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De Carolina Maria de Jesus às bordadeiras de Matarandiba, GT Beta aproxima comunicação popular e transformação social

Seis trabalhos apresentados nas sessões matutinas da Folkcom 2025 discutiram literatura, jornalismo, carnaval, cinema, reciclagem e economia solidária como práticas de memória, denúncia e ação coletiva.



Um diário escrito na favela do Canindé, crônicas produzidas durante caminhadas pelo Ceará, placas de protesto carregadas pelas ruas de Salvador, cenas de um filme debatidas por estudantes da área da saúde, um carrinho de coleta construído com a participação de um catador e bordados que levam o Boi Estrela para além de uma pequena comunidade baiana.

À primeira vista, são objetos distantes. Reunidos no GT Beta da 22ª Conferência Brasileira de Folkcomunicação, porém, eles ajudam a responder a uma pergunta comum: como sujeitos e grupos populares transformam palavras, imagens, objetos e celebrações em meios para narrar a própria experiência, preservar memórias e intervir na realidade?

Dedicado ao tema “Comunicação popular e ativismos midiáticos”, o grupo de trabalho integrou a programação da Folkcom 2025, realizada pela primeira vez no Rio de Janeiro e em Niterói. O evento adotou como tema “Raízes do presente, futuros ancestrais” e reuniu pesquisadores interessados nas práticas de resistência, nas identidades e nas mediações produzidas por comunidades rurais, urbanas e periféricas.

Ao todo, o GT Beta contou com 12 trabalhos aprovados. Nas duas sessões matutinas transmitidas em 24 de outubro de 2025, seis pesquisas fizeram circular experiências que iam da literatura ao design, sem perder de vista os agentes e as relações sociais presentes em cada processo.

Escritas e ruas como territórios de resistência

A primeira sessão, dedicada às narrativas de resistência e à memória popular, começou com uma leitura folkcomunicacional de Quarto de despejo. Tiago de Lima Eneas e Itamar de Morais Nobre, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), investigaram o ativismo de Carolina Maria de Jesus a partir dos registros produzidos pela escritora sobre a vida na favela do Canindé.

O diário transforma o cotidiano de uma mulher negra, pobre, mãe solo e catadora de materiais recicláveis em testemunho das desigualdades brasileiras. A fome, a violência, a ausência do Estado e as disputas políticas aparecem não como temas observados de fora, mas como experiências vividas e interpretadas por quem ocupava aquele território.

Ao tomar a palavra, Carolina deixa de aparecer somente como objeto da narrativa produzida por jornalistas, autoridades ou intelectuais. Ela registra os acontecimentos, seleciona aquilo que considera relevante e constrói uma interpretação própria da favela e da sociedade que a mantinha à margem.

A pesquisa identificou nessa passagem uma forma de ativismo midiático. A escrita do diário possibilita que uma experiência historicamente silenciada atravesse os limites do Canindé e alcance outros grupos sociais. Quarto de despejo se torna, assim, um canal de denúncia e também uma disputa pelo direito de narrar.

O movimento, entretanto, não ocorre sem conflitos. Durante o debate, Eneas recordou que a publicação provocou reações entre moradores que se reconheceram nas situações descritas e não aceitaram a maneira como apareceram. A recepção da obra revela que uma narrativa contra-hegemônica também produz tensões dentro do próprio grupo ao qual está ligada.

A notoriedade conquistada por Carolina tampouco eliminou sua marginalização. Em Casa de alvenaria, a escritora passaria a registrar novos conflitos, agora relacionados à mudança de posição social, ao mercado editorial e às pessoas que tentavam se beneficiar de sua projeção.

A trajetória mostra que a circulação de uma voz popular não se resume à passagem linear entre silêncio e reconhecimento. Ela envolve disputas de representação, apropriações, rejeições e negociações com os meios hegemônicos.

