“A baiana não fala hora nenhuma”: Renata Dias reivindica o direito à autonarração na Folkcom 2023
- Andriolli Costa
- há 1 dia
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Em palestra realizada na UFRB, pesquisadora ouviu Dulce Mary, Sueli Silva e Rosilene Santana para mostrar como mulheres transformadas em símbolos da Bahia ainda disputam o poder de narrar as próprias experiências.
Aos 12 anos, durante a Lavagem do Bonfim, Renata Dias Oliveira fotografou uma baiana que se preparava para conceder uma entrevista. A mulher estava séria, com unhas compridas, posicionada diante de uma repórter que organizava as perguntas. Enquanto observava a cena por trás da câmera, a menina não ficou apenas curiosa com a roupa, os adereços ou a aparência daquela mulher. Queria saber o que ela diria.
“O que ela vai falar? Ela vai ser perguntada sobre o quê? O que será que ela vai responder?”, recordou Renata, décadas depois, diante do público reunido no Centro de Artes, Humanidades e Letras da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (CAHL/UFRB), em Cachoeira.
A lembrança abriu a palestra “Autonarração: por uma outra política do imaginário, por um outro imaginário da política”, apresentada no segundo dia da XXI Conferência Brasileira de Folkcomunicação, a Folkcom 2023. Realizado entre 17 e 19 de agosto, o evento teve como tema “Processos folkcomunicacionais e ativismos antirracistas”.
Mediada inicialmente pela professora Daniela Abreu Matos e, posteriormente, pelo professor Guilherme Fernandes, a conferência marcou a primeira apresentação presencial da pesquisa desenvolvida por Renata. A investigação havia sido escrita e defendida durante a pandemia, quando os encontros acadêmicos ainda aconteciam de maneira remota.
Para a pesquisadora, estar novamente diante de outras pessoas não constituía apenas uma mudança de formato. A presença, a escuta e o encontro também faziam parte do conteúdo que ela se propunha a discutir.
Uma apresentação dedicada a Mãe Bernadete
Antes de entrar nos resultados da pesquisa, Renata dedicou sua fala a Mãe Bernadete Pacífico, liderança quilombola e ialorixá assassinada no dia anterior, em Simões Filho, na Região Metropolitana de Salvador.
A homenagem aproximou o debate acadêmico da realidade enfrentada por mulheres negras, lideranças quilombolas e representantes das religiões de matriz africana. Mãe Bernadete atuava na defesa do Quilombo Pitanga dos Palmares e dos direitos das comunidades tradicionais.
Para Renata, sua morte expunha a distância entre o reconhecimento público dessas mulheres e as condições concretas oferecidas para que elas possam viver, trabalhar, falar e exercer suas lideranças com segurança.
“Esse trabalho sempre teve essa pulsão: tentar materializar em dados e narrativas, seguindo o rigor que a academia reconheça, de que maneira essas discrepâncias nos afetam”, afirmou.
Daquilo que a baiana tem ao que ela diz
A palestra foi construída a partir da dissertação “O que é que a baiana diz? Enunciações de identidade e memória das baianas de acarajé”, defendida por Renata em 2022 no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFRB, sob orientação de Daniela Abreu Matos.
O título estabelece um contraponto direto com uma das composições mais conhecidas de Dorival Caymmi. Na canção, a baiana é apresentada por seus balangandãs, suas roupas, seus movimentos e sua maneira de dançar. Ela pode ser observada, admirada e transformada em símbolo, mas não assume a palavra.
“O autor vai descrevendo o que a baiana tem, descreve seus balangandãs, a roupa, como ela dança, e a baiana não fala hora nenhuma”, observou Renata.
A pesquisadora percebeu que essa ausência não se limitava a uma música. A baiana de acarajé é constantemente representada no cancioneiro popular, na literatura, na pintura, no cinema, na dança, na fotografia, no turismo e na publicidade. Mesmo assim, são raras as obras nas quais ela aparece como sujeito da própria narrativa.
A mudança de pergunta, portanto, é também uma mudança política. Em vez de perguntar o que a baiana tem, como se ela fosse um objeto a ser explicado, Renata pergunta o que ela pensa, recorda, deseja, recusa e tem a dizer sobre o mundo.
Inspirada em Lélia Gonzalez, a pesquisa parte do princípio de que a mulher negra não deve permanecer como objeto de discursos produzidos por outras pessoas. Como sintetizou a intelectual brasileira: “O lixo vai falar, e numa boa”.
Visibilidade não significa poder
Uma das principais contradições discutidas na palestra está na diferença entre protagonismo simbólico e poder concreto.
Poucas figuras são tão associadas à Bahia quanto a baiana de acarajé. Ela aparece em campanhas publicitárias, cartões-postais, festas populares, músicas e projetos turísticos. Sua imagem ajuda a vender uma ideia de Bahia acolhedora, sensual, religiosa e familiar.
Essa visibilidade, entretanto, não garante melhores condições de trabalho, proteção contra o racismo religioso ou participação nas decisões sobre a maneira como essas mulheres são representadas.
