“Colecionar sacis é manter lembranças vivas”: Raízes transforma memória familiar em folkcomunicação
- Andriolli Costa
- há 2 dias
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Documentário de Andriolli Costa retorna à zona rural de Terenos, em Mato Grosso do Sul, para compreender como histórias de saci atravessaram sua família e se tornaram pesquisa, cinema e ativismo midiático em defesa da cultura popular
A velha chácara continuava no mesmo lugar, encarapitada em uma curva da serra, na Colônia Nova, zona rural de Terenos, em Mato Grosso do Sul. O que faltava era o estrondo da voz de Oliveira Serafim da Costa.
Durante décadas, o agricultor cearense radicado no Centro-Oeste recebeu filhos, netos e visitantes com histórias de assombrações, animais descomunais, luzes misteriosas e sacis que assoviavam na mata. Quando morreu, em 4 de julho de 2019, deixou um silêncio que o neto, Andriolli Costa, procurou atravessar com imagens gravadas quatro anos antes.
É desse encontro entre voz, saudade e memória que nasce Raízes — Um filme sobre colecionar sacis. Com aproximadamente 30 minutos, o documentário recupera entrevistas realizadas em 2015 com os avós, os pais, os tios e outros familiares do diretor. Mais do que investigar se alguém realmente viu ou ouviu um saci, o filme procura entender o que essas histórias fizeram com as pessoas que as contaram — e como ajudaram a formar quem agora as registra.
Finalizado durante o isolamento provocado pela pandemia de covid-19, o filme estreou on-line em 4 de junho de 2020. A distância e o luto modificaram o projeto original. O que poderia ter sido uma investigação ampla sobre representações do saci no Brasil se tornou um retorno à família e ao território onde o interesse de Andriolli pelo folclore começou.
“O mais importante é perceber que isso tudo não é passado. É presente”, afirma o diretor na parte final do documentário.
Essa permanência permite compreender Raízes também pela folkcomunicação. O filme não apresenta o folclore somente como assunto, repertório visual ou conjunto de personagens. Ele registra um processo comunicacional: pessoas de uma mesma família narram, escutam, corrigem, confirmam, duvidam e atualizam histórias que organizam sua experiência coletiva.
Quando esse circuito oral é transformado em documentário e levado às plataformas digitais, surge uma nova mediação. O neto que aprendeu ouvindo os avós passa a utilizar os recursos do audiovisual para fazer aquelas vozes circularem além da chácara. É nesse movimento que Andriolli se aproxima daquilo que o pesquisador Osvaldo Trigueiro denomina ativista midiático da rede folkcomunicacional.
A pergunta que leva de volta para casa
“Por onde eu começo?” é a pergunta que abre o filme. A resposta poderia estar em 2008, quando Andriolli iniciou suas pesquisas sobre folclore. Poderia estar em 2015, com a criação do projeto O Colecionador de Sacis. Ou ainda muito antes, nas noites em que visitava a casa dos avós e ouvia histórias para dormir — embora, depois dos causos de saci, dormir nem sempre fosse tão fácil.
O documentário recusa escolher um único começo. A trajetória individual, a memória familiar e a história cultural do personagem são apresentadas como fios de uma mesma trama.
Desde o início do projeto O Colecionador de Sacis, Andriolli defendia a ideia de “tirar o folclore da garrafa”. A expressão invertia uma das imagens mais conhecidas do personagem: a captura com uma peneira e seu aprisionamento em uma garrafa. Em vez de imobilizar o saci, o pesquisador queria acompanhá-lo em seu movimento.
A proposta deu origem a atividades em escolas, feiras literárias, contações de histórias, exposições, artigos, vídeos, contos e podcasts. Ainda assim, uma pergunta permanecia: por que justamente o saci?
Parte da resposta estava na necessidade de enfrentar a visão racista que inferioriza ou demoniza o personagem negro. Outra parte, mais íntima, exigia retornar à Colônia Nova.
No fim de 2015, Andriolli viajou para a chácara dos avós acompanhado de sua então namorada, Jessika Andras, responsável também pela assistência e pelas filmagens. O objetivo inicial era aprender mais sobre o saci. O que encontrou foi uma forma de compreender a própria família.
Duas maneiras de fazer o mundo aparecer
Marlene Almeida e Oliveira Serafim da Costa eram contadores de histórias muito diferentes. A avó narrava com uma voz acolhedora e se envolvia nas situações que reconstituía. Também sabia transformar o folclore em ação. Quando os filhos faziam alguma travessura, ela se escondia entre árvores e moitas para imitar o assovio do saci. Bastava o som para que as crianças interrompessem a arte e corressem para dentro de casa.
