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“A Amazônia não é só aquela imagem que a gente vê de satélite”: Marilene Corrêa analisa as metamorfoses da Pan-Amazônia

11 de ago.
8 min de leitura

Em conferência realizada durante a III Jornada Pan-Amazônica de Folkcomunicação, pesquisadora discutiu as fronteiras políticas da região, a violência contra os povos originários, a apropriação dos conhecimentos tradicionais e a necessidade de construir uma Amazônia de diferentes línguas, culturas e formas de viver.



Vista de cima, a Amazônia parece uma extensa superfície verde, atravessada por rios que não reconhecem divisas territoriais. No chão, entretanto, essa aparente unidade se desfaz em fronteiras nacionais, conflitos fundiários, interesses econômicos, línguas, culturas, cidades, comunidades tradicionais e formas profundamente desiguais de presença do Estado.

Foi a partir desse contraste que a professora Marilene Corrêa da Silva Freitas apresentou a conferência “Metamorfoses da Pan-Amazônia”, durante a III Jornada Pan-Amazônica de Folkcomunicação e o V Encontro de Comunicação de Parintins (Encomtins).

Realizados entre os dias 20 e 22 de junho de 2022, no Instituto de Ciências Sociais, Educação e Zootecnia da Universidade Federal do Amazonas (ICSEZ/UFAM), em Parintins, os eventos reuniram pesquisadores, jornalistas, estudantes e representantes de movimentos sociais para discutir comunicação, cultura e crise do jornalismo. A conferência integrou a programação do primeiro dia, logo depois da cerimônia oficial de abertura, conforme a programação divulgada pela UFAM.

A atividade foi coordenada pelo professor Adelson da Costa Fernando, do ICSEZ/UFAM. Professora titular do Departamento de Ciências Sociais da UFAM, Marilene Corrêa possui uma trajetória dedicada ao estudo da Amazônia, do pensamento social, das políticas científicas e do desenvolvimento regional. A pesquisadora também foi secretária de Ciência e Tecnologia do Amazonas e reitora da Universidade do Estado do Amazonas, como registra a página oficial da conferência.

A Amazônia não termina nas fronteiras brasileiras

Um dos primeiros movimentos da conferência foi questionar a ideia de que a Amazônia possa ser compreendida exclusivamente como território brasileiro.

Ao apresentar mapas da região, Marilene chamou atenção para uma Amazônia que alcança Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Peru, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa. São territórios submetidos a legislações, interesses econômicos e projetos nacionais diferentes, embora compartilhem rios, florestas, povos, ecossistemas e problemas ambientais.

A pesquisadora falou, por isso, em diferentes Amazônias: indígena, andina, caribenha, oriental, ocidental e brasileira. A expressão Pan-Amazônia tenta reunir essa diversidade, mas não elimina as particularidades existentes em cada território.

A continuidade da floresta não significa, portanto, uma continuidade das políticas públicas. Um rio pode atravessar vários países, enquanto o atendimento de saúde, a educação, a fiscalização ambiental e a proteção territorial terminam na linha imaginária de uma fronteira.

O mesmo acontece com os povos indígenas. Comunidades e grupos étnicos podem estar distribuídos entre dois ou mais países, mas são contabilizados, reconhecidos e atendidos de maneiras diferentes por cada Estado nacional.

Pensar a Pan-Amazônia exige, assim, reconhecer uma contradição fundamental: os ecossistemas estão interligados, mas as instituições responsáveis por protegê-los permanecem separadas.

Uma ideia de integração que nasceu com as lutas de libertação

Marilene também recuperou a dimensão histórica do conceito de integração amazônica e latino-americana.

Segundo a pesquisadora, a integração não surgiu originalmente como um projeto conservador. Ela esteve presente no imaginário político das lutas de libertação das colônias e dos movimentos que buscavam construir sociedades independentes nas Américas.

Posteriormente, a ideia foi apropriada por governos autoritários e associada a projetos militares de ocupação territorial. No Brasil, expressões como “integrar para não entregar” ajudaram a consolidar uma concepção de Amazônia baseada em estradas, grandes obras, exploração de recursos naturais e controle das fronteiras.

A conferencista mostrou que existe uma diferença decisiva entre integrar povos e integrar mercados.

Uma integração orientada apenas por rodovias, mineração, produção agropecuária, hidrelétricas e circulação de mercadorias pode aumentar a exploração da região sem melhorar as condições de vida de quem mora nela.

Já uma integração construída a partir dos povos exigiria políticas de saúde, educação, proteção territorial, circulação de conhecimentos e cooperação entre comunidades separadas pelas fronteiras nacionais.

