Entrevista: Osvaldo Meira Trigueiro para a RIF, 2009
- Andriolli Costa
- 2 de abr. de 2010
- 6 min de leitura
O olhar etnográfico (e discreto) de um desbravador dos estudos folkcomunicacionais no Brasil
O paraibano Osvaldo Meira Trigueiro, jornalista (graduado pela Universidade Católica de Pernambuco, em 1975), mestre em Administração e Comunicação Rural (UFRPE, em 1987) e doutor em Ciências da Comunicação (pela Unisinos/RS, em 2004), e atualmente professor universitário aposentado – mas, “ainda na ativa”, como gosta de lembrar –, pode ser considerado um dos intelectuais que, a partir dos trilhos conceituais forjados pelo pernambucano Luiz Beltrão, e continuidade ampliada por José Marques de Mello e Roberto Benjamin, garante projeção dos estudos folkcomunicacionais, em nível nacional ou internacional.
Trigueiro, ao longo de mais de 30 anos de trabalho profissional, pesquisa temas que envolvem mídia, folclore, televisão, cultura e folkcomunicação. Autor de vários artigos, ensaios e trabalhos inéditos produzidos para eventos na área, o professor Osvaldo publicou seu primeiro livro em 1976, numa parceria com Roberto Benjamin, sobre a Festa do Rosário de Pombal, da Paraíba (pela Editora UFPb). Um ano depois, Trigueiro lança outro livro em co-autoria com Roberto Benjamin e Dalvanira Gadelha (Cambindas da Paraíba), pela Editora Funarte, do Rio de Janeiro. Em 1986, Osvaldo organiza uma coletânea de Contos Populares Paraibanos, em parceria com Altimar Pimentel, publicado pela Editora Massangana, de Recife (1996). E, mais recentemente, em 2008, Trigueiro publica dois livros sobre questões folkcomunicacionais: Folkcomunicação & Ativismo Midiático e uma coletânea em parceria com José Marques de Mello sobre a obra de Luiz Beltrão (Pioneiro das ciências da Comunicação no Brasil), ambos pela Editora Universitária UFPB, de João Pessoa.
Nos diversos lugares por onde passou, seja por motivos profissionais, turismo ou pesquisa voluntária, Trigueiro sempre se deixou levar pelo fascínio da curiosa e instigante investigação por comportamentos e hábitos da cultura popular... seja pela sabedoria expressa nas mãos ágeis da arte das rendeiras, pelas rendeiras da Lagoa da Conceição em Florianópolis (SC), pelas inúmeras manifestações das congadas afros do Rio Grande às Geraes, pelas diversificadas formas de ex-votos, além de incontáveis outras expressões que marcam a complexa e rica cultura popular dos grupos sociais que buscam preservar seus modos de ser, pensar e viver. Tamanha perspicácia para identificar as manifestações populares não poderia ser desperdiçada para a comunicação. E daí a contribuição do autor aos estudos e pesquisas folkcomunicacionais.
Revista Folkcom: Para começar a conversa, poderias indicar alguns elementos de tua trajetória - como pesquisador, formação e atuação profissional - que estão relacionados com a Folkcomunicação?
Osvaldo Trigueiro: Com graduação em Jornalismo, sou mestre em Comunicação Rural pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade do Vale dos Sinos (Unisinos) do Rio Grande do Sul. Minha atuação profissional na universidade sempre foi ligada aos estudos do folclore, da cultura popular e da mídia, especialmente da televisão. Ou seja, minha área de pesquisas nesses últimos 20 anos tem sido cultura popular/mídia e com base na teoria da folkcomunicação. Tenho vários trabalhos publicados sobre cultura/mídia/folkcomunicação. Atualmente sou presidente da Comissão Paraibana de Folclore, Vice-Presidente da Rede Folkcom e membro de Grupo de Estudo da Folkcomunicação da Intercom (Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação).
RF: Você conhece o fundador da Folkcomunicação, jornalista e pesquisador Luiz Beltrão. Em que circunstâncias teve contato direto com ele e o que mais o chamava atenção na época?
OT: Conheci Luiz Beltrão pessoalmente em 1976 quando fiz um convite para ele participar do I Encontro de Folclore da Paraíba, que coordenei e foi realizado na cidade de Pombal/PB no mesmo período da tradicional Festa do Rosário. Luiz Beltrão foi um dos palestrantes e o foco central da sua fala foi justamente a folkcomunicação. Foi um momento importante para todos os pesquisadores do folclore, da cultura popular naquele momento. Veja bem, era 1976 e a polêmica nas universidades era a alienação das culturas populares pela indústria cultural e o professor Beltrão mostrava outros caminhos de observações, dizia que entre os conteúdos dos MCM e as culturas locais existiam diferentes intermediações. Essa foi a grande novidade teórica levantada por Beltrão, lá em Pombal no sertão da Paraíba. Isso mudou, e muito, meu pensamento sobre o tal domínio da indústria cultural e alienação do povo.
RF: Você é um dos seguidores do trabalhado iniciado por Luiz Beltrão. Como se deu o seu interesse pelos estudos de comunicação e cultura popular, na perspectiva da Folkcomunicação?
