-bumbás Mina de Ouro e Coringa escolheram um endereço estratégico para realizar uma apresentação: a frente da sede de O Jornal, em Manaus.
Não se tratava apenas de oferecer um espetáculo aos jornalistas. Os brincantes tentavam responder à imagem negativa que a imprensa vinha construindo sobre os bois e sobre os trabalhadores negros e pobres que participavam da manifestação.
Acusados de provocar desordem, conflitos e confusões pelas ruas, os grupos decidiram ocupar simbolicamente o espaço de um dos agentes responsáveis por sua criminalização. Colocaram o boi diante do jornal e disputaram publicamente o direito de contar outra história sobre si mesmos.
A fotografia desse encontro foi apresentada pelo historiador Júlio Coimbra durante a mesa “Bois da Amazônia: desafios e perspectivas para a pesquisa nas ciências humanas e sociais”, realizada na IV Jornada de Folkcomunicação da Pan Amazônia, em Parintins.
Júlio dividiu a mesa com o professor Diego Omar da Silveira, da Universidade do Estado do Amazonas. Os dois percorreram caminhos complementares: enquanto Júlio recuperou a presença negra, popular e periférica dos bois-bumbás de Manaus, Diego discutiu os obstáculos para pesquisar, preservar e divulgar a história dos bois de Parintins.
A programação previa ainda a participação do professor Antônio Maurício Costa, da Universidade Federal do Pará, que abordaria os bois paraenses, mas o pesquisador não pôde comparecer.
Quando brincar de boi era um ato de resistência
A apresentação de Júlio Coimbra teve como base sua tese de doutorado, “Um fuzuê dos demônios”: história social dos bois-bumbás de Manaus (1910-1956), defendida no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Amazonas.
O título nasceu de uma notícia publicada em 30 de junho de 1929 sobre um confronto envolvendo o Mina de Ouro, do Boulevard do Seringal Mirim, e o Caprichoso da Praça 14, em Manaus. Ao definir o encontro como um “fuzuê dos demônios”, o jornal condensava a maneira como parte da imprensa enxergava os bois e seus brincantes.
Durante a primeira metade do século XX, participar de um boi-bumbá exigia enfrentar uma série de mecanismos de controle. Os grupos precisavam solicitar licença à polícia, que investigava os antecedentes dos participantes antes de autorizar a saída pelas ruas.
Os bois que se envolviam em conflitos podiam perder a licença, ser conduzidos às delegacias e até ter seus materiais destruídos. A imprensa acompanhava prisões, divulgava brigas e reforçava a ideia de que os bumbás eram perigosos para a ordem urbana.
Em um dos casos encontrados por Júlio, dois bois foram detidos. Aquele que conseguiu pagar deixou a delegacia durante a madrugada, enquanto o outro permaneceu preso até o meio-dia.
Apesar da repressão, os brincantes continuaram organizando seus grupos, negociando licenças, mobilizando redes de apoio e ocupando as ruas.
“Uma vez que eles continuavam brincando, estavam dizendo que a cidade também pertencia a eles”, afirmou o historiador.
Uma Manaus com pelo menos 75 bois
A pesquisa identificou nominalmente 75 bois-bumbás em Manaus entre 1910 e 1956. Júlio conseguiu localizar a sede ou o território de atuação de 59 deles.
Os grupos se concentravam principalmente em áreas como Praça 14 de Janeiro, Cachoeirinha, Educandos, São Raimundo, Aparecida e Boulevard. Na época, eram bairros considerados suburbanos e reuniam uma população formada por trabalhadores negros, migrantes nordestinos, estivadores, artesãos e outros grupos populares.
Somente em 1948, a polícia registrou 30 bois brincando na cidade. O número provavelmente era maior, pois alguns grupos saíam sem autorização e permaneciam fora dos registros oficiais.
Esses dados ajudam a desconstruir a impressão de que a história dos bois-bumbás amazonenses se resume ao Festival de Parintins. Antes da consolidação da festa dos bois Garantido e Caprichoso, Manaus possuía um circuito intenso de bumbás de bairro.
Na década de 1940, eles estavam entre as principais diversões populares da capital amazonense. Mobilizavam brincantes, costureiras, músicos, vaqueiros, organizadores e torcedores.
O recorte final da pesquisa, 1956, corresponde à criação do Festival Folclórico do Amazonas. A partir desse momento, as apresentações começaram a passar por um processo mais intenso de institucionalização, embora os próprios organizadores dos bois já realizassem encontros e competições anteriormente.
