top of page

De ponta de pé e de calcanhar, folkcomunicação ocupa o centro do Encontro Cultural de Laranjeiras

Tema escolhido coletivamente transformou a teoria brasileira em eixo do 51º Simpósio; integrantes da Rede Folkcom discutiram memória, oralidade, ambiente digital, resistência política e estética das culturas populares



Durante quatro dias, a folkcomunicação deixou de ser apenas uma referência teórica para se tornar o eixo articulador do 51º Simpósio do Encontro Cultural de Laranjeiras. Realizada entre 7 e 10 de janeiro de 2026, no campus da Universidade Federal de Sergipe (UFS), a programação reuniu pesquisadores, artistas, mestres e grupos tradicionais em torno do tema “Folkcomunicação: é de ponta de pé, é de calcanhar”.


O Simpósio integrou o 51º Encontro Cultural de Laranjeiras, realizado de 4 a 11 de janeiro com o tema ampliado “Culturas Populares e Folkcomunicação: é de ponta de pé, é de calcanhar”. Além das mesas acadêmicas, a edição ocupou ruas, igrejas, praças e espaços culturais da cidade com cortejos, oficinas, exposições, cinema, teatro, apresentações folclóricas e shows. A programação oficial foi divulgada pela Prefeitura de Laranjeiras.


A escolha da folkcomunicação não foi uma decisão tomada apenas pela organização. O tema havia sido aprovado por maioria na plenária que encerrou o 50º Simpósio, em janeiro de 2025. Naquela ocasião, a programação já havia recuperado a importância de Luiz Antônio Barreto para a folkcomunicação e realizado a mesa “Poder comunicante: tributo a Luiz Antônio Barreto”. O tema da edição seguinte nasceu desses debates e da votação dos participantes.


Uma história que começa com Luiz Antônio Barreto

A abertura do 51º Simpósio aprofundou essa ligação histórica. Osvaldo Meira Trigueiro, uma das principais referências da folkcomunicação no Brasil, apresentou a conferência “É de ponta de pé, é de calcanhar: o legado de Luiz Antônio Barreto na Folkcomunicação”, com mediação de Jorge Carvalho do Nascimento.


Jornalista, historiador e folclorista, Luiz Antônio Barreto esteve entre os idealizadores do Encontro Cultural de Laranjeiras e foi responsável por sua realização durante muitos anos. Mais do que organizar um evento, ajudou a construir um espaço permanente de aproximação entre pesquisadores, políticas culturais, mestres populares e grupos folclóricos.


A trajetória de Osvaldo Trigueiro também se confunde com essa história. Em depoimento publicado originalmente em 2020, o pesquisador recorda que chegou ao primeiro Encontro Cultural, em maio de 1976, acompanhando Roberto Benjamin em uma viagem de fusca. Recém-formado em Jornalismo, conheceu em Laranjeiras Luiz Antônio Barreto e Bráulio do Nascimento. Segundo ele, aquele encontro marcou o início de sua trajetória de pesquisa sobre folclore, cultura popular, comunicação de massa e folkcomunicação. O relato está preservado em seu blog FolkMídia.


Cinquenta anos depois, Trigueiro retornou ao Simpósio para apresentar justamente o legado daquele que ajudou a transformar Laranjeiras em um dos principais fóruns brasileiros de discussão sobre cultura popular.


Da calçada às plataformas digitais

A participação da Rede Folkcom se distribuiu por diferentes momentos da programação. Na mesa “Do terreiro à rede: a folkcomunicação na era digital”, Andriolli Costa e Júnia Mara Dias Martins discutiram os caminhos da comunicação popular diante das plataformas, dos algoritmos e das novas formas de circulação das culturas populares.


O debate procurou compreender como tradições, narrativas e imaginários ocupam os ambientes digitais sem perder necessariamente seus vínculos comunitários. O problema já não é apenas observar como a internet divulga o folclore, mas perceber como as próprias plataformas interferem na visibilidade, na organização e nas transformações dessas práticas.


