Da cantoria à internet, Antônio Marinho mostra como o povo cria seus próprios códigos
- Andriolli Costa
- há 3 dias
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Em entrevista ao Podcast Nordestino, poeta relaciona folkcomunicação, autoria coletiva e resistência cultural ao explicar a montagem poética que reúne versos de Rogaciano Leite, Ivanildo Vila Nova, Zé Marcolino, Pinto do Monteiro e outros autores
As pessoas que acompanham uma cantoria não formam uma audiência passiva. Para entender o que acontece entre os poetas, é necessário reconhecer modalidades, acompanhar a posição das rimas, identificar motes, perceber quando uma regra foi quebrada e interpretar referências compartilhadas entre artistas e público. Existe, portanto, um código comunicacional construído e preservado dentro da própria comunidade.
Foi a partir desse exemplo que o poeta Antônio Marinho aproximou poesia popular e folkcomunicação durante entrevista ao Podcast Nordestino. Na leitura apresentada por ele, o conceito formulado por Luiz Beltrão ajuda a compreender como grupos historicamente afastados dos meios dominantes desenvolveram formas próprias de produzir, transmitir e interpretar informações.
Não se trata apenas de manifestações artísticas isoladas. O que está em jogo são processos comunicacionais compostos por repertórios, agentes, espaços de encontro, conhecimentos compartilhados e modos de transmissão entre gerações.
Marinho lembra que as populações marginalizadas foram excluídas do acesso à escola, ao poder político, aos serviços públicos e aos canais institucionalizados de comunicação. Isso, porém, não significou ausência de conhecimento ou incapacidade de elaborar linguagens complexas.
Em lugar de apenas consumir os códigos produzidos pelas elites, essas coletividades criaram seus próprios circuitos de comunicação. A cantoria, o cordel, o coco, o maracatu e outras expressões passaram a transportar histórias, valores, notícias, críticas e memórias.
“O povo criou as dele”, resume Marinho ao comparar as informações dominantes aos conhecimentos elaborados e compartilhados nos meios populares.
A cultura popular não tem certidão de nascimento
Ao longo da entrevista, Antônio Marinho questiona a tentativa de estabelecer uma origem individual e uma data inaugural para manifestações produzidas coletivamente.
Movimentos artísticos institucionalizados costumam ser associados a manifestos, obras fundadoras e nomes específicos. O poeta observa que essa lógica não pode ser simplesmente transferida para o maracatu, o caboclinho, o mamulengo, o aboio, o samba ou a cantoria.
Essas manifestações foram construídas gradualmente, mediante experimentações, trocas e transformações realizadas por diferentes gerações. Mesmo quando determinados artistas introduzem modalidades, estilos ou recursos, eles trabalham sobre uma matéria cultural que já estava em circulação.
“Ninguém é dono de nada”, afirma Marinho. A frase não apaga a autoria individual nem impede o reconhecimento dos artistas. Ela chama atenção para o caráter relacional de práticas nas quais cada participante recebe conhecimentos anteriores, modifica parte desse repertório e o transmite novamente.
A cultura popular exige, nesse sentido, uma consciência de pertencimento a algo maior do que uma trajetória individual. Quem canta, dança, toca ou declama participa de uma corrente na qual influencia outras pessoas e também é influenciado por elas.
Essa condição coletiva não deve ser confundida com anonimato. Pelo contrário: reconhecer a formação compartilhada de uma manifestação também exige identificar os sujeitos que contribuíram para ela. Foi justamente essa preocupação que levou Marinho a explicar a genealogia de uma de suas declamações mais conhecidas.
Uma montagem feita de muitas vozes
A entrevista parte de uma composição frequentemente apresentada como “Aos críticos”. O público passou a associá-la a Antônio Marinho depois que vídeos de suas apresentações começaram a circular na internet.
O poeta explica, porém, que não escreveu sozinho tudo o que declama. O trabalho é uma montagem formada por estrofes de diferentes autores. Ele a organizou para abrir seus recitais e, com o tempo, a sequência ganhou circulação própria.
A abertura reúne versos do poema “Aos críticos”, de Rogaciano Leite. Depois, Marinho incorpora passagens de Ivanildo Vila Nova, Manuel Xudu, Zé Marcolino e Pinto do Monteiro. Acrescenta ainda uma sextilha de sua autoria e conclui com versos de Lamartine Passos.
O resultado é uma composição nova, mas produzida com materiais de procedências distintas. Sua contribuição está na pesquisa, na seleção, na organização e na performance que aproximou aquelas estrofes e lhes conferiu continuidade diante do público.
Ao explicar detalhadamente de quem é cada parte, Marinho contesta uma dinâmica frequente na circulação digital: a obra se populariza, mas os nomes de seus autores podem desaparecer pelo caminho. Embora se alegre quando as pessoas repetem a montagem, ele faz questão de restituir os créditos.
