top of page

Do carro do ovo ao cordel: como a comunicação popular pode transformar territórios

10 de ago.
7 min de leitura

Na abertura da I Jornada Cuscuz Folkcom, Andréa Karinne mostrou que festas, rádios comunitárias, artesanato e outros meios populares podem fortalecer identidades, mobilizar comunidades e gerar desenvolvimento



Um carro de som percorre o bairro anunciando a venda de ovos. Uma bicicleta leva orientações sobre a Covid-19 a lugares onde a informação nem sempre chega. Um cordel transforma recomendações sanitárias em versos. Mulheres de uma associação contam suas histórias nas redes sociais para voltar a vender as cocadas produzidas na quenga do coco.


À primeira vista, são experiências muito diferentes. Para a pesquisadora Andréa Karinne Albuquerque dos Santos, porém, todas demonstram como a comunicação criada no cotidiano pode ajudar uma comunidade a enfrentar problemas, valorizar seus saberes e transformar o território onde vive.


Essa foi a ideia central do primeiro encontro da I Jornada Cuscuz Folkcom, realizado em 26 de abril de 2021 pelo Grupo de Pesquisa em Jornalismo e Diversidade Cultural (Grujordi), da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Com mediação da professora Gisele Gomes, a conferência discutiu as relações entre Folkcomunicação e desenvolvimento local.


O nome do evento já anunciava o espírito da proposta. Como lembrou a professora Suelly Maux na abertura, o cuscuz combina com ovo, queijo, manteiga, carne seca e muitos outros acompanhamentos. A Folkcomunicação também: dialoga com o jornalismo, a antropologia, a economia, a saúde, a cultura popular e as experiências concretas das comunidades.


Na palestra, Andréa Karinne acrescentou um ingrediente decisivo a essa combinação: o desenvolvimento local. Sua reflexão mostrou que comunicar não significa apenas divulgar o que acontece em um território. Em determinadas condições, a comunicação pode ajudar as pessoas a se reconhecerem como parte dele, criarem redes de confiança e se organizarem para agir.


Quando um objeto popular se torna notícia

Para explicar essa relação, a pesquisadora retomou a trajetória de Luiz Beltrão, criador da teoria da Folkcomunicação. Jornalista pernambucano e pioneiro da pesquisa em Comunicação no Brasil, Beltrão percebeu que os grupos afastados dos grandes meios não permaneciam em silêncio. Eles criavam seus próprios canais, linguagens e maneiras de registrar a realidade.


Foi assim que um objeto aparentemente restrito ao universo religioso se tornou fundamental para a história da teoria. Ao observar os ex-votos deixados em santuários, Beltrão entendeu que aquelas peças não eram apenas agradecimentos por graças alcançadas. Uma perna esculpida em madeira falava de uma doença e de uma cura. A miniatura de uma casa contava a realização de um sonho. Fotografias e bilhetes tornavam públicas dores, esperanças e conquistas que dificilmente apareciam nos jornais.


Os ex-votos, portanto, também informavam.


A mesma lógica pode ser encontrada no cordel, nas festas populares, nas rádios comunitárias, nos carros de som, nas performances e em muitas outras práticas. São meios construídos ou apropriados pelos grupos populares para narrar acontecimentos, compartilhar conhecimentos e traduzir informações para linguagens próximas de sua experiência.


A Folkcomunicação começa justamente quando se olha para esses fenômenos não como curiosidades, mas como processos comunicacionais.


Desenvolvimento não é apenas fazer a economia crescer

Depois de apresentar as bases da teoria, Andréa Karinne propôs uma distinção importante. Desenvolvimento econômico e desenvolvimento local não são sinônimos.

O primeiro pode ser medido pelo crescimento da produção, das vendas ou da circulação de dinheiro. O segundo exige perguntar quem participa desse crescimento e quem realmente se beneficia dele.


“O desenvolvimento local não busca somente o crescimento econômico. A gente quer enriquecer, mas quer enriquecer junto”, afirmou a professora durante o debate.

O desenvolvimento local nasce da identificação das vocações de um território. Essas vocações podem estar na agricultura, no artesanato, na gastronomia, nas festas, nas paisagens, nos conhecimentos tradicionais ou na produção artística. O desafio é transformá-las em oportunidades de trabalho e renda sem separar a economia da qualidade de vida, da participação social e da preservação ambiental.


Como exemplo, Andréa Karinne citou Cabaceiras, no interior da Paraíba. A caprinocultura, a Festa do Bode Rei e a utilização das paisagens locais por produções audiovisuais movimentam diferentes atividades e ajudam a construir a imagem pública do município. O desenvolvimento, entretanto, não pode depender apenas de um evento ou de uma temporada. É preciso diversificar a economia para que os benefícios permaneçam durante todo o ano.


Também não existe uma fórmula que possa ser simplesmente aplicada a qualquer lugar. Por ser endógeno, o desenvolvimento local precisa começar dentro da própria comunidade, com o conhecimento de sua história, de suas necessidades e de suas formas de organização.


Confiança também é um recurso

Para que esse processo aconteça, quatro dimensões precisam caminhar juntas. A primeira é o capital humano: os conhecimentos e habilidades das pessoas, acompanhados do acesso à educação, saúde, alimentação, saneamento, transporte e segurança.


A segunda é o capital empresarial, relacionado à capacidade de transformar saberes e vocações em trabalho e renda. Isso não significa reproduzir a lógica da competição a qualquer custo. Associações, cooperativas e empreendimentos solidários podem criar formas mais coletivas de produzir e comercializar.


