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Catálogo e artigo de 1977 recuperam pesquisa de Trigueiro sobre ex-votos

há 4 horas
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Cabeça esculpida e outras peças votivas em fotografia do catálogo da exposição da UFPB, publicado em 1977.
Detalhe de fotografia de ex-votos reproduzida no catálogo da exposição da UFPB (1977). Documento encaminhado por Osvaldo Trigueiro.

Em maio de 1977, o Centro de Cultura da Universidade Federal da Paraíba recebeu a Exposição de Ex Voto da Paraíba. À frente da Divisão de Folk-Comunicação da instituição, Osvaldo Meira Trigueiro assinou o texto do catálogo. Em dezembro daquele ano, voltou ao assunto nas páginas do Correio das Artes, onde apresentou a pesquisa desenvolvida pela universidade e discutiu o que as oferendas religiosas comunicavam sobre a vida de seus autores.


Os dois documentos foram encaminhados por Trigueiro à Rede Folkcom e estão disponíveis para consulta na seção Memória Folkcom. O catálogo conserva fotografias das peças e a apresentação da mostra. Já o artigo O Ex-voto, um veículo de informação popular detalha o trabalho de coleta e a preocupação do pesquisador com a substituição dos objetos artesanais por peças fabricadas em série.


O que se conta ao pagar uma promessa


No catálogo, Trigueiro apresenta os ex-votos como oferendas feitas em agradecimento a uma graça alcançada. Entre os motivos mencionados está a recuperação de uma doença. Mas as promessas também se referem a situações menos frequentemente associadas às salas de milagres, como a compra de uma casa ou a cura de um animal de estimação.


O interesse do pesquisador está no que essas experiências deixam registrado. Ao oferecer uma peça, o devoto torna pública uma história que outras pessoas poderão conhecer. Trigueiro escreve que, por meio dos ex-votos, as populações transmitem às gerações seguintes “as notícias e tragédias de sua época”.


Essa comunicação pode assumir a forma de uma escultura de madeira, como as reproduzidas nas fotografias do catálogo. Também pode chegar à escrita: o autor inclui as cartas e as orações publicadas em jornais entre os meios usados para agradecer aos santos. O suporte muda, mas permanece o gesto de comunicar a graça recebida.


Uma passagem de Luiz Beltrão, reproduzida na publicação, aproxima as promessas das dificuldades vividas pelos romeiros. O pedido por uma ocupação profissional, por exemplo, dá notícia da busca por trabalho. O que se dirige ao santo também fala das condições de vida de quem faz a súplica.


O catálogo inclui ainda um trecho de Clóvis de Melo sobre as promessas envolvendo crianças, relacionado por ele à mortalidade infantil. Em outra página, Câmara Cascudo defende o valor documental dos ex-votos para o estudo da cultura popular. Ao final da publicação, uma segunda passagem de Cascudo retoma a dimensão pública do agradecimento, com referência às graças anunciadas nos jornais.


Capa do catálogo da exposição de ex-votos da Paraíba, com fotografia de uma cabeça esculpida e identificação da UFPB e da Funarte.
Capa do catálogo da Exposição de Ex Voto da Paraíba, de maio de 1977. Documento encaminhado por Osvaldo Trigueiro à Rede Folkcom.

A Folkcomunicação na extensão universitária


A exposição contou com apoio da Funarte. Na apresentação do catálogo, intitulada Cumpre-se o ex-voto, o pró-reitor para Assuntos Comunitários, Iveraldo Lucena, explicou que a mostra fazia parte de uma nova orientação das atividades de extensão da UFPB. A intenção didática deveria estar presente na disposição das peças e se desdobrar em um seminário sobre o tema.


A iniciativa também marcou a ocupação, pelas atividades de extensão, do prédio em que havia funcionado a Reitoria. Segundo Lucena, a administração da universidade havia se transferido naquele ano para o campus. A exposição integrava, portanto, um momento de reorganização dos espaços culturais da instituição.