A partir do pensamento de Patricia Hill Collins, Renata explicou que os estereótipos podem funcionar como “imagens de controle”. Eles não são apenas ideias equivocadas sobre determinado grupo. São representações que limitam a forma como as pessoas podem ser vistas e, consequentemente, os lugares sociais que elas podem ocupar.
A baiana sorridente, disponível e acolhedora pode ser conveniente para o turismo e para a publicidade. Mas essa imagem dificilmente mostra o trabalho realizado antes de o tabuleiro chegar à rua, as responsabilidades familiares, os conflitos religiosos, os projetos pessoais e as diferentes identidades existentes dentro da categoria.
“No contexto do imaginário social representativo da Bahia, as baianas de acarajé mantêm um protagonismo meramente simbólico. O cotidiano confirma a precariedade da experiência social da baiana de acarajé”, concluiu a pesquisadora.
Três mulheres para além da imagem
Para deslocar o olhar da representação para a autonarração, Renata ouviu três mulheres: Dulce Mary, de Salvador; Sueli Silva, de Cachoeira; e Rosilene dos Santos Santana, de Vitória da Conquista.
Dulce Mary começou a acompanhar a mãe na venda do acarajé aos sete anos. O ponto mantido pela família na Praça da Sé atravessa gerações e constitui parte importante de sua história. Fora do tabuleiro, Dulce construiu uma coleção com mais de cem bonecas Barbie, para as quais cria roupas, cenários e pequenas narrativas.
O assunto surgiu somente depois de a entrevista terminar e os gravadores serem desligados. O detalhe mostrou que, para conhecer uma pessoa, não basta perguntar apenas sobre o papel pelo qual ela se tornou publicamente reconhecida. A baiana também coleciona, imagina, inventa e produz outros mundos.
Sueli Silva, conhecida como Baiana do Sax, herdou o ofício da mãe e acompanhou desde criança a venda de acarajé em feiras do interior da Bahia. Fascinada pela música, comprou o primeiro saxofone com o pagamento recebido por um trabalho como pedreira.
Ela aprendeu a ler partituras e passou a tocar no próprio tabuleiro. Entre uma atividade e outra na panela, estudava músicas e construía um espaço particular de liberdade. Sueli também concluiu o ensino médio e tentou duas vezes ingressar no curso de Medicina.
Rosilene Santana começou a fazer acarajé dentro do terreiro, como parte do culto aos orixás. Mais tarde, a produção tornou-se uma forma de sustentar a família. Baiana de acarajé, alorixá, quilombola, lésbica e defensora dos direitos humanos, ela relatou situações de racismo religioso enfrentadas em Vitória da Conquista.
As três trajetórias demonstram que não existe uma única maneira de ser baiana de acarajé. A categoria reúne diferentes experiências de família, trabalho, religiosidade, sexualidade, criação artística, cuidado comunitário e participação política.
Uma metodologia baseada no “conte mais”
As entrevistas foram realizadas durante a pandemia e tiveram duração aproximada de uma hora a uma hora e meia. O material foi analisado a partir de três “avenidas identitárias”: gênero, raça e religiosidade.
Renata adaptou o protocolo tradicional de entrevista narrativa. Em sua formulação mais conhecida, esse tipo de entrevista pode começar com uma pergunta ampla, permitindo que a pessoa fale livremente. A pesquisadora, entretanto, considerou que essa estratégia não seria suficiente para mulheres negras que raramente haviam encontrado espaços nos quais pudessem falar longamente, sem interrupções ou julgamentos.
“Não é dada à mulher negra essa fala livremente, sem medo, sem receios, sem controle, sem tempo”, explicou.
Por isso, a entrevista foi organizada com 12 perguntas abertas. Não funcionava como um questionário rígido, mas como um convite permanente para continuar: “Conte um pouco mais”.
A escolha metodológica carrega uma lição importante para o jornalismo e para a pesquisa em comunicação. Não basta oferecer o microfone. É necessário construir condições para que a pessoa se reconheça como alguém cuja história merece tempo, atenção e contexto.
Gênero, raça e religiosidade atravessam o tabuleiro
No campo das relações de gênero, as três entrevistadas mencionaram a ausência ou a falta de responsabilidade dos pais. Em seus relatos, foram principalmente as mães que sustentaram as famílias por meio da venda do acarajé.
As histórias individuais encontraram, assim, uma experiência social compartilhada: mulheres negras que transformaram o trabalho nas ruas em uma forma de garantir sobrevivência, cuidado e continuidade familiar.
Ao tratar da raça, Renata apresentou às entrevistadas uma imagem histórica de mulheres negras comerciantes e uma fotografia contemporânea de uma baiana. As respostas articularam passado e presente.
Rosilene viu nas mulheres da imagem histórica “rainhas ou princesas” e afirmou que precisava continuar. Sueli reconheceu a luta das mulheres que vieram antes dela. Dulce identificou, na representação contemporânea, a força e o orgulho da categoria.