Em uma dessas ocasiões, o filho se assustou tanto que caiu de um balanço. Ao perceber o risco, Marlene abandonou a brincadeira. Décadas depois, durante a entrevista, Oliveira oferece sua própria interpretação para o desaparecimento do encantado: quando ela parou de assoviar, o saci sumiu.
A passagem revela que a história nunca pertence inteiramente a uma só pessoa. Um familiar conta, outro acrescenta, alguém corrige uma lembrança e uma nova explicação surge. O saci existe nesse espaço compartilhado, formado tanto pelo medo vivido na infância quanto pelo riso que acompanha sua rememoração.
Oliveira, por sua vez, não apenas contava causos. Na descrição do neto, era “feito de história encarnada”. Nascido no Ceará, carregava para Mato Grosso do Sul experiências e imagens de diferentes territórios. Falava de clarões que atravessavam o varjão, casas assombradas, criaturas impossíveis e encontros ocorridos durante o trabalho rural.
Se Marlene embalava quem a ouvia, Oliveira fazia o “chicote da língua” estalar. Sua maneira de falar, os gestos, os apartes e o ritmo das histórias eram tão importantes quanto os acontecimentos narrados.
O filme preserva essa dimensão performática. As pausas, as risadas, os enganos e as correções não são retirados para produzir uma narrativa perfeitamente limpa. Continuam ali porque a oralidade não transmite somente informação. Ela comunica modos de sentir, vínculos entre pessoas e maneiras de habitar o mundo.
O saci que não cabe em uma definição
Ao lado dos depoimentos familiares, Raízes apresenta elementos de pesquisa sobre a história do saci. O documentário recorda um registro publicado no jornal Correio Paulistano, em 1859, no qual o Saci Sererê aparece como um ser capaz de mudar de tamanho e de forma. Também recupera o Inquérito sobre o Saci, organizado por Monteiro Lobato e publicado em 1918 a partir de relatos enviados por leitores.
As dezenas de depoimentos reunidos no Inquérito mostram personagens com aparências, comportamentos e poderes muito diferentes. Há saci com chifre, olhos de fogo e pé de animal; saci jogador, protetor de plantas ou convertido em pássaro quando está triste.
Essa pluralidade reaparece na própria família do diretor. O saci pode ser um assovio fino que se aproxima por trás, um sopro gelado nas pernas, uma presença invisível, um perseguidor de determinados parentes ou um morador da encruzilhada que recebe fumo como forma de agrado.
Um familiar afirma não acreditar, mas também não duvidar. Outro tenta atribuir o som ao peixe-frito-pavonino, pássaro cujo canto é associado ao assovio do encantado no Centro-Oeste. A explicação racional não encerra o assunto porque a experiência da escuta — o arrepio, o medo e a sensação de proximidade — permanece.
O filme não organiza os testemunhos para decidir quem está certo. Seu interesse está no modo como as narrativas circulam e produzem consequências. Pessoas evitam lugares, carregam alho para afastar o saci, oferecem fumo, correm pela estrada e reconhecem certos parentes como especialmente perseguidos pelo encantado.
É nesse ponto que o mito deixa de ser apenas uma personagem de história infantil. Ele participa da leitura que uma comunidade faz da noite, da mata, dos animais, dos sons e dos perigos. Mesmo quando alguém duvida de sua existência literal, continua compartilhando as regras, os sinais e as lembranças relacionados a ele.
A família como rede folkcomunicacional
Criada por Luiz Beltrão na década de 1960, a folkcomunicação voltou-se inicialmente aos processos pelos quais grupos populares e socialmente marginalizados produzem e fazem circular informações, opiniões e conhecimentos por meios ligados às suas próprias experiências culturais.
Em Raízes, a família funciona como uma pequena rede de comunicação. Seus integrantes não repetem mecanicamente um conteúdo recebido do passado. Cada um seleciona episódios, interpreta sinais e adapta o causo à situação em que volta a narrá-lo.
Marlene utiliza o assovio para disciplinar os filhos e depois transforma a experiência em lembrança bem-humorada. Oliveira relaciona o saci ao universo das assombrações conhecidas no Ceará. Tios e primos reconstroem perseguições ocorridas durante caçadas, festas e caminhadas noturnas. Andriolli reúne essas versões, acrescenta pesquisa histórica e devolve tudo na forma de filme.