Uma cronista que lê o Ceará caminhando

A relação entre deslocamento, escuta e memória também apareceu no trabalho de Gilles Viana Alves e Maria Érica de Oliveira Lima, da Universidade Federal do Ceará (UFC). A pesquisa analisou a série de crônicas “Caminhos do Ceará”, publicada pela jornalista Izabel Gurgel no jornal O Povo entre 2022 e 2024.

Embora não se defina como cronista, Gurgel se apresenta como uma “leitora do mundo”. Sua escrita nasce das viagens pelo estado, dos encontros com artistas, artesãos, mestres da cultura e moradores de diferentes municípios. Em vez de observar o Ceará a distância, ela percorre suas estradas e se deixa afetar pelas paisagens, conversas e manifestações encontradas pelo caminho.

Gilles associou esse gesto a uma escrita caminhante. O movimento não funciona apenas como tema das crônicas, mas como método de aproximação. É preciso chegar, permanecer, observar e escutar para que as histórias apareçam.

A curiosidade da jornalista foi descrita por ela própria como uma “fome onívora”. Suas origens remontam à infância em Uruburetama, onde a janela da casa se abria para o mercado e para a feira. Por ali passavam circos, vendedores, jornaleiros, anúncios, conversas e notícias. Aquela paisagem sonora e humana ajudaria a formar a leitora que mais tarde transformaria seus percursos em textos.

Nas páginas do jornal, as crônicas produzem um registro diferente daquele oferecido pela notícia convencional. Artistas e mestres da cultura não aparecem apenas em razão de um acontecimento pontual. Suas trajetórias, saberes e relações com os territórios tornam-se o centro da narrativa.

Durante a pesquisa, Gilles construiu uma cartografia dos percursos registrados por Gurgel. O mapa ganhou uma dimensão particular quando foi bordado por sua avó. O gesto aproximou o método acadêmico das artesanias familiares e transformou o trajeto da cronista em objeto sensível, feito de linhas, memória e colaboração.

O bordado também provocou uma discussão sobre aquilo que participa da pesquisa, mas nem sempre chega ao texto científico. Afetos, relações familiares, trabalhos manuais e formas alternativas de registrar um percurso podem produzir conhecimento mesmo quando não cabem nos formatos tradicionais da universidade.

Quando o carnaval levanta suas próprias manchetes

A primeira sessão terminou nas ruas de Salvador. Rosana Costa dos Santos, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), apresentou uma pesquisa sobre as placas de protesto levadas pelos foliões durante o Carnaval da Mudança do Garcia.

Realizado tradicionalmente na segunda-feira de carnaval, o desfile reúne blocos, sindicatos, movimentos sociais, fantasias, faixas e foliões no Circuito Riachão. Enquanto os grandes circuitos da cidade concentram trios elétricos, artistas e patrocínios, a Mudança do Garcia preserva uma configuração marcada pela participação popular e pela crítica política.

As placas funcionam como pequenas manchetes produzidas pelos próprios participantes. Reivindicações trabalhistas, críticas às privatizações, denúncias de assédio e manifestações em defesa dos serviços públicos atravessam as ruas ao lado das fantasias e dos carros alegóricos.

Entre os exemplos analisados estavam faixas de sindicatos de trabalhadores dos Correios, da saúde, da previdência, do setor elétrico e do petróleo. Frases contra a privatização, a retirada de direitos e a precarização do trabalho transformavam o desfile em espaço de visibilidade para pautas que nem sempre encontram a mesma abertura nos meios de comunicação tradicionais.

A política, porém, não elimina a brincadeira. Rosana também destacou a presença dos Pierrôs de Plataforma, grupo que há décadas desfila com fantasias e máscaras inspiradas nos antigos carnavais. Organizados para evitar conflitos e preservar o caráter familiar da manifestação, os participantes caminham juntos, interagem com crianças e reafirmam outra memória da festa.

