Quando a tradição participa do desenvolvimento: Pragati Paul apresenta a força da folk media indiana
- Andriolli Costa
- há 2 dias
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Professora mostra como danças, canções, pinturas, narrativas e teatros populares aproximam políticas públicas das comunidades — mas também ajudam a população a expressar seus próprios problemas e reivindicações.
Quando um tambor convoca moradores para a praça, uma dança da colheita encena o trabalho no campo ou uma pintura registra a vida de uma aldeia, não está em circulação apenas uma tradição. Circulam também valores, conhecimentos e maneiras de interpretar os problemas vividos em comum. É nessa interseção entre cultura, comunicação e participação social que a professora Pragati Paul situa a folk media indiana.
Em videoaula sobre o papel dos meios tradicionais na comunicação para o desenvolvimento, Paul defende que nenhum projeto social deveria ser elaborado isoladamente por técnicos e instituições. Antes de propor soluções, seria necessário conversar com a população, conhecer suas demandas e compreender os saberes tradicionais que atravessam determinado comportamento ou conflito.
Professora do A.J.K. Mass Communication Research Centre, da Jamia Millia Islamia, em Nova Délhi, Pragati Paul atua nas áreas de comunicação para o desenvolvimento, mídias participativas e transformação social. Em sua exposição, a folk media aparece como uma alternativa para que as comunidades deixem de ocupar apenas o lugar de público-alvo e participem da formulação das ações que interferem em sua vida.
Quando o público deixa de ser apenas destinatário
Para Paul, a comunicação não entra em um projeto de desenvolvimento somente no momento de divulgar seus resultados. Ela começa no diagnóstico, quando profissionais e moradores compartilham experiências e procuram identificar as causas de um problema.
Esse contato permite conhecer opiniões, necessidades e formas locais de compreender a realidade. Também transforma a população em agente do processo: as pessoas que seriam destinatárias de uma ação passam a participar das decisões e das tarefas necessárias para sua realização.
A folk media favorece essa aproximação porque já faz parte da vida comunitária. Seus códigos não precisam ser apresentados ao público. A audiência conhece a música, os personagens, o ritmo da narrativa, o dialeto e os espaços onde as apresentações acontecem antes mesmo de entrar em contato com a nova mensagem.
Outro diferencial é a comunicação face a face. Em uma apresentação popular, artistas e espectadores compartilham o mesmo espaço. As reações aparecem durante a performance, permitindo que uma fala seja explicada, que um personagem dialogue com a plateia ou que o conteúdo seja adaptado às circunstâncias locais.
Paul destaca ainda o caráter coletivo dessa produção. Canções e roteiros podem receber contribuições dos moradores, enquanto materiais disponíveis na própria comunidade reduzem os custos das apresentações. A participação não ocorre apenas depois que a mensagem está pronta: pode fazer parte de sua criação.
Danças, pinturas e histórias formam uma rede
A professora começa sua explicação pelo folclore, entendido como um conjunto de conhecimentos, crenças e expressões construído coletivamente e transmitido entre gerações. Sua continuidade não depende de permanecer inalterado. Ao contrário, são as mudanças introduzidas pelas comunidades que permitem às tradições acompanhar o tempo.
É desse repertório que surgem os meios tradicionais de comunicação. Paul inclui entre eles as danças, as canções, o teatro, as marionetes, a contação de histórias, os provérbios, as adivinhas, as pinturas e o artesanato.
As categorias ajudam a organizar o estudo, mas não funcionam separadamente. Uma apresentação teatral pode reunir música, dança, humor, narrativa e referências religiosas. Uma festa da colheita pode combinar movimentos coreográficos, instrumentos, versos e histórias sobre o trabalho no campo.
O Bihu, em Assam, e o Bhangra, no Punjab, são lembrados como danças relacionadas aos ciclos agrícolas. Além de acompanhar as celebrações, seus movimentos representam atividades cotidianas, emoções, relações com os animais e experiências de trabalho.
No teatro, formas como o Tamasha reúnem sátira, dança, música e narrativas sobre personagens históricos. Espetáculos religiosos como o Ramlila e o Raslila convivem com modalidades seculares, como o Nautanki. Em todos esses casos, a representação aproxima temas coletivos de uma linguagem reconhecida pela população.
