Entre Brasil e Japão, uma conversa sobre os caminhos da folkcomunicação
Doutoranda em Estudos Folclóricos no Japão discutiu a trajetória da teoria brasileira, as disputas em torno da palavra “folk” e o compromisso social da pesquisa com as culturas populares

Em visita ao Brasil, a pesquisadora Dan Zhou reservou parte de sua agenda para compreender uma teoria ainda pouco conhecida fora do país. Em uma conversa de mais de duas horas e meia com Andriolli Costa, ela percorreu a história da folkcomunicação, suas relações com os estudos do folclore e os desafios enfrentados por quem pesquisa as formas populares de comunicação.
À época do encontro, Zhou cursava doutorado em Estudos Folclóricos na Kwansei Gakuin University, no Japão. Sua pesquisa já se voltava para a história do próprio campo: em 2025, ela publicou um artigo sobre a origem e o desenvolvimento do termo “folk-lore” na Inglaterra do século XIX.
Foi a leitura de um trabalho publicado na Revista Internacional de Folkcomunicação (RIF) que a levou até Andriolli Costa, então presidente da Rede Folkcom e professor de Jornalismo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). A entrevista, realizada em inglês, começou pela trajetória do pesquisador, mas logo se transformou em uma troca sobre o lugar ocupado pelo folclore no Brasil e no Japão.
Do Saci à folkcomunicação
Andriolli contou que sua aproximação com o folclore começou ainda na graduação em Jornalismo. Em 2008, durante a iniciação científica, dedicou-se ao estudo do Saci, personagem que continuaria a acompanhá-lo em diferentes momentos de sua vida acadêmica.
No mestrado, o pesquisador investigou as relações entre jornalismo e lenda a partir das histórias de tesouros enterrados no Paraguai. Segundo essas narrativas, riquezas escondidas durante a Guerra do Paraguai poderiam ser reveladas, por sonhos ou aparições, a pessoas consideradas merecedoras pelos mortos.
A crença, explicou, não permanecia apenas no domínio da narrativa. Notícias de pessoas feridas, mortas ou desaparecidas durante a procura pelos tesouros mostravam como o imaginário interferia diretamente na vida cotidiana.
“Se as pessoas morrem por causa de uma crença, não podemos subestimá-la. A vida delas é orientada pelo desejo de encontrar esse tesouro”, afirmou. Para Costa, a promessa de riqueza também precisava ser compreendida diante da história de um país devastado pela guerra e das dificuldades econômicas enfrentadas por parte de sua população.
No doutorado, ele deslocou a investigação para a epistemologia do jornalismo, mas manteve os mitos no centro do trabalho. Ao percorrer cerca de cem anos de teorias jornalísticas, procurou identificar imagens míticas presentes nas formas pelas quais o campo definia verdade, conhecimento e realidade.
“Hoje estou reunindo tudo novamente. Penso o folclore como narrativa, penso o jornalismo como narrativa e procuro entender como um influencia o outro: como o folclore pode ser o jornalismo do povo e como também inspira o próprio jornalismo”, resumiu.
Uma teoria voltada para o presente
Um dos momentos centrais da conversa surgiu quando Dan Zhou perguntou se o folclore teria poder para produzir mudanças. A resposta foi direta.
“Se não trabalhamos pela mudança e pela transformação social, não estamos fazendo o nosso trabalho”, afirmou Costa.
Para explicar essa posição, o pesquisador retomou as contribuições de Edison Carneiro, que compreendia as manifestações populares como espaços de expressão e participação social. Essa perspectiva seria importante para o desenvolvimento da folkcomunicação por Luiz Beltrão.
Na leitura apresentada por Costa, o folclore não deve ser tratado como um conjunto de sobrevivências imóveis do passado. Ele permite que grupos populares comentem o presente, manifestem insatisfações e comuniquem necessidades mesmo quando não dispõem de jornais, editoras, emissoras ou outros meios controlados pelos grupos dominantes.
Um boneco de Judas confeccionado com o rosto de uma autoridade, por exemplo, pode expressar publicamente a revolta de uma comunidade. Um cordel pode informar sobre um crime, uma injustiça ou um acontecimento local. Um desfile de escola de samba pode contar histórias que não chegaram aos livros didáticos.
Costa também recuperou o exemplo dos ex-votos, estudados por Beltrão em sua primeira pesquisa sobre folkcomunicação. Reunidos nas paredes de uma igreja, esses objetos não falam apenas sobre milagres individuais. Uma grande quantidade de representações de pessoas picadas por serpentes pode revelar problemas ambientais e dificuldades de acesso à saúde. Diplomas oferecidos em agradecimento podem indicar o quanto o ingresso no ensino superior ainda é percebido como uma conquista excepcional naquela comunidade.
