Entre o cartão-postal e a lama: quem aparece na identidade do caranguejo?
No encerramento da I Jornada Cuscuz Folkcom, Flávio Santana mostrou como mídia, turismo e mercado transformaram o crustáceo em símbolo de Aracaju, enquanto catadores e marisqueiras permanecem à margem da imagem que ajudam a sustentar.
Na Orla da Atalaia, em Aracaju, o caranguejo aparece gigante, alaranjado e pronto para a fotografia dos turistas. Está nas esculturas, nos cardápios, nas peças publicitárias, nas lembranças de viagem e no nome de um dos principais corredores gastronômicos da capital sergipana.
No Povoado Coqueiro, em São Cristóvão, na Região Metropolitana de Aracaju, o mesmo caranguejo tem outra aparência. Antes de chegar aos restaurantes, ele é retirado do mangue por trabalhadores que enfrentam lama, horários determinados pela maré, dificuldades de transporte, problemas de saúde e preços pouco justos.
Entre o caranguejo convertido em cartão-postal e aquele que garante a sobrevivência das comunidades ribeirinhas existe uma disputa por visibilidade, reconhecimento e participação social.
Esse contraste conduziu o quinto e último encontro da I Jornada Cuscuz Folkcom, realizado em 24 de maio de 2021. Promovida pelo Grupo de Pesquisa em Jornalismo e Diversidade Cultural da Universidade Federal da Paraíba (Grujordi/UFPB), a jornada encerrou sua primeira edição com a conferência “Folkcomunicação, Mídia e Identidade Cultural”, apresentada pelo pesquisador Flávio Santana.
Identidade também é resistência
Ao introduzir o debate, o professor Severino Lucena lembrou que as identidades não devem ser compreendidas no singular. Elas são múltiplas, atravessadas pela geografia, pela história, pelas relações sociais e pelo cotidiano.
O sentimento de pertencimento pode aparecer na música, na gastronomia, nas roupas, nos símbolos religiosos, nas festas e nas formas de falar. Também pode ser acionado pela mídia, pelo turismo e pelo mercado para produzir reconhecimento — e estimular o consumo.
Como exemplo, Lucena recordou a presença de elementos nordestinos na trajetória de Juliette Freire durante o Big Brother Brasil 21. O cacto, o chapéu de couro e as músicas de Chico César ajudaram a construir uma identificação imediata com a Paraíba e com o Nordeste.
“Identidade é uma forma de resistir”, resumiu o professor.
A afirmação abriu caminho para a principal questão apresentada por Flávio Santana: quem escolhe os elementos que passam a representar uma cidade, uma região ou um povo?
Quem escolheu o caranguejo?
A investigação apresentada por Santana teve origem em sua dissertação de mestrado, dedicada à construção do caranguejo como elemento da identidade cultural de Aracaju.
Durante o desenvolvimento da pesquisa, uma pergunta feita pelo professor José Marques de Melo alterou o rumo do trabalho: quem havia definido o caranguejo como símbolo da capital sergipana?
A resposta não poderia ser encontrada apenas no manguezal. Era preciso observar as representações construídas pela imprensa, pela publicidade, pelos governos, pelo setor turístico e pelos estabelecimentos comerciais.
Aracaju possui uma relação histórica com os mangues e com o consumo do crustáceo. Ao longo do tempo, entretanto, essa relação foi reorganizada. O animal deixou de ser representado somente como parte do ecossistema e fonte de subsistência para se transformar em produto turístico.
Na Passarela do Caranguejo, localizada na Orla da Atalaia, a escultura de um enorme crustáceo recebe visitantes e se tornou uma das imagens mais conhecidas da cidade. O caranguejo também aparece em chaveiros, bolsas, canecas, campanhas promocionais e pratos vendidos nos restaurantes.
Quase sempre, observou Santana, ele é mostrado com a coloração alaranjada adquirida depois do cozimento. É o caranguejo pronto para o consumo — afastado visualmente da lama, do mangue e do trabalho necessário para levá-lo à mesa.
Duas identidades para o mesmo animal
A pesquisa identificou duas identidades construídas em torno do mesmo caranguejo.
A primeira é disseminada pela mídia e pelo turismo. Está associada à gastronomia, ao lazer, ao consumo e ao hábito de “quebrar caranguejo” nos bares da cidade.
A segunda nasce da relação de subsistência entre o manguezal e as comunidades ribeirinhas. Nela, o caranguejo significa trabalho, conhecimento transmitido entre gerações, dependência das marés, sobrevivência familiar e pertencimento ao território.
Essas duas identidades não recebem a mesma visibilidade.
No Povoado Coqueiro, Santana encontrou uma comunidade que ajuda a abastecer mercados, feiras, bares e restaurantes da capital, mas enfrenta limitações de transporte, atendimento médico, saneamento e acesso a diferentes serviços públicos.
A destruição e a poluição de áreas de mangue em Aracaju também fizeram com que parte do abastecimento da cidade passasse a depender de comunidades de municípios vizinhos. O produto circula, chega aos espaços turísticos e movimenta a economia, enquanto os trabalhadores permanecem afastados dos lugares nos quais o caranguejo é celebrado.
Uma fala dos moradores sintetizou essa distância. Ao comparar o caranguejo da orla com aquele presente em sua vida cotidiana, integrantes da comunidade disseram ao pesquisador: “O nosso está aqui, no mangue”.
Do preço na comunidade ao prato turístico
A desigualdade também podia ser percebida nos preços apresentados durante a conferência.
De acordo com os valores encontrados no trabalho de campo realizado em 2019, uma corda com seis caranguejos chegava a ser vendida pelos catadores por apenas R$ 3. Depois de passar por intermediários, o mesmo produto era comercializado por valores muito superiores nos mercados e restaurantes.