Na Mudança do Garcia, protesto e diversão não ocupam territórios separados. A fantasia pode produzir comentário político, assim como a faixa sindical integra a paisagem carnavalesca. A rua torna-se um meio no qual diferentes grupos escrevem, performam e fazem circular suas mensagens diante da cidade.

Cinema, saúde e o direito de reconhecer um corpo

A segunda sessão aproximou comunicação popular, saúde e tecnologias sociais. Juliane Ramos, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), apresentou uma experiência de letramento audiovisual realizada com integrantes da Liga Acadêmica de Pediatria Interdisciplinar.

A oficina partiu do filme M8 — Quando a morte socorre a vida, dirigido por Jeferson De. Na narrativa, Maurício, um jovem negro recém-ingresso no curso de Medicina, percebe que os estudantes de sua turma são majoritariamente brancos, enquanto os corpos examinados nas aulas de anatomia são negros e identificados somente por números.

A descoberta produz uma aproximação inquietante. Maurício se reconhece mais nos corpos sem nome colocados sobre as mesas do laboratório do que nos colegas com quem divide a universidade. Quando encontra mães negras que procuram filhos desaparecidos, passa a questionar a origem daqueles cadáveres e as estruturas sociais que determinam quais vidas recebem cuidado, memória e reconhecimento.

Juliane selecionou cenas do filme e as distribuiu entre os participantes por meio de códigos QR. Os grupos analisaram enquadramentos, sons, cores, movimentos e composições visuais, relacionando a linguagem cinematográfica a temas como racismo estrutural, necropolítica, ancestralidade e cuidado.

Uma das discussões tratou da retirada do corpo identificado como M8 do espaço acadêmico e de seu enterro junto às mães dos desaparecidos e a uma liderança de terreiro. A cena permitiu perguntar que dignidade entra em jogo quando um corpo deixa de ser apenas material de estudo e volta a ser reconhecido como alguém que merece nome, rito e memória.

Outro eixo colocou em debate as práticas de cuidado que escapam ao modelo biomédico. O terreiro e a mãe de santo aparecem não como elementos acessórios da narrativa, mas como partes de uma rede social e espiritual capaz de acolher o sofrimento.

A oficina mostrou que o letramento audiovisual não consiste somente em compreender a história contada por um filme. Envolve reconhecer como a imagem organiza posições sociais, produz emoções e carrega disputas ideológicas. Em uma sociedade cercada por telas, aprender a ler criticamente essas construções também se torna parte da formação em saúde.

O carrinho como tecnologia, trabalho e expressão

O trabalho seguinte começou por um objeto cotidiano muitas vezes percebido apenas quando atrapalha o trânsito: o carrinho utilizado por catadores de materiais recicláveis.

Thomas Galvão, Rosinei Ribeiro e Adilson Melo, vinculados à Universidade Federal de Itajubá (Unifei) e ao Centro Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza (CEETEPS), apresentaram o desenvolvimento de um veículo de coleta elaborado por meio da cocriação com um trabalhador.

A pesquisa partiu do reconhecimento de que os próprios catadores já constroem seus equipamentos. Empregam materiais disponíveis, improvisam estruturas, adaptam rodas e desenvolvem soluções baseadas no conhecimento acumulado durante o trabalho.

Em lugar de simplesmente substituir essas criações por um projeto produzido no interior da universidade, os pesquisadores buscaram compreender as escolhas do usuário: os materiais aos quais tinha acesso, a necessidade de manutenção simples, os limites econômicos e a relação afetiva estabelecida com o carrinho.

O protótipo incorporou medidas ergonômicas e soluções destinadas a reduzir o esforço físico. A pesquisa, contudo, ultrapassou a dimensão funcional. A aparência do veículo e a possibilidade de intervenção artística passaram a ser consideradas formas de expressão do trabalhador.

O carrinho deixa, então, de ser observado apenas como ferramenta. Ao circular pela cidade, torna visível a existência do catador, denuncia a precariedade de suas condições de trabalho e evidencia sua participação na gestão dos resíduos urbanos.