Não existe, portanto, uma linha reta entre um emissor e um receptor. Há uma circulação contínua. Quem escutou ontem pode narrar amanhã. Quem duvida também participa, pois sua contestação provoca novas explicações. Até um esquecimento coloca o processo em movimento.
Isso ocorre na história do homem que fez um pacto com o saci. Uma familiar lembra do angu, da cachaça e da esposa que deixou de entregar a oferenda, mas esquece o desfecho. Marlene atribui a narrativa a Oliveira. O neto então procura o avô, que retoma o causo e oferece um final tão violento quanto cômico.
O percurso da pergunta entre diferentes narradores mostra a memória como construção coletiva. A história não estava armazenada integralmente em uma única pessoa. Precisava da rede para voltar a existir.
Do contador de histórias ao ativista midiático
Ao atualizar a folkcomunicação para uma sociedade atravessada pelas mídias, Osvaldo Trigueiro chamou atenção para o papel do ativista midiático da rede folkcomunicacional.
Esse agente conhece os códigos de sua localidade e, ao mesmo tempo, sabe utilizar tecnologias e linguagens midiáticas para fazer a mediação entre redes interpessoais e circuitos mais amplos de comunicação. Sua atuação parte do envolvimento com o grupo e pode ampliar a visibilidade de práticas culturais pouco reconhecidas pelos meios hegemônicos.
É uma chave especialmente útil para compreender o lugar assumido por Andriolli em Raízes. No filme, ele é neto, entrevistador, pesquisador, narrador, editor e personagem. Não observa a família como alguém completamente exterior à experiência. As histórias que registra participam de sua formação e ajudam a explicar por que dedicou a carreira ao folclore.
Ao mesmo tempo, o domínio das linguagens do jornalismo, do cinema e da pesquisa permite que ele retire aqueles causos de seu circuito presencial sem tratá-los como matéria bruta ou curiosidade exótica. As vozes familiares ganham montagem, contextualização histórica, imagens de pássaros, música e circulação digital.
O gesto não transforma automaticamente o filme na reprodução integral da experiência comunitária. Toda montagem seleciona, aproxima passagens e constrói uma interpretação. A folkcomunicação, porém, ajuda a perguntar de onde parte essa mediação, a quais vínculos ela responde e quem permanece reconhecível na obra.
Em Raízes, o mediador não substitui os narradores populares. Sua função é criar condições para que as vozes de Marlene, Oliveira e dos demais familiares atravessem outra fronteira comunicacional.
Mais do que uma apropriação do folclore pela mídia
Essa posição também diferencia o documentário de uma utilização apenas decorativa do folclore. Quando uma empresa, emissora ou instituição retira um personagem popular de seu contexto para adaptá-lo a uma campanha ou produto, a folkcomunicação costuma recorrer ao conceito de folkmídia para examinar a apropriação desses repertórios pelos meios e por agentes externos.
Raízes realiza outro movimento. O audiovisual não chega de fora para capturar uma narrativa pronta. Ele nasce dentro da relação familiar que pretende registrar.
O saci tampouco aparece apenas como imagem reconhecível — uma perna, uma carapuça e um cachimbo. Surge como presença vinculada à vida cotidiana: o assovio ouvido no mangueiro antes da ordenha, a ameaça utilizada pela mãe, a companhia temida durante uma caminhada, o agrado deixado sobre um toco e a história que passa dos avós para os netos.
Isso não significa que o documentário esteja fora das tensões da mídia. Ao chegar ao YouTube, a festivais e a mostras, as histórias encontram públicos que desconhecem a família e o território. Passam a circular em ambientes regulados por curadorias, plataformas e expectativas audiovisuais.
O ativismo folkcomunicacional está justamente nessa negociação. Ele utiliza os meios contemporâneos sem reduzir a cultura popular à lógica desses meios. Em vez de aprisionar o saci numa representação única, permite que suas contradições e variações continuem visíveis.
Um filme transformado pelo luto
Quando as imagens foram gravadas, em 2015, Oliveira ainda estava vivo. O material permaneceu guardado enquanto o projeto mais abrangente imaginado por Andriolli se tornava difícil de realizar.
A morte do avô, aos 92 anos, alterou o sentido das gravações. O que havia sido produzido como pesquisa passou a carregar o valor de uma presença irrecuperável.
Durante a pandemia, quando tantas pessoas estavam afastadas de suas famílias, o diretor retomou o arquivo e encontrou ali não apenas informações sobre o saci, mas a voz, os gestos e o humor do avô. A estreia on-line ocorreu exatamente um mês antes do primeiro aniversário de sua morte.
