“Se eu fosse 5% do que Luyten foi, seria um excelente pesquisador”: Fábio Corniani homenageia mestre da folkcomunicação
Em depoimento produzido pela Rede Folkcom nos 20 anos da morte de Joseph Luyten, ex-orientando recorda o encontro que mudou sua trajetória, as viagens aos sebos de São Paulo e a generosidade do pesquisador.
Foi preciso viajar até a Paraíba para Fábio Corniani encontrar, na própria universidade em que estudava, o professor que orientaria sua pesquisa. Em 1999, interessado em compreender o hip-hop pela perspectiva da folkcomunicação, ele participou de um encontro da área e apresentou suas inquietações ao professor Roberto Benjamin.
Benjamin percebeu a potência do tema, mas sugeriu que o jovem pesquisador procurasse um especialista que atuava em São Paulo, na Universidade Metodista: Joseph Maria Luyten.
“Poxa, eu estudava nessa universidade e não o conhecia. Tive que ir lá na Paraíba para uma pessoa me indicar o Joseph Luyten”, recordou Corniani.
O encontro deu início a uma relação de orientação, amizade e aprendizado que marcaria sua trajetória acadêmica. Vinte anos após a morte de Luyten, ocorrida em 27 de julho de 2006, a Rede Folkcom convidou Fábio Corniani para recordar algumas das experiências vividas ao lado de um dos nomes fundamentais para a consolidação dos estudos de folkcomunicação e folkmídia no Brasil.
Um agradecimento entregue em forma de cordel
A primeira lembrança compartilhada por Corniani ocorreu ainda durante aquela viagem à Paraíba. Depois do evento acadêmico, ele foi conhecer as festas juninas de Campina Grande e começou a observar os folhetos vendidos em uma banca.
Até então, possuía apenas um conhecimento básico sobre literatura de cordel. O interesse aumentou quando soube que aquele era um dos principais objetos de pesquisa de Luyten. Durante a conversa com o vendedor, Corniani comentou que havia conhecido, em São Paulo, um professor dedicado ao tema.
“Você conhece o professor Luyten?”, perguntou o homem.
Diante da resposta afirmativa, o vendedor pegou um exemplar de cada cordel disponível na banca e entregou os folhetos ao estudante. Pediu que Corniani levasse o conjunto até São Paulo e agradecesse ao professor por tudo o que havia feito pela literatura de cordel.
A cena oferece uma medida do alcance do trabalho de Luyten. O reconhecimento não vinha apenas dos colegas de universidade ou dos pesquisadores que citavam seus livros. Aparecia também entre os próprios produtores e vendedores populares com quem ele havia construído relações ao longo de décadas.
Os cordéis entregues na banca se transformaram, assim, em uma mensagem de gratidão. A própria manifestação estudada por Luyten passou a funcionar como meio para que o reconhecimento circulasse da Paraíba até São Paulo.
Um pesquisador que conhecia muitas histórias
Holandês de nascimento e radicado no Brasil desde a infância, Joseph Luyten construiu uma trajetória marcada pelo deslocamento entre países, universidades e diferentes universos culturais. Para Corniani, entretanto, a vastidão de experiências nunca o afastou da simplicidade.
“Até hoje não conheci ninguém que conhecesse tantas histórias, que tivesse vivido em tantos lugares interessantes e que, ao mesmo tempo, tivesse aquela simplicidade”, afirmou.
A memória do professor não aparece no depoimento apenas por meio de conceitos, livros ou aulas. Ela se forma também a partir de cenas cotidianas. Corniani recorda as viagens realizadas em seu Fusca pelas ruas de São Paulo, quando Luyten pedia que o levasse aos sebos da cidade.
Nessas visitas, procurava cordéis, livros e exemplares de mangás que faltavam nas coleções de sua esposa, a professora e pesquisadora Sônia Luyten. O objetivo era encontrar os números necessários para completar as séries de histórias em quadrinhos que ela reunia.
As obras eram levadas para a casa do casal, na Vila Mariana. Na lembrança de Corniani, o local parecia um museu, tamanha a quantidade de livros, quadrinhos, folhetos e objetos de arte acumulados ao longo dos anos.
A imagem ajuda a compreender a curiosidade intelectual de Luyten. Seus interesses não estavam organizados em compartimentos isolados. Cordel, quadrinhos, comunicação popular, cultura japonesa e meios de comunicação faziam parte de um mesmo esforço para compreender como diferentes grupos narram suas experiências e colocam sentidos em circulação.
Do cordel ao hip-hop
A abertura de Luyten para novos objetos foi decisiva para a pesquisa de Corniani. No final dos anos 1990, o hip-hop ainda encontrava pouco espaço nos estudos brasileiros de comunicação e cultura popular. O interesse pelo tema, no entanto, foi acolhido pelo orientador.
