Pesquisa mapeia 1,2 mil murais e revela disputas pelos imaginários urbanos de La Paz
Em encontro híbrido promovido por grupos da Universidade de Sorocaba, com parceria da Rede Folkcom, Vanessa Calvimontes apresentou levantamento realizado nos sete macrodistritos urbanos da capital administrativa da Bolívia

Entre janeiro e julho de 2025, Vanessa Calvimontes Díaz percorreu a pé ruas, avenidas, becos e bairros de sete macrodistritos urbanos de La Paz. A pesquisadora fotografou e georreferenciou 1.195 murais, criando um mapa que permite observar como essas imagens se distribuem pela cidade e quais sentidos adquirem em diferentes territórios.
Os resultados foram apresentados em 19 de outubro durante o encontro “Cartografías de la identidad paceña: muralismo contemporáneo y territorialización de imaginarios urbanos”. A atividade reuniu participantes na Universidade de Sorocaba (Uniso) e pela internet.
O encontro foi promovido pelo Grupo de Pesquisa em Comunicação Urbana e Práticas Decoloniais (CUPDec) e pelo Grupo Internacional de Pesquisa em Mídias e Cidades (MidCid), com parceria da Rede de Estudos e Pesquisa em Folkcomunicação. A condução ficou a cargo de Thífani Postali, líder do CUPDec e diretora científica da Rede Folkcom, e de Paulo Celso da Silva, líder do MidCid e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da Uniso.
“O muralismo já não é apenas algo bonito ou decorativo. Ele se constituiu em um dispositivo de identidade, memória e pertencimento a um espaço”, afirmou Calvimontes, em tradução livre.
Uma cidade registrada muro a muro
O levantamento integra a tese de doutorado de Calvimontes em Ciências Sociais, na área de Antropologia, pela Universidade de Salamanca. A pesquisa procura compreender como os murais configuram e territorializam os imaginários urbanos de La Paz.
Cada obra encontrada foi registrada em uma base com 22 campos. Além das coordenadas de GPS, a pesquisadora considerou temática, elementos iconográficos, cores, dimensões, estado de conservação e observações produzidas durante o trabalho de campo.
Os 1.195 murais deram origem a 1.312 unidades temáticas. A diferença ocorre porque uma mesma obra pode reunir mais de um assunto: partes distintas de um macromural podem abordar uma dança popular, a história do bairro ou questões ambientais.
Para a análise cromática, foram selecionados 927 murais relacionados principalmente às culturas populares e aos temas ecológicos. Calvimontes identificou as cores dominantes, associadas e de destaque, comparando as variações encontradas entre os macrodistritos.
O levantamento visual foi confrontado com entrevistas realizadas com 11 pessoas, entre muralistas e responsáveis por instituições envolvidas no financiamento, na autorização ou na gestão das obras. O procedimento permitiu investigar tanto as imagens presentes nos muros quanto as negociações anteriores à pintura.
O território modifica as imagens
Os murais não se distribuem de maneira uniforme pela cidade. O mapa apresentado por Calvimontes mostra uma concentração maior na região central, onde as obras aparecem próximas umas das outras e participam da imagem oferecida aos visitantes. Outros agrupamentos importantes foram encontrados no Cemitério Geral e no bairro de Chualluma, no macrodistrito Max Paredes.
A localização também interfere nas escolhas visuais. A chola paceña, reconhecida pelas polleras, mantas e chapéus, aparece em diferentes regiões, mas não é representada sempre da mesma maneira. No centro, tende a receber cores mais intensas e expressões sorridentes, próximas da imagem turística de La Paz. Em outros bairros, surge associada ao trabalho, à vida comunitária e às experiências cotidianas.
As mulheres ocupam a posição central em mais de 20% dos murais analisados. Os animais aparecem em aproximadamente 15%. A presença feminina, entretanto, nem sempre garante a preservação das histórias das mulheres representadas.
Calvimontes encontrou obras dedicadas a lideranças e personagens importantes para as comunidades, mas sem nomes ou informações que permitissem ao observador reconhecê-las. O mural preservava o rosto e, ao mesmo tempo, podia apagar a trajetória individual daquela mulher.
A participação das muralistas acrescenta outra dimensão ao problema. Em Chualluma, uma artista contratada para realizar uma intervenção recusou a proposta de reproduzir uma imagem folclorizada do bairro. Depois de conversar com os moradores, desenvolveu outra composição, com a participação da comunidade na pintura e na conservação do macromural.
Memória popular no Cemitério Geral
Na análise apresentada, os festivais realizados no Cemitério Geral a partir de meados da década de 2010 contribuíram para ampliar a presença do muralismo em outras partes de La Paz.
Nas paredes dos pavilhões e dos espaços funerários aparecem ñatitas — crânios humanos cultuados e associados à proteção —, referências a Todos os Santos, mesas rituais e elementos da religiosidade andino-católica. As imagens também podem homenagear pessoas sepultadas no local e recuperar histórias ligadas às famílias e às comunidades.
Parte desse material foi examinada por Calvimontes no artigo “Colores para la memoria: muralismo y folkcomunicación en el Cementerio General de La Paz, Bolivia”, publicado em 2026 pela revista Perspectivas de la Comunicación. O estudo analisa 133 murais e propõe compreendê-los como formas de narrar e ressignificar a memória por meio de linguagens populares.
