“De cordel é o apelido dado à literatura produzida pelo povo”: Roque Magno Santos mantém os versos em circulação
Entrevista realizada em Londrina por Jessica Silva, Laisa Santos, Larissa Bento e Payane Pacheco apresenta a trajetória do baiano conhecido como Roque Livreiro ou Roque do Cordel
O desafio foi lançado durante uma festa em Maringá. Roque Magno Santos trabalhava na organização do evento quando alguém anunciou que duas pessoas declamariam um poema em homenagem à cidade. Em seguida, provocou: Roque também deveria apresentar seus versos. Havia apenas um problema — ele ainda não tinha escrito nada.
Na manhã seguinte, enquanto preparava o café, as estrofes começaram a surgir. Roque transformou a ocupação do Norte do Paraná, a formação de Maringá e a trajetória de seus pioneiros em versos rimados. Décadas depois, ainda conseguia recitar partes do poema. Quando as entrevistadoras se surpreenderam com sua memória, ele explicou: “Entra no coração, não entra na cabeça”.
A história aparece no vídeo Literatura de Cordel em Londrina, publicado no YouTube em 2 de maio de 2015. Produzida como trabalho de Folkcomunicação por Jessica Silva, Laisa Santos, Larissa Bento e Payane Pacheco, sob orientação do professor Vinícius Lima, a entrevista apresenta um autor que não apenas escreve cordéis: vende folhetos, divulga outros poetas e utiliza a literatura popular para narrar cidades, atividades profissionais, problemas de saúde e transformações culturais.
Roque nasceu em 6 de janeiro de 1944, no então distrito de Heliópolis, ligado ao município baiano de Ribeira do Amparo. Posteriormente, Heliópolis se tornaria um município autônomo. Alfabetizado com a ajuda dos cordéis, ele se estabeleceu no Paraná e ficou conhecido em Londrina como Roque Livreiro ou Roque do Cordel. Seu site o apresenta como “versejador, cordelista e livreiro”.
Um apelido que não pode mais ser separado da poesia
Logo no início da entrevista, Roque explica a origem da palavra cordel. O nome remete aos folhetos que eram expostos para venda pendurados em cordões ou barbantes. Com o tempo, porém, deixou de designar apenas a maneira como os impressos eram apresentados e passou a identificar uma tradição poética.
Roque responde em versos:
“De cordel é o apelidodado à literaturaproduzida pelo povo,que tinha e tem cultura.”
A estrofe integra um poema no qual o autor apresenta a literatura de cordel como resultado do encontro entre cultura popular, inspiração, pensamento, rima e métrica. O texto completo foi publicado pelo próprio cordelista em 2010.
Ao ser questionado sobre quem consome suas obras, Roque recusa a ideia de um público específico. Sua produção transita por escolas, feiras, exposições e eventos dedicados a diferentes atividades profissionais. Essa variedade também aparece nos temas escolhidos: história regional, agricultura, saúde pública, imigração e aniversários de instituições podem se transformar em matéria poética.
Quando uma provocação revela o versejador
O episódio de Maringá ocupa um lugar importante na narrativa de Roque porque marca o momento em que ele reconheceu publicamente sua capacidade de criar versos. “Ali eu descobri o Roque nordestino e vaidoso”, recorda, divertindo-se com a lembrança do desafio.
O poema recompunha a história da cidade a partir da presença dos trabalhadores que chegaram de diferentes partes do país. Ao recitá-lo, Roque menciona o crescimento de Maringá, o esforço dos pioneiros e a coragem de quem participou da ocupação do Norte do Paraná.
A passagem mostra uma das características históricas do cordel: sua capacidade de registrar acontecimentos e reorganizá-los em uma linguagem reconhecida pelos leitores e ouvintes. O poeta recolhe nomes, datas, personagens e experiências locais, mas não os devolve como uma cronologia impessoal. Transforma-os em narrativa rimada, carregada de admiração, humor, crítica ou emoção.
Ao recordar versos escritos muitos anos antes, Roque chega a se emocionar. A memória do poema se confunde com a memória das pessoas homenageadas. O folheto deixa de ser apenas um objeto impresso e se torna um arquivo afetivo da cidade.