O expediente do catálogo registra a Divisão de Folk-Comunicação como parte da Coordenação de Extensão, vinculada à Pró-Reitoria para Assuntos Comunitários. Trigueiro assina como chefe da divisão. O projeto gráfico é creditado a Francisco Pereira Júnior.


Do catálogo às páginas do Correio das Artes


O artigo de Trigueiro saiu em 11 de dezembro de 1977, na página 3 do Correio das Artes, em João Pessoa. Parte do texto retoma a apresentação dos ex-votos feita no catálogo. No jornal, porém, o pesquisador desenvolve a discussão sobre os sentidos atribuídos às peças e descreve a pesquisa em andamento na Paraíba.


Trigueiro distingue o sentido denotativo do conotativo. No primeiro, o objeto materializa a graça alcançada e funciona como ligação entre o devoto e a divindade. No segundo, suas características permitem interpretações que vão além da intenção de pagar a promessa. A forma de uma peça, por exemplo, pode ser examinada como expressão artística e como informação sobre o meio social em que foi produzida.


A interpretação depende também de quem observa. No artigo, Trigueiro ressalta que o receptor decodifica o objeto a partir de seu próprio universo cultural e de suas condições sociais. A oferenda colocada aos pés do santo fica, assim, aberta a leituras que o devoto pode não ter previsto ao produzi-la.


O diálogo com Beltrão é explícito. Trigueiro cita O ex-voto como veículo jornalístico e recorre à discussão sobre as mensagens que os romeiros dirigem aos santos. Seu interesse está em reconhecer nesses objetos uma forma de informação popular.


Recorte do Correio das Artes com o título O Ex-voto, um veículo de informação popular, a data de 11 de dezembro de 1977 e a assinatura de Osvaldo Meira Trigueiro.
Parte superior da página 3 do Correio das Artes de 11 de dezembro de 1977, com o artigo de Osvaldo Meira Trigueiro. O PDF reúne dois recortes da mesma página.

Uma pesquisa além da reunião de peças


Ao apresentar o trabalho da UFPB, Trigueiro afirma que a pesquisa “não tem simplesmente o objetivo de formar um acervo de peças soltas”. Uma equipe de professores e técnicos fazia o levantamento e estudava cada objeto coletado em campo.


O acervo incluía peças das igrejas da Penha e da Guia, no litoral paraibano. No interior, o artigo registra a coleta na Cruz da Menina, em Patos, e na Igreja do Menino Perdido, em Itaporanga. A relação de procedências publicada no jornal documenta os lugares percorridos pela pesquisa.


Havia uma questão que orientava a preservação desse material: os ex-votos artesanais estavam sendo substituídos por peças fabricadas em série. Trigueiro menciona os objetos de parafina vendidos nas proximidades das igrejas e nos locais de romaria. Reunir as peças permitiria comparar essas formas de produção.


Na avaliação que apresenta em 1977, essa mudança reduzia a participação criadora do devoto. O pesquisador emprega o termo kitsch e relaciona a padronização à influência dos meios de comunicação de massa. Sua crítica se dirige à passagem de uma criação ligada à experiência de quem oferece o ex-voto para a reprodução de modelos comercializados.


O catálogo registra como os resultados da pesquisa chegaram a uma exposição universitária. O artigo permite acompanhar as perguntas que Trigueiro formulava diante do material recolhido. Os documentos podem ser lidos integralmente nos arquivos abaixo.


Documentos para consulta


Exposição de Ex Voto da Paraíba. João Pessoa: Universidade Federal da Paraíba, maio de 1977. Catálogo com oito páginas digitalizadas, apresentação de Iveraldo Lucena e texto de Osvaldo Meira Trigueiro. Apoio da Funarte.



TRIGUEIRO, Osvaldo Meira. O Ex-voto, um veículo de informação popular. Correio das Artes, João Pessoa, 11 dez. 1977, p. 3. Reprodução da página em dois recortes digitalizados.



Os PDFs preservam as imagens dos documentos encaminhados por Osvaldo Meira Trigueiro e receberam reconhecimento óptico de caracteres (OCR) para permitir buscas. Como essa camada de texto pode conter falhas, confira as citações diretamente na imagem das páginas.


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