top of page

Marlei Sigrist percorre o chão batido da cultura popular

11 de ago.
8 min de leitura

Em entrevista a Carmen Cestari, pesquisadora apresenta a Folkcomunicação como chave para compreender os saberes populares e revisita sua trajetória entre livros, educação, dança, políticas culturais e culinária pantaneira.



Um folheto de cordel, um ex-voto depositado em uma igreja, uma dança realizada em uma comunidade rural ou um objeto produzido por artesãos não apenas preservam costumes. São também formas de elaborar experiências, transmitir conhecimentos, comunicar valores e construir sentidos coletivos. É por essa perspectiva que Marlei Sigrist apresenta a Folkcomunicação e oferece a chave de leitura para toda a sua trajetória como pesquisadora, arte-educadora e ativista cultural.


“Existe o fator comunicacional em tudo isso”, afirma Marlei ao explicar a teoria formulada por Luiz Beltrão. A pesquisadora foi entrevistada por Carmen Cestari no primeiro programa inédito de 2013 do Primeira Pessoa. Ao longo da conversa, ela percorre mais de três décadas de atuação em Mato Grosso do Sul, passando pela pesquisa que originou Chão batido, pela criação dos grupos Sarandi Pantaneiro e Camalote, pelo projeto Estação Folclore e pelo estudo dos hábitos alimentares do Pantanal.


A Folkcomunicação aparece inicialmente como assunto específico da entrevista, mas logo se revela um fio que atravessa toda a sua obra. O que muda, de um projeto para outro, é o suporte: livro, dança, exposição, aula, artesanato ou receita. A preocupação permanece semelhante: compreender como os grupos produzem e fazem circular seus conhecimentos e como esses conteúdos podem alcançar outros espaços sem apagar aqueles que os criaram.


Uma teoria brasileira para observar os fluxos populares

Marlei define a Folkcomunicação como uma teoria voltada à comunicação dos grupos marginalizados. Ao estudar cordéis, ex-votos e diferentes acontecimentos do cotidiano, Luiz Beltrão identificou a existência de processos comunicacionais que não dependiam exclusivamente dos meios de comunicação de massa.


Nesses grupos, explica a pesquisadora, determinadas pessoas atuam como agentes comunicadores. Elas concentram informações, interpretam conteúdos e os multiplicam. Podem decodificar uma mensagem da mídia para a comunidade, adequando-a às linguagens e às referências locais, mas também realizar o percurso inverso: levar as demandas, narrativas e formas de expressão populares para espaços de maior visibilidade.


A contribuição da teoria está, portanto, menos em criar uma lista de objetos “folclóricos” do que em observar os agentes, os meios e os fluxos de comunicação. O artesanato, por exemplo, não se torna folkcomunicacional apenas por ser produzido manualmente. Interessa compreender as relações presentes em sua produção, os saberes transmitidos, as identidades mobilizadas e os mecanismos que permitem — ou impedem — sua circulação pública.


Essa preocupação levou Marlei a integrar a Rede Folkcom desde sua formação, na Universidade Metodista de São Paulo. Ela também desenvolveu pesquisas como “Folkcomunicação e artesanato: as identidades culturais locais e seus mecanismos de visibilidade midiática”, publicado no livro A Folkcomunicação no limiar do século XXI, organizado por pesquisadores ligados à Universidade Federal de Juiz de Fora.


Na entrevista, Marlei destaca o caráter genuinamente brasileiro da teoria e sua expansão para outros países ibero-americanos. Sua própria produção demonstra essa capacidade de ampliar o campo: a Folkcomunicação não aparece isolada em uma discussão abstrata, mas ligada à educação, à dança, ao turismo, ao patrimônio, à culinária e às políticas culturais.

De Valinhos ao encontro com Mato Grosso do Sul

Nascida em Valinhos, no interior de São Paulo, Marlei mudou-se para Mato Grosso do Sul no início da década de 1980: primeiro para Corumbá e, posteriormente, para Campo Grande. A transferência ocorreu em um contexto de deslocamento econômico de sua família, mas o contato com a região era anterior. Desde a adolescência, ela já visitava o Pantanal.


O mergulho sistemático na cultura sul-mato-grossense, entretanto, começou quando passou a trabalhar com educação na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Ao preparar as aulas, deparou-se com uma dificuldade básica: havia poucas publicações que tratassem da cultura popular do estado com profundidade teórica e metodológica.

