“Um Hermes universal no Nordeste brasileiro”: Vânia Gico revisita o pensamento de Câmara Cascudo
Em entrevista à Rede Folkcom, pesquisadora apresenta o escritor potiguar como um intelectual da comunicação e aproxima sua obra da folkcomunicação e das epistemologias do Sul.
Luís da Câmara Cascudo permaneceu profundamente ligado a Natal, cidade onde nasceu, viveu e realizou grande parte de seu trabalho. Isso, entretanto, não impediu que seu pensamento circulasse pelo mundo. Por meio de livros, aulas e uma vasta rede de correspondências, o pesquisador potiguar reuniu informações, consultou outros intelectuais e transformou a experiência local em conhecimento de alcance universal.
Para a cientista social Vânia de Vasconcelos Gico, essa capacidade faz de Cascudo “um Hermes universal no Nordeste brasileiro”. A imagem recupera o mensageiro da mitologia grega para apresentar Cascudo como um intelectual que, mesmo distante dos grandes centros culturais e acadêmicos, manteve uma intensa circulação de ideias.
“Eu acho que ele é uma das maiores expressões da comunicação do Nordeste brasileiro. Por isso o chamei de Hermes”, explicou.
A reflexão foi apresentada em entrevista ao programa Entrevista Folkcom, gravada quando a tese de doutorado de Vânia Gico sobre Câmara Cascudo completava 20 anos. Ao longo da conversa, a pesquisadora abordou a organização da obra cascudiana, a resistência enfrentada na universidade, o papel das cartas em seu processo criativo e as aproximações possíveis com Luiz Beltrão, a folkcomunicação e as epistemologias do Sul.
Um itinerário para quem escrevia “sobre tudo”
Defendida em 1998 na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, a tese Luís da Câmara Cascudo: itinerário de um pensador nasceu de um desafio: compreender a dimensão de uma obra que abordava tantos assuntos que frequentemente era definida apenas pela afirmação de que Cascudo “escrevia sobre tudo”.
Vânia começou a estudar sistematicamente o autor em 1994. Naquele momento, embora já tivesse realizado algumas leituras, ainda não compreendia a extensão de sua produção nem o valor atribuído a Cascudo em seu próprio estado.
O contato com o livro O universo de Câmara Cascudo despertou a percepção de que havia ali uma contribuição extraordinária para os estudos da cultura popular. Quanto mais avançava, porém, mais surgia uma questão: seria possível organizar esse universo aparentemente ilimitado?
“Como é que a gente agrupa esse todo?”, recordou. A resposta foi construir um itinerário intelectual. Em vez de produzir apenas uma biografia ou separar rigidamente os temas, a pesquisadora procurou mapear as ideias que atravessavam a obra. Três grandes direções ajudaram a organizar esse percurso: história, memória e folclore ou etnografia.
A tese apresenta o perfil pessoal e intelectual de Cascudo e analisa uma produção que reúne aproximadamente 150 livros, mais de 3 mil artigos e crônicas, além de uma extensa correspondência. A própria Sociedade Brasileira de Sociologia destaca que a variedade de assuntos não impedia a existência de linhas recorrentes em seu pensamento, especialmente a relação entre cultura popular, história social e memória.
A resistência ao pensamento que nascia do lugar
Transformar Cascudo em objeto de uma tese não foi uma escolha recebida sem resistência. Vânia contou que precisou enfrentar, durante anos, a desconfiança de uma academia habituada a valorizar autores estrangeiros e modelos metodológicos mais rígidos. “Infelizmente, a gente tem um pensamento hegemônico na ciência em que as pessoas mais valorizadas são as pessoas mais estranhas à própria comunidade”, observou.
Outro motivo de resistência estava no estilo de escrita de Cascudo. O autor não seguia um método acadêmico convencional e afirmava escrever à sua maneira. Seu ensaísmo articulava referências documentais, memória, experiência, pesquisa bibliográfica e pensamento mítico-simbólico.
