Osvaldo Trigueiro revisita Cruz da Menina em sua terra natal
Retorno ao santuário paraibano recupera a memória de uma visita com Luiz Beltrão e Roberto Benjamin, em 1976, e a trajetória dos estudos sobre ex-votos

O pesquisador Osvaldo Meira Trigueiro voltou à Cruz da Menina, em Patos (PB), neste fim de semana, durante sua passagem pela cidade natal para participar da festa de Nossa Senhora da Guia, padroeira do município. O retorno ao espaço de devoção também recupera um encontro da história da Folkcomunicação: há cinco décadas, ele visitou o local acompanhado de Luiz Beltrão e Roberto Benjamin.
“Estou em Patos-PB, o meu torrão, para participar da festa de N. S. da Guia”, compartilhou Trigueiro. Ao anunciar a visita, definiu a Cruz da Menina como um importante lugar de pagamento de promessa do sertão nordestino, e recordou: “Em 1976 estive com Luiz Beltrão e Roberto Benjamin visitando a sala dos ex-votos”.
A ligação entre o pesquisador e o santuário está registrada no artigo A cata das promessas: o ex-voto como veículo folkcomunicacional, publicado em 2021. Nele, Trigueiro rememora histórias de curas ouvidas desde a infância e situa, em 1973, uma visita com Benjamin que contribuiu para transformar aquela experiência de devoção em interesse de pesquisa.
Uma parada no caminho de Pombal
O relato situa o encontro de 1976 em outubro, durante uma viagem de João Pessoa a Pombal, sede do I Encontro de Folclore da Paraíba. Beltrão pediu para conhecer a Cruz da Menina. A comitiva viajava numa Kombi e reunia também Altimar Pimentel e Bráulio do Nascimento.
“Todos ficaram impressionados com os ex-votos depositados na pequena sala das promessas da Cruz da Menina”, escreveu Trigueiro. Segundo ele, Beltrão e Bráulio ressaltaram a necessidade de preservar o acervo para pesquisas futuras.
No ano seguinte, Trigueiro recolheu, com autorização da zeladora, peças que seriam queimadas por falta de espaço. O pesquisador relata que coleções reunidas no local passaram a integrar os acervos do Núcleo de Pesquisa e Documentação da Cultura Popular da UFPB e do Museu do Folclore Edison Carneiro, no Rio de Janeiro.
A Cruz da Menina nos estudos de Folkcomunicação
Antes daquela viagem, a Cruz da Menina já aparecia em “O ex-voto como veículo jornalístico”, artigo publicado por Luiz Beltrão em 1965. Ao discutir os espaços onde acontecimentos trágicos dão origem à devoção, o autor reproduz uma passagem de Luís Saia sobre o então chamado Cruzeiro da Menina, em Patos. A referência integra sua reflexão sobre a capacidade dos ex-votos de comunicar acontecimentos e experiências populares.
Roberto Benjamin também menciona Francisca, da Cruz da Menina, no artigo Devoções populares não-canônicas na América Latina: uma proposta de pesquisa, integrante da edição de 2003 da Revista Internacional de Folkcomunicação. A referência aparece em um levantamento de santos populares recuperado de Câmara Cascudo.
Ao analisar os processos comunicacionais dessas devoções, Benjamin observa: “A prática mais tradicional da comunicação, nas devoções populares, é a entrega do ex-voto”. Para o pesquisador, o objeto oferecido torna pública a graça alcançada, comunica a experiência a outros visitantes e contribui para a circulação da devoção.
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