Troféu Luiz Custódio destaca diferentes circuitos da comunicação popular no 15º Comunicurtas UEPB
- Andriolli Costa
- há 3 dias
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Atualizado: há 6 horas
Reportagens sobre os saberes das mulheres de Caiana dos Matias, o legado de Jackson do Pandeiro e a circulação do cordel nos ônibus foram reconhecidas durante a cerimônia de encerramento do festival
Os conhecimentos compartilhados por mulheres de uma comunidade rural, a obra de um dos principais nomes da música popular brasileira e a presença de artistas dentro do transporte coletivo formaram três diferentes circuitos de comunicação reconhecidos pelo Troféu Luiz Custódio de Folkcomunicação. A premiação integrou o encerramento da 15ª edição do Comunicurtas UEPB, realizada em 2020 sob o tema “Reinvenções”.
Receberam o troféu as produções Temper Artes em Caiana dos Matias, do jornalista Paulo Ítalo, da TV Itararé; a série Jackson sem moderação, de Herbert Araújo, da TV Cabo Branco; e Cordel no Ônibus, de Anderson Santana.
Mais do que classificar como folkcomunicacionais os objetos culturais apresentados nas reportagens, a premiação permite observar como agentes, conhecimentos, linguagens e meios de circulação se relacionam. A folkcomunicação aparece, nesses casos, nos processos pelos quais determinados repertórios são transmitidos, reelaborados e colocados em contato com novos públicos.
Saberes locais ganham espaço na televisão
Temper Artes em Caiana dos Matias acompanha mulheres da comunidade de Caiana dos Matias, situada no município paraibano de Serra Redonda. A produção mostra como elas transformam plantas e produtos encontrados na região em temperos, geleias e outros alimentos.
A reportagem registra conhecimentos construídos e transmitidos no cotidiano da comunidade, mas também acompanha sua transformação em fonte de trabalho, renda e reconhecimento. Nesse processo, as moradoras não aparecem apenas como personagens observadas pela televisão. São agentes que explicam suas práticas, atribuem sentido aos produtos e apresentam sua própria relação com o território.
Quando esses conhecimentos passam do circuito comunitário para uma emissora regional, estabelece-se uma mediação entre diferentes espaços sociais. A televisão amplia o alcance das experiências locais, ao mesmo tempo que as escolhas da reportagem interferem na maneira como elas serão apresentadas e recebidas pelo público.
Além do Troféu Luiz Custódio, a produção garantiu a Charles Dias e Ebert Viana o prêmio de melhores cinegrafistas na Mostra Tropeiros de Telejornalismo.
Jackson do Pandeiro entre memória e formação de novos públicos
A série Jackson sem moderação constrói um percurso pela vida, pela obra e pelo legado de Jackson do Pandeiro. Nascido em Alagoa Grande, na Paraíba, o músico transformou ritmos, expressões e experiências populares em um repertório que circulou nacionalmente.
A produção de Herbert Araújo evidencia como o jornalismo pode atuar na reorganização dessa memória. As músicas, os relatos e as referências culturais associadas ao artista são reunidos em uma narrativa audiovisual dirigida tanto a quem acompanhou sua trajetória quanto às gerações que passaram a conhecê-lo posteriormente.
Nesse caso, o processo folkcomunicacional está nas diferentes mediações que cercam a obra de Jackson: sua relação com os repertórios populares, a circulação promovida pela indústria cultural, a permanência de suas músicas na memória coletiva e a atuação contemporânea do jornalismo na interpretação desse legado.
Um dos episódios da série, O Legado, também venceu a categoria de melhor reportagem na Mostra Tropeiros de Telejornalismo.
O ônibus como meio de circulação cultural
Em Cordel no Ônibus, de Anderson Santana, o transporte coletivo deixa de ser somente um espaço de deslocamento e passa a funcionar como meio de comunicação. Poetas e artistas entram nos veículos para apresentar seus trabalhos diretamente aos passageiros, criando um circuito que aproxima produção cultural e vida cotidiana.
A iniciativa desloca o cordel de seus espaços habituais de venda, leitura ou apresentação. Dentro do ônibus, os passageiros formam uma audiência temporária e heterogênea. A oralidade, a performance e o contato presencial ajudam a construir a mensagem, enquanto o próprio veículo determina o tempo e as condições de recepção.
O cordel, portanto, não é compreendido como folkcomunicação apenas por ser uma expressão da cultura popular. O que interessa é o processo estabelecido entre os artistas, o repertório compartilhado, o ônibus como canal e os passageiros que recebem, interpretam ou eventualmente respondem à apresentação.
Esses circuitos podem criar possibilidades de visibilidade, trabalho e reconhecimento para os artistas. Isso não significa, entretanto, que toda manifestação popular seja automaticamente contra-hegemônica. A dimensão de resistência depende das relações sociais construídas em cada situação, dos conteúdos transmitidos e da capacidade dos agentes de disputar espaços e interpretações.