Para uma universidade fortemente orientada pela sistematização, pela repetição de modelos e pela busca de verdades estáveis, essa autonomia podia parecer um problema. Na avaliação de Vânia, entretanto, é justamente esse aspecto que faz Cascudo dialogar tão bem com discussões contemporâneas.
As ciências humanas passaram a reconhecer com maior abertura a incerteza, a subjetividade e os conhecimentos produzidos fora dos modelos dominantes. Nesse cenário, o gesto cascudiano de partir do próprio território para construir uma interpretação do mundo adquire nova força. “Eu acho que Câmara Cascudo fez isso muito bem. Ele hoje está mais moderno ainda do que já era na própria época”, afirmou.
Uma obra reconhecida fora e pouco conhecida em casa
A entrevista também abordou uma contradição: Cascudo era uma figura pública reconhecida no Rio Grande do Norte, mas o conjunto de sua obra permanecia pouco conhecido e, durante muito tempo, dificilmente acessível no estado.
Vânia relatou que, quando iniciou a pesquisa, encontrou coleções mais completas dos livros de Cascudo na Universidade de São Paulo. Posteriormente, durante estudos em Portugal, localizou sua produção em instituições como a Universidade Nova de Lisboa.
Em Natal, porém, ainda não existia uma biblioteca que reunisse todos os títulos. O reconhecimento da personalidade, portanto, nem sempre correspondia à leitura efetiva da obra.
Nas últimas décadas, instituições como o Ludovicus – Instituto Câmara Cascudo avançaram na preservação e na disponibilização desse patrimônio. Ainda assim, para a pesquisadora, permanece o desafio de fazer com que o interesse pela figura pública se transforme em conhecimento de sua produção intelectual.
A situação reafirma um problema discutido durante a entrevista: os grandes centros acadêmicos frequentemente validam aquilo que foi produzido nas margens antes que o próprio território reconheça seu valor.
As cartas de um Hermes universal
Cascudo costumava apresentar-se como um “provinciano incurável”, mas sua correspondência revela um intelectual conectado a pesquisadores, escritores e instituições de diferentes lugares.
As cartas eram instrumentos fundamentais de pesquisa. Por meio delas, Cascudo solicitava livros, documentos, informações sobre costumes, referências bibliográficas e opiniões a respeito dos temas que investigava. Também compartilhava dúvidas, acompanhava publicações e participava de debates intelectuais.
Sua troca de correspondências com Mário de Andrade tornou-se uma das partes mais conhecidas dessa rede. Os dois discutiram folclore, literatura, modernismo e diferentes expressões da cultura brasileira. A relação foi posteriormente estudada em trabalhos como Luís da Câmara Cascudo e Mário de Andrade, uma amizade epistolar.
Para Vânia, as cartas funcionavam como meios de comunicação e métodos de produção do conhecimento. Cascudo identificava quem poderia responder a determinada pergunta e elaborava pedidos detalhados. Embora permanecesse geograficamente em Natal, seu pensamento viajava e retornava alimentado por novas informações. Foi essa capacidade que inspirou o estudo Câmara Cascudo: um Hermes universal no Nordeste brasileiro. Como o mensageiro dos deuses, o intelectual potiguar fazia circular palavras, notícias, livros e saberes.
A metáfora também desloca simbolicamente o centro da comunicação. O “Hermes universal” não estava em uma universidade europeia ou nas instituições mais prestigiadas do Sul do país. Estava no Nordeste brasileiro, construindo uma interpretação do mundo a partir de Natal.
Do local às epistemologias do Sul
A valorização do território permitiu que Vânia aproximasse Cascudo das epistemologias do Sul, perspectiva associada ao pensamento de Boaventura de Sousa Santos.
Essa aproximação não significa afirmar que os dois autores desenvolveram conceitos idênticos. O ponto de encontro está na crítica à ideia de que somente um tipo de conhecimento pode ser considerado universalmente legítimo.
