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Rafael Filho é aprovado em dissertação que defende a folkcomunicação ancestral no Quilombo do Caxambú

Pesquisa desenvolvida na Casa Quilombola Turi Vimba identificou 44 manifestações folkcomunicacionais e apontou a oralidade como fio condutor da transmissão de saberes e memórias



Rafael Alves Sobrinho Filho foi aprovado, nesta sexta-feira (28), na defesa da dissertação Casa Quilombola Turi Vimba: um território de memória, resistência e práticas folkcomunicacionais ancestrais. O trabalho foi apresentado ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da Universidade de Sorocaba (Uniso), sob orientação de Thífani Postali Jacinto.


A banca examinadora contou com os professores Paulo Celso da Silva, da Uniso, e José Cláudio Alves de Oliveira, da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Realizada em formato híbrido, a defesa também teve a participação de integrantes da Casa Quilombola Turi Vimba, localizada em Salto de Pirapora, no interior de São Paulo, e responsável por manter vivas as memórias e tradições do Quilombo do Caxambú.


Mais do que tomar a comunidade como objeto de investigação, Rafael construiu a pesquisa ao lado dos sujeitos que produzem, atualizam e transmitem esses conhecimentos. Essa presença se manifestou até de maneira espontânea durante a apresentação. Quando o pesquisador mencionou Antônio Junior, uma das lideranças da Casa, ele entrou no ambiente, arrancando sorrisos de quem acompanhava a defesa.


Um mapa desenhado com carvão

Uma das cenas apresentadas por Rafael ajuda a compreender o que ele denomina “ciência comunicacional ancestral”. Durante uma visita à Casa Turi Vimba, uma pessoa do grupo não tinha condições motoras de percorrer o caminho pelo qual se conta a história das antigas comunicações entre quilombos.


Antes de iniciar o trajeto, Junior pediu aos demais visitantes que guardassem os pontos mais importantes do percurso. Na volta, entregou-lhes um pedaço de carvão e solicitou que desenhassem no chão um mapa para que a pessoa que não participara da caminhada também pudesse conhecer o caminho.


A prática retomava formas ancestrais de produção e circulação de mapas, utilizadas para indicar caminhos de fuga e estabelecer contatos entre diferentes quilombos. No gesto cotidiano de riscar o chão com carvão, Rafael reconheceu um processo comunicacional capaz de articular memória, território, acessibilidade e ancestralidade.


A pesquisa foi desenvolvida por meio de observação participante, descrição densa e duas imersões na Casa Quilombola Turi Vimba. Rafael acompanhou grupos de visitantes com perfis distintos, entre eles representantes de uma instituição filantrópica e um coletivo internacional formado por ativistas e pesquisadores do Brasil, Irã, Palestina, França, Argélia e Escócia.


Durante as experiências, observou que as atividades realizadas na Casa não constituem uma simples exposição da cultura quilombola. São atos políticos de preservação e ativação de um patrimônio imaterial. A voz, o corpo, os alimentos, os objetos, as imagens, os espaços, os gestos e as performances funcionam como suportes para a produção e a circulação de saberes.


A oralidade atravessa todos os gêneros

A partir da taxionomia da folkcomunicação, Rafael catalogou 44 manifestações: dez orais, nove visuais, 17 icônicas e oito cinéticas. Entre elas estão as conversas durante os cafés, as contações de histórias, as fotografias espalhadas pelo território, os cartazes, as indumentárias, as imagens dos orixás e dos santos negros, os altares, as sementes entregues aos visitantes, os toques de tambor, a capoeira e os gestos corporais.

O pesquisador ressaltou, entretanto, que o resultado não deve ser compreendido como um inventário de práticas isoladas. Os gêneros se encontram e atuam de maneira simultânea. Uma narrativa pode ser acompanhada por um objeto, uma imagem, um alimento, um gesto ou um deslocamento pelo território.


O principal achado da dissertação é que a folkcomunicação ancestral tem a oralidade como fio condutor. Presente nos diferentes gêneros folkcomunicacionais, ela articula os demais suportes empregados na transmissão dos saberes populares e das memórias coletivas.

A Casa Turi Vimba foi compreendida, assim, como um território vivo de práticas comunicacionais ancestrais: um espaço que não apenas conserva conhecimentos recebidos dos mais velhos, mas os atualiza a cada visita, conversa, rito, oficina e experiência compartilhada.


Em um dos momentos mais emocionantes da apresentação, Rafael recordou sua primeira imersão. Ao apresentá-lo a um grupo de visitantes, uma moradora da Casa afirmou que estava feliz porque quem escreveria sobre a comunidade era “um dos nossos”.

“Naquele momento eu ainda tinha dúvidas se estava no caminho certo. A partir do momento em que ouvi da boca de uma pessoa quilombola, de uma mulher preta e moradora da Casa Turi Vimba, que eu era um de vocês, isso transformou a minha vida”, contou.


Banca destaca contribuição à teoria folkcomunicacional

José Cláudio Alves de Oliveira destacou a clareza do encadeamento da dissertação e a forma como Rafael articulou quilombo, memória, resistência e folkcomunicação. Para o professor, o pesquisador conseguiu dar voz aos atores locais, algo que ainda falta em muitos trabalhos acadêmicos.


O avaliador também chamou atenção para a condição igualmente marginalizada da folkcomunicação dentro de parte dos programas de pós-graduação em Comunicação. Desde a qualificação, havia recomendado que Rafael protegesse e defendesse a própria teoria escolhida para interpretar o território.


Paulo Celso da Silva ressaltou que a dissertação contribui para o desenvolvimento de um pensamento comunicacional brasileiro, ao atualizar as propostas de Luiz Beltrão e José Marques de Melo em contato com um território vivo. O professor também elogiou a consistência da etnografia, a relação construída com os sujeitos e o ensaio fotográfico produzido pelo autor.


Na avaliação de Paulo Celso, as fotografias não funcionam como simples ilustrações, mas como parte da própria metodologia de observação participante. Ele também destacou que a pesquisa rompe com a separação rígida entre sujeito e objeto: no território quilombola, todos são sujeitos envolvidos na produção do conhecimento.


“Academia é para se falar de macumba, sim”

Depois da aprovação, Rafael recordou os obstáculos enfrentados durante o mestrado e afirmou que continuará pesquisando as comunidades quilombolas e defendendo a folkcomunicação.


“Quem anda comigo sabe, quem anda comigo viu. Foram dias de querer desistir, de ler no ônibus, madrugadas — e o resultado chegou. Esse trabalho eu não fiz por mim. Eu fiz pelos quilombolas. Fiz para mostrar ainda mais o trabalho deles, a importância da Casa e do quilombo.”


Rafael agradeceu aos seus orixás, à orientadora Thífani Postali e a todas as pessoas que o acompanharam durante a trajetória. Para ele, a conclusão do mestrado não encerra esse compromisso, mas abre novos caminhos para levar as culturas negras, as religiões de matriz africana e os conhecimentos produzidos pelas comunidades quilombolas para dentro da universidade.


“Eu vou continuar defendendo a folkcomunicação, porque ela é a comunicação do dia a dia, do povão mesmo, e eu me apaixonei por ela. Ainda é muito difícil falar de coisas de preto na academia, de quilombo na academia. Mas academia é para se falar de macumba, sim; de coisa de preto, sim; contra tudo e contra todos. E eu vou continuar falando.”


 
 
 

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