A investigação daria origem ao trabalho Rap: uma manifestação folclórica urbana. Ao aproximar o rap da folkcomunicação, Corniani pôde observar como jovens das periferias urbanas produziam narrativas, expressavam conflitos e compartilhavam experiências por meio da música.
O percurso revela uma característica importante da atuação de Luyten. Embora reconhecido sobretudo por suas pesquisas sobre literatura de cordel, ele não tratava a cultura popular como um repertório imóvel, restrito ao passado ou aos ambientes rurais. Seu olhar permitia acompanhar deslocamentos, transformações e novas formas de expressão.
Em obras como A notícia na literatura de cordel e Sistemas de comunicação popular, Luyten demonstrou que os folhetos não eram somente manifestações literárias ou formas de preservação da tradição. Também produziam informação, interpretavam acontecimentos e ofereciam às camadas populares uma linguagem própria para falar sobre o presente.
O cordel noticiava crimes, acontecimentos políticos, festas, conflitos, personagens públicos e transformações sociais. Ao fazê-lo, não apenas reproduzia os conteúdos da imprensa: reorganizava os fatos segundo os códigos, valores e expectativas de seus leitores e ouvintes.
Suas reflexões sobre a folkmídia também ajudaram a ampliar o campo iniciado por Luiz Beltrão, permitindo investigar os encontros entre manifestações populares e meios de comunicação. Essa perspectiva abriu caminhos para estudos sobre a presença da cultura popular na televisão, no rádio, na imprensa, na publicidade e, posteriormente, nas plataformas digitais.
Na Universidade Metodista de São Paulo, Luyten contribuiu para fortalecer institucionalmente a folkcomunicação e orientou pesquisadores que levaram a teoria a novos objetos. A pesquisa de Corniani sobre o rap é um exemplo desse processo de continuidade e renovação.
A generosidade como forma de orientação
Ao recordar o antigo orientador, Corniani enfatizou uma qualidade que aparecia em diferentes lugares: a generosidade. Por onde passava, encontrava pessoas que conheciam Luyten e manifestavam algum sentimento de gratidão por sua ajuda ou atenção.
“Não teve lugar por onde eu passei em que as pessoas conhecessem Luyten e não tivessem um sentimento de agradecimento pela bondade que ele tinha”, contou.
Essa disponibilidade também marcou a relação entre professor e orientando. Corniani descreveu Luyten como alguém paciente, disposto a ouvir, indicar caminhos e ajudar um pesquisador iniciante a transformar uma curiosidade em investigação acadêmica.
A homenagem permite compreender que a formação de um campo científico não acontece apenas por meio da publicação de conceitos. Ela depende também de professores dispostos a acolher perguntas ainda imprecisas, reconhecer objetos pouco legitimados e apresentar estudantes a redes de pesquisa.
Ao encaminhar Corniani para Joseph Luyten, Roberto Benjamin ajudou a estabelecer uma dessas conexões. Ao aceitar orientar uma pesquisa sobre hip-hop, Luyten contribuiu para que a folkcomunicação alcançasse outras manifestações urbanas. E, ao dar continuidade ao trabalho, Corniani passou a integrar a comunidade acadêmica formada em torno da teoria.
Um legado que continua circulando
No depoimento, a admiração pelo professor aparece sintetizada em uma frase: “Se um dia eu fosse 5% do que Luyten foi, eu seria um excelente pesquisador”.
A comparação não se refere apenas à extensão de sua obra ou à quantidade de experiências acumuladas. Diz respeito também à forma como Luyten articulava erudição, curiosidade, simplicidade e generosidade.
Corniani encerrou sua participação recomendando que novas gerações procurem conhecer os livros e a trajetória do pesquisador. “Foi uma pessoa muito interessante para além da folkmídia, dos estudos da folkcomunicação e da comunicação. Era um gênio”, afirmou.
Duas décadas depois de sua partida, o legado de Joseph Luyten permanece nos estudos sobre cordel, nos debates sobre comunicação popular e nas pesquisas que investigam as relações entre cultura e mídia. Também continua nas histórias contadas por seus antigos alunos, nos acervos que ajudou a formar e na gratidão daqueles que encontraram nele um professor disposto a abrir caminhos.
O episódio da banca de Campina Grande talvez seja a imagem que melhor traduza essa permanência. Um vendedor separa um exemplar de cada cordel e os confia a um estudante desconhecido para que a mensagem chegue ao pesquisador. O agradecimento viaja junto aos folhetos, atravessa territórios e passa de uma pessoa a outra.
Como nos próprios sistemas de comunicação popular estudados por Luyten, sua memória continua viva porque ainda circula.


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