“Na feira você encontra da rapadura ao telefone celular”: Osvaldo Trigueiro mostra onde a folkcomunicação acontece
- Andriolli Costa
- há 1 dia
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Na quarta e última aula do Curso de Folclore de 2023, pesquisador percorreu as redes que conduzem os saberes populares da conversa na calçada às plataformas digitais e discutiu as negociações das comunidades com a mídia, o mercado e o poder público.
Antes dos grupos de WhatsApp, notícias, lendas, cantorias e conhecimentos sobre cura circulavam pelas cadeiras colocadas nas calçadas no fim da tarde. A chegada da televisão alterou o horário desses encontros, mas não interrompeu a comunicação popular. Décadas depois, celulares e plataformas digitais passaram a integrar os mesmos circuitos, agora com outras velocidades e possibilidades de produção.
Foi acompanhando essa continuidade entre oralidade, mídia e vida cotidiana que Osvaldo Meira Trigueiro conduziu a quarta e última aula do Curso de Folclore de 2023, promovido pela Comissão Gaúcha de Folclore.
Professor aposentado da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Folclorista Emérito Brasileiro e presidente de honra da Rede Folkcom, Trigueiro desenvolveu sua trajetória nas relações entre folclore, comunicação, televisão, festas populares e tecnologias. Na aula de encerramento, mostrou como a folkcomunicação permite compreender os caminhos pelos quais os saberes populares são produzidos, compartilhados, disputados e atualizados.
Uma teoria nascida da escuta
Para apresentar a teoria, Trigueiro recuperou o contexto das décadas de 1960 e 1970. Com a expansão da televisão, ganhou força no meio acadêmico a previsão de que os produtos da indústria cultural acabariam substituindo as manifestações tradicionais.
Em muitas cidades nordestinas, ainda havia poucos aparelhos. Prefeituras instalavam televisores nas praças para que os moradores acompanhassem coletivamente novelas e outros programas. A novidade despertava fascínio, mas também alimentava o temor de que costumes e expressões locais desaparecessem.
Luiz Beltrão observou outro processo. As classes populares não dependiam exclusivamente do rádio, da imprensa ou da televisão para compartilhar informações e interpretar os acontecimentos. Possuíam seus próprios meios, agentes e estratégias.
“A folkcomunicação é a comunicação do povo”, sintetizou Trigueiro.
Essas redes eram constituídas pela oralidade, pelo cordel, pelas cantorias, pelo artesanato, pelas festas e pelos deslocamentos entre diferentes localidades. Em vez de receber passivamente os conteúdos midiáticos, as pessoas os interpretavam a partir de suas referências e os incorporavam às conversações do cotidiano.
Para construir a teoria, Beltrão dialogou com estudiosos do folclore e da cultura brasileira, entre eles Edison Carneiro, Câmara Cascudo, Renato Almeida e Gilberto Freyre. Trigueiro destacou especialmente a influência de Dinâmica do folclore, de Edison Carneiro. A ideia de que o povo atualiza, reinterpreta e readapta suas maneiras de sentir, pensar e agir ajudou Beltrão a aproximar comunicação e folclore. “A preocupação não é estudar apenas o fato folclórico, mas as redes de transmissão dos saberes populares”, explicou o professor.
A manifestação, portanto, não deve ser analisada como um objeto isolado. A folkcomunicação procura saber quem transmite os conhecimentos, como eles circulam, quais relações garantem sua continuidade e o que acontece quando entram em contato com outras referências culturais.
A notícia antes do noticiário
Trigueiro chamou atenção para as “conversas da boca da noite”. Nas cidades do interior do Nordeste, era comum que os moradores se reunissem nas calçadas para comentar os acontecimentos do dia. “Nessas conversas havia os contos, as lendas, as parlendas, as cantorias e as narrativas de cura pela medicina popular”, recordou.
Farmácias, barbearias, feiras semanais e festas religiosas também funcionavam como pontos de circulação. Caminhoneiros, vendedores ambulantes, cantadores, cordelistas, ciganos e outros viajantes levavam notícias, histórias e práticas culturais de um lugar a outro.
A televisão modificou essa dinâmica, mas não a eliminou. Dependendo do horário da novela ou de algum acontecimento transmitido nacionalmente, a conversa podia começar mais tarde ou ser transferida para outro momento. O novo meio reorganizava os hábitos e, ao mesmo tempo, passava a fornecer assuntos para a própria rede popular.
“As culturas populares se renovam. Elas se apropriam dos novos valores culturais, se refazem e ressignificam”, afirmou Trigueiro. “Por isso, mesmo com todos esses aparatos tecnológicos, as festas populares estão ressurgindo com novas formas de fazer.”