Enquanto o crustáceo se valorizava ao se aproximar da orla, o trabalho de quem o retirava do mangue continuava desvalorizado.
A situação se tornava ainda mais contraditória durante o Festival do Caranguejo. Santana analisou a cobertura jornalística de duas edições do evento e constatou que as reportagens destacavam a gastronomia, os restaurantes, os atrativos turísticos e até a importância ambiental dos manguezais.
Apesar disso, as matérias não apresentavam catadores ou marisqueiras como fontes. Os integrantes da comunidade também não participavam diretamente do festival, organizado principalmente em benefício dos estabelecimentos da orla.
O caranguejo estava no centro da festa. Quem trabalhava para que ele chegasse até lá permanecia fora da fotografia.
A mídia não apenas mostra: ela escolhe
A discussão demonstrou que a mídia participa ativamente da consolidação das identidades culturais. Ao repetir determinadas imagens, selecionar fontes e destacar alguns aspectos de uma manifestação, os meios de comunicação ajudam a definir aquilo que será lembrado — e também aquilo que ficará escondido.
A folkcomunicação permite questionar esse processo ao direcionar o olhar para os grupos historicamente marginalizados e para as suas próprias formas de comunicação, organização e resistência.
Com base nas contribuições de Luiz Beltrão e Roberto Benjamin, Santana explicou que a relação entre cultura popular e comunicação midiática não acontece em uma única direção. A mídia se apropria dos símbolos populares, mas as comunidades também incorporam tecnologias, linguagens e elementos da cultura de massa.
Trata-se de uma negociação constante. A cultura popular não é imóvel nem está presa a um passado intocável. Ela se transforma, produz misturas e dialoga com a modernidade. O problema surge quando essa negociação ocorre de maneira desigual e os grupos responsáveis pelas práticas culturais não conseguem participar das decisões ou dos benefícios gerados por elas.
A globalização, portanto, não provoca apenas homogeneização. Como discutiu Santana a partir de autores como Stuart Hall e Néstor García Canclini, ela também pode fortalecer a necessidade de reafirmação das identidades locais. Quanto mais os símbolos circulam globalmente, maior pode ser o desejo de declarar um lugar de pertencimento.
A pergunta decisiva é saber quem possui poder para construir e divulgar essas representações.
Quando a comunidade começa a falar
A aproximação com os moradores do Povoado Coqueiro foi um dos desafios da pesquisa. Nos primeiros contatos, alguns trabalhadores imaginaram que Santana fosse um fiscal. O receio estava relacionado às regras da pesca, ao pagamento do auxílio durante o período de defeso e à possibilidade de punições.
O pesquisador precisou adaptar sua linguagem, construir confiança e reconhecer que o conhecimento acadêmico não estava acima dos saberes da comunidade. Jovens do povoado ajudaram a mediar as conversas com pais e familiares, explicando os objetivos das entrevistas.
Inicialmente, Santana pretendia ouvir um número reduzido de moradores. Ao final, realizou 11 entrevistas. À medida que o diálogo avançava, outras pessoas passaram a procurá-lo: “Eu quero falar também”.
Mais do que fornecer dados para uma dissertação, elas desejavam contar suas histórias, denunciar o abandono do poder público e participar de uma narrativa da qual quase sempre apareciam apenas como figurantes.
Comunicação precisa produzir participação
Durante o debate, foram apontados caminhos para enfrentar essa invisibilidade: fortalecimento das associações e cooperativas, compra direta da produção, preços mais justos, participação dos catadores nos festivais, melhoria do transporte, assistência à saúde e pagamento regular do auxílio no período de defeso.
A publicidade também pode contribuir, desde que não utilize a cultura popular somente como cenário. Humanizar a comunicação significa mostrar as pessoas, os conhecimentos e as relações de trabalho existentes por trás dos produtos anunciados.
Para o jornalismo, o recado é igualmente direto. Não basta falar sobre preservação do mangue, culinária regional ou turismo sem ouvir quem vive desses territórios. Transformar catadores e marisqueiras em fontes é reconhecer que eles possuem conhecimento, memória e capacidade de interpretar a própria realidade.
O objetivo não é retirar o caranguejo da identidade de Aracaju. É ampliar essa identidade para que ela também inclua aqueles que a constroem diariamente.
O encontro que amarrou toda a jornada
O quinto encontro reuniu questões discutidas ao longo de toda a I Jornada Cuscuz Folkcom.
O desenvolvimento local aparece na necessidade de fazer a riqueza gerada pelo caranguejo chegar às comunidades. O jornalismo se manifesta na escolha das pautas e das fontes. O folkmarketing está presente na apropriação comercial de um símbolo popular. Os afetos são acionados pela memória, pelo sabor e pelo sentimento de pertencimento associado ao crustáceo.
Todos esses processos se encontram na construção da identidade cultural.
A pesquisa apresentada em 2021 continuou produzindo desdobramentos. Em 2025, Flávio Santana lançou o livro Sobre Vivências com Caranguejos: entre as raízes dos manguezais e as pontes para Aracaju, aprofundando as experiências, os silenciamentos e as formas de resistência encontradas no Povoado Coqueiro.
Ao encerrar a jornada, a professora Suelly Maux defendeu que o conhecimento deve aproximar as pessoas da humanidade do outro e colocá-las em um patamar de dignidade e reconhecimento.
No caso do caranguejo, isso significa olhar além da escultura, do cardápio e da campanha turística.
Uma identidade que apenas decora a orla pode funcionar como marca. Uma identidade que reconhece quem entra no mangue pode se transformar em cidadania.





Comentários