Presidente da Rede Folkcom discute folclore e tecnologia em homenagem a Câmara Cascudo
- Andriolli Costa
- há 1 dia
- 5 min de leitura
Durante o VI Ciclo de Palestras da IOV Brasil, Andriolli Costa retomou o pensamento de Câmara Cascudo para mostrar como fábricas, transatlânticos, laboratórios e até a tecnologia nuclear também produzem tradições, crenças e narrativas populares
O presidente da Rede Folkcom, Andriolli Costa, participou, no dia 24 de agosto, do VI Ciclo de Palestras IOV Brasil – 2026. Com o tema “Câmara Cascudo – 40 anos de encantamento”, o encontro homenageou as quatro décadas do falecimento de Luís da Câmara Cascudo, um dos mais importantes pesquisadores da cultura popular brasileira.
A live contou também com a participação de Daliana Cascudo, neta do folclorista e diretora do Ludovicus – Instituto Câmara Cascudo, que compartilhou memórias sobre o avô e falou sobre o trabalho de preservação e divulgação de sua obra. Participaram ainda o professor e pesquisador Paulo Niccoli Ramirez e o pesquisador Ruberval Cunha, com mediação da professora Lilian Vogel.
Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da instituição, Costa apresentou a palestra “Folclore e maquinaria: Câmara Cascudo, tecnologia e imaginação popular, 40 anos depois”. A exposição partiu de uma provocação registrada por Cascudo no Dicionário do Folclore Brasileiro: o folclore não está restrito às manifestações antigas, rurais ou aparentemente distantes da tecnologia.
“Qualquer objeto que projete interesse humano, além de sua finalidade imediata, material e lógica, é folclórico”, escreveu Cascudo. No mesmo verbete, o pesquisador incluiu entre os possíveis objetos de estudo “o laboratório químico, o transatlântico, o avião atômico” e “o parque industrial”, desde que produzissem uma projeção cultural no plano popular.
Para Andriolli Costa, a passagem continua especialmente atual por contrariar a associação recorrente entre folclore e passado. Essa visão limitada, argumentou, dificulta a percepção das manifestações populares que surgem em ambientes industriais, científicos, tecnológicos e digitais.
“O objeto não é popular por essência. Não existe nada para o qual você olha e diz: ‘A essência disso é folk’. Ele é folk por relação”, explicou. É na relação entre um objeto e determinada comunidade que surgem narrativas, crenças, costumes, brincadeiras, gestos e práticas capazes de transformá-lo em matéria folclórica.
Trotes, alertas e tradições no trabalho
Entre os exemplos apresentados estavam práticas transmitidas informalmente entre trabalhadores de fábricas. Uma delas consiste em enviar funcionários novatos à procura de ferramentas inexistentes ou em solicitar tarefas tecnicamente impossíveis, como carregar sozinho uma máquina industrial de grandes dimensões.
Mais do que simples brincadeiras, esses trotes funcionam como ritos de iniciação. Eles testam conhecimentos, integram os recém-chegados e estabelecem vínculos de pertencimento. Nos ambientes profissionais também circulam apelidos, gestos, piadas, macetes técnicos, histórias de acidentes e memórias dos “velhos tempos”.
Algumas narrativas exageradas sobre acidentes desempenham ainda uma função educativa. Repetidas entre trabalhadores, elas ensinam como evitar riscos e sobreviver no ambiente profissional, mesmo sem integrar os manuais institucionais de segurança.
“Essas formas expressivas ensinam como trabalhar, como sobreviver e como ser reconhecido pelo grupo”, sintetizou Costa.
Do Tribunal de Netuno à múmia do Titanic
No caso dos transatlânticos, o pesquisador recuperou o chamado Tribunal de Netuno, ritual realizado há séculos entre marinheiros durante a primeira travessia da linha do Equador. Na cerimônia, tripulantes experientes representam Netuno, sereias e outras personagens marítimas, submetendo os novatos a provas simbólicas antes de reconhecê-los como integrantes do grupo.