Quando o brincante também produz a mídia
Movimento semelhante acontece atualmente com os smartphones e as redes sociais. Mestres, brincantes e integrantes das comunidades registram as próprias apresentações, divulgam festas, produzem vídeos e comentam os acontecimentos locais.
“Hoje é praticamente impossível dissociar os estudos da cultura popular das novas tecnologias”, observou.
Os meios digitais deixaram de ser apenas instrumentos utilizados por pesquisadores ou jornalistas externos. Estão nas mãos das pessoas que cantam, dançam, organizam celebrações e transmitem os saberes. “Eles constroem as suas falas, gravam os seus fazeres, as suas danças e as suas festas”, ressaltou Trigueiro.
Alguns desses sujeitos assumem a condição de ativistas midiáticos. Conhecem os códigos de suas comunidades e utilizam as tecnologias para divulgar manifestações, defender interesses coletivos e disputar as representações construídas sobre seus territórios.
O celular, assim, passa a integrar a própria experiência cultural. Ao mesmo tempo que participa da apresentação, o brincante pode registrar, publicar e acompanhar sua repercussão. “Os smartphones estão ao alcance de quase todos os brincantes das manifestações folclóricas. São como uma extensão do corpo”, comparou.
Oralidade e redes digitais no mesmo circuito
Trigueiro relatou uma experiência vivida em uma pequena cidade paraibana onde realiza pesquisas há vários anos. Antes mesmo de chegar para uma nova etapa do trabalho de campo, os moradores já sabiam que ele retornaria. “Quando eu cheguei, as pessoas estavam me esperando, porque a notícia circulou nas duas redes: na rede da oralidade e nas redes sociais.”
O episódio demonstra que os circuitos digitais não substituem necessariamente as relações interpessoais. Uma mensagem publicada em um aplicativo pode continuar sua trajetória em conversas familiares, encontros nas ruas e relações de vizinhança.
As localidades estudadas por Trigueiro apresentam características que ele associa às cidades “rurbanas”, a partir do conceito de Gilberto Freyre. São municípios classificados administrativamente como urbanos, mas cujos modos de vida continuam fortemente relacionados ao universo rural.
Neles convivem relações de compadrio, festas de padroeiro, conhecimentos sobre plantas, práticas agrícolas, vendas pela internet e comunicação por aplicativos. Por isso, uma região não deve ser entendida apenas como uma delimitação geográfica.
“A região é um grande laboratório, um palco com diferentes cenários e sistemas de comunicação cultural”, definiu Trigueiro.
Tradição e espetáculo no mesmo espaço
As festas foram o principal campo utilizado pelo pesquisador para discutir as negociações entre tradição, mídia e mercado. Entre os exemplos apresentados estavam a Festa da Uva, em Caxias do Sul, os festejos juninos de Campina Grande e Caruaru, o Festival de Parintins e a Bugiada e Mouriscada de Sobrado, em Portugal.
Trigueiro pesquisou a Festa da Uva durante o período em que viveu no Rio Grande do Sul. Criada institucionalmente para promover a produção regional de uvas e vinhos, a celebração adquiriu tradicionalidade e passou a narrar a história da imigração italiana e das transformações da Serra Gaúcha.
No parque de eventos, referências à colônia, à colheita, à fé e à memória dos imigrantes conviviam com publicidade, turismo, transmissões televisivas e estruturas de entretenimento. “É nesse campo híbrido que a cultura de base local se vincula à cultura global, em um fluxo contínuo de apropriações e novos significados”, analisou.
O mesmo acontece nos grandes festejos juninos. No palco principal apresentam-se artistas de projeção nacional, cercados por patrocinadores, camarotes e estratégias comerciais. Nas casas, nos bairros e nas cidades do entorno, as famílias continuam preparando comidas tradicionais, dançando quadrilhas e ouvindo o forró tocado com sanfona, zabumba e triângulo.
Retomando uma expressão de Roberto Benjamin, Trigueiro definiu essa convivência como “uma festa dentro da outra”: o megaevento institucionalizado e, simultaneamente, as celebrações comunitárias.
Mercado, turismo e poder público
A relação com o mercado não foi apresentada como uma oposição simples entre pureza e descaracterização. Para Trigueiro, as festas sempre incorporaram recursos, tecnologias e influências externas.
“Eu não tenho nada contra o turismo. Ele tem que existir. Mas como trabalhar com ele e com o folclore é que nós precisamos cuidar.”
O desequilíbrio torna-se visível quando prefeituras e empresas investem quantias elevadas na contratação de celebridades, enquanto os grupos historicamente ligados à celebração permanecem sem apoio.
