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“É preciso que a gente ocupe esses espaços”: Adalberto Almeida discute rap, comunicação e contra-hegemonia

24 de ago.
8 min de leitura

Ao apresentar sua pesquisa sobre a Batalha do Coliseu, pesquisador mostrou como as rimas improvisadas levam experiências periféricas para a universidade, questionam discursos dominantes e ampliam os objetos da folkcomunicação.



Durante uma batalha de rap na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), um MC começou a falar sobre desigualdade, dificuldades de acesso e problemas que atravessavam a vida dos participantes. Uma pessoa da plateia pediu que ele deixasse a “tese” de lado e voltasse ao rap. A resposta veio pelo microfone:

“Eu aqui falando sobre essas coisas que nos incomodam é rap. Tudo isso é rap.”


O episódio apresentado por Adalberto Almeida de Araújo Júnior sintetiza uma das principais discussões de sua aula sobre rap, comunicação e contra-hegemonia: quando se transforma apenas em entretenimento, a batalha pode ter apagada justamente a história de resistência que permitiu seu surgimento. O rap também é denúncia, leitura da realidade, afirmação de identidades e disputa pelo direito de falar.


Realizada na abertura do I Ciclo de Diálogos sobre Folkcomunicação e seus Campos de Pesquisas, a aula integrou as atividades da disciplina de Folkcomunicação da UFRN. O ciclo foi coordenado pelo professor Itamar de Morais Nobre, com a colaboração de Ermaela Cícera Silva Freire.


Adalberto é mestre em Estudos da Mídia pela UFRN, técnico em Música e Informática, publicitário e servidor técnico-administrativo da universidade. Também participa do Bloco de Ações em Rap, Rádio e Ausências Sonoras (BARRAS), grupo de pesquisa e extensão coordenado pelo professor Carlos Guerra Júnior na Universidade Federal de Rondônia.

Sua trajetória, entretanto, não começou com a intenção de seguir a carreira acadêmica. Foi o encontro com a folkcomunicação e a possibilidade de pesquisar as próprias experiências culturais que modificaram sua relação com a ciência.


Quando o que está à margem entra em evidência

A partir das ideias de Antonio Gramsci, Adalberto apresentou a hegemonia como uma relação construída no campo da cultura, da educação e das ideias. Determinadas visões de mundo passam a ocupar o centro dos discursos e a ser tratadas como naturais, enquanto outras são silenciadas ou empurradas para as margens.


A contra-hegemonia ocorre quando grupos subalternizados organizam seus próprios discursos, constroem outras interpretações da realidade e passam a disputar o consenso social, cultural e político. “Quando se coloca o que não está em evidência em evidência, é um processo contra-hegemônico”, explicou.


A comunicação é fundamental nesse processo. Para o pesquisador, as expressões culturais comunicam não apenas por meio de palavras, mas também por gestos, vestimentas, performances, ritmos, símbolos e formas de ocupação do espaço.


É justamente nesse cruzamento que o rap se aproxima da folkcomunicação. Desde suas origens, argumentou Adalberto, o gênero comunica uma visão de mundo que foi historicamente marginalizada. As músicas e batalhas convertem experiências vividas nas periferias em discursos públicos capazes de confrontar representações produzidas pelos meios hegemônicos.


Ritmo e poesia entre o rap e a cultura popular

Ao contextualizar o hip-hop, Adalberto recuperou seus elementos mais conhecidos: o MC, o DJ, o breaking e o grafite, aos quais posteriormente foi acrescentado o conhecimento. Esse quinto elemento reafirma a importância de conhecer as próprias raízes e compreender as estruturas sociais enfrentadas pelas comunidades.


No Brasil, o pesquisador identifica aproximações entre o rap e manifestações tradicionais baseadas no desafio e na improvisação. Repentistas, cantadores de viola, coquistas e emboladores também articulam ritmo, poesia, confronto verbal e resposta imediata ao adversário.


A relação, segundo ele, não significa afirmar que todas essas manifestações são iguais. Trata-se de perceber continuidades entre formas populares de produzir poesia oral, mobilizar o público e transformar a palavra em disputa.


Essa aproximação também ajuda a renovar o campo folkcomunicacional. Adalberto defendeu que a teoria iniciada por Luiz Beltrão não permaneceu imobilizada. Conceitos e objetos foram incorporados ao longo do tempo, acompanhando as transformações das culturas populares e dos próprios meios de comunicação.


“A folkcomunicação também precisa avançar e enriquecer sua taxonomia”, afirmou.