O gesto evidencia uma tensão importante. A cultura é produzida coletivamente, mas isso não autoriza o apagamento dos artistas envolvidos. A coletividade não elimina a autoria; torna necessário reconstruir a rede de contribuições que sustenta determinada obra.
A internet amplia a roda
Marinho conta que sua montagem começou a ganhar alcance com a circulação de vídeos na internet. Pessoas assistiram às apresentações, transcreveram as estrofes, memorizaram a sequência e passaram a declamá-la em outros espaços.
Nesse percurso, uma performance criada para abrir recitais ultrapassou o encontro presencial e entrou em novos circuitos. A internet não substituiu a oralidade: ampliou suas possibilidades de registro, reprodução e apropriação.
O processo mostra como repertórios populares podem atravessar diferentes meios. Uma estrofe criada na cantoria pode ser incorporada ao cordel, gravada em disco, transformada em recital, registrada em vídeo e reapresentada nas redes sociais. Cada passagem interfere na forma de recepção e também pode modificar o conhecimento sobre sua autoria.
É nesse trânsito que a abordagem folkcomunicacional se torna especialmente produtiva. O objeto não é apenas o poema ou a plataforma utilizada, mas o caminho percorrido pela mensagem: quem seleciona, quem reorganiza, quem publica, quem aprende, quem retransmite e quais relações de poder interferem nessa circulação.
Poesia também responde ao preconceito
Para Marinho, muitas narrativas populares apresentam uma dimensão reativa. Fórmulas como o pedido de licença para contar a própria história revelam que o poeta sabe estar diante de um interlocutor capaz de deslegitimar sua voz.
Essa reação aparece com força em “Aos críticos”. Rogaciano Leite contrapõe sua formação sertaneja aos parâmetros usados para reconhecer a literatura brasileira. Mesmo tendo alcançado projeção intelectual, continuou precisando responder ao preconceito contra sua origem, sua linguagem e sua relação com a cantoria.
Marinho interpreta esse conflito como expressão das desigualdades de classe e do preconceito regional. A desvalorização do poeta nordestino não seria apenas uma divergência estética: envolveria disputas sobre quais grupos podem produzir conhecimento e quais linguagens são consideradas legítimas.
“Palavra é poder. Cultura é ideologia”, afirma.
Na argumentação do entrevistado, manifestações como o maracatu, o caboclinho, a capoeira e formas de sincretismo religioso também carregam marcas de negociações realizadas em contextos de violência. Grupos negros e indígenas empregaram danças, objetos, personagens, crenças e códigos para manter vínculos com suas cosmologias e formas de organização.
Isso não significa que toda manifestação popular seja automaticamente resistente ou que esteja livre de contradições. O que Marinho destaca são experiências nas quais repertórios culturais ofereceram condições para preservar memórias, construir pertencimentos e enfrentar processos de apagamento.
O sertão não cabe no retrato da miséria
A parte final da montagem confronta outro mecanismo de exclusão: a redução do sertão à seca, à fome e à precariedade.
Nos versos de Lamartine Passos, a paisagem sertaneja aparece por meio das chuvas, das cores da Caatinga, dos pássaros, das árvores, da dança, da poesia e da capacidade de improvisação. A intenção não é negar os problemas sociais da região, mas recusar que eles sejam transformados em sua única imagem possível.
Ao apresentar uma natureza viva e uma produção intelectual sofisticada, os versos questionam a figura do sertanejo incapaz de falar, pensar ou criar. A referência a Zefa Teresa, lembrada como cantadora de coco de São José do Egito, também insere uma mestra popular na transmissão desse conhecimento.
A resposta aos estereótipos acontece, assim, dentro da própria linguagem poética. O sertão deixa de ser apenas objeto do discurso produzido por observadores externos e passa a ser narrado por aqueles que conhecem seus códigos, paisagens e experiências.
Uma obra que não termina em um autor
Ao finalizar a entrevista com a declamação integral da montagem, Antônio Marinho oferece uma demonstração prática do argumento desenvolvido durante a conversa.
A performance começa em Rogaciano Leite, atravessa diferentes poetas, recebe a contribuição do próprio Marinho e chega ao público por meio de um podcast. Depois, pode ser recortada, compartilhada, memorizada e novamente declamada.
A obra permanece aberta porque depende de relações. Sua força não está na ausência de autoria, mas na presença de muitas autorias ligadas por um intérprete que conhece suas procedências e assume a responsabilidade de nomeá-las.
Entre a cantoria, o recital e as redes digitais, a poesia revela uma comunicação feita de circulação, reconhecimento e memória. É nesse movimento — e não apenas na classificação de uma manifestação como “popular” — que se pode observar a folkcomunicação em funcionamento.




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