“Curar ausências”: Andriolli Costa aproxima folkcomunicação e antropologia da saúde
- Andriolli Costa
- há 1 dia
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Em ciclo internacional promovido pela Universidad Interamericana, professor da UERJ discutiu como crenças, narrativas e práticas comunitárias atravessam a experiência do adoecimento
Tratar uma doença exige reconhecer sua dimensão biológica. Cuidar de uma pessoa, entretanto, também implica compreender o mundo no qual ela atribui sentido ao que sente. Essa foi a ideia central da aula ministrada por Andriolli Costa, professor adjunto do Departamento de Jornalismo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), durante a Jornada de Invierno de Investigación da Universidad Interamericana, no Paraguai.
Realizada em 21 de julho de 2026, a aula “Antropología de la salud: la enfermedad como metáfora” integrou o ciclo internacional de webinários “Humanidades Médicas: Artes, Literaturas y Clínicas de los Sujetos”. A programação foi promovida pela Faculdade de Medicina da Universidad Interamericana nos dias 20 a 24 e 27 a 29 de julho, com participantes da Argentina, do Brasil, do Chile e do Paraguai. A apresentação de Costa ocupou o segundo dia do evento, conforme a programação divulgada.
Benzimentos, ex-votos, chás, garrafadas, encantados e narrativas míticas foram abordados não como substitutos do atendimento médico, mas como linguagens por meio das quais diferentes grupos sociais procuram compreender e comunicar o adoecimento.
Quando a metáfora produz culpa e silêncio
O ponto de partida da aula foi A doença como metáfora, ensaio publicado por Susan Sontag em 1978. Na obra, a escritora examina como enfermidades como tuberculose e câncer foram revestidas de julgamentos morais e psicológicos. Em diferentes períodos, a doença chegou a ser apresentada como consequência de sentimentos reprimidos, fraqueza individual ou algum tipo de culpa.
A crítica de Sontag dirige-se especialmente às metáforas que estigmatizam o paciente e dificultam o tratamento. A autora defendia que o câncer não deveria ser entendido como maldição, punição ou motivo de vergonha, conforme registra seu site oficial.
Durante a aula, Andriolli recordou situações nas quais pessoas evitavam pronunciar a palavra “câncer”, substituindo-a por expressões como “aquilo”, “a coisa” ou “a bola”. O silêncio aproxima a enfermidade de uma criatura temida, como se dizer seu nome pudesse invocá-la.
A proposta apresentada pelo professor não foi contrariar Sontag nem recuperar interpretações culpabilizadoras. O deslocamento consistiu em perguntar o que as imagens empregadas pelos pacientes podem revelar sobre seus medos, vínculos familiares, memórias e expectativas.
Compreender antes de corrigir
Para Andriolli, humanizar o atendimento não se resume a traduzir termos técnicos. Também é necessário reconhecer que o paciente possui uma compreensão própria do corpo, da doença, da natureza e das relações sociais.
Em vez de iniciar o diálogo desqualificando uma crença, o profissional pode perguntar como aquela pessoa explica o que está acontecendo. A resposta não substitui exames ou diagnósticos, mas pode revelar aspectos da experiência que uma observação exclusivamente clínica não alcança.
Um dos exemplos apresentados foi a panema, categoria amazônica cujos sentidos variam entre comunidades e contextos, mas por vezes relacionada ao azar, ao infortúnio. Na narrativa mobilizada durante a aula, o fracasso de um caçador foi relacionado à quebra de regras que organizavam sua relação com a mata. O exemplo incluía a figura do Curupira e o interdito de abater animais prenhes. "Como se cura isso?".
Compreender esse sistema não significa abandonar uma investigação clínica quando ela for necessária. Significa reconhecer que uma orientação de saúde desconectada do universo do paciente pode encontrar dificuldades para produzir confiança e adesão.
O mesmo raciocínio foi aplicado ao mau-olhado, aos chamados bruxedos e à procura por benzedeiros, chás ou garrafadas. Essas práticas podem comunicar conflitos familiares, receios, conhecimentos transmitidos entre gerações ou experiências históricas de acesso insuficiente aos serviços públicos.
A folkcomunicação como forma de escuta
Foi nesse ponto que Andriolli apresentou a contribuição da folkcomunicação. A origem desse campo de estudos está vinculada ao artigo “O ex-voto como veículo jornalístico”, publicado por Luiz Beltrão em 1965, e à tese de doutorado defendida pelo pesquisador em 1967. A teoria procura compreender como grupos populares produzem e fazem circular informações por canais próprios, especialmente quando se encontram afastados dos meios hegemônicos de comunicação.