A noção de “mídia viva” ajuda a perceber esse deslocamento. O objeto comunica porque integra uma rede formada pelo trabalhador, pelos materiais recolhidos, pelas ruas, pelos moradores e pelas políticas ambientais. Sua mensagem não está inscrita somente em uma frase ou pintura: emerge da presença do catador e das relações sociais que acompanham seu percurso.

Bordar a cultura para produzir renda e continuidade

O último trabalho conduziu a discussão até Matarandiba, comunidade situada no município de Vera Cruz, na Bahia. Rafael Lopes, da Universidade Federal do Cariri (UFCA), analisou as aproximações entre economia solidária, desenvolvimento local e Folkcomunicação a partir da produção das Bordadeiras de Matarandiba.

Com cerca de 900 moradores, a localidade reúne atividades como pesca, mariscagem, produção de azeite de dendê, turismo de base comunitária, artesanato e manifestações culturais. Entre elas está o Boi Estrela, que percorre as ruas da vila durante o mês de janeiro.

Nos bordados produzidos pelo grupo, o boi deixa a rua e passa para bolsas, estandartes e peças comercializadas dentro e fora da comunidade. Também aparecem referências ao Terno das Flores e a outras celebrações locais.

O artesanato gera renda, mas sua importância não se encerra na venda. Ao se reunirem para bordar, as mulheres compartilham experiências, fortalecem vínculos e atualizam repertórios culturais. O trabalho coletivo se torna espaço de convivência e transmissão de conhecimentos.

As publicações do grupo no Instagram ampliam essa circulação. Fotografias e textos apresentam os produtos, explicam os símbolos representados e narram as manifestações que inspiraram cada peça. O perfil funciona simultaneamente como vitrine comercial, arquivo cultural e canal de contato com outros públicos.

O desafio da continuidade apareceu na fala de uma das integrantes, preocupada em envolver os jovens e impedir que os festejos desapareçam. A economia solidária passa a participar desse processo porque permite que a preservação cultural também encontre condições materiais de existência.

O bordado não reproduz apenas uma imagem do Boi Estrela. Carrega a memória da festa, o trabalho das artesãs, a organização comunitária e o desejo de fazer com que a manifestação alcance outra geração.

O meio nasce da relação

Os seis trabalhos apresentados nas sessões matutinas do GT Beta ampliaram a percepção sobre o que pode participar de um processo comunicacional. Um diário, uma crônica, uma placa, uma cena cinematográfica, um carrinho de coleta e uma peça bordada não possuem a mesma linguagem nem circulam pelos mesmos espaços.

O que os aproxima não é uma suposta natureza popular inscrita nos objetos. São as relações construídas ao redor deles: quem produz, a partir de qual experiência, para quais grupos, em que circuitos e com quais possibilidades de resposta e transformação.

Carolina Maria de Jesus atravessa a fronteira entre a favela e o mercado editorial, mas encontra novas formas de marginalização. Izabel Gurgel leva os saberes de artistas e mestres da cultura às páginas de um grande jornal. Os foliões da Mudança do Garcia escrevem suas reivindicações no próprio percurso do carnaval. Estudantes aprendem a reconhecer as ideologias presentes nas imagens. Um catador participa da criação do veículo com o qual percorre a cidade. Bordadeiras transformam símbolos locais em renda, memória e circulação digital.

Em todos os casos, comunicar significa disputar a possibilidade de aparecer e de definir como essa aparição será construída. Não basta alcançar visibilidade: é preciso considerar quem controla a narrativa, quais experiências ela preserva e que relações sociais pode colocar em movimento.

Da página de Carolina ao bordado de Matarandiba, o GT Beta mostrou que a comunicação popular não está restrita a um suporte. Ela acontece quando sujeitos historicamente colocados à margem encontram — ou constroem — meios para registrar a própria presença e fazer dela uma forma de ação coletiva.

 
 
 

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