“Quem protege as florestas são os povos”

Ao comentar os assassinatos do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips, que mobilizavam o país naquele período, Marilene pronunciou uma das frases centrais da conferência:

“A Amazônia não é só aquela imagem que a gente vê de satélite, linda, coberta de verde e de rios. Quem protege as florestas são os povos.”

A afirmação deslocou o olhar da paisagem para as pessoas.

A floresta observada por satélite pode parecer vazia e silenciosa. Entretanto, seus territórios são habitados, cultivados, navegados, nomeados e interpretados por sociedades que acumularam conhecimentos durante gerações.

Quando essas populações são expulsas, ameaçadas ou assassinadas, não desaparecem apenas indivíduos e comunidades. Desaparecem línguas, práticas de manejo, sistemas de classificação das plantas, conhecimentos sobre os rios, narrativas de origem, formas de organização social e maneiras particulares de compreender o tempo e o mundo.

Para Marilene, cada povo representa “um universo a ser conhecido e um universo a ser explicado”. A defesa da biodiversidade, nessa perspectiva, não pode ser separada da defesa da diversidade cultural.

Uma violência que não acontece de uma vez

Outro conceito mobilizado pela pesquisadora foi o de “violência lenta”, desenvolvido pelo escritor e pesquisador Rob Nixon.

Diferentemente de uma explosão, de um massacre ou de um desastre imediatamente visível, a violência lenta acumula seus efeitos ao longo de anos e até de séculos. Ela pode estar na contaminação gradual dos rios pelo mercúrio, na redução da pesca, no desmatamento que altera o regime das águas, na expulsão de comunidades ou na disseminação de doenças provocadas pelo contato.

Trata-se de uma violência difícil de transformar em imagem e, muitas vezes, difícil de converter em notícia. Por não acontecer em um único momento, seus responsáveis podem desaparecer do campo de visão enquanto os efeitos continuam atingindo sucessivas gerações.

Marilene identificou diferentes etapas desse processo histórico.

A primeira foi marcada pela invasão dos territórios e pelo extermínio de populações originárias.

A segunda intensificou a desterritorialização, com a pressão de empresas, a expansão das fronteiras agrícolas e a implantação de grandes obras sobre terras tradicionalmente ocupadas.

A etapa mais recente envolve também a apropriação dos conhecimentos tradicionais, da biodiversidade e dos recursos genéticos associados às práticas desenvolvidas por essas populações.

A exploração, portanto, não se limita ao que está debaixo da terra ou dentro da floresta. Ela alcança o conhecimento produzido pelos povos sobre sementes, plantas, fungos, alimentos, remédios e formas de manejo dos ecossistemas.

Nesse ponto, a conferência estabeleceu uma ligação direta com a comunicação: tornar visível uma violência lenta é também uma responsabilidade de pesquisadores, educadores e jornalistas.

Quando o especialista não conhece o rio

Marilene questionou ainda a hierarquia que reconhece como especialista apenas aquele que possui formação acadêmica.

Nas cidades e comunidades amazônicas, barqueiros, remadores, pescadores, agricultores e extrativistas dominam conhecimentos que muitas vezes não aparecem nos relatórios técnicos. Sabem interpretar a correnteza, reconhecer mudanças no nível das águas, diferenciar espécies e identificar sinais do tempo.

A pesquisadora lembrou que muitos povos desenvolveram sistemas complexos de classificação das terras, das madeiras e das áreas inundáveis. Muito antes da chegada da ciência institucionalizada, eles já diferenciavam ambientes de terra firme, várzea e igapó, além de dominarem técnicas de navegação, cultivo e domesticação de espécies.

O desafio não é substituir o conhecimento científico pelo tradicional, mas criar condições para que diferentes formas de conhecimento dialoguem sem que uma delas se apresente como dona absoluta da verdade.

Essa mudança exige reconhecer que os moradores da região não são apenas fontes de informação ou objetos de pesquisa. São sujeitos que produzem conhecimento e devem participar das decisões sobre seus territórios.

O bem-viver como alternativa política

Ao discutir as respostas construídas pelos povos originários, Marilene destacou o conceito de bem-viver, incorporado aos debates políticos e às constituições do Equador e da Bolívia.

“Hoje, a alternativa para viver a Amazônia dos povos é o conceito do bem-viver”, afirmou.

O bem-viver não significa simplesmente possuir renda ou ter acesso ao consumo. Ele envolve memória histórica, respeito aos territórios, identidade, idioma, soberania alimentar, direitos coletivos e condições para que cada povo defina o próprio futuro.

A proposta questiona uma concepção de desenvolvimento baseada no crescimento econômico permanente e na transformação da natureza em mercadoria.