As canções acompanham nascimentos, casamentos, mortes, festas e colheitas. Também podem tratar das dificuldades enfrentadas pelas mulheres, da relação com os rios e da necessidade de acesso à água. Os sentimentos individuais encontram, assim, uma forma compartilhada de expressão.
Imagens que narram a vida comunitária
Paul também chama atenção para manifestações visuais. Um dos exemplos são as pinturas Warli, produzidas por comunidades indígenas de Maharashtra. Tradicionalmente realizadas por mulheres, elas retratam cenas do cotidiano, atividades agrícolas, animais, celebrações e relações entre os moradores.
As imagens organizadas por linhas, círculos e figuras geométricas transformam paredes em superfícies narrativas. Mais do que decorar uma residência, registram modos de viver e conhecimentos compartilhados pela comunidade.
A exposição menciona ainda as pinturas Madhubani, associadas ao estado de Bihar, e os tecidos produzidos no Nordeste da Índia. Cores, desenhos e padrões geométricos podem indicar pertencimentos e carregar significados sociais reconhecidos por quem participa daquele universo cultural.
Já a tradição oral permite que mitos, lendas, adivinhas e episódios históricos atravessem gerações. Narrativas como o Ramayana e o Mahabharata convivem com histórias próprias de cada região. O contador não repete simplesmente um texto decorado: ajusta a narrativa ao público, ao lugar e ao momento da apresentação.
A marionete acrescenta movimento e diálogo a esse repertório. A Índia reúne bonecos manipulados por fios, hastes e luvas, além de espetáculos de sombras. Nas mãos dos artistas, histórias de guerreiros, príncipes e personagens míticos podem receber novos conflitos e conversar com questões contemporâneas.
A arte como instrumento de independência
A atuação política desses meios ganhou força durante a luta contra o domínio britânico. Canções, baladas e apresentações teatrais ajudaram a levar mensagens anticoloniais a regiões onde os canais de comunicação estavam submetidos ao controle do governo.
Paul resume esse movimento por meio de uma aparente contradição: durante a luta pela independência, a comunicação de massa foi alcançada por recursos que não eram massivos. Apresentações locais e itinerantes conseguiam atravessar territórios, adaptar-se a diferentes públicos e mobilizar pessoas por meio de idiomas e referências regionais.
Essa articulação ganharia uma estrutura nacional com a criação, em 1943, da Indian People’s Theatre Association. Formada por artistas que compreendiam a cultura como parte da luta anticolonial, a organização reuniu grupos de diferentes línguas e regiões. Segundo o projeto oficial dedicado aos 75 anos da independência indiana, a IPTA procurava transformar a arte em força de libertação nacional, aproximando o teatro das experiências e dos sofrimentos da população.
Artistas passaram a levar às aldeias apresentações relacionadas à exploração econômica, às desigualdades sociais e à independência. O teatro não atuava apenas como entretenimento: organizava uma interpretação coletiva da realidade e convidava o público a participar da transformação política.
Depois da independência, os mesmos recursos foram incorporados a campanhas sobre casamento infantil, poliomielite, planejamento familiar, HIV e Aids, violência doméstica, dote, construção de banheiros, higiene e saúde.
A proximidade dos artistas com as comunidades ajudava a abordar assuntos que poderiam provocar constrangimento ou resistência em uma comunicação institucional. Personagens, histórias e situações cotidianas permitiam introduzir temas sensíveis sem abandonar o repertório cultural do público.
Uma campanha para proteger terras de uso comum
Entre as experiências contemporâneas apresentadas por Paul está a Shamlat Abhiyan, campanha desenvolvida no Rajastão para chamar atenção para as terras de uso comum. Esses territórios compartilhados são importantes para a criação de animais, a obtenção de alimentos, a segurança energética e a sobrevivência de famílias rurais.
A iniciativa articulou o governo estadual e a Foundation for Ecological Security em atividades com funcionários públicos, organizações sociais, representantes das administrações locais e comunidades.