Para o pesquisador, o rap e as batalhas de MCs podem ser compreendidos como práticas folkcomunicacionais porque expressam grupos populares marginalizados, fazem circular conhecimentos e oferecem outras maneiras de interpretar a sociedade.


O Coliseu dentro da universidade

O centro da aula foi a pesquisa Batalha do Coliseu: uma análise das práticas discursivas e simbólicas no rap a partir do espaço universitário, dissertação defendida por Adalberto em 2022 no Programa de Pós-Graduação em Estudos da Mídia da UFRN, sob orientação de Itamar de Morais Nobre e coorientação de Carlos Guerra Júnior.

Realizada no campus central da universidade, em Natal, a Batalha do Coliseu reunia MCs em duelos de rimas improvisadas. O principal espaço era o anfiteatro conhecido como Coliseu, mas algumas edições também ocorreram no Centro de Convivência e no estacionamento da Praça Cívica.


A pergunta que orientou a investigação surgiu da particularidade daquele território: o que acontece quando uma manifestação de rua passa a ocupar uma universidade? O espaço acadêmico modifica os discursos dos MCs? E a presença da batalha também transforma a relação de jovens periféricos com a instituição?


Para responder, Adalberto combinou observação participante, registros fotográficos e audiovisuais, questionários, entrevistas semiestruturadas e análise do discurso. A pesquisa foi organizada a partir de quatro dimensões: os espaços, os agentes, as práticas sociais e os discursos.


As gravações permitiram transcrever e analisar as rimas. Os questionários ajudaram a conhecer o público. A convivência com organizadores, MCs e frequentadores possibilitou acompanhar os conflitos e negociações produzidos pelo encontro entre a cultura da batalha e o ambiente universitário.


Quando o espaço transforma a rima

A Batalha do Coliseu era considerada uma “batalha de sangue”, modalidade na qual os MCs atacam diretamente seus adversários e precisam conquistar a reação do público. A liberdade do improviso, contudo, não significava ausência de limites.

As regras passaram a proibir discursos de ódio, manifestações racistas, homofóbicas ou misóginas, agressões sem fundamento e ofensas dirigidas a familiares ou outras pessoas. O descumprimento poderia gerar advertência e eliminação.


Na avaliação de participantes entrevistados por Adalberto, o público universitário não aceitava passivamente determinadas falas. Essa reação obrigava os MCs a estudar, atualizar suas referências e desenvolver maneiras mais elaboradas de construir os ataques.

A influência, porém, não seguia uma única direção. Se os MCs eram chamados a refletir sobre suas palavras, o público universitário também precisava compreender as origens sociais da batalha e as desigualdades enfrentadas por parte dos competidores.

Adalberto definiu essa relação como um tensionamento. De um lado, havia a cobrança legítima para que o improviso não reproduzisse violências. De outro, existia o risco de a universidade impor seus códigos sem escutar os sujeitos que construíram aquela manifestação.


Os dados coletados reforçaram a complexidade desse encontro. Cerca de 71% do público pesquisado era formado por estudantes da UFRN, mas 28% não possuíam vínculo com a instituição. Mais de um terço dos participantes não frequentava outras batalhas, o que demonstra que o Coliseu também apresentava o rap a um público novo.

Ao mesmo tempo, quase metade dos respondentes estava na faixa de renda mais baixa considerada pelo levantamento. Havia, portanto, estudantes universitários, moradores de diferentes regiões de Natal e da área metropolitana, MCs vindos das periferias e pessoas que entravam no campus exclusivamente por causa da batalha.


“Esse espaço também é meu”

Durante o debate, Itamar de Morais Nobre perguntou como os MCs que não estudavam na UFRN percebiam a universidade. Adalberto recordou relatos de jovens nascidos e criados em Natal que nunca haviam entrado no campus antes de participar da Batalha do Coliseu.

Para alguns, a experiência alterou a maneira de enxergar a instituição. Depois de frequentar a universidade como rapper ou integrante do público, houve quem retornasse como estudante. “Pera aí, esse espaço também é meu. Eu também posso ocupá-lo enquanto estudante”, resumiu o pesquisador ao reconstruir essa percepção.


A batalha, portanto, não se limitava a levar uma atividade cultural para dentro da UFRN. Ela abria uma passagem simbólica e concreta entre a periferia e a universidade. Jovens que não se reconheciam naquele território começaram a perceber que poderiam pertencer a ele.