Existiam textos isolados, geralmente dedicados a curiosidades regionais. Faltava uma produção capaz de articular aquilo que as comunidades realizavam com os estudos do folclore e da cultura popular. Quando os estudantes perguntavam o que Mato Grosso do Sul possuía, a professora também precisava reconhecer os limites do material disponível.


A ausência tornou-se ponto de partida. Marlei começou a viajar, conversar com moradores, acompanhar festas, observar práticas e registrar danças, narrativas e modos de fazer. Nesse percurso, associou a experiência acumulada em sua convivência com a cultura popular às teorias e metodologias da pesquisa acadêmica.

O resultado mais conhecido desse trabalho é Chão batido: a cultura popular de Mato Grosso do Sul — folclore e tradição, publicado originalmente pela Editora UFMS.


Quinze anos entre pesquisa, sala de aula e livro

A elaboração de Chão batido levou aproximadamente 15 anos. O material não nasceu imediatamente como livro. Os registros de campo transformaram-se primeiro em apostilas utilizadas nas aulas e, depois, em conteúdos de cursos destinados a professores das redes de ensino.


Parte da pesquisa também apareceu nos chamados Cadernos de Cultura Popular, entre eles Limpa Banco e Entre tabocas, pés-de-garrafa e tererés. Os textos foram posteriormente retomados, ampliados e reorganizados até adquirirem o formato da publicação que se tornaria referência para estudantes de Artes, Comunicação, Letras, Turismo, História e outras áreas das Ciências Humanas.


A origem educacional do trabalho ajuda a explicar a linguagem adotada por Marlei. O objetivo não era escrever apenas para especialistas, mas oferecer ferramentas para que professores, estudantes e moradores reconhecessem a diversidade cultural do lugar onde viviam.“Tudo o que eu faço eu penso, em primeiro lugar, na educação”, resume.


A frase reaparece quando ela descreve outro de seus grandes projetos: a criação de um centro dedicado às culturas populares de Mato Grosso do Sul. Mais do que reunir objetos, o espaço deveria possibilitar experiências, estudos e intercâmbios.


Um centro vivo, não apenas um museu

Desde 2004, Marlei defendia a criação, em Campo Grande, de um grande espaço cultural voltado às culturas populares. Na concepção apresentada à entrevistadora, o centro teria exposições permanentes, temporárias e itinerantes, biblioteca, cursos de atualização, oficinas com artesãos e atividades desenvolvidas em parceria com escolas.


A pesquisadora imaginava um lugar permanentemente frequentado, capaz de aproximar acervo, comunidade e produção cultural. Na área externa, poderiam ser instalados elementos ligados aos modos de vida rurais, como roda-d’água, monjolo e uma reprodução da casa pantaneira.


Não seria, segundo ela, um museu concebido apenas como lugar de guarda e contemplação. Seria um centro de atividades, com circulação diária de estudantes, professores, artesãos, pesquisadores e visitantes. O projeto ideal previa uma área ampla, mas Marlei reconhecia que seria possível começar em dimensões menores. O principal obstáculo era a ausência de um espaço físico assumido por alguma instituição.


Enquanto o centro não se concretizava, a Comissão Sul-Mato-Grossense de Folclore criou a Estação Folclore. A primeira proposta era disponibilizar virtualmente partes do acervo, cursos e conteúdos que poderiam integrar o futuro espaço. A experiência posteriormente ganhou atividades presenciais: em 2015, por exemplo, a Estação Folclore promoveu exposições e ações educativas voltadas ao encontro com os saberes populares.


A ideia de estação carrega um sentido importante: não se trata de imobilizar a cultura, mas de criar um ponto de encontro, passagem e circulação. É, novamente, o princípio comunicacional atravessando uma política de preservação.


Quando a dança comunica uma região

A pesquisa de campo também levou Marlei à criação de grupos de dança. Ao caminhar pelo “chão batido” do estado, ela encontrou danças tradicionais que ainda eram realizadas em bairros rurais. Percebeu, então, que esses repertórios poderiam chegar a outros públicos por meio do palco.


“A dança é uma forma de comunicação muito rápida”, observa. Em poucos minutos de apresentação, figurinos, músicas, gestos e coreografias podem oferecer ao público referências sobre a região representada.


Foi desse entendimento que nasceu o Sarandi Pantaneiro, formado inicialmente por estudantes da UFMS. O grupo ganhou projeção ao ser convidado para a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Eco-92, no Rio de Janeiro. O convite trouxe um desafio: havia reconhecimento, mas faltavam recursos até mesmo para os figurinos. A participação foi conquistada depois de uma mobilização que revelou uma dificuldade recorrente na cultura popular — o prestígio público nem sempre é acompanhado de estrutura material.


