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Entre Caramurus e Peroás, documentário recupera disputa que dividiu Vitória em verde e azul

Produzido por Lorena Barcellos Zanon como trabalho de conclusão em Jornalismo, vídeo recorre à Folkcomunicação para recontar a rivalidade entre duas irmandades devotas de São Benedito



Uma tempestade, uma procissão cancelada e o roubo da imagem de um santo estão na origem de uma rivalidade que atravessou a vida religiosa, política e cultural de Vitória durante o século XIX. Essa história é recuperada pelo documentário Caramurus e Peroás na Identidade Capixaba, produzido pela jornalista Lorena Barcellos Zanon como trabalho de conclusão do curso de Jornalismo da Faculdade Estácio de Sá de Vitória, em 2012.

Disponibilizado no YouTube em 2016, o vídeo apresenta as irmandades religiosas, a devoção a São Benedito e as antigas procissões pelas ruas da capital do Espírito Santo. A produção investiga ainda como a oralidade, as manifestações folclóricas e, posteriormente, os meios de comunicação contribuíram para preservar o episódio na memória capixaba.


O documentário parte da compreensão das irmandades como associações formadas por pessoas leigas, reunidas em torno da devoção a um santo. Além da dimensão religiosa, essas organizações prestavam assistência aos seus integrantes, promoviam ajuda mútua e ofereciam espaços de convivência, proteção e participação social.


Em Vitória, a devoção a São Benedito ganhou força com a presença franciscana e teve especial importância entre a população negra, escravizada ou liberta. As festas, procissões, músicas e confrarias permitiam não apenas o exercício da fé, mas também a construção de vínculos comunitários e a expressão pública de grupos submetidos às desigualdades da sociedade escravista.

A procissão impedida pela chuva

O conflito que originou os Caramurus e os Peroás começou em 27 de dezembro de 1832. Naquele dia, uma forte chuva atingiu Vitória no momento em que deveria sair do Convento de São Francisco a procissão de São Benedito.


Temendo danos à imagem, o guardião do convento, frei Manoel de Santa Úrsula, não permitiu que ela fosse levada às ruas. Os devotos insistiram, pois acreditavam que a própria saída do santo faria a chuva cessar. Diante da recusa, integrantes da irmandade tentaram realizar a procissão sem a autorização do religioso.


O frei reagiu retirando do convento os objetos pertencentes à irmandade e mantendo a imagem de São Benedito recolhida. Parte dos devotos passou então a se reunir na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos.


No ano seguinte, após a substituição do guardião, a imagem voltou ao altar do convento. Em setembro de 1833, porém, três integrantes do grupo dissidente entraram no templo, retiraram a escultura e a transportaram para a Igreja do Rosário. Segundo os registros recuperados pela pesquisa, os sinos foram tocados quando a imagem chegou ao novo destino.


A imagem permanece na Igreja do Rosário, hoje reconhecida como patrimônio histórico nacional. O espaço abriga também o Museu São Benedito do Rosário, que conserva vestimentas, peças sacras e um antigo andor utilizado nas procissões. A sequência histórica foi confirmada por documentos preservados no Arquivo Público Municipal e retomada pela Prefeitura de Vitória.


Uma cidade dividida por cores e peixes

A disputa pela imagem deu origem a duas irmandades devotas do mesmo santo. Os Caramurus permaneceram ligados ao Convento de São Francisco e adotaram o verde como cor de identificação. Os Peroás, reunidos na Igreja do Rosário, passaram a ser reconhecidos pelo azul.


Os apelidos tinham intenção provocativa. “Caramuru” era utilizado no período imperial para identificar grupos conservadores ou restauradores e acabou associado também a um peixe esverdeado, semelhante a uma enguia. Em resposta, os integrantes do outro grupo foram chamados de “Peroás”, nome de um peixe azulado considerado de baixo valor comercial naquele período.


A rivalidade ultrapassou as celebrações religiosas. As cores apareciam em roupas, bandeiras, bandas musicais e competições esportivas. O verde identificava predominantemente os integrantes mais ricos e brancos vinculados ao convento, enquanto o azul estava associado aos devotos da Igreja do Rosário, em grande parte negros, escravizados ou libertos.


Também havia aproximações políticas: os Caramurus eram relacionados aos conservadores, enquanto os Peroás se aproximavam dos liberais. Essa correspondência, entretanto, não era absoluta. A força da divisão estava sobretudo na maneira como cada irmandade ocupava a cidade e demonstrava publicamente sua identidade.


