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“São como um Evangelho novo, de fé, de amor e poesia”: pesquisadora interpreta as loas pela folkcomunicação

Em comunicação apresentada na Nazaré, em Portugal, Lucília-José Justino recorreu a um folheto de 1885 para mostrar como versos, cantos, gestos e deslocamentos transformam a devoção à Senhora da Nazaré em uma polifonia de informações


As palavras estão impressas no folheto, mas só se completam quando ganham voz, música, gestos e movimento. Crianças chamadas de “anjos” cantam os versos, ajoelham-se, levantam-se e acompanham momentos de recepção, celebração e despedida. A imagem religiosa e a bandeira passam de uma comunidade para outra. A chegada é marcada pela alegria; a partida, pela tristeza. Ao redor delas, renovam-se promessas, memórias e vínculos construídos por sucessivas gerações.


Esses elementos fazem das Loas à Senhora da Nazaré muito mais do que composições religiosas. Elas funcionam simultaneamente como oração, poesia, roteiro cênico, registro da tradição e meio de comunicação entre as comunidades envolvidas no culto.


Foi essa arquitetura que a pesquisadora portuguesa Lucília-José Justino examinou na comunicação Loas à Senhora da Nazaré — Cenário folkcomunicacional. Sua análise aproximou os estudos literários, a performance e a folkcomunicação, teoria desenvolvida por Luiz Beltrão a partir da década de 1960.


A apresentação ocorreu em 1º de fevereiro de 2020, durante o colóquio “O Culto de Nossa Senhora da Nazaré: Perspetiva Multidisciplinar”, realizado no auditório da Biblioteca Municipal da Nazaré, em Portugal. O encontro reuniu especialistas de diferentes áreas para discutir as dimensões históricas, religiosas, artísticas, antropológicas e comunicacionais do culto.


Orações que precisam ser cantadas

As loas são composições em verso dedicadas à Virgem. Transmitidas por folhetos, pelo canto e pela própria realização das festas, elas organizam a expressão pública da devoção. Lucília-José recuperou uma composição de 1960 que sintetiza essa função: “Orações do povo louvando a Virgem Maria são como um Evangelho novo de fé, de amor e poesia”.


A pesquisadora lembrou ainda o conhecido princípio segundo o qual “quem canta reza duas vezes”. Nas loas, a oração não fica restrita à leitura silenciosa. Ela precisa ser vocalizada e compartilhada. O texto encontra a melodia, os corpos ocupam determinados lugares e a comunidade acompanha a cena.


Tradicionalmente, os versos são cantados por crianças ou jovens chamados de “anjos”. A denominação não é apenas decorativa. Como mensageiros, eles participam da passagem da imagem ou da bandeira entre os grupos responsáveis pelo culto. Suas vozes anunciam, recebem, louvam e se despedem.


As quadras, geralmente compostas em versos de sete sílabas, favorecem o canto, a memorização e a transmissão. A simplicidade formal não significa ausência de elaboração. Cada composição precisa dialogar com a circunstância em que será apresentada, com o espaço da celebração e com os sentimentos que aquele momento deve produzir.


Um folheto de 1885 como roteiro da festa

Para demonstrar a permanência dessa estrutura, Lucília-José recorreu a um exemplar de Hymnos Devotos, de 1885. O folheto conserva os versos destinados a diferentes momentos da celebração e permite observar como o texto escrito funcionava também como roteiro.

As loas acompanham uma sequência de acontecimentos: a recepção da imagem ou da bandeira, as festas realizadas pela comunidade, a romaria ao santuário e a entrega da responsabilidade aos festeiros seguintes. Cada etapa acontece em um lugar determinado e possui uma forma própria de comunicação.


O espaço, portanto, integra a mensagem. Uma loa cantada diante da igreja não produz o mesmo sentido quando deslocada para outro ponto do percurso. A posição dos participantes, a chegada do cortejo, a presença da imagem e o momento em que os anjos iniciam o canto fazem parte da composição.


Alguns folhetos chegam a registrar indicações cênicas. Os anjos devem ajoelhar-se, levantar-se ou retardar determinados movimentos, acentuando a expectativa da comunidade. A entrega e a recepção da imagem tornam-se cenas dramatizadas nas quais texto, voz e gesto trabalham conjuntamente.


É por isso que a pesquisadora propõe compreender as loas como performance. O objeto de estudo não é apenas o poema preservado no papel. Também importam as pessoas que o cantam, o modo como se movimentam, o lugar ocupado por cada grupo, as respostas da comunidade e a sucessão ritual dos acontecimentos.


Entre a alegria da chegada e a tristeza da partida

A oposição entre alegria e tristeza atravessa muitas das composições. Receber a imagem da Senhora da Nazaré significa celebrar sua presença e assumir temporariamente a responsabilidade pela devoção. Entregá-la a outra comunidade provoca a dor da separação, mesmo quando essa partida garante a continuidade da tradição.


Os versos transformam esses sentimentos em experiência coletiva. A alegria não pertence somente aos festeiros que recebem a imagem, assim como a tristeza não se limita àqueles que a entregam. O canto permite que toda a comunidade participe emocionalmente da passagem.


Também são recorrentes as referências a Maria como mãe, protetora e destino de quem enfrenta o sofrimento. Promessas, graças alcançadas, pedidos de auxílio e lembranças dos antepassados aparecem ao lado de passagens bíblicas e narrativas tradicionais.


Entre essas narrativas está a lenda de D. Fuas Roupinho. Segundo a tradição, o cavaleiro perseguia um veado em um dia de nevoeiro quando esteve prestes a cair do promontório. Teria sido salvo após invocar Nossa Senhora da Nazaré. O episódio permanece representado na iconografia, nos monumentos e na memória cultural da Nazaré.


