Quando a imprensa só sobe o morro pela violência: Folkcomunicação propõe outro jornalismo
No segundo encontro da I Jornada Cuscuz Folkcom, Ítalo Rômany mostrou como quadrilhas juninas, cordéis digitais e o brega-funk podem inspirar pautas capazes de romper estereótipos e revelar a potência das comunidades
O jornalista Ítalo Rômany havia subido o Morro da Conceição, no Recife, com uma missão aparentemente simples: fotografar um integrante da Quadrilha Junina Tradição. Ao fundo, a comunidade e a Igreja de Nossa Senhora da Conceição ajudariam a representar visualmente o vínculo entre o grupo cultural e o território.
Assim que viu a câmera profissional, porém, um morador saiu de casa e começou a gritar. Ítalo e a pesquisadora Gisele Gomes, que o acompanhava, não entenderam a reação. Fizeram a fotografia e foram embora.
Somente depois uma vizinha explicou o que havia acontecido. O irmão daquele homem fora assassinado uma semana antes. Quando viu a câmera, ele imaginou que a imprensa havia retornado ao morro para explorar mais uma história de violência.
O episódio marcou Ítalo. Para o jornalista, a reação mostrava como determinadas comunidades aprendem a desconfiar da imprensa porque quase sempre aparecem no noticiário associadas à criminalidade, às operações policiais e à morte. As festas, os artistas, as redes de afeto e as formas de organização construídas nesses mesmos territórios raramente recebem a mesma atenção.
“Tem tanta coisa bonita, tantas histórias que a gente poderia contar e às quais não damos valor”, refletiu.
Essa mudança de olhar esteve no centro do segundo encontro da I Jornada Cuscuz Folkcom, realizado em 3 de maio de 2021 pelo Grupo de Pesquisa em Jornalismo e Diversidade Cultural (Grujordi), da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).
Com mediação de Eudo Jansen Neto, a conferência “Pensando a Folkcomunicação na produção de pautas jornalísticas” reuniu experiências profissionais e acadêmicas de Ítalo Rômany para discutir duas questões complementares: como a Folkcomunicação pode ajudar jornalistas a encontrar e desenvolver pautas e como a mídia costuma enquadrar manifestações da cultura popular e grupos socialmente marginalizados.
O problema não está apenas no que vira pauta
Graduado em Jornalismo pela UFPB e mestre em Extensão Rural e Desenvolvimento Local pela Universidade Federal Rural de Pernambuco, Ítalo contou que seu encontro com a Folkcomunicação modificou sua relação com a profissão.
Como muitos estudantes, ingressou no curso com o desejo de “mudar o mundo”. Foi em uma disciplina ministrada por Severino Lucena Filho que encontrou uma teoria capaz de aproximar essa intenção das manifestações culturais, das tradições familiares e das experiências de grupos que raramente controlam sua própria representação na mídia.
Na conferência, o pesquisador mostrou que a Folkcomunicação pode ampliar o repertório do jornalista. Em vez de esperar que um acontecimento violento coloque determinada comunidade no noticiário, o profissional pode observar os processos de comunicação, criação e resistência que já fazem parte de seu cotidiano.
O desafio, entretanto, não termina na escolha do tema. Uma pauta sobre cultura popular também pode reproduzir preconceitos quando trata seus personagens como exóticos, curiosos ou distantes de uma suposta normalidade definida pelas redações dos grandes centros.
Ítalo exemplificou esse problema com uma reportagem que produziu para o UOL TAB sobre a presença de pessoas trans nas quadrilhas juninas. O primeiro título publicado pelo veículo apresentava os grupos como “quadrilhas trans”, embora as quadrilhas não se definissem dessa maneira. Depois das críticas, a manchete foi alterada para “Com rainha trans, quadrilha rompe tradição binária das festas juninas”.
A mudança corrigiu parte do problema, mas não encerrou a discussão. Como observou o jornalista, a presença de uma mulher trans no posto de rainha não rompe, por si mesma, com uma estrutura binária: uma mulher trans é uma mulher.
O caso revelou como um título pode distorcer a reportagem e reduzir experiências complexas a uma fórmula que pareça surpreendente para o público. Para Ítalo, é preciso cuidado especialmente quando veículos nacionais olham para manifestações nordestinas e populares como se fossem fenômenos exóticos.
A quadrilha que acolhe quem foi colocado para fora
A pauta nasceu do contato de Ítalo com a pesquisa de Gisele Gomes sobre a Quadrilha Junina Tradição e sua relação com o desenvolvimento local no Morro da Conceição. O jornalista acompanhou parte do trabalho de campo e percebeu que havia ali uma história que poderia alcançar um público mais amplo.
