“Fora de moda é quem não compreende como o folclore atua hoje”, defendia Severino Vicente
Em entrevista conduzida por Élmano Ricarte em 2014, o folclorista potiguar falou sobre os desafios da Comissão Nacional de Folclore, a aproximação com a folkcomunicação e a necessidade de dialogar com as comunidades, a juventude e as novas formas de comunicação
Diante da afirmação recorrente de que o folclore estaria “fora de moda”, Severino Vicente respondeu invertendo a provocação: “Fora de moda é quem não compreende como o folclore atua hoje dentro do novo contexto sociocultural”.
A frase sintetiza uma das principais ideias defendidas pelo pesquisador potiguar na entrevista concedida a Élmano Ricarte, em 2014, quando presidia a Comissão Nacional de Folclore. Para Severino, preservar a cultura popular nunca significou mantê-la imóvel. Era necessário compreender suas transformações, acompanhar as mudanças da sociedade e reconhecer os novos espaços nos quais o povo continuava produzindo sentidos.
Publicada posteriormente na Revista Internacional de Folkcomunicação, a entrevista abordou os desafios institucionais da Comissão Nacional de Folclore, a revisão da Carta do Folclore Brasileiro, a preservação dos documentos produzidos pelos congressos nacionais e a necessidade de aproximar pesquisadores, brincantes, mestres da cultura e novas gerações.
Revisitada agora, após o falecimento de Severino Vicente, em fevereiro de 2026, aos 77 anos, a conversa também se torna um documento de memória. Nela, permanecem vivas a voz, as preocupações e a disposição de um pesquisador que compreendia o folclore como compromisso permanente com as comunidades.
Uma Comissão aberta à diversidade brasileira
Ao assumir a presidência da Comissão Nacional, Severino Vicente encontrou uma instituição que, segundo avaliava, precisava ampliar sua presença na vida cultural brasileira. Uma das críticas recebidas era a de que a entidade permanecia excessivamente fechada em seus livros, pesquisas e encontros internos.
Sua proposta foi estimular um momento de abertura. Isso significava participar de festivais, seminários e eventos não organizados diretamente pela Comissão, estabelecer relações com outras instituições e acompanhar manifestações culturais em diferentes regiões do país.
O movimento respondia à própria diversidade brasileira. Em um território de dimensões continentais, cada comissão estadual vivia uma realidade distinta. Algumas mantinham atividades mensais e articulações consolidadas; outras enfrentavam dificuldades de organização e continuidade.
Na época da entrevista, Severino relatou que a rede havia chegado a 25 comissões estaduais organizadas. Parte de sua atuação consistia em visitar os estados, dialogar com pesquisadores e incentivar a reestruturação dos grupos locais. A Comissão Nacional, entretanto, não deveria funcionar como órgão controlador. Cabia a cada representação estadual construir parcerias com universidades, governos, prefeituras e outras instituições, enquanto a direção nacional procurava integrar experiências e fortalecer a circulação de informações.
“Se você não tiver compromisso, você não trabalha o folclore”
Para Severino Vicente, a pesquisa sobre cultura popular não poderia ficar limitada aos gabinetes. Era preciso sair, conhecer os territórios e estabelecer relações com aqueles que mantêm as manifestações culturais vivas.
“Quer estudar o folclore, vá à comunidade, converse com os mestres, com o povo, com os grupos”, recomendou durante a entrevista. Em seguida, apresentou outra frase que resume sua maneira de compreender o trabalho: “Se você não tiver compromisso, você não trabalha o folclore”.
Esse compromisso envolvia disposição para viajar, escutar e reconhecer os conhecimentos produzidos fora das instituições acadêmicas. Mestres, brincantes, artesãos, músicos e integrantes das comunidades não deveriam ser tratados apenas como objetos de pesquisa, mas como sujeitos capazes de interpretar e transmitir suas próprias experiências.
A perspectiva também orientava sua atuação no campo educacional. Professor e autor de A cultura popular e a prática pedagógica, Severino defendia a presença dos saberes populares nas escolas como forma de fortalecer o sentimento de pertencimento e aproximar os estudantes das culturas de suas comunidades. Sua trajetória e sua atuação na Comissão foram destacadas durante o VII Seminário Nacional de Ações Integradas em Folclore, realizado em Aracaju, em 2015, conforme registro da Prefeitura de Aracaju.
Uma Carta para um país em transformação
Outro tema central da entrevista foi a Carta do Folclore Brasileiro. O documento original foi elaborado em 1951, durante o primeiro Congresso Brasileiro de Folclore, e recebeu uma releitura em 1995.