Na leitura historiográfica desenvolvida por Costa, a formação desse pensamento também deve ser compreendida em diálogo com a folclorística de Edison Carneiro. Festas, ritos, cantos, objetos religiosos e narrativas orais podem funcionar como espaços de comentário social, reivindicação e resistência. A cultura popular torna-se, ao mesmo tempo, expressão artística e tribuna a partir da qual comunidades comunicam seus modos de pensar, sentir e agir.
Na saúde, esse olhar ajuda a compreender a atuação de parteiras, benzedeiros, raizeiros e outras lideranças comunitárias. A autoridade dessas pessoas não decorre necessariamente de uma formação biomédica, mas de vínculos construídos pela convivência e pela presença cotidiana em seus territórios.
Isso não significa que todas as informações transmitidas por esses mediadores sejam seguras. Significa que desqualificá-los sem compreender a posição que ocupam pode romper canais importantes de diálogo. A aproximação precisa combinar escuta cultural, responsabilidade profissional e avaliação de riscos.
Ex-votos comunicam experiências de adoecimento
A aula também recuperou os ex-votos, objetos oferecidos em agradecimento por uma graça alcançada. Mãos, pernas, cabeças, corações e outras partes do corpo, moldadas em madeira, cera ou diferentes materiais, aparecem em igrejas e santuários como testemunhos de curas, acidentes e situações de perigo.
Para Beltrão, esses objetos não eram somente peças devocionais: também funcionavam como veículos de comunicação. Pesquisas posteriores continuam analisando os ex-votos como registros de memória e narrativas sobre saúde, fé e vida cotidiana.
A repetição de determinadas representações pode sugerir perguntas sobre acidentes, enfermidades ou condições de trabalho recorrentes em uma comunidade. Entretanto, um conjunto de ex-votos não permite, sozinho, calcular incidência ou estabelecer conclusões epidemiológicas. Para isso, seriam necessárias informações sobre procedência, data, população e contexto de produção.
Seu valor está em tornar visíveis experiências que podem não aparecer nos registros oficiais e em indicar caminhos para novas investigações.
Cultura popular em tempos de crise
A pandemia de Covid-19 atravessou diferentes momentos da apresentação. Andriolli relatou um encontro de campo com um artesão de Manaus que atribuía sua recuperação ao uso de garrafadas e dizia ter evitado o hospital durante a crise de oxigênio de janeiro de 2021.
O depoimento não foi apresentado como comprovação da eficácia terapêutica da bebida. Ele serviu para discutir como o colapso do abastecimento de oxigênio e o medo dos hospitais afetaram decisões individuais. A falta do insumo no Amazonas foi registrada naquele período pela Organização Pan-Americana da Saúde.
Outro exemplo foi a retomada da figura de Amabie, um yōkai de aspecto marinho registrado no Japão em 1846. Segundo a narrativa, a criatura teria anunciado um período de doenças e recomendado que sua imagem fosse reproduzida.
Durante a pandemia, desenhos de Amabie circularam amplamente nas redes sociais. A figura chegou a ser utilizada pelo Ministério da Saúde japonês em ações de conscientização, conforme registra o Museu de Antropologia da Universidade da Colúmbia Britânica.
Para Andriolli, essa circulação pode ser compreendida como uma forma de resistência simbólica. A imagem não oferecia proteção clínica, mas fornecia uma linguagem coletiva para expressar medo, continuidade e esperança diante da crise.
Cuidado, memória e presença
A dimensão afetiva apareceu na discussão sobre a mãe do corpo. Em comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas e agroextrativistas da Amazônia, a expressão pode designar uma força ou um eixo corporal percebido na região do umbigo, relacionado a conhecimentos sobre fertilidade, saúde das mulheres, gestação, parto e puerpério. Seu significado, porém, varia entre territórios e não se restringe à gravidez.
Parteiras, puxadeiras e benzedeiras recorrem a massagens, rezas e práticas destinadas a acalmar ou reposicionar a mãe do corpo. Em algumas comunidades, o cuidado pode incluir o caribé, preparação fortificante à base de farinha de mandioca. Esses saberes e suas diferentes interpretações são apresentados em reportagem especial da Sumaúma exibidas durante a aula.
O exemplo permitiu discutir aquilo que ultrapassa os ingredientes de uma receita ou a explicação anatômica. A pessoa recebe alimento, toque, palavras e a presença de alguém reconhecido pela comunidade. Isso não comprova a eficácia clínica de todos os procedimentos, mas evidencia dimensões sociais e afetivas do cuidado.