A tradição chegou a ser registrada por Charles Darwin durante a viagem do HMS Beagle. Posteriormente, com o crescimento do turismo marítimo, algumas versões do ritual passaram a integrar a programação dos cruzeiros, demonstrando como uma prática tradicional pode ser apropriada e transformada pelo mercado.
Outro exemplo foi a lenda da “múmia azarada” que teria provocado o naufrágio do Titanic. A narrativa nasceu de histórias contadas a bordo pelo jornalista britânico William T. Stead, morto no desastre de 1912. Após o naufrágio, relatos sobre as conversas do jornalista se transformaram no boato de que a própria peça egípcia estaria sendo transportada pelo navio.
Mesmo décadas depois, a história continuou circulando. Em julho de 1986, o oceanógrafo Robert Ballard, que havia localizado os destroços do Titanic no ano anterior, recebeu uma carta perguntando se a maldição de uma múmia poderia ter causado a tragédia. Para Costa, a permanência do boato mostra como o imaginário popular se instala justamente no interior de um dos maiores símbolos tecnológicos de sua época.
Superstições também vivem nos laboratórios
A exposição também percorreu tradições desenvolvidas em ambientes científicos. Em um laboratório, pesquisadores tratavam com gentileza o programa que controlava determinado equipamento quando ele apresentava falhas, recomendando aos recém-chegados que fizessem o mesmo. Em outros casos, patos de borracha, bichos de pelúcia e pequenos talismãs eram colocados sobre instrumentos para “mantê-los felizes”.
Costa mencionou ainda regras supersticiosas relacionadas à preparação de pipetas e o Ayudha Puja, cerimônia realizada em instituições científicas e outros espaços profissionais da Índia. Durante o ritual, ferramentas, máquinas, computadores, livros e instrumentos são limpos, ornamentados e homenageados. A prática também ajuda a integrar estrangeiros e recém-chegados às comunidades de trabalho.
Os exemplos demonstram que o domínio da ciência não elimina o pensamento simbólico. Mesmo entre profissionais altamente especializados, continuam surgindo rituais, personificações, crenças e modos informais de transmissão de conhecimento.
O folclore da era atômica
Ao chegar à tecnologia nuclear, Costa abordou as lendas surgidas em torno do primeiro teste atômico, realizado no Novo México. Entre elas está a história de Georgia Green, uma jovem cega que supostamente teria percebido o clarão da explosão. Embora nunca comprovada, a narrativa foi reproduzida por jornais e incorporada ao folclore da bomba atômica.
Também foram lembradas as teorias conspiratórias associadas ao paralelo 33 e a consolidação da imagem da nuvem em forma de cogumelo como representação universal da explosão nuclear. Nesse último caso, Costa fez uma distinção: mais do que uma manifestação propriamente folclórica, trata-se de uma construção do imaginário, reforçada pela semelhança simbólica entre a nuvem radioativa e um cogumelo venenoso.
Ao final, o presidente da Rede Folkcom retomou outra afirmação de Cascudo: “Onde estiver um homem, aí viverá uma fonte de criação e divulgação folclórica”. Para Costa, o princípio permite estender os estudos do folclore às plataformas digitais, aos algoritmos e às novas tecnologias. “O folclore é uma estratégia popular para estar no mundo”, afirmou. “Isso vai estar na tecnologia e também vai estar no digital.”
Além de Andriolli Costa, participaram do encontro Daliana Cascudo, presidente do Ludovicus – Instituto Câmara Cascudo; o professor e pesquisador Paulo Niccoli Ramirez; e o pesquisador Ruberval Cunha. A mediação foi realizada pela professora Lilian Vogel.
Promovido pela Organização Internacional de Folclore e Artes Populares, o evento contou com a parceria da UNIJUÍ, por meio de sua Central de Eventos, da Comissão de Ciências e Pesquisas da IOV Brasil, do Ludovicus – Instituto Câmara Cascudo e do Museu Câmara Cascudo. A programação incluiu ainda uma homenagem audiovisual à vida e à obra do pesquisador potiguar.



Comentários