top of page

“Aquilo ali é uma memória cristalizada”: Rafael Nolêto encontra a folkcomunicação nos ex-votos e mitos do Piauí

Em entrevista ao programa “Papo Maroto”, jornalista e pesquisador mostra como objetos devocionais, relatos orais e lendas populares comunicam identidades e disputam os sentidos atribuídos à cultura piauiense



Garrafas de água deixadas nas proximidades do monumento dedicado a Finado Gregório, na Avenida Marechal Castelo Branco, em Teresina, podem passar despercebidas por quem atravessa o local. Para os devotos, entretanto, não são objetos abandonados. Representam promessas, agradecimentos e vínculos estabelecidos com uma figura incorporada à religiosidade popular da cidade.


“Aquilo ali é uma memória cristalizada”, afirma Rafael Nolêto ao comentar os ex-votos durante entrevista ao programa Papo Maroto, da TV Assembleia do Piauí. Jornalista, escritor e pesquisador da cultura popular, ele utiliza o exemplo para apresentar a folkcomunicação como uma forma de compreender as linguagens criadas e compartilhadas pelo povo.


Ao longo da conversa, Nolêto aproxima comunicação, folclore e identidade. Sua fala passa pelos relatos recolhidos entre moradores de diferentes regiões do Piauí, pela devoção às chamadas almas benditas e pelas interpretações construídas em torno de personagens como o Cabeça de Cuia. Em todos esses casos, a cultura popular aparece como um sistema vivo de produção e circulação de sentidos.


Mais do que conservar tradições, esses processos permitem que comunidades contem suas próprias histórias, atribuam significados aos lugares onde vivem e enfrentem representações construídas de fora para dentro. É nesse movimento que a entrevista encontra um de seus principais vínculos com a folkcomunicação.


“É o uso da linguagem utilizada pelo povo”

Ao explicar o conceito de forma direta, Nolêto afirma que “na comunicação, a gente tem a folkcomunicação, que é o uso da linguagem utilizada pelo povo”. A definição apresentada na entrevista destaca uma dimensão central da teoria desenvolvida por Luiz Beltrão: a existência de processos comunicacionais ligados às experiências, aos códigos e aos meios de expressão dos grupos populares.


Essas linguagens não aparecem apenas em jornais, emissoras ou plataformas digitais. Também estão presentes nas celebrações, nos gestos devocionais, nas narrativas orais, nas festas, nas cantorias, nos objetos oferecidos aos santos e nas histórias transmitidas entre gerações.


O folclore, nessa perspectiva, não é uma coleção de curiosidades preservadas do passado. Para Nolêto, ele funciona como “um reflexo da identidade de um povo”. Conhecer suas lendas, roupas, maneiras de falar, expressões e práticas significa entrar em contato com parte daquilo que uma comunidade reconhece como sua identidade.


A folkcomunicação ajuda a observar justamente como esses saberes são formulados, transmitidos e transformados. O povo não aparece apenas como receptor de mensagens produzidas por instituições ou pelos grandes meios de comunicação. Ele também cria códigos, seleciona memórias, interpreta acontecimentos e faz circular suas próprias narrativas.


O ex-voto no princípio da folkcomunicação

A escolha dos ex-votos para explicar o conceito estabelece uma ligação direta com a história da folkcomunicação. Antes de apresentar formalmente sua teoria, Luiz Beltrão estudou esses objetos em O ex-voto como veículo jornalístico, texto no qual identificou as ofertas devocionais como formas populares de comunicar acontecimentos, sofrimentos, graças recebidas e agradecimentos.


Uma fotografia, uma peça de madeira representando uma parte do corpo, uma roupa, uma carta ou uma garrafa de água pode carregar uma narrativa completa. O objeto comunica que alguém enfrentou uma dificuldade, fez uma promessa, recebeu uma graça ou deseja manter publicamente uma relação com o sagrado.


É o que Nolêto identifica nas garrafas depositadas em homenagem a Finado Gregório. O objeto aparentemente simples ganha significado porque participa de uma experiência compartilhada. Ele registra a passagem dos devotos pelo lugar e materializa uma história de fé que nem sempre depende da escrita para ser compreendida.


O culto popular a Finado Gregório, motorista cuja memória passou a ser reverenciada em Teresina, demonstra como uma comunidade pode transformar um personagem local em referência religiosa. As oferendas deixadas no espaço público comunicam a permanência dessa devoção e ajudam a renovar a narrativa a cada nova promessa.


Quando chama o ex-voto de “memória cristalizada”, Nolêto chama atenção para essa capacidade de condensação. Um objeto pequeno pode reunir lembrança, fé, identidade e pertencimento. Também pode comunicar publicamente aquilo que os canais religiosos institucionalizados nem sempre reconhecem.


Ouvir quem mantém as histórias em circulação

A pesquisa de Nolêto sobre a mitologia piauiense nasceu, segundo ele, da dificuldade de encontrar materiais que apresentassem essas narrativas a partir de uma perspectiva local. A ausência de registros levou o pesquisador a procurar fontes orais e conversar com moradores e devotos.


“Eu fui atrás de fontes orais, conversar com moradores, com pessoas que veneravam as chamadas almas benditas”, conta. As viagens por diferentes regiões do Piauí permitiram recolher testemunhos relacionados a figuras como Finado Gregório e outras personagens da devoção popular.


