“A gente ainda precisa descobrir muito de Câmara Cascudo”, afirma Daliana Cascudo
- Andriolli Costa
- há 12 horas
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Em entrevista conduzida por Élmano Ricarte, a neta do folclorista apresenta o trabalho de preservação realizado pelo Instituto Ludovicus, recorda a convivência familiar com o avô e revela documentos que aproximam Câmara Cascudo das origens da folkcomunicação
Quem atravessa as portas do Ludovicus – Instituto Câmara Cascudo não encontra apenas uma exposição sobre um dos maiores pesquisadores da cultura brasileira. Entra na casa em que Luís da Câmara Cascudo viveu por quase 40 anos, produziu parte significativa de sua obra e recebeu alguns dos principais intelectuais do país.
Ali, a biblioteca continua organizada como espaço de trabalho; a cadeira de balanço recorda os momentos em que Cascudo fumava seus charutos; a rede, a máquina de escrever, os livros, os santos e os retratos preservam a intimidade do escritor. Nas paredes, portas e janelas, assinaturas de visitantes como Villa-Lobos, Gilberto Freyre e Clarival do Prado Valladares transformam a residência em uma espécie de painel da cultura brasileira.
“As paredes falam”, resume Daliana Cascudo, neta do folclorista e diretora do Instituto, em entrevista conduzida por Élmano Ricarte para o programa Entrevista Folkcom. Realizada em 2014, por ocasião dos 60 anos do Dicionário do Folclore Brasileiro, a conversa foi posteriormente publicada na Revista Internacional de Folkcomunicação.
Revisitada em 2026, quando se completaram 40 anos do “encantamento” de Câmara Cascudo, a entrevista evidencia que preservar sua memória não significa apenas conservar objetos. Significa manter sua obra disponível, fomentar novas pesquisas e apresentar às novas gerações um intelectual que fez da curiosidade, da escuta e da convivência com o povo os fundamentos de seu trabalho.
Uma casa transformada em espaço de pesquisa
Criado com o objetivo de preservar e divulgar a vida e a obra de Câmara Cascudo, o Instituto Ludovicus abriu a antiga residência do pesquisador à visitação em janeiro de 2010. A decisão da família partiu da percepção de que, embora Natal já contasse com diferentes instituições batizadas com o nome do folclorista, somente a casa poderia oferecer ao público o contato com sua dimensão privada.
Daliana explica que o propósito nunca foi construir artificialmente um museu. A intenção era manter os ambientes tão próximos quanto possível da forma como Cascudo os utilizava.
A experiência permite que estudantes conheçam não apenas o autor consagrado, mas também o homem que escrevia, descansava, conversava e recebia amigos naquele espaço. A antiga banheira revestida com azulejos portugueses, trazidos de uma viagem realizada entre 1947 e 1948, desperta a curiosidade das crianças. O gabinete mostra onde o pesquisador produzia. As assinaturas espalhadas pela casa revelam a extensão de sua rede de amizades.
Desde sua abertura, o Instituto estabeleceu como princípio a gratuidade para escolas públicas e projetos sociais. Atualmente, a instituição continua recebendo pesquisadores e visitantes na Cidade Alta, em Natal, com informações sobre horários, agendamentos e acesso ao acervo disponíveis no site oficial do Ludovicus.
Das cartas à construção da cultura brasileira
Um dos principais projetos apresentados por Daliana durante a entrevista foi a digitalização da correspondência de Câmara Cascudo. Realizado ao longo de três anos, o trabalho foi divulgado à época como responsável pela organização de 27 mil cartas enviadas e recebidas pelo pesquisador.
O conjunto registra uma rede de relações que ultrapassava as fronteiras do Rio Grande do Norte e do Brasil. Cascudo se correspondia com escritores, pesquisadores, artistas e autoridades de diferentes países. As cartas funcionavam também como instrumento de investigação: por meio delas, solicitava informações, comparava costumes e reunia elementos para seus livros.