O Sarandi Pantaneiro circulou por diferentes eventos até Marlei se afastar para desenvolver sua dissertação de mestrado. Anos mais tarde, outra experiência aproximaria dança, pesquisa e formação de professores.


O Grupo Camalote nasceu em 2003, após um projeto realizado com educadores da rede municipal de Campo Grande. As oficinas trataram do folclore de Mato Grosso do Sul, e os próprios professores demonstraram interesse em continuar estudando e dançando. O que deveria ser uma atividade temporária tornou-se um trabalho permanente.


No momento da entrevista, o Camalote completava dez anos e possuía um repertório de 32 danças. Além das danças tradicionais pesquisadas em diferentes regiões, o grupo criava coreografias inspiradas em narrativas como as do Minhocão e do Pé-de-Garrafa. A dança permitia que esses personagens ultrapassassem a oralidade e ganhassem corpo diante do público.


Marlei dizia, em tom bem-humorado, que o Camalote era “o único grupo do planeta Terra” a apresentar o conjunto das danças tradicionais de Mato Grosso do Sul. A frase revela orgulho, mas também uma cobrança: o grupo era convidado e reconhecido em festivais de outros estados enquanto enfrentava dificuldades para obter apoio dentro do próprio território que representava.


Os sabores que circulam mais rapidamente

A conversa chega então à culinária com Pantanal: sinfonia de sabores e cores, publicação bilíngue da Editora Senac Nacional, integrante da coleção A formação da culinária brasileira. O livro reúne textos de Marlei, receitas e fotografias de Humberto Medeiros.


O convite inicial previa uma abordagem sobre todo o Centro-Oeste. Marlei questionou a amplitude e defendeu que as particularidades regionais recebessem maior atenção. Depois das negociações, o Pantanal tornou-se o eixo da publicação, permitindo contemplar áreas de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul sem transformar toda a região em um bloco cultural indiferenciado.


Para escrever os textos, ela percorreu a história e a geografia da ocupação pantaneira, buscando explicar a formação dos hábitos alimentares. Entre as fontes estavam pesquisas acadêmicas e antigos cadernos de receitas familiares — aqueles que passam de uma geração para outra e carregam, nas páginas marcadas por gordura e temperos, sinais do próprio uso cotidiano.


A culinária, segundo Marlei, tende a alcançar visibilidade com mais facilidade. Está presente diariamente na vida das pessoas e é rapidamente incorporada pelo turismo como produto de divulgação regional. Outros conhecimentos populares, ao contrário, podem passar despercebidos até mesmo dentro da comunidade. “A cultura popular está tão entranhada dentro da gente que as pessoas que a detêm não percebem isso”, afirma.


O reconhecimento, portanto, não é necessário apenas para apresentar a cultura a visitantes. Ele também permite que os próprios grupos se percebam como produtores de conhecimento e identifiquem valor em práticas que poderiam ser consideradas corriqueiras.


Visibilidade começa pelo reconhecimento

Ao final da entrevista, livros, danças, lendas, receitas e projetos culturais deixam de parecer assuntos separados. Todos participam da construção de maneiras específicas de ser e fazer. Para Marlei, são essas formas particulares que ajudam a dar uma face à identidade sul-mato-grossense.


A diferença não aparece como um enfeite destinado ao mercado turístico. É uma condição para que uma comunidade não seja ignorada e possa se apresentar ao mundo a partir de suas próprias referências. Mas essa visibilidade exige pesquisa, educação, políticas públicas, espaços culturais e participação dos próprios grupos.


É nesse ponto que a Folkcomunicação retorna ao centro da conversa. Comunicar a cultura popular não significa somente transformá-la em notícia, espetáculo ou produto. Significa observar quem produz os sentidos, quem os interpreta, por quais canais eles circulam e como retornam às comunidades.


A trajetória de Marlei Sigrist percorre justamente esses caminhos de ida e volta. Do campo à sala de aula, da narrativa oral ao palco, do caderno familiar ao livro bilíngue, do acervo guardado ao projeto de uma estação aberta ao público. Em cada passagem, o conhecimento muda de suporte, encontra novos interlocutores e adquire outras possibilidades de circulação — sem deixar de carregar as marcas do chão onde foi produzido.

Comentários


Rede Folkcom - 2026

bottom of page