top of page

Da marionete ao teatro de rua: folk media indiana dialoga com a teoria brasileira da Folkcomunicação

Em videoaula, S. L. Kameswari apresenta manifestações tradicionais empregadas na comunicação comunitária e em programas de desenvolvimento. A experiência da Índia permite identificar aproximações — e diferenças fundamentais — entre o conceito internacional de folk media e a Folkcomunicação formulada por Luiz Beltrão.



Muito antes do rádio, da televisão e das plataformas digitais, comunidades já compartilhavam conhecimentos, alertas, crenças e interpretações do cotidiano por meio de cantos, danças, gestos, narrativas orais, desenhos, tambores e representações teatrais. É a partir dessa perspectiva histórica que S. L. Kameswari apresenta a folk media indiana: um amplo conjunto de formas culturais que funcionam simultaneamente como expressão coletiva e meio de comunicação.


Na aula, Kameswari define essas manifestações como recursos culturais que acumulam conhecimentos, experiências e modos de expressão transmitidos entre gerações. Não se trata, portanto, apenas de práticas destinadas ao entretenimento. Elas informam, educam, preservam memórias, reforçam vínculos comunitários e ajudam diferentes grupos sociais a interpretar o mundo em que vivem.


Entre os exemplos apresentados estão o teatro de marionetes, a música e a dança populares, a contação de histórias, os provérbios, as adivinhas, as pinturas murais, os anúncios públicos acompanhados por tambores e diferentes modalidades de teatro tradicional.


Histórias que mudam conforme o lugar

O teatro de bonecos é uma das primeiras paradas no percurso apresentado por Kameswari. Considerado uma das formas mais antigas de teatro popular da Índia, ele assume diferentes configurações pelo país: há marionetes movimentadas por fios no Rajastão, bonecos de haste em estados como Odisha e Tamil Nadu e espetáculos de sombras em regiões de Kerala e Odisha.


A simplicidade dos materiais não limita as possibilidades narrativas. Conduzidos por artistas que controlam personagens, diálogos e movimentos, os bonecos podem representar histórias religiosas, episódios mitológicos e situações da vida cotidiana. Também permitem inserir novos assuntos em enredos já conhecidos, aproximando temas como saúde, educação e agricultura da experiência das comunidades.


O mesmo movimento de atualização aparece no teatro popular. Kameswari apresenta o Tamasha, associado ao estado de Maharashtra e marcado pela presença da música e da dança; o Nautanki, difundido no norte da Índia e conduzido por diálogos cantados; e formas de narração religiosa como o Kirtan e o Harikatha, nas quais um intérprete pode assumir diferentes personagens durante a apresentação.


Já o teatro de rua dispensa palco, figurinos elaborados e grandes estruturas. Faixas, canções e palavras de ordem são suficientes para transformar uma praça ou uma rua em espaço de encontro. A proximidade permite que os artistas percebam as reações do público e adaptem a apresentação enquanto ela acontece.


A lista de Kameswari se estende às danças realizadas durante festas e colheitas, à música popular, aos provérbios, às adivinhas, às pinturas murais e aos anúncios feitos depois que o som de um tambor chama a atenção dos moradores. Mais do que um catálogo de manifestações artísticas, o conjunto revela diferentes maneiras de organizar a comunicação comunitária.


Em todas elas, a mensagem se apoia em códigos reconhecidos pelo público. Língua, ritmo, humor, personagens e referências locais ajudam a explicar por que essas formas conseguem estabelecer uma relação de proximidade que dificilmente seria alcançada por uma comunicação produzida fora da comunidade.


Quando a tradição entra na política

É ao tratar dos usos contemporâneos dessas manifestações que Kameswari expõe a dimensão política da folk media. Na Índia, os meios tradicionais são empregados tanto por instituições interessadas em divulgar programas de desenvolvimento quanto por comunidades que procuram tornar públicas suas próprias reivindicações.


O uso governamental permanece presente no país. O Central Bureau of Communication, vinculado ao Ministério da Informação e Radiodifusão, mantém uma divisão dedicada à comunicação folk. Teatro, dança, marionetes, recitais e outras apresentações são utilizados para divulgar políticas, serviços e campanhas, especialmente em áreas rurais e semiurbanas.


A escolha dessas linguagens procura criar reconhecimento. Uma mensagem sobre saúde ou agricultura pode encontrar maior receptividade quando apresentada por artistas locais, no idioma da comunidade e por meio de personagens que já fazem parte de seu repertório.


