Pesquisador aproxima folkcomunicação e ensino de ciências pelo mito do lobisomem
- Andriolli Costa
- há 4 horas
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Elidiomar Ribeiro da Silva propõe que narrativas compartilhadas pelos estudantes funcionem como mediadoras entre os saberes populares e a linguagem científica, transformando a sala de aula em espaço de escuta, tradução e produção comunicacional
Antes de apresentar conceitos como metamorfose, fototaxia, hematofagia ou sinantropia, o professor pode fazer uma pergunta muito mais próxima do cotidiano: como é o lobisomem que aparece nas histórias de sua família ou de sua comunidade?
Um estudante talvez fale de uma criatura semelhante a um cachorro. Outro pode ter ouvido que o monstro se transforma em porco, cavalo ou boi. Alguém poderá recordar uma história narrada pelos avós, enquanto outro reconhecerá apenas o lobisomem dos filmes. As respostas não formam simplesmente uma etapa recreativa anterior à “verdadeira” aula. Elas constituem um repertório cultural a partir do qual o conhecimento científico poderá ser traduzido, discutido e novamente colocado em circulação.
É essa a proposta apresentada pelo professor Elidiomar Ribeiro da Silva no vídeo O lobisomem e os insetos: uma proposta interdisciplinar para o ensino de ciências na educação básica, publicado em dezembro de 2025.
Professor do Departamento de Zoologia do Instituto de Biociências da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Elidiomar coordena o Laboratório de Entomologia Urbana e Cultural. Sua atuação articula o estudo científico dos animais às representações que eles recebem nas diferentes manifestações da cultura.
Na apresentação, porém, o encontro entre lobisomem e insetos não aparece somente como exercício de interdisciplinaridade. O pesquisador recorre à folkcomunicação para pensar o processo pelo qual uma narrativa conhecida pelos estudantes pode mediar o contato entre a cultura popular e a ciência.
O estudante começa como fonte
Em uma aula tradicional, o conteúdo científico costuma chegar pronto. O professor explica, o livro organiza e o estudante recebe. Na proposta de Elidiomar, o primeiro movimento segue outra direção: os alunos são convidados a contar o que já sabem.
As histórias de lobisomem que circulam oralmente nas famílias e nas comunidades passam a integrar a aula. Diferenças entre versões não precisam ser corrigidas de imediato como se uma única narrativa fosse verdadeira. Elas revelam justamente a capacidade de transformação e adaptação do mito em diferentes territórios.
O professor atua como mediador, ajudando a organizar as histórias, identificar elementos recorrentes e estabelecer pontes com os assuntos científicos. Os estudantes, por sua vez, deixam de aparecer como recipientes vazios. Eles ingressam no processo educativo como portadores de memória, experiências e referências culturais.
Ao levar “elementos da vida real, ainda que imaginária, ainda que folclórica” para a escola, Elidiomar afirma que o professor conquista um grande poder de inclusão. “Eu faço os alunos se sentirem incluídos no processo de ensino e aprendizagem, que é, de fato, o papel que eles têm: o papel que eles desempenham de protagonistas na escola”, explicou.
Na perspectiva folkcomunicacional, essa mudança é decisiva. A comunicação não parte somente da instituição em direção ao público. O conhecimento também circula da comunidade para a escola, é reinterpretado pelo professor e retorna aos estudantes em outra linguagem.
Um lobisomem diferente daquele de Hollywood
A escolha do lobisomem permite discutir também como uma narrativa estrangeira é apropriada e transformada pela cultura popular brasileira. A imagem fixada pelo cinema apresenta, em geral, uma criatura poderosa, diretamente associada ao lobo e à lua cheia.
O lobisomem encontrado nas narrativas brasileiras costuma ser diferente. Elidiomar observa que ele frequentemente aparece como uma criatura mais fraca, amaldiçoada e vinculada à vida rural. Em vez de reproduzir apenas a aparência do lobo europeu, pode assumir características de animais próximos das comunidades, como cachorros, cavalos, bois, porcos, galinhas e até patos.
Essa transformação é, por si mesma, um processo comunicacional. Ao circular pelo Brasil, o mito foi recodificado a partir dos animais, espaços e experiências reconhecidos pelas populações. O repertório estrangeiro não foi simplesmente repetido: ganhou novas formas ao entrar em contato com realidades locais.
Quando essas variantes chegam à sala de aula, o professor pode confrontar a imagem difundida pelos meios de comunicação com as versões transmitidas oralmente. A atividade valoriza a diversidade das narrativas e demonstra que a cultura popular não conserva passivamente aquilo que recebe. Ela seleciona, combina e adapta.
Traduzir a ciência pela linguagem do mito
No artigo publicado nos Anais do Congresso Internacional Movimentos Docentes 2025, Elidiomar define o lobisomem como um mediador cultural. Os elementos da narrativa funcionam como pontos de passagem para conceitos da zoologia, da entomologia e da ecologia.
A transformação do humano em criatura pode introduzir o estudo da metamorfose dos insetos. A comparação permite falar do ciclo formado por ovo, larva, pupa e adulto. Também ajuda a estabelecer uma diferença fundamental: enquanto o lobisomem volta à forma humana, a transformação biológica do inseto segue em uma única direção.