A ocupação também não ocorreu sem conflitos. Segundo Adalberto, a Batalha do Coliseu enfrentou dificuldades institucionais e intervenções de seguranças até conseguir regularizar sua realização. A permanência exigiu organização, negociação e definição de regras.

O encontro entre universidade e rap transformava os dois lados: o espaço acadêmico interferia nas práticas da batalha, mas os MCs também obrigavam a instituição a entrar em contato com outros repertórios, experiências e formas de conhecimento.


A resposta também vem rimada

Entre as rimas analisadas, Adalberto apresentou um confronto iniciado quando um MC utilizou a imagem de matar alguém “como indígena”. O adversário respondeu reivindicando sua ascendência, questionando o apagamento dos povos originários e articulando referências à colonização, à miscigenação e à disputa por território.


A resposta foi construída dentro das próprias regras da batalha. Em vez de interromper o duelo para oferecer uma explicação externa, o MC reagiu por meio de rimas, jogos de palavras e referências históricas. Ao relacionar Palmeiras e Palmares, concluiu sua resposta com uma comparação entre o goleiro Marcos e Zumbi dos Palmares.


Para Adalberto, o episódio demonstra que a batalha também pode produzir conhecimento. O MC identificou uma violência no discurso do adversário, contestou a representação construída e colocou em evidência uma perspectiva historicamente subalternizada.

Em um espaço institucional como a universidade, aquela voz passou a ser ouvida por pessoas que talvez não tivessem contato com a mesma interpretação por meio da imprensa ou dos discursos dominantes.


A pesquisa concluiu, assim, que as batalhas de rap podem ser compreendidas como formas de comunicação popular e contra-hegemônica. Essa conclusão também foi desenvolvida no artigo Batalha do Coliseu: uma proposta pós-abissal para uma ecologia de saberes, publicado na Revista Internacional de Folkcomunicação.


A ideia de ecologia de saberes permite aproximar os conhecimentos acadêmicos daqueles produzidos nas ruas, nas periferias e nas manifestações culturais. Em vez de estabelecer uma hierarquia automática, a proposta é promover encontros e reconhecer que diferentes experiências também elaboram interpretações legítimas da realidade.


Pesquisar as ausências

Ao reconstituir sua trajetória, Adalberto contou que inicialmente procurou Itamar para desenvolver uma pesquisa sobre fotografia. Quando precisou viajar com sua banda, ouviu do professor uma pergunta decisiva: por que não pesquisar a própria experiência musical?

A autorização aparentemente simples provocou uma mudança em sua relação com a universidade. Adalberto percebeu que poderia estudar aquilo que conhecia, vivia e considerava socialmente relevante. “Então quer dizer que eu posso pesquisar o que eu gosto?”, recordou. A resposta foi direta: “Pode”.


A partir dessa experiência, pesquisou punk, fanzines e batalhas de rap. Um dos trabalhos apresentados na Conferência Brasileira de Folkcomunicação foi premiado na categoria de pós-graduação, enquanto a dissertação abriu caminho para artigos, projetos de extensão e diálogos com pesquisadores do hip-hop de diferentes universidades.


Na parte final da aula, Adalberto dirigiu essa mesma autorização aos estudantes. Pesquisar manifestações pouco reconhecidas não significa abandonar o rigor científico. É preciso realizar revisões bibliográficas, identificar lacunas, construir métodos e sustentar a relevância do objeto. Mas também é necessário resistir à ideia de que apenas os temas já consagrados merecem atenção acadêmica.


“Pode, não só pode como deve”, afirmou. “É preciso que a gente ocupe esses espaços, fale sobre o que não é falado, sobre as ausências e sobre os silêncios.” O pesquisador chamou essa postura de “pedagogia da teimosia”: a disposição para defender objetos marginalizados, enfrentar resistências e construir, pouco a pouco, condições para que novas vozes ingressem na produção científica.


Ao comentar a aula, Ermaela Cícera destacou que a universidade também ganha quando recebe estudantes que trazem experiências das periferias e das comunidades. São conhecimentos vivos, formados na relação com o território e capazes de transformar a própria instituição.


A aula mostrou, assim, que a contra-hegemonia não está somente no conteúdo de uma rima. Ela aparece quando o MC disputa uma representação, quando a batalha ocupa o campus, quando um jovem passa a reconhecer a universidade como seu espaço e quando a pesquisa decide escutar aquilo que antes permanecia ausente.

Entre a rua e a academia, o rap não pede apenas para entrar. Ele entra rimando, modifica o ambiente e recorda que a universidade também pode ser lugar de outras vozes, saberes e histórias.

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