Kameswari mostra, porém, que essa comunicação não segue apenas o caminho das instituições para a população. Camponeses, trabalhadores agrícolas, mulheres, comunidades tribais e outros grupos oprimidos também utilizam as formas tradicionais para defender direitos. Música, teatro e dança participam de mobilizações por terra, água, florestas e melhores condições de trabalho e de vida.


Uma apresentação pode, assim, anunciar um programa governamental em uma aldeia ou denunciar a ausência de políticas para essa mesma população. Nos dois casos, os artistas recorrem a símbolos familiares e à proximidade com o público. O que muda é a origem da mensagem e a finalidade da comunicação.


Essa diferença é importante para a aproximação com a teoria brasileira. A presença de uma manifestação popular não basta para definir o processo. É preciso observar se a comunidade participa como autora, intérprete ou apenas como destinatária de uma mensagem formulada por outros agentes.


Um debate que passou por Londres e Nova Délhi

O uso planejado dos meios tradicionais entrou na agenda internacional em novembro de 1972, quando Londres recebeu uma reunião de especialistas dedicada à integração entre folk media e meios de comunicação de massa. Vinculado à Unesco e à Federação Internacional de Planejamento Familiar, o encontro concentrou-se inicialmente em campanhas de planejamento familiar e na formação de extensionistas.


A proposta era combinar o alcance do rádio, do cinema e dos impressos com a proximidade das manifestações tradicionais. Em vez de depender exclusivamente de mensagens produzidas para públicos amplos e heterogêneos, os programas poderiam recorrer a formas culturais reconhecidas pelas populações às quais pretendiam chegar.


As recomendações da reunião seriam posteriormente reunidas pela Unesco na publicação Folk Media and Mass Media in Population Communication, lançada em 1982. O registro bibliográfico da obra inclui os documentos produzidos no encontro londrino e experiências realizadas em diferentes países.


A Índia ocuparia uma posição ainda mais central nesse debate dois anos depois. Em 1974, Nova Délhi sediou um seminário-oficina inter-regional sobre a utilização conjunta de meios tradicionais e massivos. O encontro apresentou experiências baseadas em manifestações de diferentes regiões indianas e ampliou a discussão para programas de educação, saúde e desenvolvimento rural.


Entre as recomendações estavam o conhecimento prévio das comunidades, a seleção de formas culturais adequadas a cada contexto, a participação dos artistas locais e a articulação com professores, lideranças religiosas, extensionistas e outros agentes reconhecidos pela população.


A proposta de Kameswari guarda relação direta com esse percurso. Sua defesa de estratégias multimídia, da participação comunitária e da avaliação das mensagens retoma princípios que já apareciam no seminário realizado em Nova Délhi.


Foi Roberto Benjamin quem incorporou essa história aos estudos brasileiros ao recuperá-la em Folkcomunicação no contexto de massa, publicado em 2000. O pesquisador apresentou as reuniões de Londres e Nova Délhi como momentos decisivos para a circulação internacional do conceito de folk media.


A antologia Metamorfose da Folkcomunicação, organizada em 2013 por José Marques de Melo e Guilherme Moreira Fernandes, pertence a uma etapa posterior de sistematização e amadurecimento do campo. Para a história dos encontros internacionais, a referência mais direta continua sendo a obra de Benjamin.


Dois conceitos, diferentes pontos de partida

Embora compartilhem objetos e práticas, folk media e Folkcomunicação não são expressões equivalentes. A diferença aparece tanto na origem quanto nas perguntas formuladas por cada perspectiva.


Luiz Beltrão começou a construir a teoria brasileira antes dos encontros internacionais. Em 1965, publicou “O ex-voto como veículo jornalístico”, estudo no qual reconheceu uma função comunicacional nas inscrições, nos objetos e nos testemunhos deixados por devotos. Em 1967, defendeu na Universidade de Brasília a tese que estabeleceu as bases da Folkcomunicação.


Quando os especialistas se reuniram em Londres, portanto, Beltrão já investigava como grupos afastados dos meios dominantes criavam seus próprios circuitos de informação e expressão.


No debate internacional, a folk media foi apresentada principalmente como um repertório de meios tradicionais que poderia ser utilizado em programas de desenvolvimento. Diante de uma mensagem sobre planejamento familiar, saúde ou agricultura, procurava-se identificar qual manifestação seria mais adequada para levá-la a determinada comunidade.


