“O universo popular é amplo demais”: Guilherme Fernandes explica onde a Folkcomunicação acontece
- Andriolli Costa
- há 6 horas
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Em entrevista ao Poranduba, ex-presidente da Rede Folkcom percorreu sua trajetória de pesquisa e mostrou como a teoria conecta ex-votos, festas populares, telenovelas, publicidade, turismo e redes sociais

Uma cruz colocada à margem da estrada informa que alguém morreu naquele lugar. A concentração de ex-votos em forma de pernas numa sala de milagres pode revelar os acidentes enfrentados pelos trabalhadores de determinada região. Um boneco de Judas com o rosto de um político transforma uma brincadeira tradicional em manifestação de opinião. Para quem estuda Folkcomunicação, esses elementos não são apenas símbolos: são meios pelos quais grupos e comunidades registram acontecimentos, expressam ideias e comunicam suas experiências.
Foi partindo de exemplos como esses que o professor Guilherme Moreira Fernandes apresentou a teoria no episódio “Poranduba 83 – Folkcomunicação”, publicado em 15 de julho de 2020. Na época presidente da Rede de Estudos e Pesquisa em Folkcomunicação, ele conversou com Andriolli Costa sobre sua trajetória, a obra de Luiz Beltrão e os diferentes caminhos abertos pelo campo.
Ao longo de pouco mais de uma hora, a conversa mostrou que a Folkcomunicação pode estar numa sala de milagres, numa roda de capoeira, num cartaz de protesto, numa embalagem de cerveja produzida para o Festival de Parintins ou na adaptação de uma telenovela para discutir os problemas de uma comunidade. O que aproxima objetos tão distintos é a atenção aos processos comunicacionais que se formam nas margens, nos encontros e nas negociações entre a cultura popular, a mídia e o mercado.
O folclore vivido antes da universidade
Professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Guilherme nasceu em Senador Firmino, município de aproximadamente sete mil habitantes na Zona da Mata mineira. Foi nesse cotidiano de cidade pequena que teve suas primeiras experiências com aquilo que, mais tarde, se tornaria objeto de pesquisa.
Entre as narrativas de sua infância estavam histórias sobre a construção da igreja matriz, as viagens do padre Jacinto em busca de recursos e uma rachadura que teria surgido durante uma luta do religioso contra o demônio. Havia também personagens conhecidos por toda a cidade, como Tarcísio Motoqueiro, que percorria as ruas simulando conduzir uma motocicleta, e Maria Bambu, que carregava o objeto responsável por seu apelido e corria atrás das crianças que a provocavam.
Aos 16 anos, Guilherme deixou Senador Firmino para estudar em Juiz de Fora. Ingressou no curso de Jornalismo interessado inicialmente na música popular e no rock brasileiro dos anos 1980. Foi durante um seminário de cultura popular promovido pela Universidade Federal de Juiz de Fora que assistiu a uma aula de Maria José Oliveira sobre Folkcomunicação. “Foi uma paixão à primeira vista e ainda continua sendo”, contou.
A telenovela, outro objeto importante de sua produção, apareceu no final da graduação. Durante a exibição de Duas Caras, Guilherme participou de uma pesquisa de recepção sobre a expectativa em torno de um possível beijo entre os personagens Bernardinho e Carlão. O estudo comparava as percepções de diferentes audiências e aproximava a narrativa televisiva das discussões sobre grupos culturalmente marginalizados.
A partir daí, o pesquisador passou a articular Folkcomunicação, recepção, telenovela, censura e radiojornalismo. “As minhas pesquisas são um pouco híbridas”, definiu.
Quando o ex-voto se torna notícia
Para explicar o surgimento da teoria, Guilherme retomou a pesquisa de Luiz Beltrão sobre os ex-votos. Jornalista pernambucano e primeiro doutor em Comunicação do Brasil, Beltrão percebeu que os objetos depositados em salas de milagres não eram apenas demonstrações de fé. Eles também comunicavam acontecimentos, problemas e condições de vida.