O cemitério também expõe os limites da autonomia artística. A pesquisadora relatou mudanças administrativas, restrições temáticas e situações nas quais imagens foram cobertas. Embora os murais recuperem práticas religiosas antes tratadas como marginais, sua permanência depende de negociações com as instituições responsáveis pelo espaço.
A tensão não se limita ao cemitério. Em diferentes partes da cidade, uma obra pode afirmar a memória de uma comunidade, mas também ser encomendada para tornar determinada região mais atraente ao turismo ou atender a programas governamentais.
Entre resistência e imagem turística
Antes do trabalho de campo, Calvimontes esperava encontrar no muralismo uma linguagem predominantemente contra-hegemônica. O levantamento mostrou uma situação mais complexa.
Parte considerável da produção contemporânea de La Paz é financiada, autorizada ou orientada por instituições públicas e privadas. Essa mediação garante materiais e abre paredes aos artistas, mas também interfere nos temas aceitos e pode favorecer representações alegres e conciliadoras da cidade.
Os murais ligados à contestação política e à defesa mais direta de direitos aparecem com menor frequência. Algumas dessas mensagens estão afastadas das áreas centrais; outras são inseridas de modo discreto em trabalhos comerciais ou institucionais.
“O muralismo que registrei atualmente na cidade de La Paz está mais voltado ao turismo e ao comércio do que à resistência”, respondeu Calvimontes a uma pergunta do público, em tradução livre.
A pesquisadora ponderou, porém, que ainda existem intervenções relacionadas aos povos indígenas, às mulheres, ao meio ambiente e a outros grupos que disputam sua presença na cidade. Em alguns casos, a resistência permanece quase invisível dentro de obras produzidas sob encomenda.
Projetos destinados a “colorir” bairros populares também precisam ser observados com cautela. Segundo a análise apresentada, as pinturas podem fortalecer vínculos comunitários, mas também transformar a desigualdade em atração turística sem modificar as condições enfrentadas pelos moradores.
Calvimontes utiliza a imagem do palimpsesto para explicar essa paisagem. Como um suporte reescrito diversas vezes, as paredes de La Paz acumulam camadas produzidas em épocas diferentes e por sujeitos com interesses distintos. Memórias ancestrais, projetos institucionais, reivindicações contemporâneas e experiências cotidianas passam a ocupar o mesmo espaço.
Das miniaturas de Alasitas aos murais de La Paz
A relação de Calvimontes com a Folkcomunicação também foi discutida durante o encontro. A pesquisadora contou que conheceu a teoria ao procurar, nos congressos da Associação Latino-Americana de Investigadores da Comunicação (ALAIC), um grupo dedicado às relações entre comunicação e cultura.
Seu primeiro trabalho no campo analisou os pequenos jornais satíricos publicados durante a Festa de Alasitas. Vendidos em miniatura, esses periódicos comentam acontecimentos políticos e sociais com humor e irreverência.
“La Folkcomunicación y yo: una historia de amor”, resumiu.
A aproximação levou a pesquisas sobre festas, comida de rua, publicidade, patrimônio e intervenções urbanas. No estudo dos murais, a Folkcomunicação contribui para distinguir os espaços nos quais as imagens fazem circular memórias de grupos populares daqueles em que símbolos tradicionais foram incorporados a discursos institucionais ou comerciais.
Em julho, Calvimontes apresentou parte da pesquisa no XVIII Congresso Latino-Americano de Investigadores da Comunicação, realizado em Monterrey, no México. Ela coordenou uma das sessões virtuais do GT 1 — Folkcomunicação e Interculturalidade, com trabalhos sobre muralismo, hip-hop, religiosidade, memória funerária e festas populares.
Na atual gestão do grupo, Cristian Yáñez Aguilar, da Universidade Austral do Chile, ocupa a coordenação. Vanessa Calvimontes e Thífani Postali são as vice-coordenadoras. A pesquisadora boliviana também integra a Rede Folkcom e passou a participar das atividades do CUPDec.
Um método para ler a cidade
O debate posterior à apresentação aproximou o estudo de experiências brasileiras. Os participantes lembraram intervenções que foram cobertas ou apagadas após mudanças administrativas, como os painéis do Profeta Gentileza, no Rio de Janeiro, e murais de São Paulo que receberam tinta cinza.
Paulo Celso da Silva relacionou o trabalho à Geografia da Comunicação e questionou a pesquisadora sobre a participação das mulheres e as diferenças entre o muralismo boliviano contemporâneo e a tradição mexicana. Outras perguntas abordaram a conservação das obras, as intervenções realizadas sobre murais existentes e o conflito entre exploração turística e comunicação popular.
O cruzamento entre localização, imagens, cores, temas e depoimentos oferece um método que pode ser aplicado a outras cidades. A proposta permite observar não somente o conteúdo das pinturas, mas as condições materiais e políticas que definem onde elas aparecem, quanto tempo permanecem e quem pode intervir no espaço público.
Em La Paz, o levantamento encontrou uma paisagem marcada pela tensão entre autonomia artística e controle institucional. Os muros comunicam, mas as condições dessa comunicação dependem de quem oferece a parede, financia a tinta, autoriza a imagem e convive diariamente com o resultado.




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