Do barroco missioneiro à inteligência artificial, Folkcomunicação reúne 21 trabalhos na ALAIC 2026
- Andriolli Costa
- 26 de jul.
- 6 min de leitura
Participação da Rede Folkcom articulou uma sessão presencial e três encontros virtuais sobre culturas populares, interculturalidade, identidades, resistência e mediações tecnológicas

As relações entre cultura popular, comunicação e transformação social ocuparam quatro sessões do XVIII Congresso Latino-Americano de Investigadores da Comunicação, realizado entre 22 e 24 de julho de 2026, em Monterrey, no México. A participação da Rede Folkcom ocorreu por meio do GT 1 — Folkcomunicação e Interculturalidade, cuja programação reuniu 21 trabalhos de pesquisadores de diferentes países e regiões.
Realizado na Universidade Autônoma de Nuevo León, o congresso da Associação Latino-Americana de Investigadores da Comunicação (ALAIC) teve como tema “Comunicação, soberania e paz: horizontes de justiça na era da inteligência artificial”. Segundo dados divulgados pela organização, o encontro recebeu 909 trabalhos de 1.431 autores de 21 países, distribuídos em 24 Grupos de Trabalho e cinco Grupos de Interesse.
A presença de um grupo dedicado à Folkcomunicação permitiu inserir nesse debate manifestações, saberes e sujeitos que nem sempre ocupam o centro das discussões sobre soberania, tecnologia e comunicação. A programação aproximou objetos como barroco missioneiro, fandango caiçara, cordel, muralismo, hip-hop, religiosidade popular, cemitérios, festas andinas, cinema, saúde, inteligência artificial e jogos digitais.
O GT foi organizado em uma sessão presencial e três virtuais. A primeira foi coordenada por Karina Janz Woitowicz, em Monterrey. Os encontros on-line ficaram sob a responsabilidade de Cristian Yáñez Aguilar, Vanessa Calvimontes Díaz e Thifani Postali. A estrutura híbrida possibilitou ampliar a participação e estabelecer diálogos entre pesquisas desenvolvidas no Brasil e em outros países latino-americanos.
Cultura como resistência
A sessão presencial, realizada em 22 de julho, abriu a programação com o tema “Folkcomunicação e interculturalidade: diversos olhares”. Os três trabalhos colocaram em relação gênero, memória, patrimônio e pesquisa aplicada.
Karina Janz Woitowicz analisou a presença das manifestações populares e das relações de gênero na agenda de portais brasileiros de jornalismo feminista. O estudo discutiu como a cultura pode funcionar como forma de resistência e como determinadas práticas populares são incorporadas pelas mídias comprometidas com a visibilidade das mulheres.
Rafael Schoenherr e Adelson da Costa Fernando apresentaram uma proposta de pesquisa aplicada voltada ao mapeamento fotográfico regional da cultura. A iniciativa parte da imagem não apenas como registro, mas como instrumento para identificar agentes, territórios, celebrações e práticas comunicacionais.
O terceiro trabalho, de Rosmery Machicado Gallo, abordou o barroco missioneiro de Urubichá como expressão de esperança. Situado na Bolívia, o município preserva práticas musicais, religiosas e artísticas relacionadas à experiência das missões. A pesquisa permitiu discutir os processos pelos quais essas manifestações são transmitidas, atualizadas e apropriadas pelas comunidades.
Matrizes culturais entre o fandango, o cordel e a música
A primeira sessão virtual foi coordenada pelo pesquisador chileno Cristian Yáñez Aguilar. Com seis trabalhos, o encontro aproximou discussões teóricas da Folkcomunicação de manifestações e experiências situadas no Brasil, Chile e Colômbia.
Yáñez abriu a sessão com uma análise das matrizes culturais presentes no campo artístico do folclore e da música popular chilena. O conceito permite observar como práticas culturais do passado permanecem ativas, são reorganizadas e adquirem novos significados em diferentes contextos históricos.
Lawrenberg Advíncula da Silva e Sonia Regina Soares da Cunha apresentaram um levantamento da produção bibliográfica em Folkcomunicação publicada pela revista Comunicação, Cultura e Sociedade, da Universidade do Estado de Mato Grosso. O estudo contribui para compreender como a teoria circula fora dos centros acadêmicos mais consolidados e como os periódicos regionais participam da formação do campo.
As mediações culturais também orientaram a análise do fandango caiçara apresentada por Rodrigo Fonseca Borges Pereira. Keyssianne Oliveira Morais, por sua vez, discutiu as semelhanças entre os “causos” publicados pelo Cordel Noticioso e a estrutura jornalística dos fait divers, narrativas construídas em torno de acontecimentos insólitos, curiosos ou extraordinários.
A sessão incluiu ainda o trabalho de Hugo Andrei Buitrago Trujillo sobre identidades nacionais e inclusão territorial nas músicas colombianas e uma pesquisa sobre formação em inteligência artificial generativa no Porto Digital, em Recife. Neste último estudo, Arnott Ramos Cajado, Samantha Grasielle Camara Pimentel, Filipe Sousa Carvalho de Melo e Pedro Paulo Procópio de Oliveira Santos relacionaram justiça tecnológica, qualificação profissional e Folkcomunicação.
Em registro publicado após a atividade, Cristian Yáñez destacou a consistência das pesquisas apresentadas e a possibilidade de reunir trabalhos do Brasil, Chile e Colômbia. Também ressaltou a colaboração entre os responsáveis pelas sessões virtuais e o apoio de Karina Woitowicz nas atividades presenciais realizadas no México.
