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Vídeo apresentado na Folkcom 2003 preserva a memória do chuvisco de Campos

Documentário de Paulo de Almeida Ourives registra a história de Nize “Mulata” Teixeira, o trabalho das doceiras campistas e os desafios para a continuidade dessa tradição


Conhecida como terra do açúcar e do petróleo, Campos dos Goytacazes também construiu parte de sua identidade em torno de um pequeno doce feito com gemas de ovos, farinha e calda de açúcar. Essa história é recuperada no vídeo-documentário Chuvisco: doce e história, produzido pelo jornalista e pesquisador Paulo de Almeida Ourives e apresentado na VI Conferência Brasileira de Folkcomunicação, realizada em 2003, no SESC Mineiro de Grussaí, em São João da Barra, no Rio de Janeiro.


O encontro, ocorrido entre os dias 3 e 6 de abril, teve como tema “Difusão do Folclore pelas Indústrias Midiáticas”. Nesse contexto, o documentário de pouco mais de nove minutos voltou-se para a culinária como espaço de memória, comunicação e transmissão cultural. Mais do que apresentar uma receita, o vídeo registra os sujeitos responsáveis pela transformação do chuvisco em uma referência de Campos.


A narrativa começa com o depoimento de Vera Louback, então presidente da Cooperdoce. Ela atribui ao chuvisco uma origem portuguesa e relaciona sua chegada ao Brasil à transferência da Corte portuguesa para o Rio de Janeiro. Segundo a entrevistada, o doce teria deixado progressivamente os ambientes palacianos e passado a circular entre diferentes camadas da população.


Em Campos, a difusão do chuvisco aparece ligada principalmente a Nize Teixeira de Vasconcelos, conhecida como Mulata Teixeira. Reconhecida como uma das grandes doceiras campistas, ela teria recebido a receita de uma pessoa vinda do Rio de Janeiro e, depois de sucessivas tentativas, encontrado o ponto adequado para sua fabricação. O documentário a apresenta como a primeira mulher a comercializar regularmente o doce na cidade, até então produzido sobretudo no ambiente doméstico.


O reconhecimento alcançado por Mulata Teixeira contrasta, porém, com o apagamento de sua memória. No Parque Rosário, a equipe entrevista moradores da rua que leva o nome de Nize Teixeira de Vasconcelos. Nenhum deles sabe explicar quem foi a homenageada ou conhece sua relação com a história do chuvisco. A sequência evidencia como uma personagem pode permanecer inscrita no espaço urbano e, ainda assim, desaparecer da memória cotidiana de quem o habita.


O vídeo também recupera o depoimento do ex-vereador Roberto Ribeiro de Souza, autor da lei que, em 1989, deu o nome de Nize Teixeira de Vasconcelos a uma rua da cidade. Ribeiro recorda que sua tia, dona Vitória, também doceira, reconhecia Mulata Teixeira como uma das maiores representantes dessa tradição em Campos e no Estado do Rio de Janeiro.

Segundo o ex-vereador, usineiros e autoridades locais costumavam oferecer os chuviscos produzidos por Mulata Teixeira a visitantes ilustres. Getúlio Vargas e Amaral Peixoto aparecem entre as personalidades que teriam experimentado o doce. Bandejas também eram levadas por representantes campistas em viagens para outros estados e países, fazendo do chuvisco não apenas uma iguaria, mas um símbolo utilizado para representar a cidade.


A dimensão afetiva e cotidiana do ofício aparece no depoimento da professora aposentada Elineia, que produzia chuviscos para vender e havia ingressado na Cooperdoce. “Isso é uma terapia”, afirma a doceira ao falar do prazer encontrado na produção. Ao mesmo tempo, relata que não conseguiu transmitir o saber à filha, que não se interessou pela atividade.


É nessa tensão entre continuidade e ruptura que o documentário encerra sua narrativa. De um lado, estão as doceiras, as cooperativas e os circuitos familiares responsáveis pela preservação da técnica. De outro, aparecem a falta de incentivo à produção local de matérias-primas, as mudanças nas relações de trabalho e a circulação das receitas em sites de culinária. O vídeo pergunta, então, se uma tradição com cerca de 150 anos conseguiria sobreviver à globalização.


Visto mais de duas décadas depois, o próprio documentário oferece uma resposta parcial. A circulação digital pode modificar as formas tradicionais de transmissão, mas também permite preservar vozes, histórias e personagens que poderiam desaparecer. Disponível hoje no YouTube, o registro apresentado na Folkcom 2003 mantém viva não apenas a memória do chuvisco, mas também a das mulheres que fizeram dele um patrimônio afetivo e cultural de Campos dos Goytacazes.



 
 
 

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