“A liberdade se conquista”: entrevista em Valdivia transforma mural universitário em aula de Folkcomunicação
- Andriolli Costa
- há 5 horas
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Registro realizado durante o III Encontro Internacional preserva as reflexões de Gustavo Rodríguez Bustamante sobre a aproximação entre Brasil e Chile e revela uma parede da Universidade Austral como espaço de poesia, memória e protesto
O mural aparecia inicialmente como cenário. Atrás do professor Gustavo Rodríguez Bustamante, versos, desenhos, homenagens e palavras de protesto ocupavam uma parede do Campus Isla Teja, da Universidade Austral do Chile, em Valdivia. Ao longo da entrevista, porém, a superfície deixou o segundo plano e se tornou o centro da conversa.
Realizada pela pesquisadora Sonia Regina Cunha durante o III Encontro Internacional de Folkcomunicação, a entrevista começou com uma discussão sobre as relações acadêmicas entre Brasil e Chile. Terminou diante das mensagens deixadas por estudantes e dos poemas de autores vinculados ao Sul do país.
Na leitura de Gustavo, a parede oferecia aos jovens um espaço para dizer aquilo que nem sempre conseguiam expressar dentro das salas de aula. “Os estudantes colocam aqui o que às vezes não se atrevem a colocar nas aulas”, explicou. “Isso é espontâneo, nasce de dentro deles.”
O encontro foi realizado entre 7 e 10 de junho de 2016, com o tema “Cultura popular, atores locais e comunicação ibero-americana”. Pesquisadores das Ciências Sociais e Humanas, das Letras, das Artes e da Comunicação reuniram-se na Universidade Austral do Chile para aproximar estudos desenvolvidos em diferentes países.
A programação anunciada pela própria universidade procurava estabelecer um diálogo entre produção acadêmica, artistas populares e atores culturais locais. Naquela entrevista, o princípio encontrou uma tradução concreta: a conversa científica caminhou em direção a um mural construído pela memória coletiva.
Uma relação separada pelo idioma
Gustavo Rodríguez Bustamante era linguista e professor aposentado da Faculdade de Filosofia e Humanidades. Mesmo depois de deixar a carreira regular, continuava colaborando com a formação dos estudantes de Jornalismo em atividades relacionadas à oralidade e à pronúncia diante de microfones e câmeras.
Sua trajetória, no entanto, também estava ligada diretamente à institucionalização dos estudos de Comunicação na Universidade Austral. Rodríguez foi prodecano da Faculdade de Filosofia e Humanidades e fundador e diretor do Instituto de Comunicação Social da UACh.
Durante a entrevista, ele reconheceu o prestígio da educação e das universidades brasileiras, mas observou que o conhecimento sobre o país ainda circulava pouco no Chile.
“A grande barreira que temos é o idioma”, afirmou.
Para Gustavo, a distância geográfica não explicava sozinha o afastamento. O Chile mantinha relações acadêmicas com a Espanha e com outros países ainda mais distantes, enquanto o intercâmbio com o Brasil permanecia dependente das aproximações construídas por alguns professores.
Na área da Folkcomunicação, pesquisadores como Cristian Yáñez Aguilar já desenvolviam um trabalho permanente com colegas brasileiros. O III Encontro demonstrava que essa relação poderia ser ampliada. “A relação entre Chile e Brasil no campo acadêmico deveria ser mais intensa”, defendeu Gustavo.
A responsabilidade, em sua avaliação, não cabia apenas às instituições chilenas. O Brasil também precisaria buscar formas de colaboração por meio de pesquisas, publicações e projetos compartilhados.
O encontro realizado em Valdivia representava um passo nessa direção. A teoria formulada por Luiz Beltrão chegava ao Sul do Chile não como um conhecimento pronto a ser simplesmente transferido, mas como ponto de partida para comparar experiências latino-americanas.
A universidade no centro das disputas
Antes de caminhar pelo mural, Gustavo apresentou a Universidade Austral como uma instituição de vocação regional. Além dos campi de Valdivia, a universidade mantinha atividades em Puerto Montt e presença na Patagônia chilena.
A descrição institucional foi atravessada pelo cenário político de 2016. Naquele período, estudantes chilenos continuavam mobilizados por educação pública, gratuita e de qualidade. Muitos precisavam recorrer a créditos para pagar a formação e concluíam os cursos carregando dívidas universitárias.
Gustavo reconhecia os avanços promovidos pelas políticas de gratuidade, mas observava que o atendimento ainda era parcial e dependia da disponibilidade de recursos públicos. A luta estudantil, portanto, permanecia ativa.
Esse contexto ajuda a compreender por que o mural concentrava tantas mensagens sobre liberdade, violência, memória e desigualdade. A parede não estava separada da vida universitária. Funcionava como uma extensão das disputas que atravessavam o campus e a sociedade chilena.
O próprio professor considerava que a universidade deveria abrir mais espaços para manifestações dessa natureza. Aquilo que aparecia espontaneamente no muro revelava pensamentos, incômodos e experiências que os modelos formais de ensino nem sempre conseguiam acolher.
Quando a parede assume a palavra
Uma placa instalada junto ao mural recordava estudantes assassinados durante a ditadura de Augusto Pinochet. Ao lado da homenagem, diferentes gerações haviam acrescentado imagens e fragmentos poéticos.
Gustavo percorreu esse conjunto diante da câmera. Leu frases, identificou autores e comentou a profundidade de versos que conviviam sem uma organização aparente. Havia referências à chuva, aos rios, à primavera, à liberdade, ao trabalho, à dor e à memória.