A associação do monstro com a lua e com a noite abre caminho para discutir a atração exercida pela luz sobre diversos insetos. As revoadas de cupins ao redor de lâmpadas, por exemplo, permitem tratar da fototaxia e dos impactos provocados pela iluminação artificial.
As histórias que situam o lobisomem nas proximidades das casas possibilitam apresentar o conceito de sinantropia, utilizado para descrever animais que vivem associados aos ambientes ocupados pelos seres humanos. Moscas, mosquitos e outros insetos encontrados nas residências podem ser examinados a partir dessa relação.
O rastro de carcaças atribuído à criatura conduz à atuação dos insetos decompositores e à entomologia forense. Já a presença do sangue nas narrativas permite abordar animais hematófagos e a transmissão de agentes causadores de doenças.
Em cada associação, o mito oferece uma imagem conhecida para a introdução de um vocabulário especializado. O procedimento não transforma a narrativa folclórica em explicação científica. Também não apresenta a ciência como instrumento destinado a desmentir o lobisomem. O valor cultural do mito e a explicação empírica permanecem distintos.
A mediação acontece justamente porque essa diferença é preservada. A narrativa desperta curiosidade, mobiliza afetos e organiza perguntas; a ciência fornece conceitos, métodos de observação e explicações verificáveis.
Folkcomunicação como ponte, não como decoração
O trabalho se apoia na zoologia cultural, campo que estuda a presença simbólica dos animais nas manifestações humanas. A folkcomunicação acrescenta outra questão: como esses símbolos e conhecimentos circulam entre a comunidade, a escola e a linguagem científica?
O lobisomem não aparece apenas como ilustração colocada sobre uma aula convencional para torná-la mais divertida. Ele funciona como código compartilhado, capaz de conectar diferentes universos de experiência.
No artigo, a folkcomunicação é compreendida como uma mediação entre as linguagens do povo e da ciência. Mitos, crenças e narrativas orais tornam conteúdos complexos mais acessíveis e afetivamente significativos. O saber popular não substitui o conhecimento científico, mas participa da construção do caminho pelo qual o estudante chega até ele.
Esse movimento também evita tratar o folclore como um conteúdo morto, restrito a datas comemorativas. A narrativa continua ativa porque ainda desperta medo, curiosidade, humor e reconhecimento. Ela circula nas conversas familiares, nos relatos regionais, nos filmes, nas redes sociais e, com a proposta, passa a participar da educação científica.
Do relato oral à produção dos estudantes
A dimensão mais diretamente folkcomunicacional da proposta aparece quando os alunos deixam de apenas ouvir as explicações e passam a produzir suas próprias mensagens.
Depois de compartilhar narrativas e estudar os conceitos científicos, os grupos podem criar podcasts, histórias em quadrinhos, fanzines, vídeos, dramatizações ou cartazes. Cada produção deve relacionar o universo do lobisomem aos conhecimentos aprendidos sobre os insetos.
O artigo define esses materiais como formas folkcomunicacionais de mediação, porque “recontam a ciência em linguagem do povo” e favorecem sua circulação na comunidade escolar.
Um podcast pode recuperar relatos de moradores e explicar as diferenças entre a transformação imaginária do lobisomem e a metamorfose biológica. Uma história em quadrinhos pode mostrar a criatura encontrando mosquitos hematófagos. Um vídeo pode partir das revoadas observadas ao redor de postes para discutir luz artificial. Uma dramatização pode reunir versões locais do mito e conceitos científicos.
Nesse desenho pedagógico, os estudantes assumem uma função próxima à dos agentes mediadores estudados pela folkcomunicação. Eles recebem informações provenientes de diferentes circuitos, reinterpretam-nas em linguagens acessíveis e produzem mensagens destinadas a outros públicos.
A avaliação também se torna comunicacional. Em vez de terminar apenas com uma prova individual, os trabalhos podem ser apresentados à turma ou à comunidade. Uma roda de conversa permite que os estudantes discutam o que aprenderam, como sua percepção sobre os insetos mudou e quais relações encontraram entre o imaginário popular e a biologia.
A ciência que escuta antes de falar
A proposta de Elidiomar mostra que divulgar ciência não significa somente simplificar termos especializados. É necessário reconhecer os repertórios por meio dos quais diferentes públicos interpretam o mundo.
A folkcomunicação ajuda a iluminar esse processo porque desloca a atenção da mensagem pronta para a mediação. Importa saber quem fala, como o conteúdo é traduzido, quais referências são mobilizadas e de que maneira o público participa da circulação do conhecimento.
Na sala de aula, o professor ocupa uma posição estratégica, mas não exclusiva. Ele articula o rigor científico às experiências culturais apresentadas pelos alunos. Estes, ao recontarem o conteúdo em podcasts, quadrinhos, vídeos ou dramatizações, também se tornam mediadores.
O resultado esperado não é apenas memorizar as etapas da metamorfose ou identificar um inseto hematófago. A proposta procura contribuir para o letramento científico, o reconhecimento dos saberes populares e o interesse pela biodiversidade.
O lobisomem, nesse processo, não precisa ser retirado da escuridão pela ciência nem reduzido a uma fantasia equivocada. Sua força está justamente em continuar circulando. Ao atravessar a porta da escola, a criatura carrega histórias, memórias e modos populares de interpretar o mundo. A folkcomunicação permite que esse repertório seja escutado, traduzido e devolvido à comunidade como novo conhecimento.



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