Renata relacionou essas respostas ao pensamento de Muniz Sodré e à noção de memória coletiva. O trauma produzido pela escravização não aparece apenas como recordação da violência. Ele também é transformado em continuidade, pertencimento e compromisso com as gerações anteriores.
Na dimensão religiosa, os depoimentos mostraram os efeitos das perseguições aos terreiros e das tentativas de separar o acarajé de sua origem sagrada. A mudança do nome do alimento para expressões como “bolinho de Jesus”, por exemplo, foi interpretada por Rosilene como apropriação e apagamento.
Não se trata somente de uma disputa comercial. O acarajé carrega conhecimentos, práticas religiosas, memórias familiares e modos de compreender o mundo. Quando esses saberes são desqualificados, o que está em operação é também uma forma de racismo que decide quais conhecimentos merecem ser reconhecidos.
Esferas possíveis de liberdade
Embora tenha exposto as violências enfrentadas pelas entrevistadas, Renata não resumiu suas vidas ao sofrimento.
Dulce encontra na coleção de bonecas um território de imaginação. Sueli transforma o saxofone em criação artística no cotidiano do tabuleiro. Rosilene atua na defesa dos direitos humanos e no cuidado exercido dentro do terreiro.
São aquilo que Renata chamou de “esferas de liberdade possíveis”: espaços criados pelas próprias mulheres para preservar sonhos, redefinir identidades e ultrapassar os limites impostos pelas representações sociais.
A noção dialoga com o “poder da autodefinição”, formulado por Patricia Hill Collins. Mesmo submetidas a imagens de controle, mulheres negras constroem formas particulares de dizer quem são. A autonarração, nesse sentido, não é apenas o ato de contar uma história. É a possibilidade de disputar o significado da própria existência.
A pesquisadora também entra na história
Durante o debate, Renata foi questionada sobre a presença da primeira pessoa na dissertação e sobre a decisão de preservar extensos trechos das entrevistas.
Ela explicou que manteve quase integralmente as falas das baianas para respeitar o raciocínio construído por cada uma delas. Reduzir uma resposta a duas ou três linhas poderia eliminar hesitações, lembranças, associações e caminhos que também fazem parte daquilo que está sendo comunicado.
“A gente perde muito quando não dá o contexto da fala”, afirmou.
Renata também se colocou em primeira pessoa porque a pesquisa atravessava sua história como mulher negra, profissional da comunicação, integrante do Candomblé e gestora com experiência em políticas culturais e de promoção da igualdade racial.
“Como é que eu falo de mim sem falar de mim? Eu vou falar de um segmento de mulheres que em tudo vai falar de mim”, explicou.
A presença da pesquisadora no texto não eliminou o rigor. Pelo contrário, tornou visíveis as relações, as escolhas e os afetos que orientaram a investigação.
Entre falar e saber silenciar
Ao ser perguntada sobre estratégias de enfrentamento ao racismo, Renata defendeu a importância da fala, mas também chamou atenção para o silêncio como recurso de proteção e elaboração.
“Falar, para mim, também é uma questão vital”, declarou.
Ao mesmo tempo, reconheceu que nem toda resposta precisa ser imediata. Diante de um racismo que se reorganiza e se torna cada vez mais sofisticado, reagir automaticamente pode significar permanecer preso às regras estabelecidas pelo próprio agressor.
O silêncio mencionado pela pesquisadora não é submissão. É o tempo necessário para compreender a situação, proteger-se, elaborar uma resposta e decidir quando, como e diante de quem falar.
Uma questão para toda a comunicação
No encerramento, Renata ampliou a reflexão para as redações jornalísticas, agências de publicidade, instituições culturais, organizações sociais e setores da gestão pública.
Esses espaços não apenas divulgam informações. Eles participam da criação da realidade sensível: selecionam quais corpos serão vistos, quais falas receberão destaque e quais características serão repetidas até parecerem naturais.
Questionar os essencialismos, segundo a palestrante, deve ser parte do trabalho de quem atua na comunicação. Isso significa desconfiar de imagens prontas, mesmo quando parecem positivas, e perguntar quem se beneficia delas.
A discussão encontra na folkcomunicação um território especialmente fecundo. O campo não se limita a estudar manifestações populares como objetos culturais. Também permite observar como grupos historicamente marginalizados produzem mensagens, organizam redes, preservam conhecimentos e contestam narrativas hegemônicas.
Na fotografia feita por Renata aos 12 anos, a baiana aguardava as perguntas da repórter. Em outra imagem apresentada durante a palestra, registrada muitos anos depois, uma baiana segurava o microfone enquanto todas as pessoas ao redor prestavam atenção ao que ela dizia.
Entre as duas fotografias, existe uma mudança decisiva. A baiana continua sendo vista, mas agora também fala. E, quando o microfone muda de mãos, não muda apenas a narrativa sobre uma mulher. Muda o imaginário construído sobre a Bahia, sobre a cultura popular e sobre quem possui autoridade para contar a história.


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