Participantes da aula relataram situações semelhantes no Rio Grande do Sul, em feiras, carreteadas, eventos tradicionalistas e programações da Semana Farroupilha. Artistas de fora recebem os maiores cachês, enquanto músicos e grupos regionais ocupam espaços secundários.
Trigueiro aproximou esses relatos da situação das festas do Rosário e do ciclo junino no Nordeste. Congos, pontões, reisados e grupos de forró tradicional disputam espaço com programações voltadas à atração de grandes públicos e à promoção política dos gestores.
“As festas institucionalizadas tendem a se transformar em grandes espetáculos”, observou.
Isso não significa, porém, que todos os sentidos da celebração tenham sido privatizados. A prática familiar, a devoção e os conhecimentos compartilhados continuam existindo fora do palco principal. “Enquanto houver o sagrado e a devoção, essa relação com a festa não deixará de existir”, afirmou.
A comunicação anterior às plataformas
Durante o debate, Cristina Rolim Wolffenbüttel perguntou se a folkcomunicação seria a própria manifestação cultural ou o estudo dos processos pelos quais ela comunica seus sentidos.
Trigueiro esclareceu que a folkcomunicação não depende da presença do rádio, da televisão ou da internet. A preparação de uma festa, a escolha dos participantes, a transmissão dos repertórios, a confecção das roupas, a organização dos rituais e as relações de vizinhança já constituem processos comunicacionais.
“As manifestações folclóricas se organizam por meio das estratégias interpessoais de seus agentes”, explicou.
As tecnologias podem integrar esse sistema, mas não o inauguram. Mesmo uma celebração sem cobertura jornalística ou circulação em plataformas possui agentes, mensagens, códigos, espaços de encontro e modos próprios de transmitir conhecimentos.
A discussão também permitiu diferenciar uma manifestação viva de sua recriação artística.
Trigueiro mencionou as Cambindas de Lucena, cuja memória permanece em depoimentos, documentos e registros sonoros. Esse material pode inspirar espetáculos universitários, mas a montagem não restitui automaticamente a prática comunitária quando já não existem sua função social, a devoção e o grupo que a sustentava.
Nesse caso, a história oral preserva o conhecimento sobre o fato folclórico, enquanto a apresentação artística constitui uma projeção realizada em outro contexto.
A possibilidade de produzir um contraponto
As plataformas digitais também podem abrir espaços de reação às programações oficiais. Durante a pandemia, quando os festejos presenciais foram interrompidos, integrantes das quadrilhas juninas de Campina Grande organizaram atividades virtuais sem depender da empresa responsável pelo megaevento.
“Eles fizeram a festa da forma como queriam fazer”, destacou Trigueiro. “É sempre um contraponto, uma reação a essas coisas todas.”
O ambiente digital permitiu que os grupos mantivessem vínculos, produzissem seus registros e apresentassem outras narrativas sobre o São João.
Em cidades do interior, jovens blogueiros também passaram a entrevistar moradores idosos, recuperar fotografias e reconstruir histórias locais. A mesma tecnologia frequentemente acusada de afastar as novas gerações das tradições tornou-se instrumento de reativação da memória.
As manifestações, portanto, não apenas sofrem os efeitos das tecnologias. Seus agentes também se apropriam delas para negociar, responder e interferir na cultura midiática.
Teoria com os pés no território
Ao falar sobre sua trajetória, Trigueiro ressaltou que suas reflexões surgem do encontro entre teoria e pesquisa empírica. Festas, feiras, rituais, conversas e relações cotidianas não aparecem apenas como exemplos posteriores: são espaços a partir dos quais o conhecimento é produzido.
“Todos os meus trabalhos são resultado de pesquisa de campo, fundamentados em teorias, mas construídos principalmente a partir dos depoimentos, das observações e dos registros feitos em campo.”
Essa postura também orienta os estudos de folkcomunicação. Para Trigueiro, o debate acadêmico precisa manter contato com as pessoas responsáveis pelas manifestações pesquisadas.
“Nossas pesquisas são, em sua maioria, empíricas. Nós somos campo”, sintetizou.
A aula encerrou o curso mostrando que a cultura popular não permanece viva pela recusa ao que vem de fora. Sua continuidade envolve apropriações, conflitos, escolhas e ajustes realizados pelas comunidades.
“Não se trata de negar o que vem de fora e pode ser importante, mas de saber como negociar isso”, concluiu Trigueiro. “É um processo de negociações.”
É nesse trânsito entre a conversa na calçada e o grupo de WhatsApp, a devoção comunitária e o palco patrocinado, a memória dos mais velhos e a produção digital dos jovens que a folkcomunicação encontra seus objetos. Mais do que registrar uma manifestação, ela procura compreender quem comunica, por quais caminhos, em que condições e com quais possibilidades de responder às forças que atravessam a vida popular.



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