O lançamento do acervo digital ocorreu em julho de 2013 e foi documentado pelo Instituto Federal do Rio Grande do Norte. Por questões de direitos autorais, os documentos não foram disponibilizados integralmente na internet, mas passaram a ser consultados por pesquisadores no próprio Instituto.
Na entrevista, Daliana relata contatos recebidos de estudiosas que se encontravam em Roma e em Angola. Mesmo distantes de Natal, elas recorreram ao Ludovicus para localizar informações relacionadas às pesquisas de Cascudo sobre Ermanno Stradelli e sobre sua viagem à África, em 1963.
As antigas correspondências, nesse sentido, produziram uma rede de conhecimento que encontra continuidade nos e-mails e nas plataformas digitais. Se Cascudo utilizava as cartas para reduzir distâncias, o Instituto passou a recorrer à internet para fazer seu acervo chegar a novos pesquisadores.
Entre o intelectual e o avô
Daliana também apresenta uma perspectiva afetiva sobre Câmara Cascudo. Sua relação não era a de uma neta que visitava ocasionalmente o avô. Ela, os irmãos e os pais moravam na mesma casa e conviviam com ele diariamente.
Cascudo costumava dizer que “pai era para educar e avô era para deseducar”. Na prática, isso significava permitir que os netos ocupassem até mesmo seu gabinete de trabalho. Enquanto os filhos haviam aprendido a não interrompê-lo durante a produção, os netos entravam na biblioteca com carrinhos e bonecas, estudavam próximos à sua mesa e transformavam aquele ambiente em espaço de convivência.
Havia ainda as pequenas cumplicidades. Daliana recorda que o avô pedia ao neto Nilton que comprasse chocolates escondido da esposa. Sonho de Valsa e Diamante Negro estavam entre os preferidos e eram divididos entre Cascudo e as crianças.
Somente na adolescência Daliana compreendeu que o avô conhecido na intimidade da casa era também apresentado pelos professores como um dos maiores folcloristas brasileiros. A descoberta lhe causou um choque: durante a infância, homenagens, livros e visitantes haviam feito parte de uma rotina que lhe parecia comum.
Foi quando começou a reunir as duas dimensões: o avô afetuoso e o pesquisador reconhecido internacionalmente.
Um “anti-intelectual” que ia ao encontro do povo
Ao refletir sobre a personalidade de Cascudo, Daliana o define como uma espécie de “anti-intelectual”. A expressão não diminui sua produção. Pelo contrário: evidencia sua recusa ao modelo do pesquisador distante, orgulhoso e isolado das pessoas.
Cascudo conversava com todos e fazia da experiência direta uma parte essencial de seu método. Se pretendia escrever sobre jangadas, procurava o jangadeiro, observava a embarcação e escutava quem vivia daquela prática. Via a feira como lugar de pesquisa e encontrava nos costumes cotidianos questões capazes de produzir conhecimento.
“Ele achava que, se tinha que escrever um livro sobre jangada, tinha que conversar com o jangadeiro, tinha que ir lá olhar a jangada”, explica Daliana.
Para ela, Cascudo foi precursor de uma forma de pesquisa de campo baseada na escuta dos sujeitos da cultura. Sua curiosidade surgia de perguntas aparentemente simples: por que o aboio é cantado de determinada maneira? Por que o cantador de viola faz o desafio? Por que o gato preto é associado ao azar? Por que não se deve passar debaixo de uma escada? Em uma entrevista, o próprio Cascudo resumiria essa relação afirmando: “Eu não escolhi o folclore. O folclore me escolheu”.
Entre sua vasta bibliografia, Daliana destaca Civilização e cultura, obra que considera pouco comentada diante da projeção alcançada pelos estudos cascudianos sobre folclore. Com o subtítulo “pesquisas e notas de etnografia geral”, o livro atravessa temas como canto, dança, linguagem, habitação e propriedade. Era como etnógrafo, recorda a neta, que Cascudo preferia se definir.
