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Comissão Fluminense de Folclore reorganiza atividades e elege nova diretoria para o triênio 2026–2029

Assembleia aprovou novo estatuto, reuniu pesquisadores e mestres da cultura popular e escolheu Verônica Inaciola para presidir a entidade; Andriolli Costa, presidente da Rede Folkcom, passa a integrar o Conselho Fiscal


A Comissão Fluminense de Folclore iniciou um novo capítulo de sua história neste sábado, 29 de agosto. Reunidos na Casa Santos Reis, no Centro do Rio de Janeiro, membros antigos e novos associados aprovaram a reorganização da entidade, um novo estatuto social e a composição da Diretoria e do Conselho Fiscal para o triênio 2026–2029.

A pesquisadora Verônica Inaciola Costa Farias da Cruz foi eleita presidente por aclamação. O novo estatuto também reduziu de quatro para três anos a duração dos mandatos, mudança pensada para favorecer a renovação dos quadros e a continuidade do trabalho. A professora Cáscia Frade aceitou o posto de presidente de honra.


Mais do que preencher cargos, a assembleia marcou a retomada institucional de uma entidade instalada em 12 de janeiro de 1950. Ao longo de 76 anos, a Comissão Fluminense reuniu pesquisadores, gestores e agentes ligados à documentação, ao estudo e à defesa das culturas populares no estado do Rio de Janeiro. O encontro reconheceu esse legado, mas também deixou claro que reorganizar a entidade significa prepará-la para responder aos desafios atuais dos grupos e mestres da cultura popular.


Uma retomada que reconhece quem veio antes

Verônica apresentou a reorganização não como um começo isolado, mas como continuidade de uma história construída por muitas pessoas. Ao lembrar nomes como Cáscia Frade, Bráulio do Nascimento e Affonso Furtado, ressaltou que a nova gestão é tributária do trabalho de pesquisadores, dirigentes, jornalistas e mestres que mantiveram a Comissão ativa em diferentes momentos. “A gente hoje vem aqui honrar todos os que estiveram antes da gente”, afirmou.


Entre as pessoas homenageadas, a jornalista Lena Frias ocupou um lugar especial. Affonso Furtado recordou sua atuação como uma espécie de guardiã da Comissão e destacou as grandes reportagens sobre cultura popular que ela publicava no Jornal do Brasil, algumas delas ocupando uma página inteira. Uma das mais conhecidas foi Black Rio: o orgulho (importado) de ser negro no Brasil, publicada em 17 de julho de 1976, após a jornalista percorrer os bailes soul da Zona Norte e da Baixada Fluminense. A reportagem tornou visível uma cena cultural que mobilizava milhares de jovens negros, mas ainda era ignorada por grande parte da cidade.


Verônica também recuperou uma experiência vivida com a jornalista em 2001. Naquele ano, participou, ao lado de Lena e do fotógrafo Pércio Campos, de um amplo levantamento sobre a cultura popular no interior do estado do Rio de Janeiro. O material serviria de base para um livro planejado pela jornalista, que já se encontrava adoentada quando começou a redigi-lo. O projeto não saiu da maneira como havia sido concebido. Anos depois, as imagens de Pércio foram reunidas em Rio de Janeiro – Estado Maravilhoso, publicado pela Imprensa Oficial em 2005, com registros da arquitetura, da paisagem, da cultura popular, da gastronomia, da economia e da história fluminense.


“Ela começou a escrever ainda doente. Depois, esse trabalho virou outro trabalho com as fotos do fotógrafo, mas tem a assinatura da Lena”, contou Verônica, antes de pedir uma salva de palmas em sua memória. A nova gestão pretende criar outros momentos de homenagem para devolver às pessoas que construíram a trajetória da Comissão o lugar de destaque que lhes cabe nessa história.

Uma instituição a serviço do colet

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Ao apresentar as razões da reorganização, Verônica lembrou situações em que a falta de uma estrutura institucional regularizada impediu uma atuação mais efetiva em defesa dos grupos. Um dos casos mencionados foi a perda do espaço utilizado por uma Folia de Reis na Visconde de Niterói. Sem uma entidade apta a representar coletivamente os detentores da tradição, explicou, tornou-se mais difícil buscar apoio jurídico e institucional.