A comunicação não ficou restrita a um único meio. Pequenos filmes, anúncios em jornais, cartas e mensagens de celular foram combinados com manifestações culturais e apresentações populares. Segundo um relato da campanha, as ações alcançaram mais de 20 milhões de pessoas em cerca de 9 mil panchayats, unidades locais de administração e representação comunitária.
O exemplo ajuda Paul a demonstrar que a folk media não desapareceu com a comunicação digital. Ela passou a atuar em conjunto com outros canais. Enquanto filmes e mensagens ampliavam a circulação das informações, as formas tradicionais permitiam discutir o tema nos espaços onde as decisões sobre as terras compartilhadas afetavam diretamente a vida dos moradores.
A professora menciona ainda ações voltadas à nutrição de mulheres e crianças, nas quais marionetes, teatro de rua e canções foram utilizados para tratar de alimentação e saúde. Mais uma vez, a escolha do meio procura transformar orientações técnicas em situações compreensíveis dentro do cotidiano comunitário.
O desenvolvimento também está em disputa
A exposição de Paul aproxima dois entendimentos de folk media. Em alguns momentos, ela aparece como uma forma de comunicação originada das necessidades e aspirações da própria população. Em outros, é empregada por governos e organizações para tornar mais eficientes mensagens definidas previamente.
A diferença pode ser percebida em uma peça sobre saneamento. Uma instituição pode contratar artistas para ensinar hábitos de higiene e explicar a construção de banheiros. A própria comunidade também pode utilizar o teatro para denunciar a ausência de água encanada, cobrar infraestrutura e questionar as condições que impedem a adoção dessas práticas.
Nos dois casos, a linguagem é popular e a apresentação pode ocorrer no mesmo espaço. O que muda é a posição ocupada pelos moradores: destinatários de uma orientação no primeiro caso; agentes que formulam e fazem circular uma reivindicação no segundo.
É nesse ponto que a experiência indiana dialoga de maneira mais produtiva com a Folkcomunicação brasileira. A teoria de Luiz Beltrão não se limita a reconhecer o cordel, a festa, a dança ou o teatro como meios populares. Seu interesse está no processo pelo qual grupos socialmente marginalizados constroem mensagens, selecionam agentes e fazem circular opiniões por seus próprios canais
.
Quando Paul descreve uma comunidade que participa da criação de canções e roteiros, sua concepção se aproxima desse processo. Quando a manifestação é escolhida somente para facilitar a aceitação de uma política externa, a folk media assume um caráter mais instrumental.
Essa distinção não impede a colaboração entre instituições e comunidades. Ela apenas desloca a atenção para o modo como as decisões são tomadas. A participação não depende somente da presença de artistas locais, mas da possibilidade de a população interferir na definição do problema, da mensagem e das ações propostas.
Entre a praça e a tela
O avanço das tecnologias digitais não elimina a importância dos meios tradicionais, mas altera as condições de sua circulação. Paul lembra que computadores, conexão à internet, eletricidade e equipamentos permanecem distribuídos de maneira desigual. A existência de uma plataforma não significa que todas as pessoas possam acessá-la ou se reconhecer na linguagem utilizada.
A folk media enfrenta limites diferentes. Seu alcance inicial costuma estar restrito ao lugar da apresentação, mas sua proximidade permite uma comunicação mais direta. A integração entre os meios surge, então, como possibilidade: uma peça pode ser apresentada em uma aldeia, registrada em vídeo e compartilhada com outros territórios; uma campanha digital pode recorrer a músicas e personagens locais para estabelecer diálogo com comunidades específicas.
Para Paul, nenhuma tecnologia substitui completamente a comunicação construída no encontro. A força dos meios tradicionais está no contato pessoal, na língua compartilhada e na possibilidade de participação imediata.
Na aula, a folk media não aparece como peça de museu nem como sobrevivência de uma época anterior à tecnologia. Ela está na dança que representa a colheita, na pintura que registra a vida da aldeia, no boneco que transforma uma orientação de saúde em história e na canção que reúne uma comunidade em torno de uma reivindicação.
Entre a praça e a tela, o futuro desses meios não depende de escolher a tradição contra a tecnologia. Depende de garantir que as comunidades continuem participando das histórias contadas sobre elas — e das decisões tomadas em seu nome.




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