“A primeira picada no mato”
O interesse de Câmara Cascudo pelo folclore enfrentou resistências desde os primeiros anos. Na década de 1920, manifestações populares ainda eram frequentemente consideradas indignas de investigação acadêmica.
Daliana conta que, quando Cascudo era professor do Atheneu Norte-Rio-Grandense, um colega chegou a pedir sua demissão. O motivo era ele conversar com estudantes da elite potiguar sobre bumba meu boi, saci e catimbó.
Cascudo permaneceu no cargo e continuou pesquisando. Anos depois, diria que havia aberto “a primeira picada no mato”. Os pesquisadores posteriores poderiam concordar ou discordar de suas interpretações, mas encontrariam um caminho que ele ajudara a abrir.
Essa trilha alcançaria as universidades, atravessaria diferentes áreas do conhecimento e contribuiria também para a formação do pensamento folkcomunicacional.
As cartas de Luiz Beltrão
Um dos pontos mais relevantes da entrevista para a história da folkcomunicação é a relação entre Câmara Cascudo e Luiz Beltrão. Ao pesquisar o acervo do avô, Daliana encontrou cartas enviadas pelo jornalista pernambucano, além de livros com dedicatórias pessoais.
Em uma correspondência datada de 29 de janeiro de 1968, Beltrão apresentou a Cascudo o conceito de folkcomunicação e informou que pretendia transformar sua tese em livro. O trabalho daria origem a Comunicação e folclore, publicado em 1971.
Cascudo reconheceu a importância da investigação e incentivou Beltrão a desenvolvê-la. Daliana recorda uma frase dirigida ao pesquisador: “Você deve olhar com seus próprios olhos, andar com suas próprias pernas, antes que alguém do estrangeiro, um forasteiro, venha e o faça”.
A recomendação expressava uma preocupação constante em sua obra: os brasileiros precisavam estudar, interpretar e valorizar a própria cultura. Não caberia esperar que pesquisadores estrangeiros explicassem primeiro aquilo que estava presente no cotidiano do país.
A proximidade entre os dois mostra que as origens da folkcomunicação não se encontram separadas dos estudos de folclore. O diálogo com Cascudo ofereceu a Beltrão o incentivo de um pesquisador já reconhecido, enquanto a teoria folkcomunicacional ajudaria posteriormente a evidenciar as dimensões comunicativas de práticas, agentes e manifestações populares.
Para Daliana, o próprio Dicionário do Folclore Brasileiro pode ser lido como uma obra atravessada por essa perspectiva. Em suas páginas, superstições, alimentação, religiosidade, literatura oral, costumes e formas de sociabilidade aparecem em constante diálogo.
Ainda há muito a descobrir
Ao comentar a presença de Cascudo nas universidades, Daliana reconhece que houve demora para que sua obra fosse estudada de forma sistemática. A criação de grupos multidisciplinares e as parcerias entre o Instituto e a Universidade Federal do Rio Grande do Norte abriram novas possibilidades, mas o acervo ainda reúne documentos, manuscritos e materiais capazes de suscitar muitas investigações.
“A gente ainda precisa descobrir muito de Câmara Cascudo”, afirma.
A declaração permanece atual. Em 2026, ano dos 40 anos de seu encantamento, o Instituto continuou apresentando pesquisas e descobertas relacionadas ao acervo. Daliana permanece à frente da instituição, preservando a casa, ampliando o acesso à obra e criando pontes entre a memória familiar e o patrimônio cultural brasileiro, conforme registrado pela Tribuna do Norte.
No encerramento da entrevista, ela convida comunicadores e pesquisadores a procurarem o Ludovicus. A casa está aberta não somente à visitação, mas à produção de conhecimento.
Preservar Câmara Cascudo, assim, não é encerrá-lo entre paredes. É fazer as paredes falarem, colocar as cartas novamente em circulação e permitir que cada geração encontre novas perguntas em uma obra dedicada a compreender quem somos.
Cascudo abriu a primeira picada no mato. Cabe aos pesquisadores continuar percorrendo — e ampliando — esse caminho.


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