Andriolli também recordou os chás preparados por mães e avós. Ao tentar reproduzir uma receita familiar, uma pessoa pode buscar mais do que o alívio de um sintoma: o preparo mobiliza lembranças, proteção, saudade e vínculos que permanecem importantes durante o adoecimento.
Mitos comportam diferentes sentidos
As narrativas míticas foram apresentadas como formas de elaborar experiências difíceis. No conto Pele de Asno, uma jovem foge do pai que pretende se casar com ela. Para Andriolli, histórias como essa podem oferecer um vocabulário simbólico para discutir violência intrafamiliar. A leitura foi apresentada como possibilidade interpretativa, e não como método clínico ou função universal do conto.
O professor também questionou a explicação recorrente de que a narrativa do boto cor-de-rosa teria sido criada exclusivamente para encobrir casos de violência sexual ou de gravidez sem reconhecimento paterno na Amazônia.
Essas situações podem atravessar determinadas versões e usos da história, mas não explicam sozinhas a existência do mito. Na interpretação proposta durante a aula, a aparência branca e elegante assumida pelo boto também permitiria uma leitura colonial: a chegada de um estrangeiro sedutor, capaz de estabelecer relações e depois abandonar o território.
O mesmo cuidado foi adotado na discussão sobre o papa-figo. Diferentes versões apresentam o personagem como alguém rico ou poderoso que sequestra crianças para consumir seu fígado, por vezes em busca da cura de uma doença associada ao antigo imaginário da “lepra”. Em artigo publicado em 2020, Andriolli examina as relações simbólicas entre sangue, fígado, poder e dinheiro presentes nessa narrativa, disponível na Revista Eletrônica de Comunicação, Informação e Inovação em Saúde.
A palavra “lepra”, historicamente empregada para diferentes doenças de pele, carrega forte carga estigmatizante. No Brasil, o nome oficial é hanseníase, doença infecciosa causada pelo Mycobacterium leprae, que possui tratamento e cura, segundo o Ministério da Saúde.
Os mitos não explicam biologicamente uma enfermidade. Eles permitem observar como uma sociedade organiza temores relacionados ao corpo, ao contágio, à desigualdade, ao poder e à morte.
Uma hipótese de cosmotécnica da saúde
Na parte final, Andriolli aproximou o debate do conceito de cosmotécnica, formulado pelo filósofo Yuk Hui para questionar a ideia de uma tecnologia universal e separada das diferentes ordens morais e cosmológicas.
Pensar essa aproximação não significa trocar o atendimento clínico por um rito ou conceder validade automática a toda prática tradicional. Significa investigar como técnicas de cuidado, valores morais e concepções de mundo se articulam em diferentes comunidades.
Essa perspectiva encontra um ponto de contato — sem equivalência direta — com a Estratégia Global de Medicina Tradicional 2025–2034 da Organização Mundial da Saúde. O documento propõe ampliar pesquisas, segurança, regulação e integração responsável das medicinas tradicionais, complementares e integrativas aos sistemas de saúde. A estratégia não endossa indiscriminadamente qualquer prática: condiciona sua incorporação à produção de evidências, à qualidade e à proteção dos pacientes, como informa a OMS.
O profissional diante do território
As perguntas do público aproximaram a discussão da Medicina de Família. Visitas domiciliares e o acompanhamento continuado permitem observar elementos da alimentação, da religiosidade e das relações comunitárias que nem sempre aparecem em uma consulta convencional.
Participantes paraguaios relataram o uso de pulseiras vermelhas e objetos religiosos como formas de proteção aos recém-nascidos. Durante o debate, esses símbolos foram relacionados a experiências históricas de risco, medo e dificuldade de acesso ao cuidado.
Também foi mencionada a atuação de mediadores comunitários na atenção à saúde indígena. Essas pessoas podem contribuir para a tradução de idiomas e, sobretudo, para a compreensão de diferentes concepções de corpo, doença e tratamento.
A aula terminou com um convite à escuta. Humanizar a medicina não significa apenas ser gentil, nem aceitar toda prática como clinicamente eficaz. Significa reconhecer que cada diagnóstico encontra uma pessoa situada em uma história, uma comunidade e uma visão de mundo. Compreender essas dimensões pode melhorar a comunicação, revelar desigualdades e aproximar o cuidado de quem efetivamente o recebe.



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