Ao desenvolver a reportagem, ampliou a apuração e ouviu integrantes de outros grupos, como a Junina Lumiar, de Brasília Teimosa, e a Junina Zabumba, de Camaragibe.
Uma das personagens foi Ana Paula Arruda, primeira mulher trans a ocupar o posto de rainha da Junina Lumiar. A presença dela em uma posição de destaque mostrou que a quadrilha não era apenas um espetáculo apresentado durante o São João. Era também um espaço no qual pessoas historicamente discriminadas podiam encontrar pertencimento, reconhecimento e proteção.
“As quadrilhas juninas são espaços de acolhimento, resistência e afeto”, ressaltou Ítalo.
A Junina Zabumba levou ao arraial outra questão social. Com um espetáculo inspirado na realidade do sistema prisional, o grupo discutiu os limites de uma ideia de ressocialização que encarcera, mas não oferece educação, trabalho ou condições para a reconstrução da vida. Alguns participantes da quadrilha já haviam passado pela prisão e contribuíram com suas próprias experiências para a criação do enredo.
A dança foi apresentada como uma alternativa à violência e como instrumento de transformação. Pessoas negras, integrantes LGBTQIA+, ex-presidiários e praticantes de religiões afro-brasileiras ocupavam o centro da cena, não como ilustração de um problema, mas como protagonistas da narrativa.
Além do acolhimento, as quadrilhas movimentam uma extensa cadeia produtiva. Costureiras, músicos, coreógrafos, cenógrafos, artesãos, produtores e dançarinos trabalham durante meses na preparação dos espetáculos. Enxergar apenas a apresentação final significa ignorar tanto os vínculos comunitários quanto os impactos econômicos dessa manifestação.
A Folkcomunicação ajuda o jornalista a perceber justamente essas camadas que permanecem escondidas quando a pauta se limita a perguntar se determinada quadrilha é “tradicional” ou “estilizada”.
Se a poesia chegou ao Instagram, onde estaria o cordel?
Outra reportagem apresentada durante o encontro nasceu de uma pergunta simples. Ítalo havia percebido que poetas utilizavam o Instagram para publicar seus textos e alcançar novos leitores. Começou, então, a se perguntar se os cordelistas faziam o mesmo.
A curiosidade levou o jornalista a encontrar autores que transportavam para as redes sociais a métrica, o humor, os temas e até a estética visual da literatura de cordel. Um deles era Carlos Fernandes, de São Bento, no sertão paraibano, que utilizava o celular para fazer sua poesia circular muito além do município.
A passagem do papel para a tela não significava necessariamente o abandono da tradição. O ambiente digital oferecia novas condições de produção e circulação para uma linguagem que sempre acompanhou acontecimentos políticos, conflitos sociais e experiências populares.
O cordel permanecia também como instrumento de resistência. Por meio dos versos, os autores comentavam decisões políticas, respondiam a discursos preconceituosos e defendiam a identidade nordestina.
Ítalo encontrou ainda uma maneira criativa de apresentar a proposta à editora: escreveu a própria sugestão de pauta em forma de cordel. A resposta positiva chegou poucos minutos depois.
O exemplo serviu como conselho aos estudantes: uma pauta não precisa ser apresentada de maneira burocrática. Sua forma também pode demonstrar ao editor a força e a originalidade da história.
Uma cadeira nunca é apenas uma cadeira
A terceira experiência discutida partiu da leitura de Trecos, troços e coisas, do antropólogo Daniel Miller. O livro levou Ítalo a pensar em uma reportagem sobre a maneira como os objetos revelam identidades, desigualdades e relações de poder.
Um chinelo, uma roupa ou uma tornozeleira eletrônica podem modificar a forma como alguém é observado e tratado socialmente. A catraca de um ônibus pode constranger uma pessoa gorda. Uma tornozeleira pode expor imediatamente a situação de alguém que tenta reconstruir a vida depois da prisão. O objeto não apenas acompanha a pessoa: ele interfere em sua relação com o mundo.
Entre os casos analisados estava a cadeira-pavão. Em uma fotografia publicada nas redes sociais, a então diretora da revista Vogue Brasil, Donata Meirelles, apareceu sentada em uma dessas cadeiras, ladeada por duas mulheres negras vestidas como baianas. A composição foi criticada por reproduzir uma iconografia associada ao Brasil escravista.
O mesmo objeto ganhou outro sentido ao ser utilizado por Beyoncé. Ocupada por uma mulher negra que controla a própria imagem, a cadeira deixou de representar a autoridade da sinhá e passou a comunicar poder e protagonismo negro.
Como resumiu Ítalo, “uma cadeira não é só uma cadeira”. O sentido depende de quem a utiliza, das imagens às quais ela está associada e das relações históricas mobilizadas por sua presença.