O racismo que aparece mesmo quando a cor é apagada
Um dos maiores desafios da pesquisa foi reconhecer a presença negra em fontes que frequentemente omitiam a cor dos brincantes.
Os jornais podiam informar que determinado participante era estivador, trabalhador braçal ou morador de um bairro periférico, mas raramente o identificavam como negro. Isso não significa, porém, que a dimensão racial estivesse ausente.
Para Júlio, a imprensa racializava os bois ao associar sistematicamente a brincadeira à desordem, à violência, à marginalidade e à criminalidade. Ao condenar os bumbás, também construía estigmas sobre a população que os colocava nas ruas.
O historiador precisou cruzar notícias, registros policiais, informações familiares e depoimentos para recuperar essas trajetórias. A história oral tornou-se, portanto, uma ferramenta fundamental.
Foram entrevistadas pessoas com idades entre 62 e 96 anos, todas negras e, em grande parte, mulheres. Os relatos revelaram que a participação feminina não estava restrita a funções auxiliares. As mulheres sustentavam financeiramente os grupos, confeccionavam materiais e participavam da organização cotidiana dos bois.
Entre os entrevistados estava seu Donato, brincante do Boi Coringa e funcionário do Teatro Amazonas por mais de 50 anos. Falecido em 2025, aos 90 anos, ele contou que seus pais também eram negros e descreveu os participantes dos bumbás como “pessoas negras como eu” e “trabalhadores como eu”.
A memória de seu Donato ajudou Júlio a conectar nomes encontrados nos jornais às famílias que permaneceram ligadas aos bois nas décadas seguintes.
Entre a repressão e o patrimônio
A trajetória apresentada na mesa começa com bois perseguidos pela polícia e classificados como um “fuzuê dos demônios”, mas chega a um momento em que a manifestação passa a ser reconhecida como patrimônio cultural.
Essa passagem não aconteceu de forma automática. Foi resultado da resistência dos brincantes, da continuidade das famílias, das redes de solidariedade e do esforço para manter os grupos ativos diante das transformações urbanas.
Os bois de bairro não eram somente formas de entretenimento. Funcionavam como espaços de sociabilidade, pertencimento, organização comunitária, produção artística e afirmação do direito à cidade.
Hoje, entretanto, os bois de Manaus enfrentam dificuldades para mobilizar público e manter suas atividades. Ao contrário do que ocorria na primeira metade do século XX, o festival da capital recebe poucos espectadores e reúne um número reduzido de grupos.
Para Júlio, valorizar os bois da Amazônia significa olhar para além dos grandes espetáculos. É necessário reconhecer as trajetórias dos bumbás de bairro, dos grupos infantis, das comunidades e das pessoas que trabalharam para preservar a brincadeira quando ela ainda não possuía prestígio institucional.
Como contar a história de Parintins?
Diego Omar da Silveira iniciou sua exposição com uma pergunta que escuta frequentemente no Laboratório de Estudos das Festas, Folclores e Tradições, o Labfest, e no Centro de Documentação e Memória do Caprichoso: qual livro apresenta uma história atualizada do Festival de Parintins?
A resposta não é simples.
Existem obras fundamentais, mas cada uma corresponde a determinado momento, perspectiva ou campo de pesquisa. Para uma leitura mais sociológica, histórica ou antropológica, por exemplo, é necessário recorrer a trabalhos distintos.
Ao percorrer a bibliografia, Diego identificou inicialmente a geração dos memorialistas: pessoas diretamente ligadas aos bois que começaram a registrar histórias anteriormente transmitidas pela oralidade.
Entre esses nomes estão Dinei Andrade, Raimundinho Dutra, Tonzinho Saunier e Dé Monteverde. Seus livros preservaram informações que poderiam ter desaparecido com a morte dos antigos brincantes.
A expansão do Festival de Parintins, especialmente entre as décadas de 1990 e 2000, despertou o interesse de pesquisadores de outras regiões. Trabalhos como os de Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti e Sérgio Ivan Gil Braga inauguraram estudos socioantropológicos que procuraram compreender a transformação da brincadeira em um grande espetáculo.
Posteriormente, surgiram livros de síntese e reportagens destinadas a explicar o festival para públicos mais amplos. Diego citou, entre eles, o trabalho de Allan Rodrigues sobre a passagem da brincadeira comunitária para um evento de grande apelo cultural, midiático e comercial.