OT: Foi quando entrei no curso de Jornalismo na Universidade Católica (UCPE, em Recife) em 1971 e conheci o professor Roberto Benjamin. Mas, não posso deixar de lembrar a importância de Roberto Benjamin e de José Marques de Melo na minha formação profissional, principalmente no incentivo e, porque não dizer, no apoio para que pudesse caminhar nesta linha de estudo e pesquisa até hoje. Olha, não foi fácil porque de certa forma o nosso caminho ia de encontro à teoria reinante nos cursos de comunicação (...).
RF: Professor, destaque os principais trabalhos de sua autoria neste campo de pesquisa.
OT: Dos vários trabalhos gostaria de destacar os dois últimos, o livro publicado pela editora da UFPB (Folkcomunicação e ativismo midiático) e o outro, também, publicado pela mesma editora, organizado por mim e José Marques de Melo, sobre a importância de Luiz Beltrão para os estudos das ciências da comunicação no Brasil. O primeiro apresenta parte da minha tese de doutorado e o segundo reúne vários artigos de pesquisadores brasileiros.
RF: Em sua pesquisa de doutorado, você discute as relações entre o rural e o urbano nos processos comunicacionais em uma pequena cidade da Paraíba. Quais foram suas descobertas neste trabalho de campo? Ainda é possível falar de um universo rural no contexto da sociedade globalizada contemporânea?
OT: Foram várias descobertas. Mas, o foco central da pesquisa para formulação da tese foi uma tentativa de atualizar a teoria da Folkcomunicação. Ou seja, demonstrar que os lideres de opiniões locais já não são os responsáveis pelas novidades do local, por que as cidades, as comunidades brasileiras, mesmo as mais distantes, estão ligadas ao mundo globalizado pela mídia. O “líder de opinião” é um sujeito preocupado com atualidade e ao mesmo tempo com o tradicional, tem um pé no global e outro no local. É um operador das culturas hibridas nas cidades rurbanas do nordeste brasileiro.
RF: Em que se baseia a noção de ‘ativismo midiático’ apresentada no livro
Folkcomunicação e Ativismo midiático?
OT: Quando falo de atavismo midiático, refiro-me aos que atuam nas redes cotidianas do local, nas redes folkcomunicacionais, que têm suas singularidades, com as especificidades marcantes das cidades rurbanas do nordeste brasileiro. É desse sujeito atuante entre a cultura local e a cultura global que o livro aborda. Ao contrário do que se pensa com a globalização, o que se vê são novas significações culturais, alternativas de conversações e de comunicação e nesses novos processos de atualização os ativistas midiáticos da Folkcomunicação têm papel importante.
RF: Como avalia o atual estágio das pesquisas em Folkcomunicação? Pode-se dizer que este campo está consolidado como referencial teórico e metodológico de análise?
OT: creio que sim. Registramos avanços importantes no grupo de estudo na Intercom, nas conferências anuais realizadas pela Rede Folkcom e em alguns cursos de graduação e de pós-graduação. No campo teórico e metodológico também estamos existem avanços, que se pode constatar nos anais dos congressos da Intercom e da Rede Folkcom. Gostaria também de citar a importância da Revista Internaciona,l coordenada pelo professor Gadini, que divulga com muito critério os trabalhos publicados sobre a teoria e métodos de estudo da Folkcomunicação.
RF: A Folkcomunicação é a única teoria da comunicação genuinamente brasileira, mas parece não ter muita adesão de pesquisadores e nem sempre costuma ser lembrada nos currículos dos cursos de comunicação. A que você atribui este ‘esquecimento’?
OT: Bem lembrado! A teoria da Folkcomunicação, por ser genuinamente brasileira e ter surgido no final dos anos 1960 e inicio dos anos 70, não comungava com a tese da dependência cultural, do poder de alienação da indústria cultural. Ou seja, Luiz Beltrão não aceitava a teoria da Escola de Frankfurt da maneira com era interpretada nas universidades e, por isso, passou a ser considerada como funcionalista. Não se pode negar a influência do funcionalismo em Luiz Beltrão, pois é preciso também aceitar sua aproximação com os estudos culturais das etnografias das audiências e. por que não dizer, com os estudos das mediações desenvolvidos por Barbero, Serrano, Canclini e tantos outros.
RF: Como militante e pesquisador da área, o que consideras fundamental para fortalecer as pesquisas em Folkcomunicação?
OT: A Folkcomunicação vem se consolidando a cada dia e devemos incentivar o trabalho de campo. Não se pode entender o que acontece na recepção dos meios de comunicação sem ir a fundo aos processos de comunicação das redes de conversações cotidianas do local e cada localidade tem suas particulares. Creio que um dos erros de interpretação dos seguidores da Escola de Frankfurt, nos anos 1970 e 80, foi a falta de observação no território da audiência, ir lá onde o povo estava. E nós, pesquisadores da folkcomunicação, que já fazemos, estamos mais próximos do acontecimento midiático e dos acontecimentos folkmidiáticos.
RF: Outros aspectos que consideres oportuno destacar, lembrar ou questionar... em torno da Folkcomunicação!
OT: O ideal é que mais publicações (como a Revista Folkcom) abram espaços para a divulgação da folkcomunicação. É importante que os professores que têm interesse neste campo incentivem os estudantes da graduação e da pós-graduação a produzir trabalhos e reflexões na área. É bom lembrar que a Folkcomunicação não tem a preocupação de estudar o folclore ou a cultura popular isolada do contexto da sociedade midiatizada. É por esse caminho que se deve destacar o estudo da Folkcomunicação.



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