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Antes da conferência começar, Parintins já fazia Folkcomunicação

Vídeos com personagens do Boi Garantido, mobilização universitária, orientações de viagem e a recepção dos pesquisadores no porto mostram que a XIX Folkcom começou muito antes da abertura oficial.


Meses antes de professores, estudantes e pesquisadores ocuparem as salas do Instituto de Ciências Sociais, Educação e Zootecnia da Universidade Federal do Amazonas, a Folkcom 2018 já circulava por Parintins. Circulava nas redes sociais, nas salas de aula, nos barcos que atravessam o Amazonas e nas vozes de personagens ligados ao festival folclórico da cidade.


Quem convidava o público não era apenas a comissão organizadora. Em um dos vídeos da campanha, Denildo Piçanã, tripa do Boi Garantido, chamava pesquisadores e estudantes para a conferência. Também participaram da mobilização a porta-estandarte e a rainha do folclore do boi vermelho e branco, além de representantes da Prefeitura, de cursos universitários e de instituições locais.


Esses registros ajudam a contar uma história que vai além da divulgação de um congresso. Antes mesmo de se transformar em mesas, grupos de trabalho e oficinas, a XIX Conferência Brasileira de Folkcomunicação já colocava em prática aquilo que pretendia discutir: as formas pelas quais grupos, personagens e instituições populares produzem, adaptam e fazem circular suas próprias mensagens.


Quando a cultura popular faz o convite

Realizada de 25 a 27 de junho de 2018, no ICSEZ/UFAM, a conferência teve como tema “Folkcomunicação, Ancestralidade e Desenvolvimento Local”. A programação ocorreu às vésperas do Festival Folclórico de Parintins, quando a cidade já vivia intensamente a preparação para a disputa entre Garantido e Caprichoso. A proximidade não apareceu apenas como cenário. A cultura do boi-bumbá tornou-se uma das linguagens da própria campanha.


Em vídeos curtos, gravados para as redes sociais, personagens reconhecidos pela população convidavam o público para o encontro. Ao fazerem isso, transportavam a conferência do vocabulário acadêmico para uma linguagem familiar à cidade. A figura popular deixava de ser apenas tema de pesquisa e passava a atuar como mediadora entre o evento, a universidade e a comunidade.


A campanha mostrava, assim, uma inversão significativa: não eram somente os pesquisadores que chegariam a Parintins para observar e interpretar a cultura local. Era a própria cultura local que se apresentava, tomava a palavra e convidava os pesquisadores a entrar.


Uma conferência que precisava ensinar o caminho

Realizar um encontro nacional em uma ilha amazônica exigia mais do que publicar datas e abrir inscrições. Era necessário explicar como chegar, onde circular e o que os visitantes encontrariam em Parintins.


Ainda no fim de 2017, a mobilização começou a publicar vídeos com orientações sobre as diferentes formas de viagem. A campanha apresentou as rotas de avião, lancha rápida e barco de recreio, além de mostrar lugares de convivência e lazer, como o Píer do Caçapava.


As informações de serviço também cumpriam uma função cultural. Ao explicar a viagem pelo rio, os vídeos introduziam os participantes em uma experiência amazônica marcada por outros tempos, distâncias e formas de deslocamento. O caminho até a conferência passava a fazer parte da narrativa do encontro.


Essa atenção à logística foi decisiva para um evento que reuniu pesquisadores de diferentes regiões do país. Mesmo diante das dificuldades de acesso, a Folkcom 2018 chegou ao fim com 97 trabalhos distribuídos por 14 sessões de grupos temáticos.


A universidade mobiliza suas próprias redes

Dentro do ICSEZ, a preparação também ganhou corpo. Em maio, integrantes da organização percorreram as turmas para divulgar a conferência, estimular inscrições e convidar estudantes a submeter trabalhos. Um dos registros preservados resume a movimentação: “Hoje foi dia de divulgação da Folkcom 2018 nas turmas do ICSEZ em Parintins!”.


Houve reuniões com voluntários, divulgação de oficinas e participação de diferentes cursos. Estudantes e professores de Serviço Social, Artes e Comunicação apareceram na campanha. O lançamento da Folkcom 2018 foi realizado em conjunto com o IV Encontro de Comunicação do ICSEZ, fortalecendo a articulação entre a conferência nacional e a produção acadêmica desenvolvida na própria região.