Com a interiorização das universidades públicas e o fortalecimento da pesquisa em Parintins, a produção se multiplicou. Segundo Diego, um levantamento realizado pelo Labfest ultrapassou 350 registros entre artigos, trabalhos apresentados em eventos, monografias, dissertações e teses.
O problema deixou de ser a ausência de estudos. Passou a ser a dificuldade de reunir, organizar e relacionar tudo o que já foi produzido.
Quando os influenciadores ocupam o vazio
A ausência de uma narrativa atualizada e acessível produz outro problema. Se pesquisadores não conseguem conversar com diferentes públicos, versões pouco qualificadas passam a ocupar esse espaço.
Diego criticou influenciadores e agentes comerciais que chegam a Parintins, produzem conteúdos rápidos e reproduzem informações equivocadas sobre a festa.
Campanhas publicitárias utilizam imagens de bois do Maranhão para falar de Parintins ou geram figuras por inteligência artificial com uma estética que não corresponde às tradições locais. Em um dos exemplos apresentados, o boi aparecia excessivamente realista e associado a referências visuais estrangeiras.
Para o pesquisador, a solução não está em abandonar a comunicação, mas em produzir uma divulgação amparada em fontes, pesquisas e participação local.
“Temos que falar com novos públicos, porque, se a gente não faz isso, uma mídia não tão qualificada faz”, alertou.
Esse trabalho esbarra, entretanto, na falta de arquivos, museus e centros de documentação no interior do Amazonas. Fotografias, entrevistas, projetos, recortes de jornais e registros audiovisuais permanecem espalhados em casas, galpões, secretarias, emissoras e acervos particulares.
Memórias demais, arquivos de menos
Diego definiu a situação de Parintins como um paradoxo: existe um “excesso de memórias”, mas poucas estruturas capazes de transformá-las em acervos acessíveis.
Todos os anos, jornalistas procuram os mesmos integrantes das comissões, conselhos de arte e famílias tradicionais. As entrevistas geralmente são curtas e orientadas para atender às necessidades imediatas de uma reportagem.
Muitas vezes, o entrevistado não recebe uma cópia do material, vê sua fala excessivamente recortada ou percebe que o conteúdo foi utilizado fora do contexto. Com o tempo, alguns guardiões da memória deixam de aceitar novos pedidos.
No Centro de Documentação e Memória do Caprichoso, Diego participou da realização de cerca de 100 entrevistas. O objetivo era construir um banco ainda maior, reunindo não apenas os mais velhos, mas artistas, torcedores, trabalhadores, visitantes e novas gerações.
A proposta reconhecia que a memória de um boi não é única. Se 100 pessoas forem entrevistadas, surgirão diferentes versões, contradições e conflitos.
Essa pluralidade pode incomodar as próprias agremiações. Uma entrevista pode revelar disputas internas, questionar versões consagradas ou ser utilizada pelo boi adversário. Sem recursos e sem acordos institucionais sobre a divulgação, os depoimentos permanecem guardados e fora do alcance de outros pesquisadores.
Para Diego, isso cria um trabalho incompleto: as memórias são registradas, mas não circulam.
“Cada pesquisador não pode ter que começar do zero”, defendeu.
Parintins não começou apenas com Garantido e Caprichoso
Outro desafio é recolocar o Festival de Parintins dentro de uma história amazônica mais ampla.
Segundo Diego, algumas narrativas saltam diretamente das referências aos bois do século XIX para Garantido e Caprichoso. Com isso, deixam de considerar a importância dos bois de Manaus, dos festivais existentes na capital e das circulações culturais que atravessavam a região.
Essa construção pode produzir uma originalidade artificial, como se o Festival de Parintins tivesse surgido isoladamente.
O pesquisador também chamou a atenção para a participação das autoridades religiosas e dos setores conservadores na institucionalização da disputa. A Igreja Católica conseguiu organizar aquilo que o poder civil não havia controlado: os confrontos entre bois que brincavam pelas ruas, sem um regulamento único.
Compreender esse processo exige observar quem passou a definir as regras, administrar os recursos e construir a narrativa oficial do festival.
Existem muitos bois dentro de Parintins
A diversidade interna também não pode ser reduzida à rivalidade entre Caprichoso e Garantido.
Parintins possui bois mirins, bois em miniatura, grupos escolares e bumbás comunitários. Há brincadeiras mantidas por centros de educação infantil há décadas e bois associados à construção da identidade de bairros e antigas áreas de ocupação.