Ao encontrar grande quantidade de ex-votos em forma de pernas, por exemplo, o pesquisador relacionou os objetos aos acidentes sofridos por trabalhadores da cana-de-açúcar e às picadas de cobras na região. Sem depender de jornais ou emissoras de rádio, aquela comunidade registrava e fazia circular informações sobre sua realidade.
Beltrão apresentou parte dessas reflexões no artigo “O ex-voto como veículo jornalístico” e, em 1967, defendeu a tese que estabeleceu as bases da Folkcomunicação. A investigação foi ampliada para manifestações como a literatura de cordel, os almanaques, os mamulengos, as cruzes colocadas nas estradas e a malhação de Judas.
Eram meios pelos quais grupos afastados dos veículos hegemônicos expressavam ideias, opiniões e atitudes.
Ao empregar o termo “marginalizados”, Beltrão recorria à formulação do sociólogo Robert Park sobre pessoas situadas entre universos culturais diferentes. A noção deu origem à divisão entre grupos rurais, urbanos e culturalmente marginalizados. Guilherme chamou atenção, entretanto, para a necessidade de compreender a obra dentro de seu contexto. Termos e classificações formulados nas décadas de 1960 e 1970 não devem ser simplesmente repetidos, mas podem ser revistos por novas gerações de pesquisadores.
Ele recordou uma frase atribuída ao próprio Beltrão: “Meu trabalho é abrir picadas para outros continuarem o caminho”. Essas picadas foram ampliadas inicialmente por pesquisadores como Roberto Benjamin e José Marques de Melo e, depois, por diferentes gerações que incorporaram novos objetos e referenciais teóricos.
Nem tudo que é folclore é Folkcomunicação
Um dos cuidados destacados durante a entrevista foi não confundir folclore, cultura popular e Folkcomunicação. Uma pesquisa comunicacional não se limita a descrever uma festa, um grupo de boi ou um terno de reis. Ela procura compreender como aquela manifestação produz sentidos, circula e é recebida por determinada comunidade. “Em relação à Folkcomunicação, o folclore e a cultura popular são matéria-prima sobre a qual a gente se debruça para estudar”, explicou.
A descrição do fato cultural pode ser o ponto de partida, mas não substitui a pergunta comunicacional. Mais do que registrar que uma manifestação permanece ativa, interessa compreender como ela se relaciona com seus participantes, quais mensagens comunica e como negocia sua existência com a mídia, o turismo, o mercado e o poder público.
Essa amplitude permitiu que o campo incorporasse conceitos como folkmarketing, folkmídia, folkturismo e ativismo midiático.
No folkmarketing, símbolos das culturas populares são incorporados à publicidade. Guilherme recordou as estratégias desenvolvidas por empresas durante o Festival de Parintins. Marcas identificadas tradicionalmente com a cor vermelha passaram a produzir embalagens azuis para alcançar também os torcedores do Caprichoso.
A folkmídia permite observar tanto os canais utilizados pelas comunidades — como o cordel, o almanaque e as produções audiovisuais artesanais — quanto a incorporação de referências populares por novelas, filmes e minisséries.
Já o folkturismo abrange desde romarias e deslocamentos religiosos até apresentações adaptadas para visitantes. Uma dança retirada de seu contexto ritual e exibida diariamente para turistas deixa de cumprir a função original, mas passa a integrar outro processo comunicacional e econômico. Mesmo quando folcloristas rejeitam essas apresentações como espetáculos “para turista ver”, a transformação continua sendo um fenômeno a ser investigado.
Da malhação de Judas às redes sociais
A expansão da Folkcomunicação não significou o abandono dos objetos investigados por Luiz Beltrão. Estudos sobre ex-votos, cordéis, festas, jornais do interior e manifestações religiosas passaram a conviver com pesquisas sobre influenciadores digitais, redes sociais, desinformação e ativismo on-line.