A mobilização revela que a universidade não funcionou apenas como sede física. Ela se transformou em uma rede local de acolhimento, produção de conteúdo e circulação de informações. Professores, estudantes e voluntários ajudaram a traduzir um encontro científico para a realidade cotidiana de Parintins.


Pelo rio, chegam os pesquisadores

No dia 24 de junho, véspera da abertura, uma fotografia registrou a chegada dos convidados ao Porto de Parintins. A imagem sintetiza os meses de preparação. Depois dos vídeos que ensinavam os caminhos, dos convites feitos pelos personagens do boi e da divulgação nas salas de aula, a conferência finalmente desembarcava na cidade.


A chegada pelo porto também oferecia uma imagem diferente daquela normalmente associada aos eventos científicos. Em vez de aeroportos, centros de convenções e grandes hotéis, apareciam o rio, a embarcação e a recepção na margem. A geografia amazônica não era um obstáculo escondido pela organização, mas parte visível da experiência da Folkcom 2018.


A cultura popular entra na programação

Quando a conferência começou, a articulação construída anteriormente continuou dentro da programação. Entre as atrações culturais esteve o Carimbó de Santarém, cujo registro se tornou um dos vídeos mais vistos daquele período. A presença do carimbó estabelecia uma ligação entre diferentes territórios e expressões culturais da Amazônia.


As atividades acadêmicas também dialogaram com questões contemporâneas da região. A conferência promoveu sete oficinas sobre temas como produção audiovisual, mercado da comunicação no Amazonas, redes sociais, identidade e jornalismo cultural.


Rafael Lopes discutiu as redes colaborativas e criativas envolvidas na produção e circulação de filmes amazônicos. Betânia Maciel abordou as relações entre inclusão digital e inclusão social, observando como grupos historicamente subalternizados utilizam as redes como espaços públicos de expressão cultural. Karina Janz Woitowicz coordenou uma oficina dedicada ao jornalismo cultural e à Folkcomunicação.


A variedade de assuntos mostrou que a teoria criada por Luiz Beltrão continuava capaz de acompanhar novos objetos, tecnologias e práticas comunicacionais. A tradição popular não aparecia isolada do presente: relacionava-se com o audiovisual, as plataformas digitais, o mercado de trabalho e as disputas por visibilidade.


Uma celebração atravessada pelo luto

A conferência também foi marcada pela morte de José Marques de Melo, ocorrida poucos dias antes da abertura. Professor, pesquisador e um dos principais responsáveis pela consolidação dos estudos de Folkcomunicação, Marques de Melo desejava conhecer o Festival Folclórico de Parintins e participar daquele encontro.


A programação, inicialmente concebida para celebrar o centenário de Luiz Beltrão, incorporou homenagens à memória e ao legado de Marques de Melo. Na mesa dedicada ao pesquisador, colegas recordaram sua contribuição para a comunicação brasileira e para a criação da Rede Folkcom.


O encontro passou a reunir sentimentos distintos: a alegria pela realização de uma conferência longamente preparada e a tristeza pela ausência de quem ajudara a torná-la possível.


A Folkcom já estava acontecendo

A página oficial da Folkcom 2018 não está mais disponível, mas parte de sua memória permanece nos registros publicados pela Jornada de Folkcomunicação da Pan-Amazônia e pelo ICSEZ. Fotografias, convites e vídeos de poucos segundos permitem reconstituir uma mobilização que começou muito antes da primeira mesa.


Vista hoje, essa campanha ajuda a compreender a conferência para além de sua programação formal. Houve Folkcomunicação quando os personagens do boi traduziram o convite acadêmico para a linguagem da festa; quando estudantes percorreram as salas de aula; quando os vídeos explicaram os caminhos pelo Amazonas; quando os moradores receberam os visitantes no porto; e quando ritmos, saberes e experiências amazônicas ocuparam o espaço universitário.


Em junho de 2018, a conferência chegou a Parintins. Mas Parintins não esperou sua abertura para começar a fazer Folkcomunicação.

 
 
 

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