O procedimento também possui uma dimensão folkcomunicacional. Ao reconhecer os moradores como fontes de conhecimento, o pesquisador desloca a autoridade normalmente concentrada nos documentos oficiais. A lembrança de quem participa da tradição passa a ser entendida como um registro legítimo da experiência coletiva.


Esses interlocutores funcionam como agentes da circulação cultural. São pessoas que guardam relatos, interpretam acontecimentos e adaptam as histórias ao contexto de cada geração. Mesmo sem ocupar os espaços tradicionais da mídia, comunicam conhecimentos e ajudam a estabelecer os sentidos atribuídos aos personagens, lugares e rituais.


A oralidade, portanto, não representa apenas uma etapa anterior ao registro escrito. Ela possui formas próprias de selecionar, organizar e transmitir informações. Cada relato pode acrescentar detalhes, retirar elementos ou reorganizar o enredo. É dessa circulação que as narrativas populares retiram parte de sua vitalidade.


“Enquanto você não morre, você está se transformando”

Para Nolêto, a cultura popular não deve ser tratada como uma peça imóvel. “A cultura, o folclore, o conhecimento não estão mortos. Enquanto você não morre, você está se transformando e evoluindo”, afirma.


A observação afasta a ideia de que preservar uma tradição significa congelá-la. Os mitos permanecem vivos porque podem ser narrados novamente, relacionados a problemas contemporâneos e interpretados de acordo com as necessidades de cada comunidade.

Essa dinâmica também impede que apenas uma versão seja apresentada como definitiva. As narrativas populares são atravessadas por disputas. Algumas interpretações foram fortalecidas por instituições religiosas, sistemas educacionais e produtos da mídia, enquanto outras permaneceram restritas às famílias, aos devotos e aos narradores locais.


Nolêto chama atenção especialmente para versões que descrevem personagens piauienses por meio de uma perspectiva negativa ou desqualificadora. Ao recorrer à imagem da mulher que se estica para acender um cigarro, associada à lenda da Num-Se-Pode, ele sugere que ela pode ser compreendida não apenas como uma figura assustadora, mas como “uma mulher talvez à frente do seu tempo”.


A mudança de perspectiva não elimina a narrativa anterior. Ela evidencia que o mito pode acolher novas perguntas. Quem contou essa história? Por que a personagem feminina foi apresentada como ameaça? Quais comportamentos eram condenados? O que a lenda comunica sobre o período em que passou a circular?


Cabeça de Cuia: de monstro a guardião das águas

A disputa pelas interpretações ganha força quando a entrevista aborda o Cabeça de Cuia. Na versão mais difundida, o personagem costuma aparecer como um homem amaldiçoado depois de matar a própria mãe, condenado a viver nas águas e perseguir vítimas.

Nolêto questiona essa leitura e propõe observar os processos históricos que transformaram divindades e entidades locais em figuras demonizadas. Segundo ele, a colonização não impôs apenas o domínio territorial, mas também desqualificou costumes, crenças e personagens ligados aos povos conquistados.


Ao aproximar o Cabeça de Cuia das antigas relações estabelecidas com os rios e com as entidades das águas, o pesquisador oferece outra possibilidade de leitura. Em vez de ser apresentado exclusivamente como monstro, o personagem pode ser interpretado como um protetor do ambiente aquático.


Nessa ressignificação, o Cabeça de Cuia se torna ameaçador para quem agride os rios, mas pode ser amistoso com quem participa de sua preservação. A narrativa passa a comunicar uma preocupação ambiental contemporânea sem romper completamente com os elementos simbólicos que permitiram sua circulação ao longo do tempo.


O mito atua, assim, como meio de comunicação. Por sua capacidade de despertar curiosidade e reconhecimento, torna compreensíveis assuntos como degradação ambiental, proteção dos rios e responsabilidade coletiva. A mensagem não circula por meio de uma linguagem técnica, mas por intermédio de um personagem já incorporado ao imaginário regional.


Folkcomunicação como disputa pela imagem do Piauí

A entrevista demonstra que a folkcomunicação não se limita a identificar manifestações populares. Ela também permite perguntar quem possui autoridade para definir o significado dessas manifestações e quais versões alcançam maior visibilidade.


Quando os moradores depositam garrafas para Finado Gregório, comunicam uma experiência religiosa. Quando narram histórias recolhidas por pesquisadores, preservam e atualizam memórias. Quando o Cabeça de Cuia deixa de ser apenas um monstro e passa a ser visto como guardião das águas, uma comunidade reorganiza os sentidos de seu patrimônio cultural.


Esses processos ajudam a construir aquilo que Nolêto chama de identidade do povo. A cultura piauiense não aparece como algo definido exclusivamente em livros ou instituições. Ela é produzida cotidianamente por devotos, narradores, artistas, pesquisadores e grupos que mantêm seus símbolos em circulação.


Dos ex-votos às lendas, a fala de Rafael Nolêto revela que os meios populares de comunicação podem estar nos objetos, nos gestos e nas histórias aparentemente comuns. Cada um deles carrega uma maneira de compreender o mundo e de disputar a memória coletiva. Aquilo que parece apenas uma garrafa deixada à margem da avenida pode ser, para quem conhece seus códigos, uma mensagem pública de fé — e uma memória cristalizada.

 
 
 

Comentários


Rede Folkcom - 2026

bottom of page