A terceira dimensão é o capital natural. Nenhuma experiência pode ser considerada bem-sucedida se esgotar os recursos do território ou comprometer as condições de vida das gerações futuras.


A quarta é o capital social — talvez a mais diretamente ligada à comunicação. Ele é formado pelas relações de confiança, pertencimento, solidariedade e cooperação existentes entre as pessoas.


“A gente só se empodera quando está junto”, resumiu Andréa Karinne.


Quando os moradores confiam uns nos outros, torna-se mais fácil criar associações, compartilhar recursos, reivindicar políticas públicas e tomar decisões coletivas. A cultura participa desse processo porque oferece memórias, símbolos e experiências comuns por meio dos quais as pessoas se reconhecem como parte de um mesmo território.


A cooperação, nesse caso, não aparece como uma consequência do desenvolvimento. Ela é uma de suas condições.


A pandemia evidenciou quem já estava à margem

Realizada durante a crise da Covid-19, a conferência também discutiu como as desigualdades sociais ampliaram os impactos da doença. A recomendação de lavar as mãos, por exemplo, não tinha o mesmo significado para quem vivia sem acesso regular à água e ao saneamento. O isolamento era mais difícil para trabalhadores que dependiam da circulação diária para obter renda. Até as informações sobre prevenção encontravam barreiras econômicas, educacionais e tecnológicas.


Por isso, Andréa Karinne propôs compreender a crise não apenas como pandemia, mas como sindemia: uma situação na qual a doença interage com problemas sociais e econômicos preexistentes, produzindo consequências mais graves para as populações vulnerabilizadas.


Foi nesse contexto que os meios folkcomunicacionais revelaram sua capacidade pedagógica. Na comunidade Thiago Nery, em Mangabeira, estudantes de Relações Públicas recorreram ao teatro para conversar com crianças sobre a prevenção da Covid-19. Um personagem representava o coronavírus, transformando orientações abstratas em uma narrativa compreensível para o público.


Em outra experiência, uma profissional da enfermagem utilizou o cordel para explicar os cuidados contra a doença. Bicicletas de som circularam por comunidades levando mensagens de prevenção. Fanzines defenderam a importância do Sistema Único de Saúde. Campanhas carnavalescas adotaram expressões locais para falar diretamente com a população.


Não era apenas uma mudança de suporte. A informação ganhava sotaque, humor, ritmo e referências culturais compartilhadas por quem deveria recebê-la.


O carro do ovo também comunica

Entre os exemplos apresentados, um dos mais cotidianos foi o carro do ovo. A gravação repetida pelas ruas não serve somente para anunciar um produto. Ela cria um circuito de comunicação e comércio que aproxima vendedor e comunidade.


O mesmo ocorre com o carro da fruta, a bicicleta de som, a venda de porta em porta e tantas outras estratégias populares. São meios simples, mas adaptados às condições concretas do território. Por meio deles, pequenos comerciantes divulgam seus produtos sem depender das grandes empresas de mídia ou das plataformas digitais.


Essa comunicação também pode fortalecer uma economia de proximidade. Comprar de produtores, feirantes, artesãos e pequenos comerciantes faz o dinheiro circular no próprio bairro e ajuda a sustentar redes locais de trabalho.


Durante o encontro, Andréa Karinne mencionou a experiência de uma associação de mulheres de Lucena, na Paraíba, que produzia cocadas na quenga do coco. Com a interrupção das atividades presenciais durante o isolamento social, depoimentos das integrantes foram divulgados pela internet para contar a história do grupo e estimular novas encomendas.


A estratégia não tratava a cocada apenas como mercadoria. O produto carregava saberes, memórias, técnicas e vínculos entre as mulheres da associação. Comunicar essas histórias era também uma maneira de agregar valor ao trabalho e recuperar parte da renda perdida.


A rádio que conhece a vizinhança

Questionada sobre o papel das rádios comunitárias, a pesquisadora destacou que esses meios podem ser decisivos para o desenvolvimento local. Uma rádio próxima da população sabe quais informações fazem diferença: a interrupção no abastecimento de água, uma campanha de doação, o atendimento oferecido por uma organização, uma celebração religiosa ou uma decisão que afeta o bairro.


Ela também pode abrir espaço para artistas que dificilmente apareceriam nas emissoras comerciais. O músico, o poeta ou o cordelista da comunidade deixa de ser apenas “o vizinho que tem talento” e passa a integrar a programação e a memória pública daquele território.


Para isso, porém, a rádio precisa permanecer vinculada aos interesses da população e ser gerida com participação comunitária. Sua força não está apenas no alcance do sinal, mas na possibilidade de a própria comunidade decidir o que precisa ser dito e quem deve ter voz.


Comunicar para reconhecer o que já existe

A conferência terminou com uma provocação aos estudantes e profissionais da Comunicação. Muitos saberes desaparecem ou se tornam invisíveis não porque tenham perdido completamente sua importância, mas porque deixaram de ser reconhecidos e transmitidos.


Foi o caso levantado por um participante cuja avó produzia panelas de barro. Andréa Karinne chamou atenção para o papel dos comunicadores na valorização desse trabalho. Contar quem produz a panela, quais conhecimentos estão envolvidos e que relação ela mantém com a história da comunidade pode transformar a maneira como o objeto é percebido.


O mesmo vale para festas, comidas, músicas, ofícios e formas populares de comunicação. Antes de criar algo inteiramente novo, talvez seja preciso aprender a enxergar o que já está acontecendo diante de nós.


Comentários


Rede Folkcom - 2026

bottom of page