Festival precisou se reinventar durante a pandemia
Realizada de 30 de novembro a 3 de dezembro de 2020, a 15ª edição do Comunicurtas adotou um formato virtual em razão da pandemia de Covid-19. A cerimônia de encerramento foi transmitida a partir do Museu de Arte Popular da Paraíba, em Campina Grande.
A edição recebeu 597 inscrições e selecionou 77 produções. A programação reuniu mostras competitivas, debates, oficinas e atividades formativas. Segundo o balanço apresentado durante o encerramento, foram promovidas 12 sessões de debate, três webinars e quatro oficinas. Os filmes ficaram disponíveis em uma plataforma própria de exibição. Os resultados completos foram divulgados pelo festival após a cerimônia.
O tema “Reinvenções” sintetizou tanto as transformações provocadas pela pandemia quanto o esforço para manter a circulação do audiovisual. A transmissão pela internet permitiu alcançar espectadores de diferentes localidades, mas os organizadores também reconheceram os limites do formato, especialmente diante das desigualdades de acesso à conexão e da instabilidade enfrentada por parte do público.
A formação dos estudantes permaneceu como uma das prioridades. Alunos participaram da seleção das obras, da mediação das conversas e do que a organização denominou “curadoria pedagógica”. Desse modo, o festival foi apresentado não apenas como uma vitrine para filmes, mas como ambiente de aprendizagem sobre realização, curadoria, crítica e circulação audiovisual.
Bráulio Tavares e Fred Ozanan foram os homenageados
A edição prestou homenagem ao escritor Bráulio Tavares e ao chargista Fred Ozanan, duas trajetórias ligadas à vida cultural de Campina Grande e marcadas pelo trânsito entre diferentes linguagens. As homenagens integraram a programação oficial de abertura do festival.
Escritor, poeta, cordelista, compositor, dramaturgo e tradutor, Bráulio Tavares desenvolveu uma obra que aproxima ficção científica, literatura fantástica, música e repertórios populares. Sua trajetória rompe divisões rígidas entre cultura erudita, cultura de massa e cultura popular, mostrando como narrativas e imagens circulam entre diferentes campos.
Fred Ozanan construiu sua carreira no jornalismo, na charge, no design gráfico e na ilustração. Seu trabalho inclui passagens por veículos de imprensa e colaborações com autores de cordel, entre eles Manoel Monteiro. A homenagem destacou a capacidade da imagem humorística de interpretar acontecimentos, produzir crítica e comunicar questões políticas e sociais.
Cinema paraibano entre os principais premiados
Na Mostra Brasil de Curta-Metragem, o prêmio de melhor filme foi concedido a Trincheira, de Paulo Silver. Entre os longas, venceu As Órbitas da Água, de Frederico Machado.
A produção paraibana Faixa de Gaza, de Lúcio César Fernandes, recebeu o prêmio de melhor filme da Mostra Tropeiros da Borborema. O curta também venceu nas categorias de som, montagem e trilha sonora. Remoinho, dirigido por Tiago A. Neves, conquistou os prêmios de direção, atriz, fotografia e o reconhecimento da crítica na mostra estadual.
Na Mostra Tropiqueers, dedicada à diversidade sexual e de gênero, venceu Eu Vejo Névoas Coloridas, de Pedro Jorge. A Mostra Som da Serra premiou o videoclipe Poet, de Yuri da Costa, enquanto Cumplicidad Brasileña, de Nelson Rossiter, foi escolhido como melhor filme da Mostra Estalo.
A Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Norte também concedeu prêmios a Marie, Remoinho, Em Quadro e Cavalo, nas respectivas mostras competitivas.
Comunicação como memória, circulação e encontro
Ao reunir filmes, reportagens, debates, homenagens e atividades formativas, o 15º Comunicurtas evidenciou diferentes maneiras de produzir e colocar narrativas em circulação. No caso do Troféu Luiz Custódio, o festival reconheceu trabalhos nos quais a comunicação aproxima conhecimentos comunitários, memória artística, jornalismo regional, espaços urbanos e diferentes audiências.
O prêmio leva o nome do professor e pesquisador Luiz Custódio da Silva, cuja trajetória foi marcada pela defesa do cineclubismo, pela formação de comunicadores e pelos estudos sobre cultura e comunicação popular. Sua atuação acadêmica atravessou instituições como a Universidade Federal da Paraíba e a Universidade Estadual da Paraíba. A UEPB registra mais de quatro décadas de dedicação do professor ao ensino, à pesquisa e à cultura.
As três produções premiadas mostram que observar a folkcomunicação exige acompanhar relações concretas: quem produz a mensagem, de quais repertórios ela parte, por quais meios circula, que públicos alcança e quais efeitos pode provocar. Em vez de funcionar apenas como classificação de manifestações culturais, essa perspectiva ajuda a compreender os caminhos pelos quais grupos e sujeitos comunicam suas experiências e disputam presença no espaço público.




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