Ao ser novamente cantada, a lenda não aparece apenas como relato de um acontecimento distante. Ela atualiza a capacidade protetora atribuída à Senhora e aproxima o milagre das necessidades de cada nova comunidade de devotos.


Uma tradição construída por muitas vozes

Lucília-José observa que a autoria das loas também se transformou. Em períodos anteriores, a composição podia ficar sob responsabilidade de integrantes da hierarquia religiosa, com forte influência das Escrituras e de uma linguagem erudita. Progressivamente, membros das próprias comunidades, reconhecidos por sua sensibilidade poética, passaram a escrever os versos.


A passagem não produz uma substituição completa. As loas continuam reunindo referências institucionais, formas literárias antigas, devoção comunitária, lendas, memórias locais e acontecimentos do presente. Elementos recebidos da tradição são selecionados, combinados e adaptados às circunstâncias de cada festa.


Essa convivência impede que as composições sejam classificadas simplesmente como eruditas ou populares. Em estudo anterior, Lucília-José propôs entendê-las como uma comunicação “popularizante”: embora parte de sua matriz esteja relacionada à Igreja e a repertórios religiosos eruditos, sua transmissão, recepção e transformação acontecem no interior das comunidades.


Com o passar do tempo, as alusões bíblicas mais explícitas podem perder espaço para referências locais e acontecimentos contemporâneos. A forma permanece reconhecível, mas os conteúdos acompanham as mudanças sociais. Preservar a tradição, nesse caso, não significa repetir integralmente os mesmos versos.


Uma polifonia de informações

A pesquisadora utiliza a ideia de polifonia, associada a Roland Barthes, para compreender a multiplicidade de mensagens reunidas nas loas. Uma única apresentação faz circular diferentes tempos, vozes e repertórios.


O texto impresso conserva palavras escritas anteriormente. Os anjos as atualizam pelo canto. Os festeiros assumem funções transmitidas por outros grupos. A comunidade reconhece narrativas compartilhadas, enquanto cada apresentação acrescenta circunstâncias do presente. A Igreja, os autores dos folhetos, os devotos, os antepassados e os participantes atuais falam simultaneamente.


Essa polifonia também é produzida pela combinação de linguagens. Há informação verbal nos versos, informação visual na imagem e na bandeira, comunicação sonora no canto, expressão corporal nos gestos e uma dimensão espacial construída pelo percurso.


As loas informam quem recebe e quem entrega a imagem, recordam compromissos antigos, atualizam a memória do culto e ensinam às novas gerações como participar. A comunicação não acontece somente por aquilo que os versos dizem, mas pela maneira como toda a comunidade os coloca em movimento.


Quando a literatura encontra a folkcomunicação

A trajetória de Lucília-José começou pela análise literária das festas e de sua matriz religiosa. O contato com a folkcomunicação permitiu que ela ampliasse o olhar: além da forma poética, passou a investigar os agentes, os meios, as performances e os processos pelos quais essas manifestações circulam socialmente.


Essa aproximação já aparecia no artigo “Da comunicação popular”, publicado em 2013. No texto, a pesquisadora observa que manifestações públicas da cultura popular foram amplamente estudadas pela antropologia, pela história, pela sociologia e pela etnografia, mas receberam menos atenção das ciências da comunicação.


A teoria de Luiz Beltrão ofereceu instrumentos para analisar não apenas o conteúdo das tradições, mas os procedimentos comunicacionais pelos quais elas se expandem, se socializam, convivem com outros circuitos e se modificam.


No caso das loas, o objeto folkcomunicacional não está apenas no caráter tradicional da festa. Encontra-se na circulação entre escrita e oralidade, na atuação dos anjos e festeiros, na transmissão comunitária, na adaptação das mensagens e na capacidade de conectar grupos separados pelo tempo e pelo território.


Lucília-José aprofundou esse percurso no livro Loas a Maria: religiosidade popular em Portugal, publicado em 2004. A obra acompanha as loas do Círio da Prata Grande, também chamado Círio dos Saloios, entre os séculos XVIII e XXI.


Do folheto à circulação digital

A própria existência da apresentação no YouTube acrescenta uma nova etapa ao percurso comunicacional das loas. Aquilo que foi escrito em folhetos, cantado em comunidades e transmitido pela memória corporal passa a circular também como registro audiovisual.

As plataformas digitais não substituem a festa nem reproduzem integralmente a experiência de estar diante da imagem, acompanhar o cortejo ou ouvir os anjos. Permitem, contudo, que a tradição alcance outros públicos, seja estudada à distância e estabeleça novas conexões entre comunidades devotas.


O registro utiliza imagens recolhidas pela Câmara Municipal da Nazaré, por Victor Estrelinha e Humberto Santos, com edição e difusão da IPI Consulting Network. A produção integrou um projeto mais amplo de documentação e salvaguarda das práticas relacionadas ao culto.


Lucília-José concluiu sua exposição defendendo que as loas ainda constituem uma área aberta à investigação acadêmica. Sua permanência não pode ser explicada somente pela conservação de antigos textos. A tradição continua porque cada geração volta a cantá-la, interpretá-la e adaptá-la.


Entre o folheto de 1885 e o vídeo digital, os suportes mudam, mas permanece a arquitetura fundamental: uma comunidade recebe uma mensagem, transforma-a em canto e a entrega adiante. Nas loas, comunicar também é fazer a memória caminhar.


 
 
 

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