Identidades produzidas em práticas e territórios
Muralismo, hip-hop, religiosidade, memória funerária e festas populares formaram o eixo da terceira sessão, coordenada por Vanessa Calvimontes Díaz em 23 de julho. Os trabalhos observaram como identidades coletivas são produzidas por meio da ocupação dos espaços, da circulação de narrativas e da continuidade de práticas culturais.
Vanessa abordou as relações entre muralismo, ritualidade popular e identidade de bairro. Thifani Postali analisou as práticas culturais e comunicacionais das mulheres na cena hip-hop de Sorocaba, destacando as estratégias pelas quais elas constroem presença e enfrentam desigualdades em um ambiente historicamente marcado pela predominância masculina.
A religiosidade popular apareceu no estudo de Tarcyanie Santos Cajueiro e Karen Alessandra De Simone sobre a Igreja de João de Camargo, também em Sorocaba. A pesquisa tratou o espaço religioso como lugar de mediações culturais, interculturalidade e produção compartilhada de significados.
Viviam Lacerda de Souza e José Antonio da Silva abordaram as mensagens preservadas em torno de Monsenhor Rio e sua relação com a comunicação sustentável dos marginalizados. Claudiene dos Santos Costa apresentou uma pesquisa sobre folkturismo, histórias locais e visitas noturnas a um cemitério de Fortaleza, discutindo como o assombro, a memória e as narrativas populares podem orientar outras formas de conhecer a cidade.
A sessão foi encerrada com o trabalho de Yudi Janeh Yucra Mamani e Walker Ernesto Aragón sobre a performatividade e a reconfiguração do k’usillo no cenário festivo de Juli, em Puno, no Peru. Personagem associado às celebrações andinas, o k’usillo evidencia como performance, comicidade e ritual podem expressar tensões sociais e identidades comunitárias.
A Folkcomunicação diante dos algoritmos
A quarta sessão, coordenada por Thifani Postali, levou o debate para as mediações tecnológicas contemporâneas. Os seis trabalhos mostraram que a Folkcomunicação não se limita ao estudo de práticas tradicionais: seus conceitos também ajudam a interpretar filmes, plataformas, redes sociais, inteligência artificial e jogos digitais.
Betania Maciel e Marcelo Sabbatini analisaram o filme O Agente Secreto como produto folkmidiático, observando a presença da lenda urbana da Perna Cabeluda e o deslocamento de uma narrativa pernambucana entre os circuitos local e global.
Em outro trabalho, Sabbatini discutiu a colonialidade algorítmica e as contribuições da Folkcomunicação para uma crítica decolonial da inteligência artificial. A reflexão chama atenção para os conhecimentos, repertórios e grupos sociais que podem ser excluídos ou representados de maneira desigual pelos sistemas automatizados.
A relação entre saúde e tecnologia apareceu na pesquisa de Pedro Paulo Procópio de Oliveira Santos, Arnott Ramos Cajado, Samantha Grasielle Camara Pimentel e Filipe Sousa Carvalho de Melo. O estudo acompanhou a passagem de meios tradicionais para as redes sociais em estratégias discursivas desenvolvidas em Pernambuco.
Antônio Alison Vasconcelos Marques apresentou uma análise folkcomunicacional do espetáculo Pátria Grande, articulando comunicação, política e arte. Matheus Sanchez e Thifani Postali investigaram os valores Huni Kuin presentes em jogos digitais folkmidiáticos e os desafios envolvidos na tradução de elementos culturais indígenas para novos ambientes tecnológicos.
A própria pesquisa coletiva da Rede Folkcom também integrou a sessão. Andriolli Costa e Guilherme Fernandes apresentaram os procedimentos utilizados para criar um comando de inteligência artificial destinado à extração de dados do projeto “Folkcomunicação: conceito, problemas e abordagens”. O trabalho discutiu as possibilidades e os cuidados metodológicos necessários quando ferramentas de IA são incorporadas à investigação científica.
Uma teoria brasileira em diálogo latino-americano
A participação na ALAIC reforça um movimento histórico de internacionalização da Folkcomunicação. Criada por Luiz Beltrão a partir da observação dos processos comunicacionais de grupos populares e socialmente marginalizados, a teoria passou a dialogar com diferentes realidades culturais da América Latina.
As quatro sessões mostraram que esse diálogo ocorre tanto pela aproximação entre pesquisadores quanto pela diversidade dos objetos estudados. Da cultura missioneira boliviana às festas peruanas, da música colombiana ao folclore chileno, das práticas urbanas brasileiras às disputas provocadas pela inteligência artificial, o GT evidenciou que os grupos populares não são apenas receptores das transformações comunicacionais. Eles produzem linguagens, memórias, tecnologias, redes de solidariedade e formas próprias de interpretar o mundo.
Ao articular tradição e contemporaneidade, território e plataforma, pesquisa teórica e experiência comunitária, a presença da Rede Folkcom na ALAIC 2026 ampliou a circulação internacional do pensamento folkcomunicacional. Também reafirmou a contribuição do campo para uma comunicação comprometida com a pluralidade cultural, a justiça e o reconhecimento das vozes historicamente colocadas à margem.
A relação completa das sessões e trabalhos pode ser consultada no programa da ALAIC 2026, na seção “Por GT/GI”, selecionando o GT 01 — Folkcomunicação e Interculturalidade.





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