A Folkcomunicação parte de outro ponto. Seu interesse está nas formas pelas quais grupos social e culturalmente marginalizados produzem e fazem circular informações, opiniões, ideias e atitudes. O teatro, o ex-voto, o cordel, a festa ou a narrativa oral importam não apenas como veículos, mas como partes de uma rede formada por agentes, grupos e repertórios compartilhados.


A distinção pode ser percebida em uma apresentação teatral. Quando uma instituição escolhe uma manifestação local para transmitir uma mensagem previamente definida, aproxima-se do uso da folk media descrito nos programas internacionais. Quando os próprios integrantes de uma comunidade recorrem ao teatro para interpretar um problema, compartilhar uma posição ou mobilizar seus pares, o processo se aproxima mais claramente da Folkcomunicação.


Isso não estabelece uma divisão absoluta. Kameswari mostra que moradores e artistas podem participar da elaboração de campanhas institucionais, assim como uma manifestação comunitária pode dialogar com governos e organizações. A comparação ajuda justamente a perceber as negociações existentes entre essas diferentes formas de participação.


A travessia entre o popular e o massivo

Há ainda um terceiro conceito relacionado a esse debate. No Brasil, Joseph Luyten empregou o termo “folkmídia” para estudar as relações entre a cultura popular e os meios de comunicação de massa.


A folkmídia permite observar o que acontece quando festas, personagens, músicas e símbolos populares são incorporados por emissoras, campanhas, empresas e produtos culturais. Também contempla o movimento inverso, quando comunicadores populares se apropriam do rádio, da televisão, do vídeo ou das plataformas digitais.


Na experiência indiana apresentada por Kameswari, essa travessia ocorre quando uma peça tradicional é adaptada para uma campanha, registrada em vídeo ou combinada com programas de rádio e televisão. A integração pode ampliar o alcance das manifestações e criar novas oportunidades para os artistas. Ao mesmo tempo, pode reduzir uma expressão complexa a um recurso destinado a tornar mais atraente uma mensagem institucional.


O movimento contrário também está presente. Artistas e comunidades podem utilizar tecnologias massivas e digitais para registrar apresentações, conquistar novos públicos e fazer circular suas próprias pautas para além do território onde vivem.


Mais do que representar uma substituição da tradição pela tecnologia, essas trocas mostram que os meios populares continuam se transformando. A relação com a mídia pode produzir visibilidade, negociação, dependência ou apropriação — e, muitas vezes, todas essas possibilidades aparecem simultaneamente.


Uma tradição que disputa espaço

Apesar das possibilidades apresentadas ao longo da aula, Kameswari também reconhece as dificuldades enfrentadas pelos meios tradicionais. O avanço do rádio, da televisão, do vídeo e das plataformas digitais reduziu a visibilidade de algumas manifestações, afastou parte do público e desestimulou artistas que dependiam dessas atividades para sobreviver.


A professora rejeita, contudo, a ideia de que a folk media tenha se tornado obsoleta. Sua permanência está justamente na capacidade de incorporar novos assuntos, dialogar com diferentes meios e preservar uma comunicação baseada na proximidade. Uma apresentação pode ser modificada conforme a reação da audiência, utilizar o dialeto local e recorrer a personagens que pertencem à memória coletiva daquela comunidade.


As tecnologias modernas também não aparecem necessariamente como adversárias. Kameswari propõe que teatro, música, marionetes e narrativas orais sejam combinados com rádio, televisão, cinema e materiais impressos. Nessa articulação, cada meio compensaria as limitações do outro: os canais massivos ampliariam o alcance, enquanto as manifestações tradicionais garantiriam reconhecimento cultural e participação local.


Mais de cinco décadas depois dos encontros de Londres e Nova Délhi, essa discussão continua atual. Da marionete movimentada diante de uma pequena comunidade ao teatro de rua integrado a uma campanha nacional, a folk media indiana permanece como uma tecnologia viva de comunicação.


É também nesse ponto que a experiência apresentada por Kameswari encontra a teoria brasileira. Tanto a folk media quanto a Folkcomunicação reconhecem que cantos, gestos, histórias, objetos e performances podem fazer circular informações e interpretações da realidade. A contribuição de Beltrão está em deslocar o olhar do meio utilizado para as pessoas que se comunicam por intermédio dele.


Na Índia ou no Brasil, uma tradição permanece viva não apenas porque é repetida, mas porque continua capaz de participar das conversas do presente.

 
 
 

Comentários


Rede Folkcom - 2026

bottom of page