Na sequência, Marlei Sigrist, integrante da primeira diretoria da Rede Folkcom, participou da mesa “Memória de calçada: a oralidade que não cala”. A pesquisadora construiu um percurso histórico e filosófico entre os lugares cotidianos de conversa e aquilo que chamou de “calçadas eletrônicas”. A oralidade, nessa perspectiva, não desaparece com as tecnologias: encontra outros espaços de circulação, sem abandonar as relações presenciais, os gestos, a escuta e a convivência.


A programação também abordou o corpo como linguagem, a comunicação das tradições religiosas e a dimensão política das manifestações culturais. Na mesa “Da brincadeira ao protesto: a voz política da cultura popular”, Thífanni Postali participou das reflexões sobre festas, performances e expressões populares que também comunicam denúncias, reivindicações e formas de resistência.


No encerramento, Guilherme Moreira Fernandes e José Cláudio Alves de Oliveira integraram a mesa “Estéticas da folkcomunicação: é de ponta de pé, é de calcanhar”. O encontro aproximou as formas sensíveis da cultura popular — imagens, gestos, objetos, movimentos e performances — dos processos por meio dos quais grupos constroem memória e identidade.


“É uma cidade histórica, acolhedora e muito rica culturalmente. Estar imerso nessa cultura é sempre gratificante”, afirmou Guilherme Fernandes ao comentar a participação da Rede Folkcom. A declaração foi registrada na cobertura do encerramento.


O São Gonçalo como protagonista

A expressão “é de ponta de pé, é de calcanhar” não funcionou apenas como frase de efeito. Ela pertence ao repertório do São Gonçalo de Amarante da Mussuca, grupo homenageado pelo Simpósio. O protagonismo concedido à manifestação permitiu que o conceito de folkcomunicação fosse discutido a partir de uma prática efetivamente mantida por uma comunidade.


Sob a liderança de mestre Neilton Santana, neto do antigo mestre Seu Sales, o São Gonçalo participou da abertura e foi homenageado por sua contribuição à memória cultural de Laranjeiras. O grupo também possui uma formação mirim, por meio da qual crianças e jovens aprendem cantos, passos e responsabilidades relacionados à tradição.


Durante o Simpósio, as discussões acadêmicas foram intercaladas por apresentações do próprio São Gonçalo, do Cacumbi Mirim, do Pífano Esquenta Muié e de artistas como Rural do Forró, Anne Carol, Ciel Santos, Hot Black e Nino Karvan. A escolha ajudou a desfazer a separação convencional entre aqueles que estudam a cultura popular e aqueles que a realizam.


No último dia, a mesa “A palavra e o corpo dos mestres da cultura popular” reuniu Neilton, do São Gonçalo; Josefa Santos de Jesus, do Samba de Roda de Simão Dias; Maria Ione, de Lagarto; e José Ronaldo de Menezes, o mestre Zé Rolinha. Em vez de aparecerem apenas como exemplos das falas acadêmicas, mestres e mestras apresentaram suas próprias experiências, projetos e formas de transmissão de conhecimentos.


Ao aproximar a oralidade da comunicação digital, a fé da informação, a brincadeira do protesto e a estética da memória, o 51º Simpósio mostrou a abrangência contemporânea da folkcomunicação. Mais do que aplicar uma teoria às manifestações de Laranjeiras, a programação reconheceu que dançar, cantar, celebrar, ocupar as ruas e ensinar uma tradição também são maneiras de produzir e compartilhar conhecimento.


No encerramento, os participantes escolheram o tema da próxima edição: “Renovando a tradição: se não voltar esse ano, para o ano eu vou voltar”. A decisão prolonga uma dinâmica que o próprio Simpósio ajudou a evidenciar: a cultura popular permanece porque se comunica, transforma-se e encontra novas gerações dispostas a colocá-la novamente em movimento.

 
 
 

Comentários


Rede Folkcom - 2026

bottom of page