“A instituição é o coletivo”, resumiu a nova presidente. Para ela, a Comissão deve reunir forças que, isoladamente, não conseguiriam responder à dimensão e à diversidade do folclore fluminense. “Uma andorinha só não pode fazer verão. A gente não está aqui prometendo nada, mas vai tentar, no coletivo, construir mais um capítulo dessa história tão bonita.”


A regularização também abre caminho para que a entidade participe de editais, busque emendas parlamentares, estabeleça parcerias e ofereça apoio mais consistente às iniciativas culturais. Durante a reunião, foi discutida ainda a possibilidade de formalizar futuramente a utilização da Casa Santos Reis como sede da Comissão. O espaço já recebe encontros de grupos e mestres e foi colocado à disposição da nova gestão.


Pesquisadores e mestres no mesmo espaço

Um dos principais encaminhamentos da assembleia foi a criação de um Conselho de Mestres da Cultura Popular Fluminense. A proposta é garantir que os detentores dos saberes populares não apareçam apenas como objetos de estudo ou convidados ocasionais, mas participem da definição dos rumos da própria Comissão. A organização desse conselho deverá começar já na próxima reunião.


A mudança atualiza uma característica da trajetória da entidade. Em seus primeiros anos, a Comissão foi formada sobretudo por estudiosos e intelectuais do antigo estado do Rio de Janeiro. Na avaliação do historiador Rui Aniceto Fernandes, que pesquisa a história da instituição, o desafio agora é preservar essa tradição de estudos e, ao mesmo tempo, ampliar a participação dos brincantes e mestres.


“A gente pode estudar, pode levantar, pode classificar, pode organizar esses dados, mas, se a gente não fomentar esse diálogo, a gente não desenvolve a Comissão”, afirmou.

A própria composição da assembleia mostrou esse movimento. O encontro reuniu pesquisadores universitários, gestores do patrimônio, artistas, integrantes de companhias folclóricas e representantes de Folias de Reis. Mestres do Morro da Formiga e da Jornada Nova Flor do Oriente, entre outros grupos, falaram sobre a continuidade das tradições entre gerações, as dificuldades enfrentadas nos territórios e a importância de uma organização capaz de articular suas demandas.


Presidente da Rede Folkcom passa a integrar o Conselho Fiscal

O presidente da Rede de Estudos e Pesquisa em Folkcomunicação, Andriolli Costa, foi eleito para o Conselho Fiscal da Comissão Fluminense de Folclore. Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e pesquisador das culturas populares, Andriolli passa a acompanhar a gestão administrativa e financeira da entidade durante o triênio 2026–2029.


Sua presença no conselho aproxima duas redes que partem de preocupações comuns. Enquanto a Comissão atua na pesquisa, documentação e defesa do folclore fluminense, a Rede Folkcom se dedica a compreender os processos comunicacionais produzidos por grupos populares e por agentes que fazem circular seus saberes, memórias e reivindicações.


A participação também reforça o vínculo com a UERJ, instituição citada em diferentes momentos da história recente da Comissão. Além de Andriolli, a nova composição reúne pesquisadores formados ou vinculados à Universidade, como Rui Aniceto Fernandes e Rodrigo Rangel.


Reorganização encontra uma agenda em movimento

A retomada ocorre em um momento de novas discussões sobre políticas públicas para o patrimônio imaterial no estado. Representantes do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural presentes à assembleia relataram propostas para a formação de um grupo de trabalho com mestres e mestras de Folias de Reis, a revisão dos mecanismos de apoio aos grupos, o reconhecimento do patrimônio vivo e o avanço do processo de registro das Folias de Reis como patrimônio cultural fluminense.


Para a Comissão, a agenda amplia as possibilidades de interlocução, mas também aumenta a responsabilidade de acompanhar as políticas e fazer com que as decisões contem com a participação dos detentores das tradições.


O ex-presidente da Comissão Fluminense de Folclore, Affonso Furtado, lembrou um princípio que conheceu na Folklore Society, em Londres, e adotou como orientação para o trabalho no Rio de Janeiro: “Não é necessário morrer de trabalhar pelo folclore. Mas é indispensável não deixá-lo morrer.” A reorganização da Comissão Fluminense começa justamente daí: da decisão de repartir o trabalho para que uma história iniciada há mais de sete décadas possa continuar.

 
 
 

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