top of page

Livro psicografado por Chico Xavier já interpretava Cornélio Pires pela Folkcomunicação

Apresentação de Wallace Leal V. Rodrigues em "Coisas deste mundo" reproduz a definição formulada por Luiz Beltrão quando a teoria ainda tinha circulação bastante restrita



Dez anos depois de Luiz Beltrão defender a tese que fundou a Folkcomunicação, o conceito apareceu em um lugar inesperado: a apresentação de um livro espírita psicografado por Francisco Cândido Xavier. Publicado pela primeira vez em 1977, Coisas deste mundo reúne mensagens atribuídas ao espírito de Cornélio Pires e propõe uma aproximação entre reencarnação, cultura caipira, linguagem visual e comunicação popular.


O volume é constituído por 143 quadras, organizadas em 24 capítulos e acompanhadas pelas ilustrações de José Roberto Teixeira Bento. Nas duas primeiras linhas de cada trova, apresenta-se uma ação praticada pelos personagens; nas duas seguintes, a consequência dessa ação em outra existência, de acordo com a concepção espírita da reencarnação.


Na apresentação intitulada “O momento da criação”, escrita em Araraquara em 1977, Wallace Leal V. Rodrigues afirma que o volume não deveria ser entendido exatamente como um livro. Para ele, as quadras funcionavam como pequenas sinopses de produções audiovisuais: caberia aos responsáveis pela edição situar os personagens, construir os cenários, escolher as roupas e transformar as falas em balões semelhantes aos das histórias em quadrinhos.


“Em termos de comunicação de massa, a obra é um achado”, escreve Wallace. As trovas são descritas como “telegramas rimados”, nos quais a síntese permitiria transmitir uma mensagem moral de maneira objetiva, direta e acessível. É nesse contexto que surge a primeira aproximação explícita com a Folkcomunicação. O apresentador identifica em cada quadra “o cuidado na objetividade da mensagem folkcomunicada” e sua integração ao pensamento e às necessidades do leitor.


Pouco depois, a referência torna-se ainda mais evidente. Wallace argumenta que o livro estabelece uma vinculação entre “o Espiritismo, o folclore e a comunicação de massa em nível popular” e afirma que esse processo poderia ser denominado “folk comunicação”. Em seguida, oferece a definição:


“O processo de intercâmbio de informações e manifestações de opiniões, ideias e atitudes da massa, através de agentes e meios ligados direta ou indiretamente ao folclore.”

Embora o nome de Luiz Beltrão não seja mencionado nesse trecho, a formulação reproduz quase literalmente a definição apresentada pelo pesquisador em sua tese de doutorado, defendida em 1967 na Universidade de Brasília: “Folkcomunicação é, assim, o processo de intercâmbio de informações e manifestações de opiniões, ideias e atitudes da massa, através de agentes e meios ligados direta ou indiretamente ao folclore”.


É importante esclarecer, portanto, que a menção não aparece nas mensagens atribuídas ao espírito de Cornélio Pires. Também não se trata de uma formulação de Chico Xavier. A leitura folkcomunicacional é feita por Wallace Leal V. Rodrigues, responsável pela apresentação e pela interpretação editorial do projeto. O que o livro oferece é um registro da recepção da teoria de Beltrão no meio espírita e fora dos circuitos acadêmicos mais diretamente ligados à Comunicação.


O caráter precoce dessa apropriação chama atenção. Quando *Coisas deste mundo* foi publicado, a Folkcomunicação ainda era uma teoria pouco conhecida. A tese havia sido defendida uma década antes, mas não recebera publicação integral nem edição de grande circulação. Parte de seu conteúdo chegou aos leitores em 1971, com o lançamento de *Comunicação e folclore*, pela Editora Melhoramentos. A primeira parte da tese, contudo, ficou fora dessa edição.


Estudos posteriores reconhecem que a ausência de uma publicação imediata e amplamente distribuída prejudicou a divulgação da teoria. A tese completa seria recuperada somente em 2001, pela Editora da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Além disso, o livro *Folkcomunicação: a comunicação dos marginalizados*, no qual Beltrão retomou e desenvolveu a teoria com novos dados e classificações, só seria publicado em 1980. A história dessa circulação inicial pode ser consultada em [estudo publicado pela Revista Latinoamericana de Ciencias de la Comunicación](https://revista.pubalaic.org/index.php/alaic/article/download/380/383/398).


Assim, a presença da definição em uma obra espírita de 1977 não deve ser tratada como uma referência tardia a um conceito já consolidado. Ao contrário: ela ocorre quando a Folkcomunicação ainda procurava leitores e interlocutores, antes da formação dos grupos de pesquisa, das conferências nacionais, da Rede Folkcom e dos periódicos especializados que posteriormente ampliariam sua difusão.


Também não se trata de uma menção meramente ornamental. Wallace utiliza a Folkcomunicação como instrumento para compreender o modo como as mensagens atribuídas a Cornélio Pires são construídas e dirigidas ao público. A forma breve das quadras, a linguagem caipira, as imagens inspiradas em almanaques, os balões de fala e o propósito de alcançar leitores pouco familiarizados com o jornalismo e a literatura convencionais formariam um processo comunicativo popular.


Segundo a apresentação, esse formato permitiria que o conteúdo fosse compreendido por pessoas que não frequentavam os ambientes artísticos e literários legitimados. As mensagens poderiam alcançar uma população descrita como pouco receptiva às solicitações do “jornalismo e da literatura ortodoxos”. O objetivo seria divertir, ensinar e influenciar comportamentos por meio de personagens, códigos e formas expressivas reconhecíveis pelo público.


A escolha de Cornélio Pires reforça essa interpretação. Em vida, o escritor percorreu comunidades rurais, registrou histórias, músicas, festas, superstições, modos de falar e experiências da população caipira. Wallace o apresenta como alguém capaz de entrar nos casebres, conversar, jogar truco e partilhar o cotidiano das pessoas que transformava em personagens. Essa proximidade faria dele não apenas um pesquisador do folclore, mas um agente participante dos próprios circuitos populares de comunicação.


A passagem revela, assim, um capítulo pouco conhecido da recepção da Folkcomunicação. A teoria formulada por Luiz Beltrão não permaneceu inteiramente confinada às universidades enquanto aguardava maior reconhecimento. Ainda em 1977, seu conceito central já era mobilizado em um projeto editorial espírita para interpretar a circulação popular de mensagens sobre reencarnação.


Há ainda uma coincidência particularmente expressiva nesse encontro. A Folkcomunicação foi criada para estudar como ideias e informações circulam por meios alternativos, atravessando agentes populares, práticas folclóricas e públicos afastados dos canais institucionalizados. A própria teoria parece ter seguido um percurso semelhante: saiu de uma tese de circulação limitada, alcançou parcialmente um livro de 1971 e reapareceu, poucos anos depois, nas páginas ilustradas de uma obra psicografada por Chico Xavier.


Mais do que uma curiosidade bibliográfica, a menção amplia a história da Folkcomunicação. Ela mostra que a teoria também foi recebida, reinterpretada e colocada em circulação por ambientes religiosos e editoriais que raramente aparecem nas narrativas sobre sua consolidação acadêmica. Em *Coisas deste mundo*, Espiritismo, folclore e comunicação popular encontraram-se muito antes de essa aproximação se transformar em um campo reconhecido de pesquisa.

 
 
 

Comentários


Rede Folkcom - 2026

bottom of page