Em determinado ponto, a inscrição era direta: “A liberdade se conquista”.
Em outro, trabalhadores e pedreiros eram colocados acima daqueles que se proclamavam representantes exclusivos da cultura. Para Gustavo, a frase possuía uma força particular porque reconhecia o saber de quem constrói casas e participa concretamente da produção da vida cotidiana.
O mural também guardava uma imagem de Frida Kahlo acompanhada da inscrição: “Aqui estou eu, Frida, sentindo-me estranha. Meu sangue é um milagre”.
Esses registros não obedeciam à linguagem de uma publicação científica, de uma aula ou de um documento administrativo. Comunicavam por meio de versos breves, imagens, referências conhecidas e frases capazes de estabelecer vínculos imediatos com quem atravessava o campus.
O que os estudantes não encontravam espaço para desenvolver nos canais oficiais reaparecia na parede. O mural permitia denunciar, homenagear, lembrar e compartilhar interpretações sobre a universidade e o mundo.
Uma cartografia poética de Valdivia
A leitura de Gustavo transformou o mural em uma cartografia da poesia produzida no Sul do Chile.
Entre os autores lembrados estava Pedro Guillermo Jara, escritor, editor, gestor cultural e criador da revista Caballo de Proa. Radicado em Valdivia desde a década de 1970, Jara experimentou formatos literários pouco convencionais e desenvolveu atividades de formação de leitores em escolas públicas da região.
Outro nome identificado foi Pedro Montealegre, ex-aluno de Jornalismo recordado com um fragmento sobre o “moinho da memória”. A presença de sua poesia na parede aproximava a produção literária da história afetiva da própria universidade.
A cultura mapuche aparecia nos versos de Leonel Lienlaf: o segredo estava na pedra pisada diariamente, nos caminhos, nos musgos e nas plantas. A formulação deslocava a procura pelo conhecimento para aquilo que existe no território e costuma passar despercebido.
Também estavam presentes a poeta e atriz Maha Vial, cuja obra articulou corpo, violência, feminismo e resistência; Jorge Torres, lembrado por um verso sobre a espera pelo sol e pela primavera; e Jorge Velásquez, para quem “a poesia é o único caminho de regresso às ilhas”.
Ao reconhecer cada nome, Gustavo não tratava as inscrições como frases anônimas ou decoração urbana. Ele reconstruía as relações entre autores, estudantes, livros, territórios e a vida cultural de Valdivia.
A parede funcionava como arquivo, mas não como um arquivo encerrado. Os poemas continuavam disponíveis para novas leituras e podiam adquirir outros sentidos conforme diferentes pessoas circulavam diante deles.
Um meio popular dentro da universidade
A apresentação da entrevista relacionou o mural à definição de Folkcomunicação apresentada por Luiz Beltrão: um processo artesanal e horizontal, próximo da comunicação interpessoal e sustentado por linguagens e canais familiares aos grupos que os utilizam.
A parede reunia várias dessas características. Não dependia de uma editora, de uma emissora ou de uma programação institucional. Sua construção acontecia pela sobreposição de contribuições e pela ocupação coletiva do espaço.
Isso não significa que todo mural ou grafite seja automaticamente folkcomunicacional. A potência daquele caso estava na relação entre os sujeitos, as mensagens e o território. Estudantes utilizavam um meio acessível para expressar aquilo que não circulava com a mesma liberdade nos espaços formais. Poetas regionais encontravam visibilidade fora dos centros culturais dominantes. Mortos e vítimas da ditadura permaneciam presentes na vida cotidiana do campus.
O mural operava, assim, como meio de informação, memória e interpretação. Cada verso selecionava uma experiência e oferecia ao leitor uma maneira de compreender a liberdade, a violência, o trabalho, a identidade ou o pertencimento ao Sul. A entrevista também mostrou a importância do agente responsável por traduzir esse repertório. Gustavo conhecia os autores, reconhecia os fragmentos e explicava suas relações com Valdivia. Ao fazer a leitura diante da câmera, transformava uma experiência situada em conhecimento capaz de circular para públicos de outros países.
A voz preservada de Gustavo Rodríguez
Gustavo Rodríguez Bustamante morreu em março de 2026, aos 87 anos. Ao comunicar sua morte, a Universidade Austral do Chile recordou seus 28 anos de atuação e sua contribuição para a criação, o desenvolvimento e a consolidação do Instituto de Comunicação Social.
O diretor do instituto, Rodrigo Moulian, destacou o tratamento horizontal, a preocupação com as pessoas e a capacidade de Gustavo de construir um ambiente marcado pela coesão e pelo sentimento de pertencimento.
Essas características também aparecem no registro realizado dez anos antes.
Diante da parede, Gustavo não se limitou a explicar seu conteúdo. Caminhou por ela com curiosidade, leu os versos em voz alta, recordou antigos estudantes e apresentou poetas que poderiam permanecer desconhecidos para quem chegava de fora.
O professor que identificava o idioma como barreira também desempenhava ali o papel de mediador. Traduzia não apenas palavras, mas relações culturais, memórias locais e formas de pertencimento.
A entrevista começou perguntando como Brasil e Chile poderiam intensificar sua cooperação científica. A resposta apareceu gradualmente no próprio percurso da conversa: aproximar os países exigia conhecer as universidades, mas também escutar os territórios, seus poetas, seus estudantes e as mensagens inscritas fora dos espaços oficiais.





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