top of page

Em vídeo de 2008, rapper Enézimo apresenta o hip-hop como voz das periferias

26 de ago.
4 min de leitura

Produção de estudantes de Jornalismo da Metodista relaciona a teoria de Luiz Beltrão à cultura hip-hop e registra o rapper falando sobre expressão, aprendizagem e circulação cultural em Santo André.

Como o hip-hop permite que grupos historicamente marginalizados expressem suas experiências, sentimentos e opiniões? Essa é a questão que atravessa uma produção realizada em 2008 por Camila Leonelli, Carolina Ropero, Cynthia Tavares, Danielle Santos e Jessika Marchiori, então estudantes do segundo semestre de Jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo.


Publicado no YouTube em 27 de novembro daquele ano, o vídeo começa apresentando os fundamentos da folkcomunicação e dedica sua maior parte a uma entrevista com o rapper Enéas Enézimo, uma das referências da cultura hip-hop de Santo André.


A abertura recupera a contribuição de Luiz Beltrão, criador da teoria da folkcomunicação. A narração explica que suas pesquisas procuraram compreender como os públicos marginalizados urbanos e rurais produzem e colocam em circulação informações, ideias, opiniões e atitudes por meio de agentes e formas de expressão relacionados à cultura popular.


Após essa introdução, a teoria é aproximada de uma experiência concreta. Enézimo apresenta-se como morador de Santo André desde o nascimento, com 34 anos de idade e 19 anos de participação efetiva no hip-hop. Naquele momento, também estava à frente do selo independente Pau-de-dá-em-Doido.


O rapper explica o hip-hop como uma cultura surgida nas ruas a partir da reunião de manifestações que também eram marginalizadas. DJs, MCs, grafiteiros, b-boys, b-girls, poppers e lockers passaram a atuar conjuntamente e a construir uma linguagem compartilhada.


Mais do que um conjunto de expressões artísticas, o hip-hop é apresentado como possibilidade de fala para pessoas que muitas vezes não encontram espaço nos canais convencionais. Enézimo o define como “um grito, às vezes de lamento, um grito de felicidade”.


Ao relacionar essa cultura à história da população negra, o entrevistado compreende o hip-hop como continuidade de formas anteriores de resistência e expressão. Pessoas que vivem em ambientes marcados pela precariedade encontram no rap, na dança e no grafite maneiras de denunciar o que enfrentam, comunicar o que sentem e produzir artisticamente a partir da própria realidade.


O conhecimento que circula entre os artistas

Um dos pontos mais significativos da entrevista aparece quando Enézimo descreve como os conhecimentos são transmitidos dentro da cultura hip-hop. Ao falar do grafite, observa que o artista não precisa necessariamente frequentar uma faculdade ou realizar um curso formal. Ele pode aprender com alguém próximo, experimentar técnicas e desenvolver gradualmente uma linguagem própria.


O depoimento evidencia uma circulação horizontal de saberes: aprende-se pela convivência, pela observação e pela troca entre os participantes. Essa forma de transmissão aproxima ainda mais o hip-hop da folkcomunicação, interessada justamente nos agentes populares e nos meios pelos quais conhecimentos e experiências circulam dentro de uma comunidade.


Enézimo também destaca a dimensão alcançada pelo movimento no Brasil. Para ele, o hip-hop estava presente em praticamente todos os estados, cidades e bairros, manifestando-se por meio da música, da dança, do grafite e do trabalho dos DJs.


Santo André ocupava um lugar especial nesse cenário. O rapper aponta a cidade como polo de grafite, marcado pela criação de novas técnicas, e como espaço importante para o rap produzido no ABC Paulista. Também menciona a qualidade dos DJs da região e a presença de artistas brasileiros e estrangeiros no festival Indie Hip Hop.


O depoimento captou um momento particularmente movimentado da cena local. Poucas semanas depois da publicação do vídeo, o Sesc Santo André receberia, nos dias 13 e 14 de dezembro de 2008, a sétima edição do Indie Hip Hop, com participação do rapper norte-americano Talib Kweli. O festival buscava aproximar artistas internacionais da produção brasileira e ampliar o espaço destinado ao rap alternativo, como registrou uma reportagem publicada naquele período.


Quando a música completa o argumento

Nos minutos finais, o vídeo utiliza um trecho de A Vida é Desafio, dos Racionais MC’s. A música aborda sonhos interrompidos, desigualdade, sobrevivência, encarceramento, família e esperança.


A escolha funciona como uma demonstração prática daquilo que Enézimo havia explicado. O rap transforma experiências sociais em narrativa, compartilha maneiras de interpretar a realidade e dirige sua mensagem especialmente a quem reconhece aquelas vivências.

A própria estrutura do vídeo acompanha esse movimento. Primeiro, as estudantes apresentam a definição acadêmica da folkcomunicação. Depois, entregam a palavra a um agente da cultura hip-hop. Por fim, deixam que a música comunique diretamente as tensões sociais discutidas na entrevista.


O registro adquiriu ainda maior importância após a morte de Enézimo, em dezembro de 2020, aos 46 anos, em decorrência da Covid-19. Além da atuação musical, o rapper trabalhou como arte-educador, integrou o grupo Armagedon, desenvolveu atividades com jovens da Fundação Casa e criou o projeto Hip Hop de Mesa. Sua trajetória é lembrada pela Secretaria de Cultura de Santo André como parte do patrimônio cultural da cidade, conforme registra o Diário do Grande ABC.


Produzido como exercício acadêmico por estudantes ainda no início da graduação, o vídeo preserva uma reflexão que continua atual: o hip-hop não apenas retrata a periferia, mas cria meios para que seus próprios agentes narrem experiências, transmitam conhecimentos e disputem publicamente os sentidos de sua realidade.


Comentários


Rede Folkcom - 2026

bottom of page

Conteúdos originais da Rede Folkcom sob CC BY 4.0, salvo indicação em contrário. Materiais de terceiros mantêm suas próprias condições de uso.

Licença, créditos e condições de uso

A licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (CC BY 4.0) aplica-se aos textos institucionais, conteúdos editoriais e demais materiais originais produzidos pela Rede Folkcom, naquilo em que a Rede detém os direitos, salvo indicação específica em contrário.

Você pode compartilhar e adaptar esses conteúdos, inclusive para fins comerciais, desde que dê crédito à Rede Folkcom e aos autores identificados, inclua o link da publicação original e da licença e indique as alterações realizadas. A atribuição não deve sugerir endosso da Rede aos usos ou às conclusões de terceiros.

A licença não se estende automaticamente a artigos científicos, livros, capítulos, teses, dissertações, trabalhos de anais, fotografias, ilustrações, vídeos ou outros materiais de terceiros reproduzidos, incorporados ou vinculados neste site. Consulte os créditos e as condições de uso nas respectivas fontes. Marcas e logotipos não integram esta autorização.

Como atribuir: informe a autoria indicada, o título do conteúdo, Rede Folkcom, o endereço da publicação original e a licença CC BY 4.0. Acrescente a indicação das alterações, quando houver.

A base da Pesquisa Coletiva tem condições de reutilização próprias, também sob CC BY 4.0.