“Se a televisão está lá, temos que botar o mamulengo dentro da televisão”: tradição e mudança em conversa de Osvaldo Trigueiro e Chico Simões
- Andriolli Costa
- há 11 horas
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Em encontro realizado em Olhos d’Água, o pesquisador da folkcomunicação e o mestre do teatro popular de bonecos discutem espetacularização, novas tecnologias, universidade e os agentes que transitam entre diferentes mundos culturais
A cada nova tecnologia, reaparece a previsão de que a cultura popular estaria prestes a desaparecer. Primeiro vieram o rádio e a televisão; depois, a globalização, a internet, os celulares e as redes sociais. No entanto, enquanto os meios se sucedem, festas, brincadeiras, celebrações e formas tradicionais de comunicação continuam sendo praticadas — transformadas pelas condições de cada época, mas ainda ligadas às comunidades que lhes atribuem sentido.
É sobre essa capacidade de mudança que conversam Osvaldo Meira Trigueiro, professor aposentado da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e referência nos estudos de folkcomunicação, e Chico Simões, mestre da cultura popular e criador do Mamulengo Presepada.
O encontro aconteceu em Olhos d’Água, povoado de Alexânia, em Goiás, onde Chico desenvolve a Vila Mamulengo. Entre memórias, conceitos, divergências e brincadeiras, os dois refletem sobre o que permanece e o que se transforma quando a cultura popular encontra o turismo, a indústria cultural, a academia e as mídias digitais.
A cultura popular vai acabar?
Para responder à pergunta que atravessa toda a conversa, Osvaldo recupera uma história envolvendo José Marques de Melo. Durante um seminário cultural em Laranjeiras, Sergipe, alguém perguntou ao pesquisador se a cultura popular desapareceria com a modernidade e as tecnologias.
Marques de Melo respondeu que sim: acabaria quando ele morresse — para ele. Também acabaria, para cada pessoa, quando sua própria vida terminasse. Para aqueles que continuassem vivos, porém, a cultura continuaria existindo.
A resposta desloca o problema. Em vez de perguntar quando a cultura popular chegará ao fim, seria mais produtivo observar como ela se transforma, incorpora novos recursos e responde às demandas de cada contexto.
Osvaldo recorda que, em determinado momento, ele próprio compartilhou do temor de que a indústria cultural provocaria o desaparecimento das culturas locais. O trabalho realizado na UFPB começou com uma preocupação de salvamento: registrar mestres, manifestações e objetos antes que tudo desaparecesse.
As viagens ao interior, entretanto, mostraram outra realidade. Mesmo quando os mestres mais antigos morriam, novos brincantes apareciam. As festas incorporavam participantes, linguagens e tecnologias. A experiência de campo obrigou os pesquisadores a rever conceitos e metodologias. O que estava diante deles não era a extinção da tradição, mas sua reconfiguração.
Entre a festa da comunidade e a espetacularização
A permanência da cultura popular não significa que ela esteja imune às pressões do mercado. Osvaldo e Chico reconhecem a crescente apropriação das festas pela indústria cultural, pelo turismo e pelos grandes meios de comunicação.
Os festejos juninos do Nordeste oferecem um exemplo evidente. Em cidades como Campina Grande e Caruaru, as celebrações se tornaram megaeventos, com grandes palcos, artistas nacionais, patrocinadores e intensa cobertura midiática. Muitas vezes, os mesmos cantores percorrem diferentes cidades como parte de um circuito comercial.
Ao mesmo tempo, nas periferias e comunidades dessas cidades, continuam existindo festas familiares marcadas pela proximidade, pela sociabilidade e pela afetividade.
O mesmo pode acontecer com o bumba meu boi. Um grupo realiza uma apresentação de 20 ou 30 minutos para atender ao horário de um festival ou integrar a programação oferecida aos turistas. Depois, em sua comunidade, brinca durante quatro, cinco ou seis horas, sem precisar cumprir o regulamento do evento.
A apresentação reduzida não necessariamente substitui a brincadeira comunitária. As duas formas podem coexistir, embora carreguem sentidos, durações e relações distintas com o público.
Na conversa, surge assim uma diferença fundamental entre espetáculo e espetacularização. A festa sempre teve uma dimensão espetacular: organiza narrativas, mobiliza o corpo, ocupa o espaço público e produz acontecimentos aguardados pela comunidade. A espetacularização ocorre quando essa festa é formatada como produto midiático, comercial ou turístico. Essa passagem exige análise crítica, mas não autoriza a concluir automaticamente que a manifestação original deixou de existir.