As placas produzidas durante as manifestações de 2013, por exemplo, apresentaram novas reivindicações políticas, mas dialogavam com uma preocupação antiga do campo: a circulação de opiniões por cartazes, gestos, performances e meios que escapam aos formatos tradicionais do jornalismo.
Guilherme também destacou as possibilidades abertas pelo conceito de ativista midiático, desenvolvido por Osvaldo Meira Trigueiro. Um dos exemplos citados foi o de um agente comunitário que adaptou os conflitos relacionados ao consumo de drogas apresentados na novela O Clone.
Em vez da cocaína, problema vivido pela personagem interpretada por Débora Falabella, a encenação realizada numa praça pública passou a discutir o alcoolismo, questão mais próxima da realidade local. A telenovela não foi simplesmente reproduzida. Seu conteúdo foi apropriado, traduzido e reorganizado pela comunidade.
“A gente tem diversos campos de estudo para perceber essas outras formas de comunicação e de interação”, afirmou Guilherme. “O universo popular é amplo demais. Tem muita coisa que precisa ser pesquisada. E eu acho que a Comunicação é um olhar interessante.”
Pelas margens e pelos intervalos
A conversa também abordou a dificuldade de separar rigidamente cultura popular e cultura de massa. Uma artista como Anitta, por exemplo, pode ser considerada popular pelo alcance de seu trabalho, mas também está inserida numa indústria massiva. A resposta depende do significado atribuído à própria palavra “popular”.
Para Guilherme, a dificuldade de fechar esses conceitos não representa necessariamente um problema. Ela pode ampliar as possibilidades de análise. “Eu prefiro ver pelas margens, pelos interstícios, pelas fronteiras, pelos intervalos”, resumiu.
Essas zonas de contato aparecem quando uma comunidade se reconhece num filme comercial, quando uma quadrilha incorpora recursos cênicos altamente estilizados, quando uma indústria transforma símbolos populares em mercadoria ou quando uma produção artesanal utiliza uma música mundialmente conhecida para circular nas plataformas digitais.
A Folkcomunicação encontra seus objetos justamente nessas negociações, sem presumir que a cultura popular permaneça isolada ou intocada.
Uma regularização que permaneceu pendente
Na parte final do episódio, Guilherme também falou sobre a situação institucional da Rede Folkcom. A entidade havia surgido em 1998, a partir da primeira Conferência Brasileira de Folkcomunicação, realizada na Universidade Metodista de São Paulo por iniciativa de José Marques de Melo.
Na entrevista, o então presidente explicou que a diretoria trabalhava para atualizar o estatuto, reorganizar a lista de associados, obter um novo CNPJ e abrir uma conta bancária. Chamou o movimento de “refundação” apenas entre “muitas aspas”, pois não se tratava de recuperar uma Rede inativa, mas de regularizar juridicamente uma entidade que continuava promovendo pesquisas, encontros e publicações.
A pandemia interrompeu as medidas que exigiam deslocamentos e adiou a Conferência Brasileira de Folkcomunicação prevista para aquele ano. O processo de regularização mencionado no programa não chegou a ser concluído e permanece pendente.
A entrevista registra, portanto, não uma refundação realizada, mas os esforços de uma gestão para enfrentar um problema jurídico que continuaria acompanhando a entidade. Ao mesmo tempo, preserva um momento em que a Rede projetava novas pesquisas coletivas, encontros internacionais e publicações em outros idiomas.
Mais do que o balanço de uma gestão, o episódio apresenta um percurso pela própria Folkcomunicação. Das histórias ouvidas em Senador Firmino às redes sociais, Guilherme Fernandes mostra que o campo continua se renovando porque seus objetos também não param de se transformar. A teoria permanece atenta ao que se comunica por outros caminhos: na fé, na festa, no consumo, no corpo, nas ruas e nas muitas margens da vida cotidiana.





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