Entre a máquina de escrever e a macarronada: Luiz Beltrão, pai e pesquisador
Depoimento de Silvia Teresa Beltrão revela o cotidiano familiar do criador da Folkcomunicação, marcado pelos estudos, pela parceria com Zita e pelos almoços de domingo

A imagem mais conhecida de Luiz Beltrão é a do jornalista, professor e pesquisador que criou a teoria da Folkcomunicação. Para sua filha Silvia Teresa Beltrão, porém, a lembrança do pai permanece associada a um som: o ruído das teclas da máquina de escrever sobre a escrivaninha.
“Luiz Beltrão, meu pai”, depoimento publicado em 2018 na Revista Internacional de Folkcomunicação (RIF), abre uma passagem entre a trajetória intelectual do pesquisador e a intimidade de sua família. Recuperado pela Rede Folkcom em uma homenagem pelo Dia dos Pais, o texto apresenta o homem que estudava durante horas, recebia jornalistas e escritores em casa, dependia da esposa para resolver as tarefas práticas e reunia filhos e netos em torno de uma macarronada.
O relato integrou a edição especial da RIF dedicada ao centenário de nascimento de Luiz Beltrão, celebrado em 2018. Ao olhar para o pesquisador a partir de dentro de casa, Silvia mostra que sua relação com a comunicação popular não se limitava aos livros. Beltrão era um observador atento das maneiras pelas quais as pessoas transmitiam conhecimentos, histórias, hábitos, crenças e mitos.
O pesquisador diante da máquina
Silvia recorda o fascínio do pai pelas diferentes formas de comunicação, especialmente aquelas produzidas pelas populações mais pobres. Beltrão prestava atenção aos modos cotidianos de compartilhar experiências e à presença da cultura popular na vida social.
Essa curiosidade daria origem à Folkcomunicação, teoria desenvolvida a partir da década de 1960 para compreender os agentes, os meios e os processos utilizados pelos grupos populares na circulação de informações e opiniões.
Em casa, o trabalho intelectual adquiria uma sonoridade própria. Quando pensa no pai, Silvia o enxerga inclinado sobre a máquina de escrever e chega a recordar o “taque, taque das teclas”. Conservado por ela, o equipamento tornou-se um objeto de memória familiar e também uma testemunha material da produção de Beltrão.
Era diante daquela máquina que o pesquisador escrevia livros, artigos, aulas, conferências e textos jornalísticos. O instrumento que mediava sua relação com o mundo público permanecia instalado no espaço doméstico, diante dos olhos dos filhos.
A casa também funcionava como lugar de encontro. Jornalistas, professores, escritores e amigos frequentavam o ambiente familiar para conversar com Beltrão. Segundo Silvia, ele era “culto sem ser pedante”: alguém capaz de despertar a atenção dos interlocutores sem transformar o conhecimento em distância.
Entre os visitantes estava José Marques de Melo, aluno, amigo e continuador da obra de Beltrão. A relação ultrapassou os limites da universidade. Marques de Melo conquistou a amizade de toda a família e continuou visitando o antigo professor mesmo depois de se mudar para São Paulo.
Zita, companheira de vida e de pesquisa
As lembranças de Silvia também mostram que não é possível contar a vida familiar de Luiz Beltrão sem falar de Maria José Antunes de Andrade Lima, conhecida como Zita.
Os dois se casaram em 18 de março de 1944 e permaneceram juntos até a morte de Beltrão, em 24 de outubro de 1986. Tiveram cinco filhos: Celma, Luiz Antonio, Silvia Teresa, Paulo Henrique e Fernando.
Silvia descreve o pai como profundamente apaixonado pela esposa e pouco habilidoso diante das necessidades práticas da casa. Quando alguém solicitava que ele consertasse um objeto ou trocasse uma lâmpada, Beltrão sorria e respondia: “vá falar com Zita”.
Era ela quem organizava grande parte do cotidiano que permitia ao marido permanecer concentrado nos estudos. Essa presença, entretanto, não deve ser confundida com uma atuação restrita ao ambiente doméstico.
Zita teve sua própria trajetória no campo da Comunicação. Jornalista formada pela Universidade Católica de Pernambuco, trabalhou como produtora e apresentadora na Rádio Olinda e dirigiu o Departamento de Notícias da Rádio Universidade Federal de Pernambuco. Também foi professora, pesquisadora e mestre em Comunicação pela Universidade de Brasília.
Publicado em 1970, seu livro Princípios e técnicas de radiojornalismo tornou-se uma das obras pioneiras dedicadas ao estudo acadêmico do rádio no Brasil. Zita acompanhava Beltrão em palestras e viagens, mas os dois também compartilhavam ofícios, projetos intelectuais e o interesse pela formação de novos comunicadores.
A memória familiar revela, assim, uma parceria afetiva e profissional. Beltrão encontrava em Zita o apoio necessário para sua rotina de pesquisa, enquanto ela construía uma produção própria sobre rádio, jornalismo e comunicação.
Domingo era dia de casa cheia
Fora da escrivaninha, uma das principais recordações de Silvia são os almoços de domingo. A casa se enchia com os cinco filhos, noras, genros, netos e amigos. Havia conversas, música e movimento ao redor da mesa.
No cardápio, aparecia a macarronada, prato preferido de Luiz Beltrão. A cena contrasta com a imagem solitária do pesquisador diante da máquina de escrever. O mesmo homem que passava horas dedicado aos livros participava de uma família numerosa, atravessada por afetos, amizades e conversas. A casa era simultaneamente espaço de trabalho, convivência e circulação de ideias.
Silvia reconhece que não conversou com o pai tanto quanto gostaria. Ainda assim, identifica nele um exemplo de honestidade, cordialidade, responsabilidade e afeto que permaneceu depois de sua morte. Quando convidada a resumir Luiz Beltrão em uma única qualidade, escolheu defini-lo como um “homem generoso”.
A generosidade aparece tanto na relação familiar quanto na disposição de compartilhar conhecimentos. Beltrão formou pesquisadores, manteve sua casa aberta aos amigos e dedicou parte significativa da vida a compreender formas de comunicação que a universidade e os meios de massa frequentemente ignoravam.
A vida que permanece nas entrelinhas
O depoimento de Silvia não procura substituir a biografia acadêmica de Luiz Beltrão. Ele acrescenta outra camada à história do pesquisador. Mostra que as teorias também são produzidas em meio a rotinas familiares, relações de cuidado, dependências, objetos cotidianos e lembranças afetivas.
A máquina de escrever, as visitas de José Marques de Melo, a parceria com Zita e a macarronada de domingo ajudam a retirar Beltrão do lugar abstrato de patrono da Folkcomunicação. Antes de se tornar nome de prêmios, eventos e grupos de pesquisa, ele foi o pai que sorria diante das próprias limitações práticas, reunia a família ao redor da mesa e passava horas escrevendo sobre as formas pelas quais as pessoas comunicavam suas experiências.
Ao preservar o som das teclas na memória, Silvia Teresa Beltrão também preserva uma dimensão da história da Folkcomunicação: aquela que nasceu não apenas nas universidades e nos livros, mas no encontro entre curiosidade intelectual, convivência e afeto.
O depoimento completo pode ser lido na edição especial da RIF dedicada ao centenário de Luiz Beltrão.





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