Da agropecuária à dengue
Roque afirma ter sido um dos primeiros cordelistas brasileiros a dedicar folhetos especificamente à atividade agropecuária. Entre os títulos apresentados em seu acervo está Agradeço a Deus pelo Produtor Rural, ao lado de Versos de Exaltação ao Município Canção e Um Menino Completa Quarenta Anos.
Essa aproximação com a agricultura também evidencia sua capacidade de adaptar o cordel a públicos que não estavam necessariamente associados ao circuito tradicional dos folhetos. O verso podia circular em festas, exposições agropecuárias, comemorações municipais e encontros institucionais, aproximando conhecimentos técnicos, memórias profissionais e linguagem popular.
Na entrevista, ele conta que acompanha o noticiário e observa os problemas discutidos pela mídia. A dengue, que mobilizava campanhas de prevenção naquele período, aparece como exemplo de assunto que poderia ser transformado em cordel.
Roque, entretanto, estabelece um critério para selecionar os temas: “Eu quero coisas mais ou menos permanentes”. A atualidade fornece a motivação inicial, mas o poema precisa conservar algum interesse depois que a notícia imediata desaparecer.
É por isso que, ao falar sobre uma exposição dedicada à cultura japonesa, ele não se limita ao evento. Procura registrar modos de vida, costumes e conhecimentos capazes de permanecer como referência. O cordel nasce de uma circunstância, mas tenta ultrapassá-la.
Um livreiro que faz a poesia circular
A palavra “livreiro” é tão importante quanto “cordelista” para compreender a atuação de Roque. Além de escrever, ele reúne, expõe e comercializa obras de diferentes autores. Seu trabalho conecta quem produz os folhetos a leitores que talvez não os encontrassem nas livrarias convencionais.
Em reportagem publicada poucos meses antes da entrevista, a Folha de Londrina registrou que Roque já possuía mais de 30 folhetos, além de inúmeros acrósticos. O jornal também destacou sua participação em atividades escolares, nas quais criava poemas diante dos estudantes e defendia o uso da rima como recurso de alfabetização. Segundo Roque, ele próprio havia sido alfabetizado pela mãe com a ajuda dos cordéis.
Esse trabalho de circulação ganha um significado particular em Londrina. A cidade que recebeu o cordelista baiano também abriga uma importante coleção de literatura de cordel na Biblioteca Central da Universidade Estadual de Londrina. Na época da gravação, a produção popular estava presente simultaneamente nas mãos do vendedor, nas escolas, nos eventos culturais e no acervo universitário.
Roque ocupa uma posição de mediação entre esses espaços. Conhece as formas tradicionais do cordel, acompanha o noticiário, conversa com públicos diversos e transforma acontecimentos locais em narrativas acessíveis. Também leva obras de outros autores para exposições e pontos de venda.
Cordel como processo folkcomunicacional
Pela perspectiva da Folkcomunicação, Roque pode ser compreendido como um agente que produz, seleciona e coloca informações em circulação por meio de códigos populares. Seus folhetos não se limitam a preservar uma forma literária associada ao Nordeste. Eles interpretam acontecimentos, homenageiam trabalhadores, apresentam cidades, comentam problemas coletivos e atravessam diferentes territórios.
O deslocamento da Bahia para o Paraná também não apaga a origem nordestina do cordel. A tradição acompanha o autor e entra em diálogo com novas paisagens, histórias e comunidades. Maringá, Londrina, a agropecuária paranaense e a cultura japonesa passam a conviver com a sextilha, a métrica e a rima aprendidas desde a infância.
Estudos sobre o tema reconhecem o cordel como um meio folkcomunicacional por sua capacidade de expressar ideias, conhecimentos e opiniões em linguagens próximas dos grupos populares. Os folhetos permitem que seus autores não apenas preservem tradições, mas também interpretem o presente e disputem a circulação de mensagens.
Ao final da entrevista, Roque lê versos de Um Menino Completa Quarenta Anos. A declamação devolve à voz aquilo que também circula no papel. O cordel é escrito, impresso, vendido e colecionado, mas continua dependendo do encontro entre pessoas: alguém escreve, alguém declama, alguém escuta e leva consigo uma parte da história.
É nesse percurso que Roque do Cordel aparece como autor e comunicador. Sua obra transforma notícias, lembranças e experiências em versos capazes de atravessar o tempo. Como ele próprio sugere, o que permanece não é somente aquilo que foi decorado, mas aquilo que conseguiu entrar no coração.



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