O sagrado, o profano e o palco
Chico Simões amplia a discussão recorrendo às experiências vividas com manifestações maranhenses. Um toque, uma dança ou um conjunto de instrumentos pode assumir sentidos diferentes conforme o espaço e a finalidade da prática.
No tambor de mina, a música está integrada a um culto religioso, realizado no terreiro e relacionado à ancestralidade. Em outros contextos, elementos semelhantes podem aparecer no tambor de crioula, mobilizados por corpos brincantes sem que ocorra o mesmo processo religioso.
Há ainda a possibilidade de uma apresentação ser adaptada para o palco. Essa versão não necessariamente elimina as práticas realizadas nos terreiros e nas comunidades. O que muda é o contexto, o sentido e a relação estabelecida entre participantes e espectadores.
Osvaldo menciona também a Dança de São Gonçalo. Uma apresentação pública pode durar poucos minutos, enquanto o ritual votivo, realizado na comunidade, atravessa horas ou até uma noite inteira. A versão apresentada como espetáculo não contém toda a complexidade da prática, mas pode funcionar como uma de suas formas de circulação.
O desafio está em não confundir a parte apresentada ao público com a totalidade da manifestação.
“Botar o mamulengo dentro da televisão”
Chico recorda que, quando começou a trabalhar com mamulengo, no início da década de 1980, também escutava que a brincadeira desapareceria. A televisão estaria ocupando, nas praças, o espaço anteriormente reservado à tolda e ao teatro popular de bonecos.
Sua resposta foi direta: “Se a televisão está lá, nós temos que botar o mamulengo dentro da televisão”.
Em vez de se limitar a lamentar a presença do novo meio, Chico procurou ocupá-lo. O mamulengo entrou na televisão e também chegou às escolas, aos festivais, às universidades e a diferentes circuitos culturais.
A frase sintetiza uma compreensão da tradição como movimento. Permanecer não significa repetir indefinidamente uma forma imutável, mas encontrar condições para que a linguagem continue comunicando. O próprio Chico desenvolveu essa reflexão no artigo “A necessidade da mudança na continuidade da tradição do mamulengo”, publicado pela revista Móin-Móin.
Criado a partir da convivência de Chico com mestres do Teatro Popular de Bonecos do Nordeste, o Mamulengo Presepada mantém vínculos com diferentes tradições conhecidas como mamulengo, babau, João Redondo, Calunga e Cassimiro Coco. A trajetória do grupo é apresentada pelo Museu do Cerrado.
Quem pode brincar e pesquisar?
A possibilidade de renovação também envolve uma disputa sobre pertencimento. Chico conta que, no início da trajetória, chegou a não ser reconhecido como mamulengueiro porque havia nascido em Brasília, sabia ler e vinha de um contexto diferente daquele associado aos antigos mestres nordestinos.
Filho de paraibanos, ele buscou diretamente o convívio com mestres do mamulengo, babau e João Redondo. Foram esses brincantes que compartilharam conhecimentos, técnicas, personagens e responsabilidades relacionadas à tradição.
As críticas, em vez de afastá-lo, estimularam Chico a aprofundar sua experiência e a questionar uma visão conservadora que tentava estabelecer quem poderia ou não participar da cultura popular.
Osvaldo concorda que o local de nascimento não pode funcionar como proibição. As pessoas carregam diferentes vínculos familiares, territoriais e culturais. Chico nasceu em Brasília, mas possui raízes paraibanas e construiu sua trajetória por meio do contato prolongado e respeitoso com os mestres.
Em uma das passagens mais bem-humoradas da conversa, surge a afirmação de que Brasília “não tem raiz, tem antena”. Chico completa: sua raiz estaria no ar.
Para Osvaldo, a questão central não é exigir uma origem considerada pura, mas observar como o trabalho é realizado. Pesquisar, divulgar ou participar de uma manifestação exige ética, reconhecimento das fontes, respeito aos grupos e diálogo com seus interesses.
O Movimento Armorial e as disputas sobre apropriação
A conversa alcança também o Movimento Armorial e as críticas dirigidas a intelectuais e artistas que incorporaram elementos da cultura popular em produções eruditas.
Osvaldo, que foi aluno de Ariano Suassuna, considera o Movimento Armorial um marco importante para ampliar a presença de determinadas linguagens entre a classe média, a universidade e os meios de comunicação. A música, o teatro, a xilogravura e outras expressões populares passaram a ocupar espaços de maior visibilidade.