A pauta demonstrou também que a pesquisa acadêmica pode alimentar o jornalismo. Conceitos discutidos em livros, artigos, dissertações e teses não precisam permanecer restritos às universidades. Quando traduzidos e relacionados ao cotidiano, podem gerar reportagens acessíveis e socialmente relevantes.
O brega-funk para além da criminalização
A última reportagem apresentada tratava de artistas LGBTQIA+ que conquistavam espaço no brega-funk nordestino, entre eles Danny Bond e Jurema Fox.
Apesar de sua popularidade, o gênero ainda aparecia frequentemente associado à desordem, à criminalidade e à ideia de uma música de menor valor. Os passinhos, as roupas e os corpos dos jovens das periferias eram interpretados por meio de estereótipos de classe, raça e território.
Ítalo procurou deslocar esse enquadramento. Em vez de perguntar por que o brega-funk incomodava, sua reportagem buscou compreender o que os artistas comunicavam por meio dele.
Para Danny Bond, mulher trans e negra de Jacintinho, em Maceió, o ritmo significava reconhecimento e respeito. A música transformava a presença de corpos marginalizados em afirmação pública: uma maneira de dizer “nós existimos”.
A pauta acabou ultrapassando o jornalismo. O contato com aquelas performances ajudou Ítalo a formular a pesquisa de doutorado que desenvolveria sobre gênero, corpo e brega-funk. O percurso mostrou que a relação entre academia e imprensa pode funcionar nos dois sentidos: pesquisas produzem pautas, mas reportagens também fazem surgir novas perguntas científicas.
Como encontrar uma pauta folkcomunicacional
Questionado sobre seu processo de trabalho, Ítalo afirmou que o primeiro passo é observar o lugar onde se vive. O bairro, a cidade, as festas, os modos de falar e as práticas aparentemente banais estão carregados de histórias.
“O lugar que você ocupa e frequenta é cheio de pautas”, disse.
Observar, porém, não basta. Uma ideia ainda não é uma pauta. Antes de procurar um editor, o jornalista precisa estudar o tema, identificar personagens, compreender o contexto e demonstrar por que aquela história deve ser contada naquele momento.
A leitura de pesquisas científicas pode ajudar. Ítalo recomendou, entre outras fontes, os trabalhos publicados pela Revista Internacional de Folkcomunicação. Artigos acadêmicos frequentemente reúnem objetos, personagens e problemas que podem ser traduzidos para a linguagem jornalística e alcançar públicos mais amplos.
Para jornalistas freelancers, ele aconselhou ainda a criação de um portfólio, o conhecimento do perfil editorial de cada veículo e a elaboração de apresentações breves e visualmente cuidadas. Os “nãos” farão parte do processo, mas a pauta precisa estar pronta quando o primeiro “sim” aparecer.
Não basta colocar os marginalizados na reportagem
Durante o debate, Andréa Karinne perguntou se os veículos estavam mais abertos a pautas protagonizadas por grupos marginalizados sem que a violência fosse o assunto principal.
Ítalo reconheceu que houve avanços, especialmente em veículos dedicados à diversidade e aos direitos humanos, mas considerou a imprensa brasileira ainda conservadora. Muitas redações continuam tratando essas experiências como exceções ou curiosidades.
A transformação, segundo ele, exige algo além de incluir pessoas negras, trans, periféricas ou de outros grupos socialmente marginalizados como personagens. É preciso que elas também ocupem as redações, participem das decisões editoriais e contem as próprias histórias.
“Que elas não apareçam somente ilustrando uma reportagem, mas possam criar essas reportagens”, defendeu.
A Folkcomunicação, portanto, não oferece apenas uma lista de temas possíveis. Ela provoca uma mudança na posição do jornalista. Em vez de chegar à comunidade como dono da voz e da interpretação, o profissional precisa escutar, compreender os códigos locais e reconhecer os próprios preconceitos.
No encerramento, Suelly Maux resumiu essa proposta como a busca por um jornalismo humanizado: uma prática capaz de ultrapassar o que já está visível e procurar as relações, contradições e formas de resistência escondidas pela cobertura habitual.
Para isso, o jornalista precisa aceitar o incômodo de olhar novamente. O morro não existe somente quando alguém morre. A quadrilha não é apenas espetáculo. O cordel não pertence apenas ao papel. O brega-funk não se resume aos estigmas criados a seu respeito.
Em cada um desses lugares há pessoas comunicando quem são, disputando sentidos e inventando maneiras de permanecer no mundo. A primeira responsabilidade do jornalismo talvez seja aprender a enxergá-las.





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