No documentário, Andriolli evita separar o interesse pelo folclore da experiência do luto. Afirma que Oliveira “se encantou” e foi viver no infinito das grandes histórias. A expressão não nega a morte causada pelo câncer, mas a reinscreve no mesmo universo simbólico que o avô ajudou a construir.
O folclore torna-se, assim, uma linguagem para atravessar a perda. Não porque elimine a ausência, mas porque permite transformar saudade em narrativa.
“Quando a saudade se aninha quentinha no peito, ela sai na forma de história”, diz a narração.
O filme concretiza essa passagem. A chácara pode ter silenciado, mas a voz de Oliveira continua provocando risos ao narrar o destino absurdo do homem que descumpriu o pacto com o saci. A morte não converte o contador em uma imagem solene e imóvel. Preserva justamente aquilo que o fazia reconhecível: a capacidade de surpreender quem o escutava.
Colecionar sem aprisionar
No encerramento, o título do documentário recebe sua explicação. Colecionar sacis não significa capturar seres fantásticos e colocá-los em garrafas. Significa reconhecer as histórias, pessoas e afetos que permanecem conosco e formam uma coleção impossível de organizar em uma prateleira.
“Colecionar sacis é isso. É manter sempre perto essas lembranças vivas”, afirma Andriolli.
O próprio personagem oferece a imagem para essa continuidade. Segundo uma narrativa incorporada ao projeto, quando o saci completa seu ciclo de aventuras e morre aos 77 anos, transforma-se em orelha-de-pau. O encantado muda de forma e continua presente, agora como marca no tronco e convite à recordação.
Essa transformação resume também o processo folkcomunicacional mostrado no filme. O causo contado à noite vira lembrança de infância. A lembrança se torna entrevista. A entrevista se transforma em documentário. O documentário encontra novos públicos, desperta memórias de outras famílias e volta a produzir narrativas. Nada permanece exatamente igual, mas o vínculo não desaparece.
Das gravações familiares às mostras de cinema
Depois da estreia em 2020, Raízes continuou ampliando o circuito iniciado na Colônia Nova. O filme integrou a primeira Mostra SACI — Somando Arte no Cinema Independente, em 2023, e voltou a ser exibido em 2025 durante a Mostra Folkcom, na programação da 22ª Conferência Brasileira de Folkcomunicação, realizada na UERJ e na UFF.
A passagem por esses espaços reforça o encontro entre produção artística e pesquisa. O documentário não serve apenas para ilustrar uma exposição teórica sobre folclore. Ele próprio produz conhecimento ao preservar vozes, registrar modos de narrar e tornar perceptível uma rede de transmissão cultural.
Sua contribuição para a folkcomunicação está menos em apresentar uma definição da teoria do que em permitir observá-la em funcionamento. Marlene, Oliveira e os demais familiares comunicam saberes por meio de causos, assovios, gestos, brincadeiras e lembranças. Andriolli recebe esse repertório, devolve perguntas e o reorganiza em outra linguagem. O público, por sua vez, relaciona aquelas histórias às próprias experiências familiares.
O circuito permanece aberto.
Raízes que não impedem o movimento
O título Raízes poderia sugerir uma busca por origem pura, fixa e anterior a todas as transformações. O filme segue em direção oposta.
A família retratada é formada por deslocamentos. Oliveira transporta histórias do Ceará para o Centro-Oeste. O saci se mistura ao canto de pássaros locais e às experiências vividas na Colônia Nova. O neto deixa Mato Grosso do Sul, passa a viver em outros estados e leva consigo as narrativas ouvidas na infância.
As raízes, portanto, não prendem. Oferecem um ponto a partir do qual é possível continuar. Essa compreensão se aproxima de uma folkcomunicação atenta ao dinamismo da cultura popular. Tradição não é a repetição intacta do passado, mas um repertório atualizado em cada nova situação de encontro.
O saci que atravessa Raízes é simultaneamente personagem familiar, encantado regional, objeto de pesquisa e imagem capaz de conectar pessoas que nunca estiveram em Terenos. Sua força está justamente em não caber inteiro em nenhuma dessas posições.
Ao perguntar “quais são os seus sacis?”, o documentário devolve a história ao público. Cada pessoa é convidada a reconhecer as vozes, os lugares e as lembranças que continuam agindo em sua vida.
É assim que o filme tira o folclore da garrafa: não apenas ao libertar um personagem, mas ao revelar a rede de pessoas que o mantém vivo.




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