Ele reconhece as críticas e polêmicas em torno dessas apropriações, mas argumenta que não se pode negar a contribuição de artistas e pesquisadores que buscaram construir uma produção brasileira em diálogo com as culturas populares.
A crítica continua necessária, especialmente quando há exploração econômica, silenciamento dos produtores originais ou retirada de elementos de seus contextos. No entanto, a simples circulação entre campos culturais não deve ser tratada automaticamente como descaracterização.
Para os dois participantes, a tradição sempre foi construída por cruzamentos. A questão decisiva é como esses encontros são negociados e quais relações de poder se estabelecem.
Mestres dentro da universidade
A aproximação entre academia e cultura popular ocupa uma parte importante do encontro. Osvaldo recorda experiências realizadas pelo Núcleo de Pesquisa e Documentação da Cultura Popular da UFPB, o NUPPO, criado em 1978.
No final da década de 1970, o Núcleo levou bandas de pífanos para se apresentar no auditório da Reitoria. Mais do que oferecer um concerto, convidou os mestres a ensinar como eram produzidos pífanos, tambores, zabumbas e rabecas.
Em outra iniciativa, organizou uma exposição dedicada aos ex-votos. Os objetos foram abordados tanto por sua dimensão religiosa quanto por sua função como veículos de comunicação popular, a partir da teoria de Luiz Beltrão. A exposição recebeu críticas antes da abertura, mas depois atraiu público, pesquisadores e representantes da própria Igreja.
O NUPPO permanece em atividade na UFPB, preservando documentos, registros sonoros, fotografias, vídeos, livros e objetos relacionados às culturas populares.
Chico defende que esse movimento precisa avançar. Não basta levar um mestre à escola ou à universidade somente para uma apresentação isolada. É necessário reconhecer seus conhecimentos, incorporá-los aos processos formativos e permitir que atuem como sujeitos do ensino.
O ativista que transita entre fronteiras
Na etapa final da conversa, Osvaldo relaciona a trajetória de Chico ao conceito de ativista midiático da rede folkcomunicacional. Trata-se do agente que circula entre os produtores locais e os meios externos, negociando a presença de manifestações populares em escolas, universidades, instituições culturais, mercados e plataformas de comunicação.
Esse agente ocupa uma posição de fronteira. Conhece os códigos da comunidade, mas também consegue dialogar com editais, produtores, jornalistas, pesquisadores e gestores. Pode ajudar a evitar manipulações, ampliar a autonomia dos grupos e traduzir interesses entre diferentes espaços.
Osvaldo desenvolveu esse conceito em “O ativista midiático da rede folkcomunicacional”, trabalho no qual defende que cultura popular e cultura midiática precisam ser analisadas em suas relações e cruzamentos.
Chico reconhece a dificuldade dessa posição intermediária. Quem transita entre campos pode ser atacado pelos dois lados: para alguns, transforma demais a tradição; para outros, permanece excessivamente ligado a formas antigas.
Osvaldo observa que a polêmica provavelmente nunca será encerrada. Se o artista inova, pode ser acusado de descaracterizar. Se não apresenta novidades, pode ser chamado de conservador. O importante é fazer escolhas conscientes, manter o diálogo com os grupos e compreender as responsabilidades envolvidas na mediação.
Enquanto houver jovens interessados
Mesmo aposentado da UFPB desde 2010, Osvaldo continua escrevendo, participando de congressos e recebendo estudantes interessados em suas pesquisas. Segundo perfil publicado pela própria Universidade Federal da Paraíba, ele permanece como professor colaborador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e atua principalmente nos campos da cultura popular, televisão e folkcomunicação.
Uma de suas maiores alegrias é encontrar jovens pesquisadores participando dos debates, realizando trabalhos de campo e dialogando com mestres e brincantes.
Chico também compreende sua atuação como responsabilidade diante daqueles que lhe transmitiram seus conhecimentos. Continuar brincando seria, ao mesmo tempo, vício, missão e compromisso com os mestres.
A conversa entre os dois mostra que a cultura popular não permanece viva apesar das mudanças. Em grande medida, permanece porque sabe mudar. Ocupa o palco sem abandonar o terreiro, entra na universidade sem esquecer a comunidade e chega à televisão ou à internet carregando narrativas construídas ao longo de gerações.
Enquanto houver jovens interessados, mestres dispostos a ensinar e agentes capazes de construir pontes, a tradição continuará se transformando — e comunicando.


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