O professor Eliseu Souza, citado durante a mesa, mapeou quase 30 bois em escolas. Outras pesquisas identificaram mais de uma dezena de experiências em comunidades.
Esses grupos mostram que o boi não existe somente na arena. Ele participa da infância, da educação, das relações de vizinhança e da organização cotidiana das comunidades.
Diego defendeu, por isso, que as pesquisas ultrapassem categorias como boi de arena, boi de rua e boi de terreiro. É necessário compreender como diferentes grupos se apropriam da brincadeira e constroem pertencimentos a partir dela.
O Bumbódromo sem documentação
A precariedade dos arquivos ficou evidente quando Diego participou da preparação de uma exposição sobre a história do Bumbódromo.
Inaugurado em 1988, o edifício transformou a paisagem e o desenvolvimento urbano de Parintins. Apesar disso, o pesquisador não encontrou projetos, fotografias ou registros sistematizados sobre sua construção nas instituições consultadas.
A falta de documentação impede até mesmo que determinadas hipóteses sejam confirmadas. Diego observou, por exemplo, semelhanças entre o Bumbódromo e o Sambódromo do Rio de Janeiro, tanto pela proximidade das datas quanto pela intenção de abrigar escolas e serviços sociais sob as arquibancadas.
As aproximações políticas entre os governos daquele período tornam essa relação possível, mas, sem os documentos, ela permanece apenas como uma hipótese.
Jornais informaram que seus acervos estavam fechados, desorganizados ou indisponíveis. Uma emissora alegou não possuir equipamento para digitalizar imagens e não autorizou que o próprio pesquisador realizasse o trabalho.
Dessa maneira, Parintins se aproxima dos 40 anos do Bumbódromo sem conseguir contar adequadamente como seu principal espaço cultural foi projetado e construído.
Um museu precisa pertencer à comunidade
Na ocasião da mesa, Diego afirmou que o prédio destinado ao Museu dos Bois estava pronto havia mais de um ano, mas ainda não havia sido entregue à população por falta de um projeto consistente para seu conteúdo.
O pesquisador alertou para o risco de o espaço ser planejado por profissionais externos, sem diálogo com brincantes, pesquisadores, artistas, famílias e comunidades.
“Um museu onde não há pertencimento fica às moscas, esperando algum turista bater lá”, afirmou.
Para Diego, o museu não pode funcionar apenas como depósito de objetos antigos ou vitrine tecnológica. Precisa realizar pesquisas, captar memórias, organizar acervos, produzir exposições, dialogar com a sociedade e devolver conhecimento à comunidade.
Ele também questionou propostas de um museu inteiramente virtual. Recursos digitais podem ampliar a experiência, mas não substituem documentos, fotografias, figurinos, objetos e depoimentos. Além disso, tecnologias sofisticadas exigem manutenção constante — um desafio ainda maior no interior do Amazonas.
Preservar a festa também é preservar seus documentos
Ao final da mesa, uma jornalista presente destacou que a relação entre pesquisadores e imprensa precisa ser reconstruída. Cientistas receiam que suas pesquisas sejam simplificadas ou distorcidas, enquanto jornalistas encontram dificuldades para localizar fontes e acervos confiáveis.
A solução proposta foi a criação de um programa interdisciplinar, reunindo universidades, cursos de Jornalismo e História, bois-bumbás, pesquisadores, arquivos públicos e profissionais da comunicação.
A preservação do patrimônio imaterial não pode se restringir aos saberes, fazeres e performances. Precisa alcançar o legado documental produzido pelas comunidades brincantes: entrevistas, fotografias, jornais, toadas, projetos, vídeos, figurinos e registros administrativos.
A Mesa 4 mostrou que a história dos bois da Amazônia permanece em disputa. Em Manaus, é necessário recuperar a presença de trabalhadores negros e pobres que resistiram à repressão e fizeram do boi uma forma de reivindicar o direito à cidade. Em Parintins, o desafio é impedir que a grandiosidade do espetáculo encubra os pequenos bois, as contradições históricas e as memórias ainda dispersas.
Sem pesquisa, acervo e participação comunitária, a história pode ser simplificada, comercializada ou reescrita conforme os interesses do presente. Preservá-la significa garantir que os brincantes continuem participando da definição do que os bois foram, do que são e do que ainda poderão ser.
A transmissão das Mesas 3 e 4 está disponível no canal do Portal da Ciência no YouTube.




Comentários