“É como ler uma notícia ou uma coluna de opinião. Você consegue entender aspectos do presente daquela população”, explicou.
A conversa ganhou uma dimensão comparativa quando Zhou apresentou o trabalho de uma colega sobre salões de beleza no Japão. Segundo ela, esses espaços permitem que mulheres estabeleçam relações de confiança e compartilhem assuntos que dificilmente seriam mencionados em outros ambientes.
Costa reconheceu no exemplo a possibilidade de um processo folkcomunicacional: um espaço cotidiano, baseado em vínculos pessoais, no qual informações, experiências e conhecimentos circulam fora dos meios institucionalizados. Quando Zhou observou que o Japão não possui um campo equivalente à folkcomunicação, ele respondeu em tom bem-humorado: “Então me convide para o Japão”.
A disputa em torno da palavra “folk”
A permanência da palavra “folk” foi outro ponto importante da entrevista. Zhou queria saber por que pesquisadores brasileiros continuavam utilizando termos como folclore e folkcomunicação, enquanto parte da produção internacional preferia expressões como “vernacular”.
Para Costa, substituir o vocabulário não resolve o problema se a hierarquia entre os conhecimentos permanecer a mesma.
“Podemos trocar folclore por vernacular, tradição, cultura popular ou qualquer outra palavra. Mas, se não mudarmos a maneira de pensar e continuarmos tratando a cultura dos pobres como algo menor, o problema continuará. Mudaremos o nome, mas o preconceito permanecerá”, afirmou.
Ele relatou casos de pesquisadores orientados a retirar “folkcomunicação” de títulos, resumos e palavras-chave para aumentar as chances de aceitação de seus trabalhos. Em algumas instituições, objetos reconhecidamente folkcomunicacionais aparecem sob denominações como patrimônio, tradição ou cultura popular, ainda que os autores utilizem conceitos próximos daqueles formulados por Beltrão.
“Se a universidade considera que os pobres não têm lugar dentro dela, quem estuda suas formas de comunicação também terá dificuldade para ocupar esse espaço”, avaliou.
A discussão também passou pelas Cartas do Folclore Brasileiro. O primeiro documento foi aprovado em 1951, enquanto sua releitura ocorreu em 1995, diante das transformações sociais e dos avanços das Ciências Humanas. A versão de 1995 reconhece o folclore como cultura viva e recomenda pesquisas participativas, realizadas com o envolvimento das comunidades e capazes de produzir benefícios para os grupos estudados.
Para Costa, essa orientação continua atual. O pesquisador não deve chegar a uma comunidade apenas para recolher histórias, imagens e depoimentos. É preciso construir vínculos, retornar ao território e compartilhar os resultados.
“Quando você volta, as pessoas percebem que não serão esquecidas. A relação muda. Elas passam a contar coisas que não diriam a alguém que aparecesse apenas uma vez”, observou.
Folclore não é apenas sobre o passado
Ao longo da entrevista, Zhou e Costa também discutiram financiamento, formação de novos pesquisadores, ensino do folclore nas escolas e o papel da Revista Internacional de Folkcomunicação na circulação do conhecimento.
Costa defendeu que pesquisadores da área ocupem também os meios de comunicação e produzam divulgação científica. Sem esse trabalho, argumentou, o folclore continuará sendo reduzido a mitos, lendas ou festas de agosto, enquanto a folkcomunicação permanecerá restrita a pequenos círculos acadêmicos.
A RIF aparece nesse cenário como uma das portas de entrada para o campo. Foi por meio da revista que Dan Zhou encontrou a produção brasileira e iniciou o contato que resultou na entrevista. Ao saber que o periódico aceita trabalhos de pesquisadores em diferentes etapas da carreira, ela demonstrou interesse em participar desse circuito de intercâmbio.
Perto do fim da conversa, uma lembrança pessoal ajudou Costa a sintetizar sua compreensão do tema. Quando pergunta às pessoas em que momento o folclore entrou em suas vidas, ele próprio responde que esse encontro aconteceu antes mesmo de seu nascimento.
Durante a gravidez de sua mãe, familiares recorriam a simpatias para tentar descobrir o sexo do bebê. Depois do nascimento, outras histórias, crenças e costumes continuaram a acompanhá-lo.
“O folclore está conosco antes do nascimento e continuará depois da morte, quando outras pessoas ainda contarem nossas histórias”, disse. “Ele não é apenas sobre mim ou sobre você. O folclore é sobre nós.”
As declarações foram traduzidas do inglês e editadas para maior clareza e concisão.




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