As provocações frequentemente se transformavam em confrontos. Há registros de procissões rivais que se encontravam pelas ruas e terminavam em agressões. Durante algum tempo, as irmandades chegaram a dividir o calendário: em uma parte do ano, os símbolos das festas ficavam sob responsabilidade dos Caramurus; na outra, passavam aos Peroás.


Em 1905, diante das sucessivas brigas, do consumo de bebidas e das disputas políticas associadas às celebrações, o bispo Dom Fernando de Souza Monteiro proibiu as duas procissões de São Benedito. As atividades da irmandade ligada ao convento foram encerradas, mas os devotos da Igreja do Rosário retomaram posteriormente sua celebração.


A memória da divisão permanece inscrita na paisagem de Vitória. A Rua Caramuru e o Viaduto Caramuru, construído em 1925, receberam seus nomes em referência aos integrantes da antiga irmandade do Convento de São Francisco.


A procissão como comunicação pública

Ao recuperar o episódio, o documentário mostra que as procissões não eram apenas cerimônias religiosas. Elas funcionavam como formas públicas de comunicação, pelas quais os devotos demonstravam sua fé, ocupavam as ruas e afirmavam seu pertencimento a uma comunidade.


“A procissão, para mim, é uma forma de manifestar publicamente a devoção ao santo, de louvá-lo e agradecer aquilo que você pediu e ele intercedeu por você junto a Deus”, explica uma das entrevistadas.


Cores, vestimentas, bandeiras, músicas, imagens e trajetos comunicavam quem eram os participantes e a qual irmandade pertenciam. Em uma sociedade na qual grande parte da população negra tinha acesso restrito às instituições formais, as festas religiosas também se tornavam oportunidades de visibilidade e expressão coletiva.


É nesse ponto que a produção aproxima o episódio da teoria de Luiz Beltrão. A Folkcomunicação é compreendida como o processo pelo qual grupos populares fazem circular informações, crenças, opiniões e valores utilizando agentes e meios vinculados ao folclore.


Na história dos Caramurus e Peroás, a mensagem não dependia dos veículos de comunicação de massa. Circulava por meio das procissões, dos cantos, dos símbolos religiosos, das provocações entre os grupos e das narrativas transmitidas oralmente entre gerações. Os próprios devotos atuavam como agentes da comunicação popular.


A pesquisa também circulou no meio acadêmico. O trabalho “A influência dos Caramurus e Peroás na identidade capixaba” integrou o GT Historiografia da Mídia do 3º Encontro Regional Sudeste de História da Mídia, promovido pela Alcar nos dias 14 e 15 de abril de 2014, na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro.


Para conhecer com mais detalhes a fundamentação em Folkcomunicação, o contexto histórico das irmandades e os documentos consultados, está disponível o artigo “A influência dos Caramurus e Peroás na identidade capixaba”. Publicado em 2014 na revista Destarte, o texto é assinado por Lorena Barcellos Zanon, Roberto Teixeira e Lúcio Cesar Loyola e desenvolve academicamente a pesquisa que deu origem ao documentário.


Da oralidade ao audiovisual

O vídeo também reflete sobre a responsabilidade da mídia na salvaguarda do patrimônio cultural. Se a história permaneceu viva inicialmente pela transmissão oral, sua continuidade depende hoje também de pesquisas, arquivos, museus, reportagens e produções audiovisuais capazes de fazê-la chegar a novos públicos.


“É preciso que haja um resgate da nossa história, da nossa identidade. E eu acho que a mídia é uma grande parceira para a gente poder continuar construindo essa identidade”, afirma um dos entrevistados.


O próprio documentário participa desse processo. Ao registrar depoimentos, percorrer o trajeto da procissão e relacionar a narrativa popular aos estudos de Folkcomunicação, a produção transforma uma história pouco conhecida em memória audiovisual.


Quase dois séculos depois do início da rivalidade, Caramurus e Peroás continuam presentes nas ruas, nos museus, nas festas e nas narrativas de Vitória. O que começou como uma disputa pela guarda de uma imagem religiosa tornou-se uma das histórias mais singulares da capital capixaba — e um exemplo de como devoção, conflito e comunicação popular ajudam uma comunidade a narrar o próprio passado.

 
 
 

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