Severino defendia que a Carta voltasse a ser discutida. Para ele, não se tratava simplesmente de declarar seus conceitos ultrapassados, mas de ajustá-los às mudanças vividas pela sociedade brasileira. Novas práticas culturais, tecnologias e relações sociais exigiam uma atualização das formas de pesquisar, salvaguardar e comunicar o folclore.
A Carta reúne orientações sobre conceitos, pesquisa, documentação, ensino, educação, salvaguarda e relações com os meios de comunicação. Sua importância para a organização do campo e para a formulação de políticas culturais é reconhecida pelo Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular do Iphan.
Naquele momento, a expectativa de Severino era fazer da discussão sobre o documento uma das pautas do congresso nacional seguinte. A proposta revelava sua preocupação em manter a Comissão conectada ao presente sem abandonar a história construída pelo movimento folclórico brasileiro.
Memória que precisava circular
Severino também chamou atenção para o acervo produzido pelos congressos brasileiros de folclore desde 1951. Ao longo das décadas, os encontros reuniram estudos acadêmicos, relatos de experiências, registros de manifestações e debates sobre as transformações da cultura popular.
Apesar de sua relevância, grande parte desse material ainda não estava disponível digitalmente quando a entrevista foi realizada. Severino buscava apoio institucional para preservar, organizar e colocar essas publicações ao alcance de pesquisadores, estudantes e comunidades.
A preocupação com a digitalização mostrava que preservar não era somente guardar. Para que a memória continuasse viva, ela precisava circular, ser consultada e gerar novas pesquisas.
O encontro com a folkcomunicação
A entrevista também evidencia as aproximações entre os estudos do folclore e a folkcomunicação. Severino recordou o contato com pesquisadores como Osvaldo Trigueiro e Severino Alves de Lucena Filho, que contribuíram para aproximá-lo do campo iniciado por Luiz Beltrão.
Segundo contou, Osvaldo Trigueiro defendia que o movimento folclórico tinha muito a ganhar com a folkcomunicação — e que a folkcomunicação também poderia se fortalecer por meio do diálogo com pesquisadores e comunidades ligados ao folclore.
Essa aproximação permitia compreender as manifestações populares não apenas como tradições preservadas, mas também como processos comunicacionais. Festas, narrativas, performances, celebrações, artesanato e formas de sociabilidade constituem maneiras pelas quais os grupos comunicam suas experiências, identidades, conflitos e visões de mundo. Ao participar de encontros da Rede Folkcom, Severino reconheceu a existência de interesses comuns e defendeu o aprofundamento dessa relação.
“A juventude é o grande palco”
Entre as passagens mais esperançosas da entrevista está a avaliação sobre a presença dos jovens. Severino relatou sua satisfação ao encontrar estudantes e jovens brincantes interessados em participar das comissões estaduais e das atividades do movimento folclórico.
“A juventude é o grande palco da Comissão Nacional”, afirmou. A declaração se relacionava diretamente com sua resposta à ideia de que o folclore estaria fora de moda. Para Severino, os jovens não estavam afastados da cultura popular. Eles participavam de grupos, festas, brincadeiras e pesquisas, ao mesmo tempo que criavam novas maneiras de registrar e compartilhar essas experiências.
A própria Comissão começava a perceber a importância das mídias digitais. Severino mencionou a atualização do site institucional e a criação de uma página no Facebook para divulgar as ações desenvolvidas nos estados. Citou ainda fenômenos daquele período, como Bode Gaiato e Suricate Seboso, como exemplos de expressões populares que encontravam novos modos de circulação na internet. A cultura popular, portanto, não desaparecia diante das tecnologias. Ela se apropriava delas.
Um compromisso que permanece
No encerramento da entrevista, Severino falou sobre um livro que ainda estava em preparação: Uma releitura cascudiana para o folclore brasileiro. A obra, construída a partir da análise de 30 livros de Câmara Cascudo, seria lançada pelo Sesc RN em 2017, como registra a Fecomércio Rio Grande do Norte.
Primeiro potiguar a presidir a Comissão Nacional de Folclore, Severino Vicente dedicou sua trajetória à pesquisa, à educação e à articulação do movimento folclórico. Seu falecimento, em 11 de fevereiro de 2026, encerrou uma vida marcada pela defesa da cultura popular, mas não interrompeu a circulação de suas ideias.
Na entrevista de 2014, conduzida por Élmano Ricarte, Severino deixou uma mensagem que continua atual: compreender o folclore exige acompanhar a vida das comunidades, reconhecer suas transformações e manter abertos os caminhos entre pesquisa, educação, comunicação e participação popular.
O folclore não está fora de moda. Como ensinava Severino Vicente, fora de sintonia com o presente está quem ainda não conseguiu perceber a força com que a cultura popular continua atuando.



Comentários