As epistemologias do Sul procuram reconhecer saberes, experiências e modos de interpretar o mundo historicamente desqualificados pelo pensamento colonial. Em Cascudo, Vânia identificou um movimento semelhante: o autor parte do cotidiano, das tradições, dos alimentos, das festas, da literatura oral e dos gestos populares para construir conhecimento.
“Não é só aquele conhecimento padrão, universal, que todo mundo acha que é certo. Ele é certo, mas existem outras possibilidades”, explicou.
Nesse sentido, o local não representa isolamento. É um ponto de partida para o universal. Uma manifestação particular pode revelar relações humanas, conflitos, símbolos e experiências compartilhadas por diferentes povos.
A pesquisadora exemplificou essa possibilidade ao mencionar estudos comparativos entre manifestações culturais brasileiras e aquelas existentes em países como Cabo Verde. As particularidades precisam ser respeitadas, mas o diálogo permite compreender experiências históricas e culturais comuns.
A ponte entre Câmara Cascudo e Luiz Beltrão
A entrevista também estabeleceu uma aproximação entre Luís da Câmara Cascudo e Luiz Beltrão. Além do primeiro nome, os dois intelectuais compartilhavam a atenção dedicada às formas populares de conhecimento e comunicação.
Vânia recordou a existência de correspondência entre os pesquisadores. Nela, Beltrão teria reconhecido a riqueza cultural disponível no território em que Cascudo vivia e a capacidade daquele universo de revelar conhecimentos fundamentais da cultura popular.
Cascudo registrou costumes, narrativas, festas, crenças, gestos, objetos e práticas cotidianas. Beltrão, por sua vez, sistematizou a folkcomunicação como campo dedicado aos agentes e meios populares de informação e expressão.
A relação entre os dois não precisa ser entendida como uma identidade teórica. Ela pode ser vista como parte de um tecido intelectual construído por pesquisadores nordestinos interessados nos conhecimentos produzidos fora dos circuitos hegemônicos.
Segundo Vânia, a especialização excessiva da ciência fez com que o modelo do intelectual generalista fosse deixado de lado. Com isso, também se perdeu parte da capacidade de conectar cultura, história, comunicação, memória, educação e vida cotidiana.
A aproximação entre a folkcomunicação e as epistemologias do Sul pode ajudar a recuperar essas conexões. Ambas questionam os apagamentos produzidos por uma concepção única de ciência e reconhecem grupos populares como produtores de sentidos, e não apenas como objetos de observação.
Conhecer também é construir-se coletivamente
Na parte final da entrevista, Vânia ampliou a discussão para a própria experiência de pesquisar. Para ela, o conhecimento não é produzido por um sujeito inteiramente distante daquilo que estuda.
Quando alguém pesquisa uma festa popular, uma memória familiar ou uma manifestação cultural de seu território, também revisita a própria formação. A investigação envolve objetividade e método, mas igualmente afetos, pertencimentos e subjetividades.
“Não tem conhecimento sem expressão afetuosa”, afirmou.
Essa dimensão não diminui o rigor da pesquisa. Ao contrário, permite reconhecer a posição ocupada pelo pesquisador e compreender que toda produção intelectual resulta de encontros, diálogos e relações sociais.
Em um tempo marcado pela valorização da individualidade, Vânia encerrou a entrevista lembrando que ninguém se forma sozinho: “A gente se constrói coletivamente, tanto como gente como intelectual”.
A imagem de Câmara Cascudo como um Hermes universal sintetiza esse processo. Sua obra nasceu em Natal, mas foi construída por meio de livros, cartas, conversas, memórias e informações provenientes de muitos lugares. Sua universalidade não exigiu o abandono do território; foi justamente o vínculo com o Nordeste que lhe permitiu falar ao mundo.
Ao aproximar Cascudo, Luiz Beltrão e as epistemologias do Sul, Vânia Gico reafirma a potência de um conhecimento que reconhece suas raízes. Um conhecimento que circula, recebe contribuições, volta ao lugar de origem e se transforma coletivamente — como toda comunicação verdadeiramente viva.




Comentários