Para a conferencista, o bem-viver pode parecer uma utopia diante das pressões contemporâneas, mas funciona como uma “utopia positiva”: uma referência política capaz de orientar reivindicações e mostrar que existem outras maneiras de organizar a vida social.

Cooperação sem retirada de soberania

A existência de problemas comuns não significa que a Pan-Amazônia possa ser administrada como um território sem países, leis ou governos.

Marilene demonstrou preocupação com propostas que transformam a região em uma espécie de superestrutura colocada acima dos Estados nacionais. Uma instituição supranacional com poder para decidir sobre florestas, águas e recursos genéticos poderia reduzir a autonomia dos países amazônicos e abrir espaço para interesses privados ou estrangeiros.

Ao mesmo tempo, nenhum país é capaz de enfrentar sozinho problemas que atravessam fronteiras.

A contaminação de um rio pode começar em um território e alcançar comunidades localizadas em outro. Povos indígenas circulam por áreas anteriores à formação dos Estados nacionais. Redes de garimpo, tráfico, extração ilegal de madeira e exploração da biodiversidade também operam de forma transfronteiriça.

A solução apresentada pela pesquisadora passa pela construção de acordos, protocolos e mecanismos de cooperação, com participação dos povos amazônicos e respeito à soberania de cada país.

O problema não é apenas geográfico ou ambiental. É essencialmente político: os países possuem projetos nacionais diferentes, instituições desiguais e distintas formas de relacionamento entre governos e sociedades.

Territórios educativos para além das fronteiras

O debate com o público aprofundou a discussão sobre educação e autonomia.

Em pergunta encaminhada pelo chat, a professora Soriany Simas questionou o que um novo governo brasileiro poderia fazer para ampliar a participação dos povos originários nas decisões do Estado.

Marilene defendeu políticas de saúde, educação bilíngue, autonomia territorial e ampliação dos territórios etnoeducacionais. Em sua avaliação, esses territórios não deveriam ficar restritos às fronteiras brasileiras.

A proposta permitiria construir políticas educativas compartilhadas em regiões onde um mesmo povo vive em países diferentes. Uma comunidade separada entre Brasil e Colômbia, por exemplo, poderia participar de um projeto educacional que considerasse sua língua, seu território e seus conhecimentos, em vez de ser submetida a programas completamente desconectados.

A professora Janine de Kássia Rocha Bargas, da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará, levou a discussão para o interior das universidades. Ela perguntou como o ingresso de indígenas, quilombolas e integrantes de outras populações tradicionais poderia contribuir para a autodeterminação desses grupos.

Marilene reconheceu o avanço das políticas de reserva de vagas e permanência, mas alertou que a entrada dos estudantes não transforma automaticamente a universidade.

O desafio aparece no cotidiano: professores que desconhecem as línguas indígenas, currículos organizados a partir de referências eurocêntricas e instituições que recebem estudantes de diferentes culturas sem modificar suas práticas.

A conferencista recorreu à experiência de São Gabriel da Cachoeira para mostrar essa distância. Enquanto muitos indígenas da região se comunicam em português, espanhol e línguas como baniwa e tukano, grande parte dos professores não domina nenhuma língua indígena.

Para Marilene, a universidade precisa deixar de apenas incluir novos estudantes em uma estrutura antiga. Ela deve permitir que os conhecimentos trazidos por esses estudantes também transformem o ensino, a pesquisa e as relações institucionais.

Uma questão central para a Folkcomunicação

A conferência demonstrou que a disputa pela Amazônia também é uma disputa por narrativas.

Quem pode nomear a região? Quem define o que é desenvolvimento? Quem aparece como especialista? Quem é ouvido quando um projeto econômico ameaça um território? Quem transforma uma denúncia local em assunto público?

Essas perguntas aproximam diretamente as metamorfoses da Pan-Amazônia do campo da Folkcomunicação.

Os povos amazônicos produzem e fazem circular informações por meio de suas línguas, festas, narrativas, músicas, conhecimentos ancestrais, organizações comunitárias e formas próprias de mobilização. Esses processos não são apenas manifestações culturais. São maneiras de interpretar o mundo, preservar memórias, denunciar ameaças e disputar decisões políticas.

Ao final, Marilene defendeu uma região simultaneamente continental e internacional, mas comprometida com os projetos democráticos de seus povos e países.

Seu desejo, afirmou, é que seja possível olhar para “uma Amazônia de todas as cores, de todas as línguas, de todos os quadrantes, de todos os biomas e de todos os ecossistemas”.

A metamorfose mais importante talvez seja justamente essa: deixar de enxergar a Amazônia como uma reserva distante de recursos e reconhecê-la como um território vivo, narrado e transformado diariamente pelos povos que o habitam.

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